Nunca a expressão “campeão moral” teve tanto sentido como naquele Verão suíço. A estabilidade tinha voltado ao Velho Continente e com ela a Taça Jules Rimet. O mundo do futebol esperava tranquilamente a consagração do onze magiar mas a lógica não conhece o relvado e no final a anunciada vitória da Hungria foi apenas uma doce ilusão.



Todos os anos o cenário repete-se. Contra ventos e marés, debaixo de chuva torrencial, o norte gaulês aguenta as investidas do trio mais poderoso da última década. Todos eles instalandos tranquilamente no quente Languedoc. Como irredutiveis guerreiros, ao norte sempre ficará a resistência de Lille.

O futebol francês sempre se desenvolveu no eixo sul do país.
O calor do antigo Languedoc parece favorecer o talento rebelde das grandes equipas que durante largas décadas foram dominando o jogo. O Olympique Lyon foi o último de uma escola longa. Do Marseille dos anos 80 e 90, do Bordeux da década de 80 com o Saint-Ettiene como iniciador de um movimento nos anos 60 que raramente teve contestação. E se durante anos o eixo de resistência esteve a Ocidente - com o Reims e mais tarde Nantes e Rennes - a verdade é que hoje em dia o futebol do norte de França é um verdadeiro deserto. O PSG está eternamente adormecido. O Valenciennes é uma grata, mas pontual, surpresa. E tanto Rennes, como Lens, Nancy ou Le Mans lutam na parte baixa da tabela. Sobre o inevitável Lille. Sempre o mesmo exército de guerreiros que durante 10 anos se tem erigido como baluarte do belo jogo numa terra onde o rugby tem vindo a ganhar cada vez mais protagonismo face ao desporto mais popular para os gauleses. E há bons motivos para que a cidade, bem na fronteira com a vizinha Bélgica, seja a irredutivel aldeia de resistentes. Contra tudo e contra tudo, Lille foi-se preparando para este duelo sem fim. Talvez porque foram eles, no pós-guerra, os primeiros a dominar o jogo.
Apesar de ser o eixo motor da economia gaulesa, os clubes do Norte são pobres comparativamente com os rivais do sul. E precisam de um planeamento cuidado para sobreviver. E não cair no poço da Ligue 2 onde muitos se vão afogando. O Lille é o exemplo perfeito de uma planificação cuidada e certeira. Vai vendendo de tempos a tempos os seus melhores talentos, muitas vezes aos rivais directos. E consegue sobreviver. Renascer das cinzas. O último a ir-se foi o brasileiro Michel Bastos, descoberto do nada. Cresceu e fez-se estrela, chegou à selecção. E não resistiu ao cheque em branco de Jean-Michel Aulas. Foi para o sul. Na sua antiga equipa já poucos se lembram dele. É assim a força dos Les Dogues.
O clube foi fundado apenas em 1944. Só 25 anos depois se tornou profissional. E apesar dos titulos do pós-guerra tem um curto palmarés. Desde 2002 é presidido por Michel Seydoux, provavelmente um dos homens mais carismáticos do futebol francês. Num país onde os presidentes são figuras respeitadas - e até veneradas, num traço ainda bem latino do jogo - Seydoux é o maestro deste Lille. O celebre productor cinematográfico tomou controlo das finanças do clube, projectou o futuro estádio de 50 mil lugares que será inaugurado daqui a dois anos. E foi moldando uma pequena grande equipa, sempre competitiva.

Hoje Rudi Garcia é seguidor de uma escola começada há oito anos por Claude Puel.
O actual treinador do Lyon também não resistiu a viajar a sul. Mas o seu sucessor tem mantido o mesmo nível da equipa. O Lille - que já andou pela Champions League - é uma equipa ofensiva e forte na pressão alta. Tem debilidades no eixo defensivo e uma postura claramente ofensiva, o que lhe vale por vezes derrotas facilmente evitáveis e que, todos os anos, vão minando a candidatura real da equipa ao titulo. Mas esta-lhes no ADN. As vermelhos apostam num jogo largo e muito fisico. E no meio, emerge o talento. Foram vários os rostos do passado.
Hoje o destaque é o jovem belga Eden Hazard. Chamado a ser uma estrela de primeira linha, Hazard é o patrão de uma equipa que ganha muito com a força de Gervinho. O marfilense foi mais uma das descobertas de um óptimo centro de observação que tem garantido ao clube grandes jogadores a preço de saldo. Pelo clube passaram Abidal, Fahmi, Cygan, Cheyrou, Keita, Bodmer, Chalmé, Makoun, Sylva, Miralles, Bastos e até Patrick Kluivert, em fim de carreira. Todos eles determinantes no sucesso da equipa. Agora Garcia tem uma nova geração onde emergem Rio Mavuba, repescado em Villareal onde não encontrou o seu lugar, Frau, Tulio, Balmont e Idrissa. A eles juntam-se os já experientes Mickael Landreau, o português Ricardo Costa e o notável Yohan Cabaye. O médio defensivo é o patrão do meio-campo e forma com Mavuba e Hazard um trio de primeiro nível.

A cinco pontos do líder, o Girondins Bordeaux, é dificil perceber até que ponto pode o Lille quebrar com o dominio dos clubes do sul. Mediaticamente viu-se superado pela notável época do Montpellier. Segue atrás também de Lyon e Marseille, equipas com mais poderio financeiro e planteis mais equilibrados. Mas está na luta. Como sempre. Se as lesões respeitarem o seu quinteto de estrelas (Mavuba-Cabaye-Hazard-Gervinho-Tulio), a equipa pode aspirar a grandes feitos. Afinal, eles são os eternos resistentes.
Os amigáveis de preparação são sempre terrenos de areias movediças. Vive-se na dúvida e incerteza de perceber onde está o real e onde pulula o imaginário. O campo é rectangular mas o jogo não é quadrado e a dúvida, o direito à dúvida, sempre persiste a cada golo suspeito de uma facilidade que no futuro pode não existir. No entanto as migalhas não deixam pistas e permitem entender que a maturidade competitiva é algo genético. Para o bem e para o mal.

Mergulhamos em quatro estádios ao mesmo tempo. O olhar desvia-nos a acção, os replays concentram a atenção. Quatro, melhor dito, oito realidades lado a lado que deixam pistas importantes e enganos imperdoáveis. Saber qual é qual, aí está o truque. Que poucos dominam. É possível imaginar o leitor a fixar-se apenas no resultado final e cingir-se ao números. O futebol é isso. Números puros e duros. O jogo, a estética, o sofrimento. Isso conta durante 90 minutos. Depois esvanece-se em números. Em cálculos. 0-1, 2-0, 0-2, 3-1. Quatro resultados, oito números. Muitas mentiras encobertas. Não fosse o futebol uma caixa de surpresas e poderiamos tecer já criticas e elogios, antecipar campeões e anunciar derrotados. Mas estamos a 98 dias do inicio da prova mais esperada dos últimos quatro anos. Muitas enfermarias ainda se irão encher com estrelas que nunca pisarão as relvas africanas. Muitos nomes consagrados chorarão ao não ouvir o seu nome. E muitos se surpreenderão com escolhas bem mais polémicas.

No entanto há algo que fica bem patente. A natureza das equipas está, não nos berrantes equipamentos que vão surgindo, mas no seu ADN de jogo. Na forma como encaram cada encontro, amigável ou não. A disciplina táctica, o empenho, a determinação. Essa é a madeira dos campeões, o ponto final que faz a diferença num momento de aperto. Tudo o resto é pura sorte. Pura ilusão e fantasia. Há equipas cujo o ADN está feito para ganhar. Desde sempre. Outras sofreram mutações, progressivas, e hoje são o que nunca se imaginou que seriam. E há aquelas que, pura e simplesmente, nunca mudam. Ontem vimos de tudo. Espelhos preciosos, dicas importantes, realidades imutáveis. Pelo menos em três meses.
Assim é Espanha. Assim é Portugal. Por um lado o ADN perfeito. Uma equipa com um leque de opções imensas, que se dá ao luxo de deixar no banco o melhor jogador do Mundo e, mesmo assim, mandar no jogo. Uma equipa com sorte no ADN - que o diga Ramos, que o diga Casillas - mas que a procura constantemente. Espanha controla, Espanha remata, Espanha finta. Mas, acima de tudo, Espanha deixou de ser a débil fúria. Agora é uma equipa organizada que controla os tempos de jogo. Que sabe encurtar e estender o terreno, que tanto joga em 4-5-1, dando a bola aos seus elementos mais criativos, como aposta num 4-4-2 mais vertical com o apoio dos seus extremos velozes. Com soluções tácticas e de elementos, é no entanto na mentalidade que se nota a real superioridade do jogo espanhol. O ADN da Roja é ganhador por natureza. Os jogadores trocam a bola com confiança. Com claridade. Podem enganar-se, mas assumem o risco. E é assim que desbloqueiam jogos complicados. O de ontem, frente a uma França que já foi assim, há largos anos, era um desses. E a dupla valenciana Silva-Villa assumiu o risco. Ganhou. Está-lhes no ADN.
Por outro lado Portugal é uma equipa sem código genético.
Uma equipa amorfa, tensa e nervosa. Não tem coragem para fazer um passe mais largo, mais arriscado. Gosta de ralentizar, de jogar em águas pouco profundas. Troca a bola com segurança numa zona que sabe que domina, pegada à linha de meio-campo. Aí é forte e segura. Atrás teme. À frente teme. Constante temor que nem uma frágil China consegue alterar. Num jogo de preparação Portugal não testou nada. Nem um sistema táctico alternativo ao imposto 4-3-3. Nem jogadores novos ao lote de eleitos. Nem uma nova mentalidade. Jogou como sempre. Lento, para os lados, sem coragem de galopar. De dar o golpe final. Cristiano Ronaldo, uma vez mais assobiado por um público que tem o mesmo ADN da equipa, foi o único a procurar a verticalidade. Mas rema só. Ninguém o segue. Ninguém o entende. É de outra realidade. O problema português não está na goleada que não o foi. Está na debilidade que nunca deixou de ser. Sem Deco (e com Micael a continuar fora dos eleitos, mesmo com a lesão a poder tapar a falta de coragem do seleccionador), Portugal é uma equipa que não pensa o jogo. Está aí, simplesmente, à espera. Nani corre muito, mas joga pouco. A bola é que se deve mover, não o homem. Um principio básico que Nani ainda não compreendeu. Talvez nunca o faça. Meireles e Tiago são macios, débeis e sem coragem para arriscar. Dão segurança no processo de contenção. Mas são como uma folha em branco. Vazios de ideias. E claro, há Hugo Almeida, essa torre só, que se dá mal com a responsabilidade. A baliza encolhe a cada golpe seu. O ADN português ainda não mudou com Queiroz. Talvez nunca mude. Há coisas que a vida não deixa evoluir.

Se a França decai a olhos vistos (a dupla atacante de ontem escalada por Domenech é a mesma que há 10 anos eliminou Portugal do Euro 2000) a Alemanha rejuvenesce de uma forma assustadoramente atraente. Perdeu, é certo. Mas estas são as mentiras de este jogos. A Argentina pode vencer, apesar de Maradona. Não graças a ele. Tem matéria-prima suficiente para estar aí, entre os melhores. A Inglaterra venceu, graças a Capello. Os ingleses começam a mutar o seu ADN. A organização e as transições de jogo capellianas adequam-se bem à raça e determinação britânicas. Talvez em 2012 os Pross sejam a melhor equipa da Europa. Estão a caminho.
Mas o caso mais curioso é mesmo o de Joachim Low. O seleccionador alemão é um case-study autêntico. Adjunto do mediático Klinsmann, trouxe uma disciplina à Mannschaft que o técnico de 2006 nunca impôs. Com ele a equipa é mais segura e determinada. E no entanto, também é mais criativa. E descarada. Low fez o que poucos seleccionadores alemães se atraveriam a fazer. Rejuvenesceu a equipa nacional. A mentalidade germânica sempre defendeu a ideia de que só uma larga carreira dava direito a um lugar na equipa nacional. Low aposta pela juventude, sem passado mas com um futuro de ouro. Nos últimos encontros - oficiais ou não - fez estrear mais de 10 novos jogadores. Todos eles de um futuro promissor. A maioria deles irá à África do Sul. E mesmo assim a equipa se mantém fiel ao seu ADN ciníco, competitivo e eficaz.

Pode ter perdido ontem, mas o futebol engana. E muito. Hoje por hoje o ADN alemão está muito por cima do ADN argentino. E quando for a doer, isso contará mais do que o talento. Assim se decidem campeões.
60 golos de um jogador numa só temporada é ainda um recorde que nenhuma grande liga pode orgulhar-se de ter. A First Division inglesa vivia a sua primeira era de ouro quando William Ralph Dean, que a história conhece como "Dixie" se tornou no primeiro goleador da história do belo jogo. O homem que morreu há 30 anos no mesmo estádio onde brilhou é ainda hoje o mais eficaz avançado da história do futebol britânico.

Hoje poucos são os avançados que terminam o ano com mais de 20 golos. Os grandes goleadores conseguem, por vezes, roçar a casa dos 30. E por aí vamos ficando. Talvez por isso seja mais impactante viajar no tempo até aos dias em que um alegre avançado interior do Everton marcava 60 golos numa só temporada. Um êxito que não foi isolado. Durante dez anos William "Dixie" Dean foi o melhor avançado do Mundo. Uma máquina de fazer golos que não encontrava rival nos dois lados do Atlântico e que o tornaram na primeira grande estrela do futebol inglês. Desde o dia em que entrou pela primeira vez no Goodison Park até à sua despedida, dez anos depois, Dean apontou 383 golos. No total de 433 jogos, uma média quase inalcançável de 0,87 golos por jogo. A carreira do dianteiro não começou nem acabou no clube de Liverpool mas foi aí que viveu os melhores e piores momentos da sua carreira.
Dean nasceu na pequena Birkenhead, perto de Liverpool. A alcunha "Dixie" ganhou-a quando era pequeno, um verdadeiro diabrete nas ruas da sua terra natal. Com 16 anos Dean entrou ao serviço do Tranmere Rovers onde ficou até 1925. Foi ai que o Everton decidiu contratá-lo, pensando em deixá-lo a jogar um par de anos na equipa de reservas. Mas uma praga de lesões levou-o a estrear-se pela equipa principal em Outubro e nunca mais perdeu o lugar. No seu primeiro ano como profissional apontou 32 golos e tornou-se no melhor marcador da First Division.
No ano seguinte um acidente de moto quase que lhe custou a vida. Dixie Dean sobreviveu apenas com um queixo fracturado graças ao capacete que levava na cabeça mas acabou por perder grande parte da temporada. Voltaria em força no ano seguinte atingindo a histórica marca de 60 golos numa só época. Naturalmente o Everton sagrou-se campeão. No entanto, dois anos depois, os toffes viram-se relegados para a Second Division. Ao contrário de muitos dos colegas, que trocaram Goodison Park por equipas de primeira, Dean decidiu ficar. Foi decisivo na conquista do título e sagrou-se melhor marcador da segunda divisão dando início a um titulo histórico e até hoje inalcançável. Durante 1 ano e meio o Everton manteve-se praticamente invicto. Venceu em 1931 a Second Division e no ano seguinte a First Division e a FA Cup. Em 60 jogos perdeu dois. E Dean, já capitão, voltou a sagrar-se melhor marcador. Tinha atingido o zénite da sua carreira desportiva.
Depois de um par de anos em que o Arsenal de Herbert Chapman superou o Everton, o avançado foi deixado para segundo plano pelo novo staff técnico. Insatisfeito com a pouca utilização, Dean preferiu sair do clube em 1937, assinando então pelo histórico Notts County. Depois da experiência no centro de Inglaterra mudou-se para a Irlanda, onde se tornou na vedeta do modesto campeonato irlandês ao serviço do Sligo Rovers. E depois, quando finalmente pousou as chuteiras, Dean assumiu com naturalidade o seu papel de civil. O futebol inglês já era profissionalizado mas os rendimentos não davam para uma larga vida sem inquietudes. Dean passou a trabalhar como porteiro com a mesma naturalidade com que desfeiteava as redes dos rivais. O homem com mais hat-tricks da história da First Division (37) e conhecido por ter inventado o conceito de "Poker", ou seja, quatro golos num só jogo, foi sempre um exemplo no meio. Nunca acabou admonestado e foi internacional por 16 vezes. Marcou 18 golos pelos Pross apesar de nunca ter estado numa grande competição devido à politica desportiva de então da FA.

Como a vida é traiçoeira, Dixie Dean morreu onde sempre brilhou. Em Goodison Park. O histórico avançado estava na bancada no fatidico 1 de Março de 1980, quando o Liverpool apontou o segundo golo que lhe permitiu bater o Everton. Um fatal ataque cardíaco acabou com a vida do mais eficaz goleador da história do futebol britânico. Um desses nomes que só a memória do tempo é incapaz de esquecer.
Já está online no site Futebol Magazine a entrevista realizada ao conceituado jornalista brasileiro Eduardo Tironi do site Lance.net sobre o regresso ao Brasileirão de grandes estrelas do futebol canarinho.
A entrevista vem no seguimento da reportagem publicada hoje publicada no Em Jogo sobre esse curioso fenómeno de emigração de vários futebolistas brasileiros como Ronaldo, Roberto Carlos, Adriano, Robinho, Vagner Love ou Cicinho, que procuram na sua liga natal encontrar o espaço que aparentemente perderam nas ligas europeias. Ou haverá algo mais?
Podem ler aqui a entrevista, clicando no excerto seleccionado.

Robinho desvia de calcanhar um centro milimétrico mas os adeptos do City nem viram. Adriano volta a celebrar um título mas não na Madoninna. A festa é no Corcovado. Ronaldo e Roberto Carlos voltam a abraçar-se depois de um golo mas estão a milhares de quilómetros de Madrid. Que se passa com o futebol brasileiro? Num curto espaço de meses alguns dos mais ilustres internacionais brasileiros fizeram as malas e voltaram ao Brasileirão. Um fluxo contraditório num país exportador por natureza e que nos mostra um novo rosto de uma liga que continua a viver a anos-luz do seu potencial.



O futebol segue o caminho inverso do tempo. Mescla-se e extende-se sem razão aparente e leva-nos por viagens insuspeitas pelas areias da memória. Há poucos, pouqissimos dias, um dragão orgulhoso pisava a cauda de um leão ferido. Nestas coisas do futebol há sempre segundas oportunidades. E o rugido de um renascido leão ergueu-se, naturalmente, no silêncio de uma noite de temporal.

A viver talvez uma das suas piores épocas desportivas de sempre, o Sporting provou ontem no relvado do estádio de Alvalade que o favoritismo no futebol é um conceito vazio, bom para encher jornais e egos alheios. Depois de uma espantosa vitória sobre um igualmente renascido Everton, o Sporting estava cansado. Exausto até. Mas de orgulho ferido. E notava-se no olhar dos leões que subiram ao relvado para encarar um conjunto azul e branco cheio de orgulho nas últimas exibições, acreditando ainda na possibilidade de apanhar os lideres da prova. Os portistas tiveram 10 dias para preparar o duelo. O Sporting dois. A diferença foi sobrenatural provando que, muitas vezes, é o querer quem decide jogos. Especialmente quando saber ajuda. E o Sporting soube bem emendar a mão da debacle do Dragão há três semanas. Carlos Carvalhal, atacado por todos os lados, aprendeu os erros que deram ao FC Porto a mais significativa vitória do ano e anulou por completo o repetitivo esquema de Jesualdo Ferreira. O técnico campeão nacional, tricampeão aliás, voltou a mostrar todas as suas debilidades e sofreu um correctivo maior do que todas as derrotas frente ao Sporting de Paulo Bento, a sua habitual besta-negra. Sem aprender nada do renascimento táctico dos leões, instalados confortavelmente num 4-2-3-1 móvel, com Djaló, Moutinho e Izmailov no apoio a Liedson. E com Pedro Mendes e Miguel Veloso numa associação demoníaca no centro. O FC Porto perdeu o jogo nos primeiros instantes e demorou 90 minutos a entender porquê. Sem atitude, sem garra, sem chama. Mas, sobretudo, sem capacidade de se adaptar a um esquema táctico que secou o jogo pelos flancos e destroçou o trio do meio-campo numa teia de cinco homens.
Os golos são a sal deste oceano de dúvidas e aos seis minutos já a refeição do Sporting estava abençoada pelo golpe oportuno de um renascido - também ele - Yannick Djaló. A defesa do Porto ficou a ver jogar - como tem sido hábito neste regime de passividade defensiva que as goleadas têm tapado habilmente - e o primeiro golpe confirmou a vontade do Sporting de dominar desde o principio. Como sempre sucede, o FC Porto de Jesualdo Ferreira perde-se quando começa a perder. É uma equipa montada para o contra-golpe, depois de um golo madrugador. Daí tantos empates com equipas que se fecham bem e tantas recuperações que se ficaram pelas intenções quando a equipa começa atrás no marcador. E assim foi, uma vez mais. Com os laterais leoninos a secarem os extremos azuis e brancos e sem Ruben Micael nas suas melhores noites, o jogo tornou-se num monólogo que se tornou demasiado monótono. Izmailov, com um golpe seco, voltou a mostrar a sua particular aptidão pelos golos ao rival do norte e ampliou a vantagem. Sem que Falcao tivesse sequer visto a bola rondar a sua área de jogo. No reatar do intervalo Belluschi entrou para o lugar de Meireles sem que se percebesse bem porquê. Não era a solução e Jesualdo sabia-o. Mas o banco estava, como ele, vazio de opções. O Sporting agradeceu e voltou a marcar, com Miguel Veloso a provar que está numa óptima forma. A sua associação com Pedro Mendes foi uma boa noticia para Queiroz, e péssima para Tomás Costa que não soube nunca fazer de Fernando. Se é que é positivo saber ser Fernando.

Até ao final o Sporting poderia ter ampliado a vantagem, o FC Porto pouco fez para reduzir a derrota e o público entoou um impensável "só mais um". Parecia que eram os leões os lideres da prova e não os angustiados quarto classificados. O FC Porto continua aí, em terra de ninguém, sabendo que o titulo é mais de que uma miragem e que a Champions League se começa a tornar um sonho dificil de concretizar. Antecipa-se um cenário similar ao de 2002, também ano de Mundial, também ano em que os azuis e brancos se viram superados por um rival directo (Sporting) e um surpreendente Boavista (que se manteve até ao fim na luta pelo "bicampeonato"). Curioso é o que veio depois. O futebol é mesmo um relógio de areia ao contrário.

