A única vez na história que duas equipas francesas marcaram presença nos Quartos de Final da Champions League, uma delas foi finalista. São boas noticias para Bordeaux e Lyon. O futebol francês volta a mostrar a sua força e surge como o inesperado outsider europeu do ano. Natural evolução de um campeonato que mudou muito em pouco tempo.

Foi em 2004 e os adeptos do FC Porto lembram-se bem. Nesse ano a equipa teve de disputar os sucessivos apuramentos com as três equipas francesas em prova. Eliminou o Olympique Marseille de Didier Drogba na fase de grupos. Nos Quartos de Final defrontou o melhor Olympique de Lyon. Seguiu em frente graças aos golos de Maniche. Até que chegou a mitica final de Gelsenkirchen contra o AS Monaco. Nova vitória e um titulo inesquecível. Essa foi a primeira e única vez que a Ligue 1 logrou o feito de colocar duas equipas entre as últimas oito formações na prova rainha europeia. Até agora.
É curioso que o campeonato francês é o menos eficaz nas provas europeias das ligas de elite europeias. Provas europeias, aliás, criadas por franceses a pensar na consagração das suas melhores formações. Assim nasceu a Taça dos Campeões e mais tarde a Taça das Cidades com Feiras. Só que, até agora, só uma formação gaulesa venceu uma Champions (o Olympique Marseille em 1993) e apenas o PSG levou para casa uma Taça das Taças. Muito pouco para uma das cinco ligas principais da Europa. Muito longe de Inglaterra, Espanha, Itália e Alemanha, em titulos os franceses também estão atrás de Holanda, Portugal, Escócia e Rússia. Muito pouco para quem investe tanto, todos os anos. Mas parece que a tendência está a inverter-se.

Para lá do sucesso na Champions há ainda a possibilidade dos franceses contarem com duas equipas mais na Europe League (se Marseille e Lille seguem em frente). Significaria que teriam um total de 4 entre 16, valores superiores à Premier League (2 ou 3), La Liga (está entre 1 e 3), Serie A (1 ou 2), Bundesliga (1 a 3) ou Liga Sagres (0 a 2). Ou seja, a liga mais representada na etapa final do sprint europeu. E isso sim, seria inédito.
O resultado é espelho de uma evolução constante na própria Ligue 1. O campeonato que foi dominado de forma dictatorial nos últimos sete anos pelo Olympique de Lyon está hoje mais equilibrado do que nunca. Há cinco equipas a lutar pelo título (o ano passado foram três até bem perto do fim) e a disputa pelos postos europeus está aberta a um total de nove formações. As camadas jovens funcionam como principal fonte de ingresso dos clubes - entre jogadores vendidos e promovidos à primeira equipa - os estádios remodelados para o Mundial de 1998 garantem boas condições para os adeptos e equipas e a distribuição de lucro está mais equitativa do que nunca. Circunstâncias que permitiram o regresso de Bordeaux e Marseille à ribalta, que abrem a porta a projectos mais modestos mas ambiciosos como os de Lille, Rennes, Toulouse ou Monteplier e que tapam as más prestações consecutivas de AS Monaco e PSG.

A última noite de glória do futebol francês viveu-se ontem. Depois do histórico apuramento do Olympique de Lyon no Santiago Bernabeu, foi a vez do Girondins Bordeaux confirmar que a sua candidatura é mais do que simples ilusão. O técnico Laurent Blanc avisou dos perigos do Olympiakos e na Gasconha ainda se sofreu após o golo grego e a expulsão do determinante Aliou Diarra. Mas a superioridade girondina era clara. Depois de Gourcouff abrir o marcador na primeira parte (o jogo tinha terminado 1-0 na Grécia) coube à outra estrela da companhia, o marroquino Chamkah, fechar a eliminatória.
A vitória do Bordeaux garante assim que na sexta-feira haverá duas equipas gaulesas no sorteio. Em França há até quem prefira um duelo nacional para garantir que, pelo menos uma das duas equipas chega às meias-finais. Em ano de Mundial - onde não se espera que a França repita o brilharete de há 12 e 4 anos, respectivamente - o sucesso europeu é o melhor bálsamo para os adeptos gauleses. As quatro formações ainda em prova sabem que estão longe de ser consideradas favoritas. Mas também não o era o AS Monaco de Didider Deschamps, e só o FC Porto com a marca de José Mourinho foi capaz de os travar.

Que o futebol francês continue com as vitrines vazias, é um dos grandes mistérios do futebol europeu. Nem o Stade de Reims nos anos 50, nem o Saint-Ettiene na década de 70 ou o Bordeaux dos 80 foram capazes de quebrar a malapata. E quando houve uma equipa que sim, subiu ao mais alto, tudo se desmoronou demasiado depressa. É uma pedra no sapato de qualquer adepto francês. Sem ódios nacionais à mistura, a França quer desesperadamente um campeão a quem admirar. Se este será o seu ano, ainda está por ser ver. Mas dificilmente a conjuntura voltará a soar tão favorável para ouvir La Marseillese.
Tinha prometido. E já nos habituou a cumprir as suas promessas. Toda a gente sabe que em Stamford Bridge ganha Mourinho. E assim foi. O Chelsea foi totalmente neutralizado pelo homem que lhes deu forma e vida. Se antes do jogo Mourinho cumprimentou um por um os seus antigos jogadores, no final preferiu sair antes dos 90 minutos para não ter de ver ninguém. Mais do que o futebol, Mourinho sabe mexer com as emoções. E ontem deixou dois clubes rendidos a seus pés.

Em dois jogos o Chelsea não soube vencer o Inter.
A equipa inglesa era a máxima favorita para levar o trofeu. Mas, uma vez mais, vê o seu sonho adiado. Da forma mais irónica possível. Drogba voltou a ser expulso. Espelho todos os anos da desilusão de uma geração inesquecível na história dos blues que vê o tempo passar e o titulo máximo escapar-lhe por entre os dedos. Uma vez mais. Mas se houve uma dose a injustiça nas duas últimas derrotas (o tropeção de Terry, o golo de Iniesta depois de uma arbitragem lamentável), desta vez não há apelação possível. O Inter, esse Inter que todos desprezavam, foi superior. Em 180 minutos foi melhor. Ontem, também o voltar a ser. À sua maneira. Não precisou de ter a bola para controlar o jogo. Limitou-se a controlar o ritmo e os espaços. Asfixiou o Chelsea sem deixar de lhes entregar a iniciativa. Soube acelarar e travar a cada indicação do seu maestro. Poderia ter perdido, o futebol muitas vezes é assim. Mas acabou por ganhar. Num desses exercicios de contra-ataque eximios apontou o golo que ninguém esperava ver. Mas a eliminatória, controlada até então, tinha sido decidida antes. Antes do principio do desafio. Mourinho tratou disso.

No final do encontro Stanley Collymore, antigo internacional e actual comentador, era um dos muitos britânicos rendidos, uma vez mais ao "Special One". Na sua análise ao jogo não parava de traçar um paralelismo entre Ancelotti e Mourinho. Se o primeiro parecia de pedra, Mourinho foi um vulcão em contenção. Mas a ferver. Tal qual um general, manteve as tropas em sentido. Foi ajustando as peças à medida em que o jogo ia mudando lentamente. O italiano, que se junta à longa lista de técnicos falhados (onde também está o português) na busca pelo santo Graal, teve a sua quota de responsabilidade. Montou uma equipa demasiado similar à do jogo de Milão. Não surpreendeu, não aproveitou os pontos fracos dos italianos. Repetiu a cassete. Uma cassete que Mourinho sabe de cor. Foi ele que a fez. Ao contrário, o Inter surpreendeu. Alinhou com 3 avançados no onze titular. Mas que em campo se comportavam pouco como tal. Dando total liberdade a Wesley Sneijder - o melhor em campo - o técnico abriu o jogo a seu belo prazer. Etoo e Milito iam trocando na frente, ora um descia para recuperar as bolas, ora subia para importunar o estreante Turnbull. Pandev, o macedónio irrascível, era um quebra-cabeças que mudava de sitio a cada ordem do seu técnico. No meio o Cambiasso e Thiago Motta estancavam as ofensivas débeis dos blues. Que nunca se encontraram. Talvez Collymore tenha razão. O gesto de, em pleno tunel, apertar a mão e abraçar-se a cada um dos seus antigos jogadores, para depois subir só ao relvado e receber um banho de multidão, que gritava o seu nome, desequilibrou a contenda a favor do português. Parecia que Mourinho estava realmente em casa. Nunca se viu um ambiente a favor da equipa nas bancadas. Pelo contrário, os próprios adeptos pareciam encantados. Por um feitiço especial.

O Inter soube conter o arranque ofensivo do Chelsea e rapidamente tomou controlo da situação. Deixou a bola rolar no meio-campo, recuou as linhas ofensivas obrigando a defesa inglesa a subir. E aproveitou os contra-golpes. Por quatro vezes os avançados italianos estiveram perto do golo. Mais do que o ataque continuado, mas inconsequente, do Chelsea. A barreira defensiva de Mourinho travava os lances antes de que estes se tornassem verdadeiramente um perigo. Julio César acabou por ter pouco trabalho. Num desses contra-golpes, ao minuto 78, Sneijder descobriu um desses buracos que os blues deixavam no seu meio-campo. A velocidade de Etoo, perdulário até então, ditou o resultado final. Dois "dispensados" dos grandes de Espanha a provarem o quão enganados estavam os seus respectivos técnicos. Mourinho queria comemorar mas conteve-se. Sabia que tinha feito história "no seu estádio". Quase todos os adeptos do Chelsea no final lamentaram a espiral negativa do clube desde a sua saída. Quatro técnicos em três anos e uma FA Cup nas vitrines. Uma geração notável desaproveitada, ofuscada pelo Manchester United. Mourinho já avisou que gostaria de voltar à sua antiga casa. A sua declaração de amor e a sua postura antevêm esse desejo reprimido. Mas, até lá, cabe-lhe fazer história em Itália. Onde não deverá ficar mais do que uns meses.

O Inter é agora um quebra-cabeças para qualquer rival. Com a queda de Chelsea e R. Madrid, e tendo em conta que hoje o Barcelona deverá qualificar-se, os favoritos começam a escassear. Dependendo do sorteio de sexta-feira, o Inter está agora nas bocas do Mundo. Ultrapassou o "karma" dos oitavos, bateu um rival teoricamente superior e voltou a mostrar que é algo mais do que os analistas querem fazer crer. Madrid já esteve mais longe.
A espantosa e quase invisível mutação táctica do futebol inglês acabou definitivamente com o histórico kick and rush. A natural superioridade britânica diante dos rivais continentais espelha apenas a progressiva evolução de mentalidade de jogo que durante 15 anos transformou a esmagadora maioria das equipas inglesas. Do histórico 4-4-2 já há pouco mais do que lembranças. A Premier League agora joga-se num 4-5-1.

Depois do 2-3-5 veio WM. E anos depois nasceu o 4-4-2.
É o "b-a-b-a" do futebol. Um variação táctica que o resto do Mundo rapidamente adaptou à sua realidade. Daí partiu o 4-3-3 inventado por Zagallo, ainda como jogador. Ou o Futebol Total que se limitou a seguir a receita do futebol centro-europeu de austriacos e hungaros. E também o 3-5-2, tão popular entre sul-americanos e italianos. Por outro lado, em Inglaterra, o conservadorismo táctico pautou o estilo de jogo das equipas britânicas durante largos 50 anos. Até ao novo século não havia nenhum conjunto inglês que abdicasse de utilizar o histórico dispositivo. Com dois alas abertos. Com um falso avançado. Com um losango. Com dois médios box-to-box. Não interessa. O sistema era de tal forma básico que nenhum jogador tinha dificuldade em mudar-se de equipa a equipa. A "biblia" táctica era comum a todos. As ligeiras variações eram rapidamente copiadas e vulgarizadas. Mas ninguém se atrevia a arriscar. Durante os anos 70 o modelo de jogo funcionou. O kick and rush estava então na sua época áurea. O Liverpool de Shankly, Paisley e Fagan apostava em extremos abertos, dois médios de combate e um falso avançado. Brian Clough, mais amante do futebol de toque, preferia uma linha fixa de 4 atrás da dupla ofensiva. Busby e Ramsey foram os primeiros a ensair o que hoje se chama de 4-2-3-1, utilizando para tal o talento de Bobby Charlton. E Don Reevie apostava num modelo de losango. O impacto foi tal que, vinte anos depois, todos os clubes continuavam a utilizar a mesma dinâmica de jogo. Até que chegou a invasão estrangeira e o novo formato da Premier League. O futebol inglês começava a mudar. A ritmo avassalador.

Podem ter sido os técnicos estrangeiros como Wenger, Gullit, Vialli, Mourinho ou Benitez. Ou simplesmente, os jogadores estrangeiros. mais técnicos que possantes, que provocaram as sucessivas mutações tácticas que foram revolucionando a Premier League. A verdade é que no virar do século o futebol inglês foi, progressivamente, deixando para trás o histórico 4-4-2. Um upgrade táctico cujo o exemplo perfeito está em Old Trafford.
Sir Alex Ferguson é habitualmente acusado de um excessivo conservadorismo. Mas o Manchester United há dez anos era uma equipa totalmente diferente da de hoje. Na final de Barcelona, frente ao Bayern Munchen, o técnico escocês viveu o último momento de glória do 4-4-2 britânico. Com o passar dos anos o técnico foi percebendo que, para triunfar na Europa, era preciso encontrar forma de neutralizar o estilo de jogo mais técnico dos rivais continentais. Uma licção duramente aprendida numa derrota, na época seguinte, com o Real Madrid. Progressivamente os Red Devils foram passando a um mais flexível 4-3-3. A chegada de Cristiano Ronaldo, mais vertical e fisico que Beckham, permitiu ao técnico operar a sua mutação táctica. E foi assim que o Man Utd venceu a sua terceira Champions. Mas, mesmo aí, Ferguson percebeu que havia falhas no seu modelo de jogo. A perda de velocidade nas laterais - com os progressivos problemas para ocupar o carril direito - levava a um constante desequilibrio a meio-campo. Progressivamente o técnico foi recuando os extremos, apostando num modelo móvel. Com um veloz Cristiano Ronaldo preferia um 4-2-3-1. Agora, sem o português, a aposta é num claro 4-5-1. Foi assim que, há poucas semanas, trucidou o ingénuo Arsenal, talvez a única equipa imune a esta mutação.
A influência de José Mourinho, adepto inicial do 4-3-3 que rapidamente se transformou num 4-4-2 continental, levou a maioria das equipas inglesas a mudar de registo. O Manchester United acabou por ser uma delas. Mas não foi a única.
Progressivamente os distintos Managers da Premier - onde os ingleses começam a desaparecer progressivamente - foram abdicando do segundo ponta-de-lança. A marcação à zona - e não ao homem - anulava mais facilmente o avançado de apoio e criava perigosos desequilibrios no contra-golpe. Progressivamente esse avançado foi recuando no terreno, tal como os extremos. E do 4-4-2 passou a fazer parte de um 4-5-1.
A diferença é que este sistema táctico, habitualmente acusado de defensivo, é extremamente móvel e dinâmico. O futebol defensivo é algo que, em terras de Sua Majestade, é olhado de soslaio. E a mutação táctica deve-se menos ao desejo de defender a baliza e mais ao de controlar o jogo a meio-campo. Com esta variação táctica equipas que actuam num clássico 4-4-2 tornam-se presa fácil pela teia montada de médios centro no miolo. Assim o Chelsea de Scolari e mais tarde, de Hiddink, foi perdendo pontos em campos proibitivos. Equipas como o Fulham, Blackburn Rovers, Portsmouth ou Stoke City manobram bem a variação táctica e espalham os jogadores pelo terreno de jogo de uma forma eficaz. Hoje o Tottenham de Harry Redknapp e o Aston Villa de Martin O´Neil, são exemplos perfeitos dessa mutação. Habitualmente arrancam o jogo em 4-3-3, com extremos rápidos (Lennon, Young e Aghonbalor) e progressivamente vão recuando até formar um compacto 4-5-1. Garantem solidez defensiva e um ataque em bloco com 4 a 5 elementos, mantendo um pivot de segurança.

Dentro do espectro que é a Premier League há muitas realidades distintas. As mais particulares são as de Liverpool e Arsenal.
O espanhol Rafa Benitez é claramente da escola do 4-5-1 continental. Torres, como ponta de lança solitário, e Steven Gerrard no apoio. Atrás um quarteto de médios, com dois alas capazes de subir nos lances ofensivos e fechar nos momentos de contenção. A ausência de jogadores desta caracteristica (ao contrário do Utd que conta com operários como Fletcher, Park, Valencia ou o próprio Rooney) é uma das justificações para os constantes tropeções dos Reds. Já o francês Arsene Wenger professa outra religião. Pai do futebol de toque, o técnico do Arsenal foi provavelmente o primeiro a romper a hegemonia do 4-4-2, do qual, curiosamente, os gunners eram profetas. Com a sua equipa, apelidade em 2004 de "Invencibles", começou a construir a base do actual 4-3-3 que é, em realidade, um 4-2-3-1 disfarçado. Na época jogavam Vieira-Petit-Ljunberg-Pires-Bergkamp e Henry. Hoje são Song-Diaby-Fabregas-Nasri-Arshavin e van Persie. Os jogadores mudam, mas a filosofia mantém-se. Talvez por isso o conjunto londrino tenha sobrevivido à constante razia de jogadores. A mecanização de processos tapa as falhas de continuidade fulcrais para o sucesso a longo prazo de um projecto desportivo.

Hoje é fácil ligar a televisão e descobrir este 4-5-1 em quase todos os jogos da Premier League. Poderá vir disfarçado de muitas formas. Extremos mais avançados num enganoso 4-3-3. Dois médios mais de contenção que podem acabar por se revelar num 4-2-3-1. Mas no fundo, mudem-se os emblemas, mudem-se os protagonistas, mudem-se os mestres do bloco de notas, é indisfarçável que o 4-5-1 é o espelho tácito da evolução de mentalidade de jogo nas ilhas. O regresso ao dominio do futebol europeu - trinta anos depois - é o mais evidente resultado dessa progressiva adaptação que permite hoje às equipas britânicas estarem sempre, um passo à frente.
Estava perto de se tornar no primeiro jogador inglês da história a marcar presença em quatro Mundiais de futebol. Agora tem a carreira em risco. De um momento para o outro David Beckham passou do sonho ao pesadelo. Em Inglaterra não sabem bem como reagir. É a eterna luta do mediatismo vs racionalismo. Talvez o único que esteja aliviado seja mesmo o estrangeiro Fabio.

Uma lesão grave. Para muitos jogadores, pior do que isso. Aos 34 anos David Beckham está no longo ocaso da sua carreira. Joga pouco e não especialmente bem. Tem destelhos do génio que foi mas são cada vez mais raros. Os anos na América (ou melhor, os meios anos na América) foram ralentizando ainda mais o seu jogo. Em Itália ficou ainda mais estático. O passe teleguiado continua aí. Mas vai perdendo fulgor. E no entanto, apesar de todos esses condicionantes, Inglaterra está em estado de comoção. E, atrevo-me a dizer, também grande parte do Mundo. O médio inglês certamente irá falhar o Mundial da África do Sul. Uma perda mediática sonante. Beckham é ainda hoje, e apesar de tudo, um icone global. Há poucos jogadores tão facilmente identificáveis nos quatro cantos do globo. Apesar dos 10 anos que o distam da época em que ombreava, realmente, com os melhores, o "Spice Boy" continua a ser o exemplo perfeito do icone mediático. São quase tão memoráveis os seus momentos dentro como fora do terreno de jogo. E apesar de se ter mantido bastante humilde para o "universo paralelo" criado à sua volta, a verdade é que se notava em Beckham algum fastio com o jogo. Mascarado com uma imensa paixão pelos flashes. Os mesmos que o esperavam de olhos abertos na África do Sul.

E se meio Mundo se lamenta e mais de metade de Inglaterra não quer acreditar que o seu capitão moral (há anos já que abdicou da braçadeira) fique de fora, a verdade é que desportivamente Beckham é hoje, pura e simplesmente, inconsequente.
Fabio Capello tem à sua disposição seis ou sete jogadores mais aptos para o posto do que o extremo do AC Milan. Talvez não tenha um perito em bolas paradas ou passes teleguiados como David Beckham. Mas há quanto tempo não é o antigo 7 capaz de os colocar em prática em jogos de grande monta? Precisamente.
Os adeptos gostariam de ver Beckham no centro de estágio mesmo sabendo que muito dificilmente este jogaria. Capello soube fazer uma gestão silenciosa do caso e durante meses manteve em segundo plano o extremo. O técnico preferiu sempre a velocidade de Walcott, Lennon e Wright-Philps. Inteligentemente, no entanto, nunca descartou Beckham por completo. No seu objectivo claro de montar um colectivo forte, a presença de uma estrela mediática e potencialmente destabilizadora (mais pelo que gera do que pelo próprio atleta), era um problema para o qual o italiano não tinha solução. Haveria quem entendesse que Capello não o convocasse. Mas isso criaria fissuras entre o público e a equipa. Sendo assim, a lesão revela-se totalmente oportuna para o seleccionador.
O mais triste de tudo é que esta oportuna lesão para o técnico se converta muito possivelmente, de forma algo macabra, no triste final de uma carreira dourada. Com 34 anos (115 internacionalizações incluidas) e apenas com a esperança de ir ao Mundial como motivação, é altamente provável que Beckham tenha terminado a sua carreira. Mesmo que ainda não o saiba. O médio teria de voltar aos Estados Unidos antes de voltar a tentar um empréstimo ao AC Milan. Mas com o Euro 2012 fora de hipótese, o competir por competir parece fazer pouco sentido. Parece que o final de Becks vai ser bem mais triste do que a fábula parecia antever.

Em 1998 David Beckham foi o anjo e diabo de uma Inglaterra com muito potencial e pouco estomago para uma matreira Argentina. Quatro anos depois exibiu-se a um nível abaixo do esperado e os Pross cairam naturalmente diante do Brasil. Em 2006 foi Portugal, tal como dois anos antes, o carrasco perfeito. Quando parecia que ainda havia uma linha por completar, a história parece ter-se fechado sobre o jovem que se estreou com o Manchester United com um golo olimpico. Que se tornou na primeira grande estrela mediática do século. Sem ele a Inglaterra pode vender menos capas de jornais. Mas também pode ser que, sem Bekcham, os ingleses voltem a ser campeões do Mundo. Seria a suprema ironia para o final de carreira de um jogador que nunca superou o circo mediático que o rodeou e que deixou para o segundo plano o génio futebolistico do seu pé direito.
O Barcelona e Real Madrid continuam, lado a lado, na luta pela Liga BBVA. Empatados em pontos e expectativas. E ontem, depois de mais uma jornada, empatados em hat-tricks. Com perfume argentino. Dois aromas distintos que definem bem o estilo de cada equipa.

Serão os dois avançados elegidos por Diego Armando Maradona para o ataque da albiceleste no próximo Mundial. E são também os lideres pela corrida ao Pichichi que ainda pertence a um uruguaio, este ano bem longe da linha da frente. Ontem decidiram dois obstáculos mais rumo à conquista do título. Cada um à sua maneira, cada um com o seu perfume. Os dois conjuntos seguem empatados na liderança. Apenas o goal-average dicta a teórica vantagem merengue. E ontem, para ajudar, mantiveram-se as distâncias. Graças a dois hat-tricks. Se um deles define a natureza do jogo blaugrana - oportuno, colectivo e eléctrico - o outro é o espelho vivo da realidade madridista. Oportunista e vertical. No meio deste duelo de peritos em tango futebolistico só destoou mesmo o missil com selo lusitano. Afinal, Cristiano Ronaldo voltou a mostrar que em Madrid sente-se menos cómodo com a baliza. Mas que sabe como deixar a sua marca. Só que a noite não foi dele. Foi do eterno rival externo e do novo "rival" interno.
Frente ao Valencia o Barcelona esteve muitos furos abaixo do esperado. Controlado na primeira parte por um surpreendente conjunto "che", o Barça estava coxo. Bojan continua a demonstrar que funciona melhor como producto de marketing do que, propriamente, como goleador. E sem um homem com faro de golo, o jogo catalão foi-se esmorecendo. Graças também à implacável marcação do meio-campo do Valencia aos cerebros blaugrana. Desde a bancada, o castigado Guardiola, soube ler o jogo. Lançou o francês Thierry Henry e desbloqueou Leonel Messi. O pequeno argentino agradeceu a companhia. E o veterano francês foi fulcral. A sua movimentação no terreno de jogo ajudou a expandir a dinâmica ofensiva do Barça. E, naturalmente, abriu a Messi os espaços que este precisa. Em três arrancadas, Messi decidiu o jogo. Quebrou os ossos aos centrais do Valencia, revelou-se repleto de oportunismo e pôs o ponto final em três lances que tiveram tanto do seu engenho individual como do espirito colectivo ofensivo tipico neste Barcelona de Guardiola. O hat-trick, o terceiro este ano na Liga, significa que atingiu já os 22 golos na prova, o seu novo recorde. Muito para quem joga de extremo, mas que não deve surpreender os mais distraídos. Afinal esta versão 2.0 do Pep Team está cada vez mais feita à sua medida.
Apenas uns minutos depois e a mais de 800 kms de distância, o José Zorrilla via o outro lado do futebol. O lado sem beleza, emoção ou espectáculo. Mas com uma temível eficácia. O Valladolid, histórico como poucos, está prestes a cair no poço da II Divisão. E precisa de oxigénio, e depressa. O Real Madrid de golos, para cimentar uma liderança ficticia. Pelo menos até ao duelo do "siglo", como se costuma vender cada derby como se fosse um fenómeno que não se repete, minimo, duas vezes ao ano. Os de Pucela foram superiores na primeira metade e podem queixar-se, e com razão, de um par de penaltys e de muito azar. Também devem agradecer a complacência com que cada árbitro olha sempre que Cristiano Ronaldo cai no chão. A inveja nunca fez bem a ninguém. O português até já tinha marcado, mas foi o mal amado Higuain quem chamou a si o protagonismo. Gozado por tudo e todos depois dos falhanços frente ao Lyon (não foram poucos os que se lembraram que, em 21 jogos na prova, o argentino só tenha marcado dois golos ao Zurich), Higuain provou que é um futebolista de poucas palavras. E gestos. Basta-lhe um toque. O do oportunismo. Nos três golos com o seu selo o seu mérito é sempre inferior ao do colega. Ele limita-se a dar a estocada, estando já o touro de rastos. O livre de van der Vaart, o toque de cabeça genial de Ronaldo e o remate de este, que o guardião castelhano Justo Villar defendeu para a frente, para os pés do "Pipita", selaram o injusto resultado final. Higuain persegue Messi e cala os criticos. Mas, olhando-se no espelho, deverá repensar na natureza do seu jogo. O seu oportunismo neste lances dificilmente disfarça o nervosismo que lhe entra no pé quando tem de dar mais de três toques seguidos na bola.

Se Messi é o exemplo acabado de um jogador que controla todos os registos do jogo (passe, dominio, finta, remate), tanto em potência como precisão, já Gonzalo Higuain começa a transformar-se num jogador monocórdico, uma especie de pequeno Raúl, com quem tem aprendido. Desperdiça a velocidade, o posicionamento e o um contra um, em troca do último toque. Um negócio digno de Fausto que pode valer-lhe cifras interessantes para quem colecciona estatística. Mas que prende muito a equipa na hora de apostar numa verticalidade sustentada. E define bem a diferença de dois estilos. O Barcelona continua a ser uma equipa, a todos os registos, completa. O Madrid, um puzzle repleto de cacos desfeitos onde cada artesão exime a sua pericia para beneficio próprio. Se logo sobra algo para o colectivo, agradece-se. Talvez nesse detalhe se defina não só uma liga. Pode definir-se uma época.
Até hoje nenhum outro dianteiro se mostrou tão eficaz durante um Mundial. Os 13 golos do francês Just Fontaine deixaram para segundo plano a explosão final do futebol brasileiro num torneio em que o menino Pelé chorou ao ritmo do samba de Garrincha.


Depois de ter dado a volta ao Mundo para escrever o seu primeiro livro, Simon Kuper é hoje um dos mais capazes analistas da realidade do futebol africano. E num ano de Mundial a expectativa à volta do beautiful game no Continente Negro é alta. Mas o jornalista avisa para a decadência das ligas locais e para a realidade de um jogo que abandonou o processo revolucionário para se instalar numa tranquila e rápida evolução. Segunda parte da conversa do Em Jogo com Simon Kuper.


Simon Kuper "O verdadeiro critério de sucesso é a massa salarial!"
Nos anos 90 tornou-se numa das figuras mais emblemáticas da nova escola de pensamento futebolístico em Inglaterra. O seu livro, Football Agains the Enemy, foi pioneiro em olhar para o “beautiful game” da perspectiva de fenómeno global. Agora Simon Kuper apresenta o seu novo trabalho Soccernomics, e continua a reforçar a ideia de que o jogo é mais previsível do que se pensa. E que está recheado de falsos mitos. O Em Jogo quis saber porquê. Uma conversa em duas partes!


Simon Kuper "O adepto fiel a um clube é um falso mito"
A sair do mais frio Inverno das últimas décadas, a Rússia prepara-se para assistir ao arranque da nova época futebolistica. Mas ao contrário dos últimos quatro anos, o ambiente não está envolvido no optimismo que transformou a liga russa numa das potências do futebol europeu. A crise económica deixou a liga dos rublos com graves problemas que nem os milionários conseguem tapar. Será que a corrida da Liga Russa tem estofo de maratona ou acabará por se tornar num curto sprint?

Há cinco anos atrás a Rússia começava a erguer-se de novo como uma potência mundial. Os milionários do gás e do petróleo espantavam o mundo com as suas extravagâncias, particularmente tendo em conta que a maioria da popualção ainda vivia em condições bastante precárias. A "Nova Rússia" de Vladimir Putin dava provas de vitalidade económica e politica. Não faltou muito para que o clima de optimismo chegasse também ao mundo do desporto. Por essa altura já Roman Abramovich era uma celebridade em Londres e Putin, hábil como sempre nas manobras de bastidores, sabia que havia várias personalidades, como o patrão do Chelsea, com vontade de investir no mundo do futebol. O truque era evitar que fossem gastar as suas fortunas além-fronteiras. Nos dois anos seguintes o governo russo concedeu apoios e benesses aos senhores do petróleo para que gastassem as suas fortunas em remodelar um campeonato decrépito e caído em desgraça. A Federação Russa de Futebol pagou milhões a Guus Hiddink para pegar na equipa que tinha sido vergonhosamente afastada da corrida ao Mundial da Alemanha. Convenceu a UEFA que estava na hora de Moscovo receber uma final europeia. E deixou que as grandes empresas, estatais e privadas, fossem tomando conta dos maiores clubes russos. Em pouco tempo CSKA Moscow, Zenith St Petersburg, Spartak Moscow, Torpedo Moscow, Alania Vladikvaz ou Dinamo Moscow passaram para as mãos de ilustres desconhecidos, protegidos atrás da capa dos seus milhões.

A politica funcionou. Nos últimos três anos o futebol russo tornou-se numa referência fora do quinteto habitual, referenciado pela UEFA como a linha da frente do futebol europeu. A queda desportiva do Calcio, o renascimento da Bundesliga e Ligue 1 e o progressivo endividamente da Premier League e da Liga BBVA eram deixados para segundo plano. O triunfo do Zenith na final da Taça UEFA, a ascensão da liga ucraniana (uma cópia em miniatura do modelo aplicado na Rússia) e a chegada aos Urais de vários craques a peso de ouro, desequilibrou a balança. O trabalho de formação - há anos paralisado - começou a dar os seus frutos e surgiram os Arshavin, Pavluychenko, Prognebyak, Akinfeev, Zhirkov e companhia. Hoje já uma nova geração preparada para tomar o seu lugar. Mas o cenário mudou radicalmente. Não só a especificidade de calendário - o campeonato arranca em Março e extende-se até Novembro - tem provocado vários problemas de gestão aos principais clubes, como tem prejudicado as suas aspirações europeias. O sucesso espantoso do Zenith de Dick Advocaat não teve seguimento porque, pura e simplesmente, os clubes russso têm de disputar a Champions no final da época, quando os seus rivais estão ainda frescos. A campanha vitoriosa do CSKA, este ano, foi portanto ainda mais significativa. Mas não deixa de ser pontual. De igual modo, muitos dos jogadores são tentandos a sair da Rússia durante o mercado de Inverno, o que levou alguns clubes a optar pelo modelo de empréstimo de três meses para minorar a perda de algumas das suas pérolas. Até agora, sem efeitos concretos. Mas é o aspecto financeiro, o mesmo que serviu de empurrão para a liga russa assaltar o sexto lugar das mais importantes da Europa, aquele que está a colocar tudo em cheque.
A crise financeira atacou a Rússia da mesma forma que o resto do Mundo.
E começou a fazer as suas vitimas. Vários clubes russos falseiam as contas para esconder o seu imenso buraco de dividias. Muitos foram usados pelos seus donos como cabeças de turcos para outros negócios que agora começam a vir à tona. E o Estado já não parece tão interessado em tapar buracos. Durante este defeso duas equipas estiveram perto de fechar as portas. E há mais, diz-se, que estão perto da falência. A queda da GDP arrastou o FK Moskva para o fim. Tal como havia sucedido com o histórico Torpedo meses antes. E empresas chave como a Gazprom (dona do Zenit), Lukoil (patrona do Spartak) ou Bashneft (ligada ao CSKA) começam a calcular o risco que significa injectar dinheiro numa liga de onde sacam muito pouco rendimento. Porque se as ligas inglesa e espanhola vivem entre dividias, também é verdade que geram muito dinheiro com os direitos televisivos e o naming dos seus principais emblemas. Na Rússia isso não sucede. O mercado televisivo é baixo para a posição hierárquica do campeonato e os seus clubes têm apenas expressão doméstica. E precisam dos seus patronos como de pão para a boca para sobreviver. Sem eles, é o colapso. Como sucedeu o ano passado com o Tom Tomsk, não fosse a rápida acção de Putin. Que se diz que este ano já teve de voltar a fazer o mesmo, off the record, com o modesto Krylya Sovetov. E até o campeão Rubin Kazan, que vendeu a sua grande estrela no defeso, parece viver um futuro bastante incerto.

No meio disto tudo a bola começa este fim-de-semana a rolar. O Kazan venceu a Supertaça e confirmou o seu favoritismo, enquanto o CSKA estará mais atento ao duelo com o Sevilla do que às primeiras jornadas da liga. Zenith e Spartak sabem que têm de arrancar determinados para não perder depressa o comboio. Todos os quatro candidatos juntaram um sólido onze repleto de estrelas. Dzagoev, Krasic, Honda, Akinfeev, Kerzakhov, Ansaldi, Natcho, Bukharov, Alex, Drincic e Lazovic serão os nomes próprios da prova. Mas é o medo a que nem todos cheguem à meta final que paira sobre um espectáculo com uma luz muito própria que se prepara para desafiar o último sopro do Inverno.
Não chega. No futebol parece que o presente nunca chega. E o passado é demasiado longinquo. Zlatan Ibrahimovic foi a resposta veraneia do Barcelona aos milhões da galáxia de Madrid. Fez história ao tornar-se no primeiro reforço blaugrana a marcar nos quatro primeiros jogos da época. Agora é questionado por tudo e por todos. "Ibradacabra" é, cada vez mais, o jogador mais incompreendido do futebol europeu.

Diz o venerável Arrigo Sacchi que aconselhou pessoalmente Pep Guardiola sobre o negócio que envolvia a troca de Etoo por Ibrahimovic. O italiano terá dito ao catalão que contratava o "melhor jogador individual" do Mundo. E que o seu estilo era totalmente oposto ao que preconizava o então maravilhoso conjunto culé, ainda a festejar o Tri que se tornaria, meses depois, em Hexa. Mesmo assim Guardiola levou avante o seu desejo. E Ibrahimovic chegou a Can Barça rodeado de uma aura pouco habitual naquelas bandas. E não deixou créditos por mãos alheias. Entrou a matar na Liga e rapidamente se colocou na lista dos melhores marcadores. Na Champions também foi fazendo o gosto ao pé. E no confronto directo com o Real Madrid, foi o seu oportunismo que permitiu desequilibrar a contenda. Até então o avançado era tido, por tudo e todos, como uma clara aposta ganha. Os números falavam por si. Hoje o cenário é bem diferente. O Barcelona perdeu gás. Há várias semanas que está furos abaixo da época transacta. E acima de tudo, perdeu a veia goleadora. A equipa sofre quase os mesmos golos do que no ano anterior mas marca muito menos. E entre os melhores marcadores estão os dois extremos, Lionel Messi e Pedro Rodriguez. O sueco? Aparentemente, invísvel.

O pensamento de Sacchi prendia-se com o individualismo de Ibrahimovic.
No entanto a sua quebra de rendimento na equipa blaugrana tem pouco a ver com o habitual registo do avançado sueco. Zlatan integrou-se bem na equipa e os seus números de 2009 confirmam-no. Hoje é vitima da clara descompensação táctica que tem corrompido o estilo jogo fluido dos blaugrana. Todos conhecem a longa carreira do gigante sueco, amante de artes marciais, carros rápidos e sarilhos. E todos sabem que Ibrahimovic não é um ponta-de-lança, apesar da sua imensa estatura. É um falso criativo, um falso segundo avançado, que procura o espaço antes de procurar a bola. Um jogador colectivo que joga melhor na horizontal, em sucessivas trocas de bola, do que verticalmente em direcção às redes. Esse era o perfil do camaronês Samuel Etoo e encaixava como uma luva no jogo de toque vertical de Guardiola. Ao contrário de Etoo - que agora padece do estilo de jogo de Mourinho mais adaptado ao sueco - Zlatan ralentiza o jogo. Procura dar o último passe mais do que aproveitar as oportunidades. Move-se pouco na área, gosta de jogar mais afastado da confusão. É o tipico dianteiro para jogar com companhia, um autêntico Marco van Basten. Também o holandês era letal, mas beneficiava de Ruud Gullit como seu fiel e letal escudeiro. Zlatan joga só. Está isolado entre linhas. E sempre que tenta voltar ao seu local de origem, desequilibra o jogo.
Pode ser efeito das lesões, da vontade de inovar ou da simples necessidade de procurar uma alternativa de jogo. A verdade é que, tacticamente, este Barcelona é muito distinto ao da época inaugural do reinado de Guardiola. E Zlatan não é a causa. Antes, a consequência mais directa desta mutação que o prejudica, tanto a ele como à equipa.
Guardiola mantém uma defesa de presão alta, mas Dani Alves já não utiliza o carril direito a seu belo prazer. E também já não tem Messi para tabelar. O argentino tem-se deslocado, propositadamente, para o eixo central, levando a equipa, muitas vezes, a jogar num 3-4-2-1. Pedro, ou Henry, deslocam-se ao centro (o que justifica os números goleadores do jovem) e acompanham Messi atrás de Zlatan. O meio campo recua uns metros e abre-se mais. Essa inovação tem as suas consequências. Hoje Xavi joga mais longe da área e portanto, mais longe do último passe. Por outro lado, também Iniesta está preso. De movimentos, de espaço. Não acompanha tanto o extremo esquerdo nas movimentações ofensivas e muitas vezes choca com Messi no eixo central. O número 10 perde ao passar ao meio. O seu jogo de regate é positivo em velocidade, com trocas de bolas rápidas com Xavi ou Alves. Este ano Messi arranca do meio e sem espaço, acabando por perder muitas bolas por ter os colegas demasiado longe para o acompanharem. Quando o fazem abrem brechas. Daí saem muitos dos contra-golpes que têm sido letais para o Barcelona. E no meio disso, onde está Zlatan?

Guardiola reserva-lhe o lugar de pivot ofensivo. Joga dentro da área mas de costas para a baliza. A ele pede-se que apanhe as segundas bolas e tabelas do duo ofensivo para quem abre os espaços. O sueco arrasta os centrais consigo e abre caminho a Pedro e Messi. Isso permite-lhe colaborar no jogo ofensivo de forma decisiva mas baixa drasticamente a sua productividade goleadora. É forçado, muitas vezes, a ficar com as sobras. Como se viu em Estugarda. A ideia de Guardiola é representada pelos números. O duo ofensivo atrás do sueco é o mais goleador da equipa. Xavi e Iniesta baixaram o seu ritmo de assistências, por jogar mais atrás, e o jogo dos laterais tornou-se numa das brechas defensivas da equipa. Em lugar do 4-3-3 vertical do ano transacto, onde a equipa atacava e defendia em bloco, reduzindo ao máximo o espaço de jogo, hoje o Barça surge no terreno muito mais estendido. E descompensado. Um 4-3-2-1 de base que rapidamente passa a 3-4-2-1 com a subida dos laterais e o recuo de Busquets ou Touré.

No meio de toda esta mutação táctica, quase imperceptível para os mais distraídos que se fixam apenas que no onze inicial estão os mesmos nomes, é fácil condenar o sueco. A ele foi-lhe atribuido o papel ingrato, um papel que Etoo nunca desempenharia. Talvez por isso a vontade férrea de Guardiola em trocar ambos os jogadores. Ibrahimovic é individualista, é certo. Mas joga muito mais para o colectivo que o sedento camaronês. A equipa ganha em espaço e perde em eficácia. Passa a depender da segunda linha. É a eles, e não ao sueco, quem se deveria pedir responsabilidades na hora de finalizar. Guardiola sabe o que faz e entende que a sua estratégia tem riscos. E também sabe o injusto que é todo este "Zlatan Affair". Afinal, se o Barcelona voltar a vencer a Liga ou a Champions, muito se deverá ao "sueco invisivel".
300 milhões de euros e muitas capas de jornais depois, o Real Madrid voltou a cair. Em casa, diante dos seus. No mesmo palco onde, daqui a dois meses, a elite do futebol se reunirá para o dia grande do ano. Elite onde o histórico clube de Concha Espina há muito que não está. Se um dia se chamou ao regresso de Florentino Perez uma super-produção digna de Hollywood, agora pode-se dizer que o projecto Galáxia 2.0 se tornou num flop de critica e bilheteira.

Cristiano Ronaldo está só.
Olha para os lados e ninguém lhe acompanha o ritmo. Desespera. Dribla um, dois. Perde a bola. Não tinha linha de passe. Não tinha companheiros para jogar. 300 milhões de euros depois e Cristiano Ronaldo vive numa agónica solidão. O Real Madrid pagou 100 milhões pelo melhor jogador do Mundo no Verão. Pagou outros 200 milhões para montar a orquestra que o deveria acompanhar na caminhada rumo à tão falada "Décima". E no final, o mesmo cenário de sempre. A derrota nos Oitavos de Final, uma tradição já na prova. Seis anos depois o clube merengue continua ser saber o que é vencer um jogo a eliminar na prova que continua a dominar em titulos conquistados. Mas onde é cada vez mais evidente que os cinco primeiros, consecutivos, continuam a tapar uma longa e histórica debilidade. E a verdade é que o Olympique de Lyon está longe da sua melhor versão. É uma equipa organizada e lutadora. Mas que não pertence, desde já, à realeza europeia. Só que para eliminar este Madrid não é preciso tanto. Apenas esforço, paciência e coordenação. O resto surge naturalmente. O clube espanhol trata de se auto-eliminar. Em anos consecutivos. E não é uma questão de técnico como a imprensa afecta à direcção de Perez quer fazer crer. Foram vários os treinadores e o resultado continua a ser o mesmo. O problema mais grave está na mentalidade de superioridade. De falsa superioridade. Os merengues querem acreditar que são superiores. Que a prova é sua por direito, como disse há poucas semanas em palavras mais diplomática o mega-presidente. E não aguentam o fracasso. Mentalmente não estão aptos para uma prova deste calibre.

Se no jogo de Lyon o técnico Manuel Pellegrini teve culpa no cartório - ao abdicar do 4-4-2 em losango que tão bons resultados deu ao conjunto que lidera, lado a lado, a liga espanhola com o Barcelona - ontem, no Santiago Bernabeu, o treinador está isento de culpa. Alinhou o melhor onze possível e no esquema táctico que serviu ao conjunto madrileño para vergar o Sevilla dias antes. Entregou a batuta da equipa a um superior Cristiano Ronaldo e esperou. O português voltou a mostrar que é ele e mais 10. Gritou, gesticulou, correu, assistiu, rematou e liderou. Cedo mostrou a sua raça com um golo repleto de instinto após um passe sublime de Guti. A conexão entre o renascido médio espanhol e o português tem tapado muitas das debilidades estruturais desta equipa. Ontem voltou a faze-lo. Até que a eterna promessa desapareceu e Cristiano ficou só. Kaká e Higuain, seus parceiros ofensivos, passaram o resto do jogo a tentar resolver, sozinhos, um problema colectivo. O argentino foi particularmente perdulário e egoista, provando que já assimilou bem o ADN madrileño da glória a todo o custo. O brasileiro continua a provar a sua debilidade num ritmo competitivo elevado, especialmente quando joga longe da baliza. Durante a primeira meia-hora o Real Madrid podia ter goleado o Olympique Lyon. Não o fez. E pagou-o bem caro.
No intervalo Claude Puel decidiu a eliminatória.
Percebeu que o meio-campo do Real estava partido. Que Guti estava estourado e Granero era um mero fantasma. Que Ronaldo corria, mas só. E mudou as peças. Recuou o brilhante Toulalan para central e lançou Gonalons e Kallstrom para ganhar o meio-campo, soltando Pjanic no apoio directo ao trio ofensivo, até então a fechar as laterais. O clube da casa deixou de respirar a bola, os ressaltos iam todos para os jogadores de azul e rapidamente Casillas começou a sentir o perigo mais perto. Os erros de Arbeloa e Sergio Ramos tornaram-se recorrentes. E surgiu o golo. Um lance pelo meio, com uma tabela na grande área. Impensável nesta altura do campeonato. Pjanic empatou, a quinze minutos, uma eliminatória que até então pertencia aos franceses. E o coro grego invadiu as bancadas do estádio da final. Tragédia pura. Os franceses tinham sido superiores em Lyon e mesmo assim tinha-se vendido a condição de superioridade genética dos madridistas. Na segunda mão os franceses voltaram a demonstrar a maturidade e inteligência que garantem apuramentos. O resultado surgiu com naturalidade e deu ainda tempo a Lisandro Lopez e Delgado falharem dois golos feitos diante de um desesperado Iker.

Naturalmente Florentino Perez vai fazer a única coisa que sabe fazer. Despedir. Tal como Del Bosque, Queiroz, Luxemburgo e companhia, também Pellegrini é insuficiente para o presidente que quer ser o moderno Santiago Bernabeu. Nem lhe adianta ganhar uma liga onde vai estando a melhor nível, resultado da evidente debilidade dos rivais. O medo cénico do Bernabeu de que tanto se falou assusta o Xerez. Não o Lyon. Também Capello e Schuster o fizeram e não lhes serviu de nada. Claro que ninguém vai parar para pensar no egoismo natural do individualismo que sempre foi marca da casa, na falta de companheirismo da velha geração com os mais novos ou no simples facto de que a mentalidade do Real Madrid como equipa é nula. E não é o sistema táctico ou os interpretes que são os responsáveis. Nestes seis anos passaram muitos jogadores pelo onze madrileño e o resultado foi, invariavelmente, o mesmo. Em todas as ocasiões repetiu-se a mesma lenga-lenga de superioridade moral, grandeza histórica e todo o fumo suficiente para tapar os olhos dos mais criticos. E todos os anos a realidade bateu à porta e fechou as cortinas. E demonstrou - pela enésima vez - que capas de jornais e livros de cheque em branco não fazem campeões.

E depois, há Cristiano Ronaldo. Falhará a sua terceira final consecutiva da Champions. Por culpa alheia. Ele que é o melhor marcador do torneio. Ele que liderou a hipotética reviravolta, remando só contra tudo e todos. Ele que é o verdadeiro injustiçado desta eliminatória. Zinedine Zidane chegou a Madrid já na etapa final da carreira. Era mais paciente e tranquilo, jogava mais atrás e esperava. Cristiano Ronaldo está no zénite do seu futebol, explosivo e decisivo. Músico de excelência, só numa orquestra menor, percebe agora o valor do colectivo que se professa em Old Trafford. Talvez pense se fez a escolha certa. Voltará a vencer uma Champions, de certeza. Não se sabe é se o fará de branco. Porque o futebol, apesar de tudo, continua a ser coisa de 11. Não de 1. Mesmo que esse individuo seja quase perfeito.
Não é por acaso que a Premier League se mantém no topo há mais de uma década. O ritmo vibrante e a mentalidade das equipas ingleses está um degrau acima das rivais continentais. Podem não vencer sempre. Mas a entrega e dinamica de jogo dos conjuntos britânicos é insuperável. E entre eles, não há ainda ninguém capaz de vestir tão bem o traje perfeito de corte inglês que os Red Devils. O repasso de ontem ao AC Milan foi apenas mais uma prova da natural superioridade da Old Albion.

Ao contrário da goleada histórica do Arsenal - uma equipa pouco britânica e com algumas debilidades competitivas - ontem o resultado em Old Trafford chegou a ser enganador. Durante a primeira meia-hora o AC Milan jogou de igual para igual com o conjunto da casa. Criou ocasiões e tentou aproveitar a debilidade do United no flanco direito onde o veterano Gary Neville voltava à titularidade após a lesão de Wes Brown. Mas a instrução de Ferguson de marcar homem a homem Andrea Pirlo foi anulando a fonte do jogo milanista. E desequilibrou a contenda. O Man Utd começou a controlar o jogo a meio-campo graças à labor constante de Fletcher, Scholes e Park Ji Sung e abriu espaços. Depois só faltou Wayne Rooney. E a estrela da época voltou a dizer presente. Tinha estado em dúvida até à hora do jogo. Mas logo aos três minutos já o avançado tinha disparado a Abiatti. O guardião parou a bala mas acabaria por revelar-se presa fácil para Rooney. Primeiro de um movimento de cabeça letal, no meio dos centrais italianos, após cruzamento de Neville. E no reatar do encontro dando um toque subtil a um perfeito cruzamente de trivela do português Nani. O jogo estava ganho, a eliminatória morta. Outra equipa teria abrandado e baixado os braços. Poupado forças. Mas não uma equipa inglesa. Não quando lhes está no ADN a fome de golo. E assim foi.

Neville já tinha aprendido a domar o mais dócil Ronaldinho e nem a tentativa de Leonardo de lançar sangue fresco pela direita na forma do esforçado Abate beliscava a um autoritário Manchester. Pirlo tinha sido domado pelo coreano Park que ainda teve tempo, num gesto de raça tipica nele, de aproveitar um passe genial de Paul Scholes para ampliar a vantagem. O golpe de misericórdia levantou o estádio ao delirio que nem temeu a entrada, aplaudida em pé, do antigo enfant terrible David Beckham. O extremo foi ovacionado e ainda mostrou destelhos do que foi, em tempos. Um remate espantoso e um centro oportuno que Inzaghi não soube pentear. Mais do que Ronaldinho, Borriello e Huntelaar em toda a primeira hora de jogo. O Manchester estava cómodo no centro e atrevido nas alas, com Nani e Valencia em destaque. Rooney já tinha saído e o bulgaro Berbatov deixava os centrais escalados por Leonardo em constante alerta. Mas foi Fletcher, o incansável operário de que Ferguson raramente prescinde, quem culminou a histórica goleada. Um golo oportuno, tipicamente britânico, que acabou com uma longa malapata de 50 anos. Finalmente os rossoneri caiam em Old Trafford. E estrepitosamente. Está claro que, hoje por hoje, a equipa italiana está a anos luz do pelotão da frente onde o United tem lugar cativo. O plantel envelhecido que Berlusconi continua a sufragar esforça-se, mas nem sempre o esforço é suficiente. Percebeu-se que a falta de ideias abunda nas novas incorporações e que ao lançar Seedorf, Beckham e Inzaghi (o médio Gattuso ainda ficou no banco), Leonardo rendeu-se à evidência de que só pode contar com os mais veteranos. O que é pouco dizer.

O traje de finalista acenta bem ao Manchester United. Pode cometer a proeza - de que não há memória desde os dias do Bayern Munchen de Franz Beckhambauer - de marcar presença na sua terceira final consecutiva. Depende do sorteio e da sorte, das lesões e também dos rivais. Mas a matéria-prima de campeão continua a estar bem viva em Old Trafford. Apesar da saída de Cristiano Ronaldo, o ADN do Man Utd continua a ser o de uma equipa ganhadora. Não se espantem que sir Alex Ferguson desfrute, pela primeira vez, de uma viagem a Madrid. Merece-o.
Há largos, larguíssimos meses, que a mediocridade paira sobre os céus cinzentos da Invicta. Mas a equipa que ainda ostenta o escudo de campeã de Portugal nunca tinha descido tão baixo. Naquela que foi, muito provavelmente, a mais humilhante exibição de uma equipa portuguesa nas competições europeias na última década, o FC Porto confirmou o certificado de defunção. O campeão está, oficialmente, morto.

No Emirates Stadium não se viu um FC Porto muito diferente daquele que fomos vendo ao longo deste ano. Mudou o resultado final, expressivo das debilidades e infantilidades defensivas da equipa de Jesualdo Ferreira. E da eterna ineficácia ofensiva que seca a pólvora azul e branca, especialmente em terras de sua Majestade. O FC Porto já tinha trazido dois 4-0 de Inglaterra. Dolorosos. Mas com consequências distintas. Não é aqui o quinto golo, tão evitável como qualquer outro dos quatro, que faz a diferença. Mas ajuda a afundar ainda mais uma equipa à deriva, mergulhada na eterna mediocridade. Assim foi o Porto de Londres. Uma equipa partida, sem ideias, e sem estofo. Há clubes que participam na Champions League e cuja a fase de Grupos já lhes vem grande. Passar à seguinte etapa é entrar na elite. E aí percebe-se facilmente se há algum infiltrado. E da mesma forma que o clube das Antas já foi um dos mais belos e refrescantes participantes das últimas edições da Champions, desta vez ficou a nu que o lugar dos portugueses não estava aqui. Como não será para o ano. Sejamos honestos, este FC Porto não tem nível para provas deste calibre. O resultado, é expressivo, e está á vista de todos. Os gunners agradecem.

O Arsenal nem fez um grande jogo. Não precisou. O FC Porto fez tudo o que era preciso para ser eliminado. E ajudou a fabricar a goleada. Jesualdo Ferreira, um verdadeiro treinador de bancada, cometeu o mesmo erro que Antonio Oliveira há 14 anos atrás. Na posição-chave - particularmente no seu 4-3-3 retraído e medroso - lançou para o lugar de Fernando o jovem Nuno André Coelho. Sem ter jogado na prova e com pouco mais que cinco jogos este ano pela equipa principal. Sem rotinas de jogo, esteve perdido a cada segundo. Olhava desesperado a pedir ajuda a Meireles e Micael. Não ganhou um lance e saiu ao intervalo. Desnecessariamente humilhado. Como Costa no Old Trafford de 96, também Nuno Coelho ficará marcado pelo festival de futebol que Rosicky, Nasri e Arshavin praticaram debaixo dos seus olhos. Mas o jovem foi apenas um dos onze buracos do barco que chegava orgulhoso a Londres com um golo de vantagem. Afinal o FC Porto nunca tinha perdido uma eliminatória partindo em vantagem. Nem isso os salvou. O golo madrugador do dinamarquês Niklas Bendtner empatou a eliminatória e obrigou o FC Porto a fazer aquilo que, pura e simplesmente, não sabe fazer: atacar. Hulk, essa debilidade de Jesualdo, continua a dar razão aos (poucos) que nele não vêm mais do que um adicto ao ginásio. Nenhum gesto futebolistico em 90 minutos. Conversados ficamos. E se Falcao, sempre ele, lutou contra tudo e todos, mais ninguém se salvou. Varela emudecido, Alvaro Pereira descoordenado, Meireles e Micael sem classe. E Fucile, o principal responsável dos números assustadores com que se fechou o jogo, fica como simbolo perfeito do Porto de Jesualdo: sul-americano, infantil e sem classe.
O Arsenal até podia ter ganho por mais tal foram os erros defensivos dos azuis e brancos. O passe infantil de Fucile no segundo golo mostrou o nível mental da equipa. Sem espirito competitivo, o FC Porto veio-se naturalmente abaixo. Os gunners nem tiveram de acelerar muito. E jogaram pouco. Mas a diferença é gritante. Nasri brincou, literalmente, contra três jogadores do Porto antes de apontar o terceiro. Um mau canto ofensivo (mais um), um péssimo alivio de Fucile e mais um erro de marcação deram a Eboué o quarto. E o desastrado lateral uruguaio permitiu o penalty que fechou as contas. O FC Porto actual, com este jogo sem ideias e contundència, lutaria na parte baixa da tabela da Premier League. Triste, mas verdade. O modesto Hull, que recebe o Arsenal no sábado, certamente dará uma replica bem distinta dos azuis e brancos. Apesar de ser a única equipa portuguesa realmente bem sucedida na Europa nos últimos 20 anos, o FC Porto hoje fez o ridiculo. Confirmou que o projecto de Pinto da Costa e Jesualdo Ferreira não é mais do que cinza espalhada pelos rostos de quem ainda neles acredita. Fica provado que a aposta pelo lucro fácil e imediato (com as sucessivas manobras ocultas de bastidores) tem um preço. A dez minutos do fim Varela e Micael saem. Guarin e Mariano entram. Palavras para quê.

A humilhação azul e branca salpica um trabalho de anos. Um clube com prestigio europeu que deixa a prova rainha do futebol pela porta mais pequena. Ao contrário da outra eliminada da noite - a Fiorentina, uma equipa sem historial na prova mas que disputou o apuramento até ao último segundo - o FC Porto é um dos clubes com mais participações na Champions. E o dinheiro do apuramento para a fase eliminatória até pode ter pago o prémio de final de época de um qualquer administrador da SAD, mas amanhã os dragões não se livram de ser a chacota do futebol europeu. E não há mais que dizer!
Com mais uma edição (quantas já vão) da Liga Sagres pautada pela mediocridade, é dificil ir vendo os jogos nos relvados empapados lusos e descobrir algo que realmente seja relevante. O Benfica caminha em velocidade de cruzeiro para um titulo em que todos quiseram colaborar, desde a Liga de Clubes às SAD do FC Porto e Sporting. O Braga vai começando a mostrar a habitual fraqueza lusa. E os outros "grandes" vivem o ambiente oposto ao que experienciavam no início do ano. Logo atrás está o renascido Vitória. Uma boa noticia. Das poucas que Portugal nos guarda.

A contundente vitória por 2-0 diante do Nacional da Madeira confirmou o que se vinha suspeitando há meses que, inevitavelmente, ía suceder. O Vitória de Guimarães está já tranquilamente em postos europeus. Com o Sporting a apenas dois pontos (ambas as equipas têm as mesmas vitórias, nove) é legitimo para o conjunto vimaranense sonhar em recuperar um quarto lugar que, durante anos, foi a sua posição natural. Poucos se lembram hoje, mas o Vitória de Guimarães foi a única equipa portuguesa que este ano logrou derrotar os dois primeiros classificados da prova. O Benfica caiu na Taça de Portugal, o Braga sofreu no D. Afonso Henriques a sua primeira derrota da temporada. Sinal claro de que na "cidade-berço" está uma equipa talhada para os momentos decisivos. E que, como é sempre habitual nos conjuntos lusos, perde pontos quando menos se espera. O Vitória sofreu este ano demasiado com esse fado. Capaz de bater o pé aos primeiros, os vimaranense têm tido dificuldades contra clubes que nem são do seu campeonato. Porque com os da sua liga, como o Nacional, sabem o que querem. E vencem com claridade. E se o Nacional sem Ruben Micael e com um Manuel Machado ainda alheado, é efectivamente uma equipa mais inofensiva, a verdade é que a progressão vimaranense tem sido espantosa. E tudo começou com o erro da praxe.
A direcção vitoriana de Emilio Macedo arrancou a época com Nelo Vingada no banco.
Um técnico desactualizado, sem carisma e que nunca soube montar um onze atractivo e eficaz. Saiu cedo, como se esperava, deixando para trás meses de trabalho deitados borda-fora. Para o seu lugar, Paulo Sérgio. O jovem e ambicioso técnico do Paços de Ferreira tinha mostrado que a capital do móvel parecia já pequeno para a sua ascendente progressão. No D. Afonso Henriques encontrou um desafio à sua altura. Perdeu pontos importantes e chegou a estar no limbo onde vivem muitos dos técnicos portugueses. Aguentou-se. Apresentou bons resultados e um jogo atractivo. Fazendo esquecer aos adeptos o fosso financeiro onde volta a estar o clube e a peripécia das eleições que, adivinha-se, voltarão a servir como tiro no pé, montou uma equipa sólida e séria. Com Nuno Assis e Rui Miguel soltos no apoio ao único avançado, Roberto. E com Desmarets como falso extremo. Um quarteto desiquilibrante que acenta também no trabalho cirúrgico do meio-campo, com João Alves e Moreno. A ajuda dos laterais - o regressado Alex e o rapidíssimo Andrezinho - e a segurança do brasileiro Nilson fazem o resto. E mesmo que os centrais não tenham a segurança de outra dupla, o trabalho de equipa nota-se tanto a atacar, como a defender. O Vitória que andou nos primeiros meses na zona baixa da tabela, a ver a despromoção ali bem perto, sabe agora que pode voltar ao seu lugar natural na classificação. E não fosse a notável campanha do eterno rival minhoto, e este seria um ano para festejar.

Na próxima jornada a visita a Alvalade servirá como tira-teimas para os adeptos do Vitória. Na melhor das hipóteses o conjunto vimaranense pode sair de Lisboa com o quarto lugar no bolso, a sete jogos do fim. O calendário que tem não é o mais favorável, mas a vantagem seria significativa. Qualquer outro resultado manterá tudo em suspenso. Há cinco equipas para dois lugares. Num ano onde os históricos do nosso futebol confirmam que o nome é cada vez menos sinal de sucesso, começa a ser hora do Vitória de Guimarães reinvindicar o seu estatuto e voltar a encarar, olhos nos olhos, para a Europa.
Alex Ferguson antecipou-se à concorrência. E era preciso. De um momento para o outro um jovem central que há dois anos jogava numa equipa amadora tornou-se no foco de todas as atenções na Premier League. Com 20 anos Chris Smalling tem tudo para ser o novo patrão de Inglaterra.



