É raro haver uma família com três irmãos futebolistas. Principalmente se o trio é de elite. Mas como em todas as famílias uns são melhores que outros. Em relação aos Elm há pouquissimas dúvidas. Rasmus é o maestro de cerimónias.

É a grande sensação do jovem futebol sueco que tem despontado nos últimos tempos com uma vaga de notáveis promessas que têm vindo a ocupar o seu espaço no espectro europeu. De Marcus Berg a Ola Toivonen, de Mattias Bjasmir a Emir Bajrami sem esquecer Albin Ekdal e claro, o trio Elm. De Kalmar surgiram três jovens promessas que começaram a despontar no clube local. David Elm é o mais velho e talvez o menos conhecido. Joga no Fulham inglês e nunca chegou a internacional. Hoje conta já com 27 anos. Viktor é o senhor que se segue na linha familiar. Aos 24 é uma das atracções da liga holandesa. Joga no Heeranveen depois de se ter tornado na grande estrela do Kalmar FF durante duas épocas e soma já oito internacionalizações. É um médio avançado talentoso. Mas também ele um dia não hesitou em confessar que o craque da sua família era mesmo o pequeno Rasmus. Com 21 anos o médio centro seguiu o caminho familiar. Começou no clube de bairro, Johansfors, o mesmo onde os irmãos tinham chamado à atenção e rapidamente mudou-se para o Kalmar FF.

Com 17 anos tornou-se num dos mais jovens jogadores a estrear-se pelo clube sueco. Actuou durante dois anos ao lado do irmão Viktor, um pouco à sua sombra. Ao mesmo tempo tornava-se na estrela da jovem selecção sueca de sub-21, onde logrou 16 internacionalizações. Com a saída do irmão em 2008, Rasmus tomou a batuta do meio campo do Kalmar. Começou como titular e nunca mais deixou o lugar. Com ele no onze a equipa melhorou a productividade e voltou aos postos europeus. O sucesso do mais novo dos Elm não passou desapercebido. Arsenal e Liverpool tentaram seduzi-lo mas o jovem parecia inflexível a abandonar a sua cidade natal. Até que este ano a Holanda, que já tinha chamado Viktor, foi buscar Rasmus. O AZ Alkmaar, campeão em titulo, contratou o jovem com a promessa de um lugar no onze que atacaria a Champions League. Já internacional A pela Suécia (acumula já 11 jogos com a equipa principal), Rasmus Elm aceitou o desafio e rapidamente se impôs no onze titular holandês. Apesar da equipa estar a uns furos do conjunto campeão, Rasmus Elm é uma das figuras da prova.

Médio fino, de hábil destreza mental, Elm é um dos passadores mais requisitados do futebol europeu. Com 21 anos tem ainda uma vida pela frente e uma série de candidatos a roubarem a nova pérola do AZ já este Verão. Não terá a oportunidade de brilhar na África do Sul mas a realidade é que já tem crédito suficiente para dar o salto. Ninguém duvida que o jovem génio dos Elm tem um futuro escrito a ouro puro.
Já podem ler online a reportagem especial publicada no Futebol Magazine sobre um dos casos mais sui generis do mundo do desporto de hoje. O FC United of Manchester é o resultado directo da iniciativa de um grupo de adeptos descontentes com a compra do Manchester United pela familia Glazer.
Os protestos ganharam forma num clube criado em 2005 por e para os adeptos. Depois de cinco anos o FM decidiu descubrir como estava agora um projecto inovador e que quer fazer escola no futebol inglês. Para além da reportagem podem ler também uma entrevista com o director do FC United, Andy Walsh, o único elemento da equipa que é remunerado pelo seu trabalho. Todos os outros elementos trabalham por amor a um projecto de e para idealistas.
Podem seguir aqui a entrevista e mergulhar no universo de um clube que parece ter ficado parado no tempo.
Para começar aqui têm uma pequena amostra da reportagem especial.

George Best declarou numa entrevista que se não tivesse sido jogador de futebol gostaria de ter sido uma estrela rock. Não o foi. Mas chegou a ser outro tipo de estrela: actor. E não foi o único. Ao longo dos últimos 90 anos houve vários futebolistas que experimentaram uma carreira artística no cinema. Nenhum deles ficou para a posteridade pelo seu talento dramático. Mas cada um deixou a sua marca particular provando que uma vez estrela no relvado também se pode ambicionar ser estrela nos palcos.


Esta semana estreia nas salas de cinema portuguesas Looking For Eric. Comédia optimista de Ken Loach, um dos cineastas sociais mais determinantes da filmografia europeia dos últimos 50 anos, o filme é também uma séria abordagem ao poder do futebol como elemento de coesão social. E claro, Looking for Eric é um regresso nostálgico à imensa figura de Cantona, o rei de Manchester.

O futebol é um jogo de cavalheiros. Ou deveria sê-lo, pelo menos. Um jogo limpo, aberto, sem golpes-baixos. No meio da confusão o árbitro apita. Aponta para um pequeno circulo. Chamam-lhe penalty, na lingua original do jogo. O guarda-redes está só frente à bola. Frente ao avançado. É um mano a mano desigual, já o sabemos. E quando ele avança e subitamente para, o jogo recebe uma facada mais no seu orgulho. No futebol não há nada mais imoral que uma paradinha.

Kaká tem razão. Nesse mundo novo de tecnologias muitos já se renderem ao minimalismo do serviço Twitter. Um deles foi o médio brasileiro. Ainda a anos-luz do que já foi e talvez nunca mais volte a ser, Kaká aproveitou a popular ferramenta para criticar uma jovem shooting-star do Brasileirão. Acusou-o de falta de elegância ao apontar um penalty de paradinha ao seu ex-colega Rogério Ceni. E tem razão. Apesar de se perceber que o faz por apoio ao seu velho amigo e colega do São Paulo, Kaká toca num dos pontos mais sensiveis do jogo brasileiro. A honestidade frente a frente com o chicoespertismo. E não há quem ganhe ao Brasil em chicos-espertos. A paradinha é um movimento popular. No Brasil é marca da casa. Um penalty já de si é um duelo desigual. O guarda-redes está só, preso à linha com um fio invisivel que o cose ao relvado. Só se pode mover para os lados. E a baliza é grande. Demasiado grande. O avançado tem a pressão nos ombros. É verdade. Mas tem o tempo. Tem o olhar de falcão que lhe permite decidir. E o timing é seu. Quando entra em corrida o guarda-redes tem de tomar uma decisão. Para cima, para baixo. Direita, esquerda. Parado ou para a frente. São esses breves segundos que o vento não conta que o inclinam a jogar a sua última ficha. Quando ele já está no ar, mãos de gigante a apontar ao céu, o avançado pára. Olha para o rosto do guarda-redes, impotente, enganado. Sorri, volta a acelarar. Dá um toque suave. É golo. É inevitável. É injusto.
Neymar, essa brilhante promessa do Santos como tantas outras que por lá andam e que ainda nem o nome conhecemos, é filho dessa cultura de rua. Desse Brasil do antes esperto que justo. Foi nas ruas brasileiras que nasceu o fenómeno da paradinha. O resto do mundo era incapaz de imaginar que se podia marcar assim uma grande penalidade. Em Inglaterra, o país dos gentlemans por excelência, era impensável enganar assim um guardão. O remate tinha de ser frontal, forte e directo. Como uma estocada. Um golo envenenado num embrulho de honra. Very british.
Ninguém sabe quem inventou a paradinha. Nem se saberá provavelmente. É daqueles movimentos que dispensam inventor. Mas que estão aí, no vocabulário do mundo. Há quem diga que foi Pelé. Soa sempre melhor quando é um grande nome por trás de um golpe tão sujo. E numa era sem televisão o Mundo só o viu a ele, naquele México 70 do seu encanto. Apesar disso o mágico brasileiro sempre rejeitou a invenção. O maestro, dizia, era Didi. Mas realmente interessa? Não. Nessa época já o Brasil abraçara o gesto. Tinha o seu estilo escrito por todos os lados. No país onde só vai para a baliza quem não se salva nem a lateral, que importa se o guarda-redes é duplamente enganado? O que conta é o espectáculo. Oba Brasil.

Meio segundo pode decidir um jogo. Um remate enganador pode ser acreditado ao génio de um jogador. Lembramo-nos de Panenka, Totti, Postiga e Zidane que souberam dar um suave beijo à bola. E ela agradeceu o toque suave. Mas Neymar não respeitou a bola. Nem o relvado. Nem o guarda-redes. Nem a si mesmo. Rematou desprezando os principios básicos do jogo. Rematou sem pensar, apenas encantado com as capas de jornais que o seu gesto matreiro daria. Talvez por isso só num país onde todos estão habituados a jogar no limite do risco a paradinha poderia ser tão popular. Na Europa ainda existe esse sentimento de honra. Ou será medo de falhar? Perdoa-se a um avançado que falhe uma paradinha? O espectáculo vale tudo. Os guarda-redes protestam. Mas são cada vez menos. Os brasileiros que emigraram para a Europa trouxeram com eles o gesto técnico. Mas também aprenderam uma licções de moral. No Brasil o futebol é amoral. Como a rua. É livre, sem condicionantes ou espartilhos de consciência. Nos relvados empapados do Velho Continente ainda há um código ético. Invisivel. Ineligivel. Mas que está aí. Djalminha, que como Kaká viveu os seus melhores dias na Europa, e que era um dos grandes especialistas na marcação de penaltys chamou "cobardes" aos compatriotas que mantêm a prática da paradinha. E se quando Pelé - ou quem quer que fosse o artista - inventou a paradinha, esta consistia apenas em mudar a mudança da caixa de velocidades do avançado, hoje a paradinha significa que o avançado realmente pára. E logo arranca. Perguntem a Cristiano Ronaldo. E já agora, a Petr Cech.

A FIFA quer banir de forma definitiva o gesto. Puni-lo com um amarelo e ordenar a repetição do penalty. Haverá sempre vozes em contra, contra a pureza do jogo de rua. Mas até a rua tem valores. Aliás, hoje em dia, a rua guarda poucos dos valores que os estádios vendidos ao negócio expulsaram. Defender o eterno guerreiro solitário pode parecer impopular. O guarda-redes já o é, na sua essência. Mas a se a sua solidão é inevitável, a imoral paradinha é algo perfeitamente dispensável. Especialmente quando vemos o avançado arrancar, colocar a bola e cair sobre os colegas. No chão, o guardião sabe que não tinha hipóteses. Mas pode levantar-se com a honra dos vencidos. Isso é o beautiful game!
Enquanto Florentino Perez passou o Verão a formar um conjunto de Galácticos onde só brilha Cristiano Ronaldo, o Barcelona de Josep Guardiola manteve o rumo e juntou a mais brilhante jóia sueca à sua constelação de diamantes. Agora que o Verão parece mais próximo que nunca os blaugrana preparam-se para repescar a pérola que lhes falta. Em Can Barça esperam este ano poder dizer, finalmente, bienvingut Cesc.

Se o onze do Barcelona de agora parece não ter falhas, imaginemos no que poderia ser se a esta equipa total se juntasse um dos melhores jogadores da actualidade. E também um dos menos mediáticos. Durante três anos Francesc Fabregas deixou de ser uma eterna promessa. Pegou nos galões do Arsenal com a saída de Thierry Henry e tornou-se no eixo por onde todo o jogo circula. Braço-direito de Arsene Wenger, hoje Fabregas é o único jogador do Arsenal de classe mundial. O barómetro do jogo da equipa. Um patrão de jogo como o futebol europeu conhece poucos, mesmo poucos. E no entanto, três anos de alto nível em Londres trouxeram-lhe um reconhecimento internacional escasso. Quase nulo. Ser o líder hoje de uma equipa que demasiado depressa fica sem objectivos pelos que lutar é complicado. E se lhe barram um lugar na selecção nacional, com a desculpa de que não tem lugar, pior é. Especialmente se essa selecção é a mais cotada do momento. Hoje Fabregas é mais do que parece. E só está à espera de uma oportunidade.
Barcelona é a sua casa. Sempre o foi.
Fabregas é, ainda hoje, o maior erro de gestão da história do clube catalão. Sempre cioso da sua cantera, La Masia, o Barcelona perdeu um jogador como Fabregas da forma mais amadora. No mandato de Joan Gaspart a direcção recusou dar um contrato profissional ao jovem. Fabregas não gostou da atitude da direcção catalã e disse que sim ao canto da sereia de Wenger. Estreou-se aos 16 anos pela equipa principal do Arsenal. E aí ficou. O técnico francês poliu-o e não teve medo de lhe dar a batuta da equipa quando ainda era um adolescente. E Fabregas foi crescendo. Foi ganhando os galões de capitão e explodiu finalmente em 2008. Os últimos dois anos passou-os a limar pequenos detalhes. Hoje é um jogador completo. E o Emirates Stadium está, por muito estranho que possa parecer, demasiado pequeno para as suas ambições. Agora a gestão do Barcelona não é a mesma que Fabregas encontrou há cinco anos atrás. E atrás da equipa está Guardiola, o melhor produto que saiu da Masia. E o seu maior defensor. Depois de resgatar Piqué, outra perda absurda que foi compensada a tempo, Guardiola quer repescar Cesc. E colocá-lo como o vértice que falta no seu meio-campo de diamante. Muitos criticam a opção de Guardiola tendo no onze Xavi Hernandez, muito provavelmente o mais completo futebolista da actualidade. Aliás tanto Aragonés como Del Bosque sempre utilizaram a justificação de que é Xavi quem tem barrado a entrada de Cesc no onze titular de La Roja. Só que a realidade é distinta. Não só ambos já mostraram, em campo, que combinam de forma perfeita como Xavi cumpriu já 31 anos. Fabregas tem 23. É o seu sucessor natural.

Com Fabregas no onze o Barcelona teria em 2010 um quinteto de luxo.
Guardiola poderia manter Xavi e Busquets na linha de meio-campo dando mais liberdade a Fabregas. O médio assentaria que nem uma luva no esquema de jogo blaugrana, permitindo também a Iniesta confirmar-se definitivamente pelo lado esquerdo do ataque, que agora vive entre a intermitência de Thierry Henry - que deverá estar de saída - e a afirmação de Pedro Rodriguez. O argentino Leo Messi continuaria a dominar o flanco direito e Zlatan Ibrahimovic completaria o quinteto. Isto sem esquecer as alternativas que o banco azulgrana teria para o técnico. De Keita a Pedro, de Asulin a Dos Santos, de Bojan a Jeffren sem esquecer Touré ou Marquez, que podem ou não sair este Verão. Uma equipa já estruturada, matura e com uma pérola extra. Bom de mais para ser verdade, pensarão em Camp Nou. A realidade é que Fabregas é o grande tubarão deste Verão. Antes do Mundial ele é, sem qualquer dúvida, o melhor jogador do Mundo que não está colocado num clube de elite. Tendo em conta que o Arsenal, por muito que Wenger se esforce, começa a perder estatuto internacional. Será cobiçado por tudo e todos. Mas sabe bem o que quer. E até agora soube esperar a ofertas tentadoras. Com o objectivo de voltar a casa.

O Barcelona nega-o. O agente do jogador também. O Arsenal pede que deixem o seu campeão em paz. E o Real Madrid sonha em dar a estocada ao seu eterno rival. Mas o coração de Fabregas é blaugrana. O jogo do Barça está-lhe nos genes. E a oferta de Guardiola é irrecusável. O Verão ainda está longe mas o casamento parece anunciado. Pep pode sorrir. A sua coroa de diamantes ficaria completa.
Há países onde a tradição ainda conta. A ponto de levantar uma polémica capaz de mover todo o país. Inglaterra é, por excelência, o país tradicionalista por excelência. E aqueles que inventaram o jogo continuam a defender as mesmas regras de boa conducta dos primeiros dias. A sociedade vai caminhando mas para os ingleses a braçadeira de capitão dos Pross ainda é sagrada. Para azar de John Terry.

O pecado de Terry é grave e tem um longo historial de antecedentes, dentro e fora do mundo do desporto. Digamos que é uma especie de pai nosso de cada dia. Um homem envolve-se emocionalmente com a mulher de outro. Mantém com ela um caso de largos meses. Ao mesmo tempo tenta parecer um pai de familia modelo. Vive das aparências. Vive para as aparências. Até que tudo se descobre. E se a novela lhe soa familiar, se ouviu o mesmo rumor a semana passada a subir o elevador, então limite-se a trascender a narrativa para os campos de futebol. Troque os rostos e substitua-os por John Terry, capitão do Chelsea e Inglaterra, como o homem traidor. E Wayne Bridge, defesa internacional e ex do Chelsea, como o traído. Histórias como esta abundam por todos os corredores de todos os estádios de todos os clubes de todos os países. Mas há braçadeiras que pesam mais do que outras.
A tradição em Inglaterra é uma questão muito séria. Demasiado séria. É herdeira da têmpera de Bobby Moore e da classe de Bryan Robson. Acima de tudo é um cargo de prestigio. De grandeza moral. Ao contrário do resto do Mundo, onde o papel da braçadeira foi evoluindo com a sociedade mediática e perdeu importância, em Inglaterra permaneceu uma aura de pureza à volta da braçadeira. E essa moral, no país das aparências, não admite traições.

Em Portugal lembram-se da polémica de Jorge Costa, que atirou ao chão a braçadeira de capitão do FC Porto numa tarde de sol nas Antas frente ao Setubal. Foi penar para Inglaterra durante meses antes de regressar para a etapa de ouro da sua carreira. No Brasil muitos gritaram em 1970 que Pelé tinha de ser o capitão, por ser a grande estrela da companhia. Manteve-se Carlos Alberto até ao momento final no estádio Azteca, com a taça bem no ar. Mas essas circunstâncias são, hoje, um oásis. A maioria dos clubes gosta de ter as suas estrelas com a braçadeira. Nem que seja como segundo capitão. Os clubes vendem as suas estrelas anualmente e muitas vezes quem tem de levar a braçadeira ao ombro leva poucos meses na casa. Muitas vezes nem a lingua local sabe falar. Porque aí, nessa realidade, a braçadeira perdeu toda a importância. O jogo foi evoluindo mas o conceito de capitão manteve-se inalterado na Old Albion. E esse foi o crime de Terry.
Fosse o defesa-central mais um do grupo e a polémica nunca teria estalado. Da mesma forma que, quando Beckham foi nomeado capitão - na única ocasião em que Inglaterra se rendeu ao mediatismo do Spice Boy - metade do país assobiou a decisão de Eriksson. Era um estrangeiro, que podia ele saber do valor da braçadeira para eles? Nada. E talvez nisso pensasse Terry quando chegou à reunião com Fabio Capello. Talvez o "estrangeiro" não desse a mesma importância que os outros ao facto de ele, como lider de um balneário, ter falhado moralmente perante um colega de equipa. Perante todos.
Mas Capello é sábio como poucos e astuto como nenhum outro.
O técnico italiano sabe que esta Inglaterra pode sonhar com o titulo mundial em Junho. Pela primeira vez em 20 anos está nesse patamar. E qualquer coisa, por minima que seja, poderá distrair e ser utilizada como desculpa. Capello não se importa com as mulheres com quem Terry dorme. É um facto. Mas importa-se com a imagem do grupo. A força do balneário. Bridge é um internacional e pode perfeitamente viajar à África do Sul. E terá de conviver largos dias com Terry. O defesa do Chelsea tem muitos amigos na equipa. Mas Wayne Bridge também. E a última coisa que os Pross precisam é de um tiro no pé.
John Terry errou, como qualquer homem. Errou, como capitão. Quando se descubriu que Beckham teve um caso com a secretaria ninguém se preocupou. Porque não estava em questão o balneário. E em Inglaterra o capitão é o guardião do balneário. Não pode ser o seu detonador. E foi-o. Por isso a decisão de Capello tornou-se inevitavelmente justa. E Terry sabe-o.

Rio Ferdinand e Steven Gerrard são os seus sucessores. Atletas responsáveis pelos balneários dos dois grandes clubes ingleses e que sabem bem o que se lhes é exigido. Se Terry já mostrou falhar várias vezes - as polémicas nos últimos dois anos, desde a saída de Mourinho, têm sido recorrentes - estes dois têm um imaculado historial atrás de si. Limpando essa nódoa negra na camisa branca, o seleccionador inglês continua a preparar tranquilamente o assalto à África do Sul. Quanto a John Terry, que se partou mais como Gascoine do que como Moore, resta-lhe a confiança dos seus em Stanford Bridge e a certeza de ainda existem umas braçadeiras que pesam mais do que outras.
O futebol muitas vezes não deixa de ser um jogo de gato e rato repleto de ratoeiras inesperadas pelo caminho. Durante meses o calendário da Premier League foi uma imensa ratoeira que desequilibrou qualquer matemática possível e imaginária. O Arsenal surgiu, por momentos, como um candidato chave ao titulo. Bastou uma semana para o gato comer o rato, o lobo destroçar a ovelha. O Arsenal continua a ser esse pequena ovelha simpática. E o Chelsea o mais temivél dos lobos.

Hoje é dificil encontrar uma equipa que jogue melhor e seja mais eficaz que o Chelsea.
Em Dezembro uma série de tropeções foram dando azo a várias criticas. As que estavam guardadas na gaveta à espera do momento para sair. Passa com todos, especialmente com os melhores. E este ano ainda não se viu na Europa uma equipa com a intensidade e a qualidade de jogo dos Blues. Comandados por Carlo Ancelloti, que rapidamente se adaptou ao clube e à Premier, os jogadores do Chelsea voltam a exibir aquela aura de grandeza dos primeiros tempos de Mourinho. Parecem invenciveis. E são-no, praticamente. Ao contrário do Arsenal que nunca consegue ser o que tantas vezes parece. Durante meses os gunners foram trepando na classificação e surgiram, subitamente, com legitimas hipóteses de subir ao primeiro lugar. Sem van Persie, o seu único avançado. Parecia o concretizar do sonho mais selvagem de Wenger e todos aqueles que, ano apos ano, se rendem ao futebol rendilhado e cuidado do Emirates. O futebol bem português, como Pedroto uma vez baptizou de "futebolzinho", esse jogo de 3/4. Ao Arsenal, como a Portugal, falta sempre esse último killer instinct que separa os lobos das ovelhas. O Arsenal, ontem, foi mais ovelha do que nunca.
Não por não ter atacado. Porque o Arsenal atacou. Carregou. Centrou. Rematou. Procurou sempre o empate. Nunca a vitória. O Chelsea nunca o deixou sonhar tão alto. O problema é sempre o mesmo. A bola circula bem no meio-campo. Fabregas é um genial pensador de jogo. Mas depois dos seus pés as jogadas vão morrendo. Aos dribles e fintas atractivas sucedem-se centros perdidos e remates sem sentido. Ontem nem tempo tiveram para isso. O Chelsea foi uma máquina do primeiro ao último instante. Não descansou porque o Arsenal não o deixou descansar. Mas também, porque esse termo não está nos genes desta equipa. O meio campo demolidor composto por Mikel-Lampard-Ballack nunca deixou os gunners respirar sequer. Terry e Carvalho defendiam colados a Mikel, bem à frente de Petr Cech. E Cole e Ivanovic foram insuperáveis nos duelos do um contra um relegando Sagna, Walcott e Arshavin para a bancada simplesmente com o olhar. O resultado final de 2-0 acabou por ser um espelho fiel do dominio de jogo do Chelsea e da eficácia de um jogador, que apesar de já ser conhecido por tudo e todos, continua a surpreender: Didier Drgoba.
O marfilenho continua a ser, a par de Torres e Rooney, um dos mais completos pontas-de-lança do futebol mundial. Defendeu furiosamente na linha de meio-campo, começou a montar o tampão bem à frente de Vermaelen. E desde esse instante se percebeu que a ovelha ia morrer asfixiada. Em Inglaterra têm uma expressão certeira para estes jogos: lamb to the slaughter. E assim foi, um massacre da autoria de Drogba.
Este Arsenal não é uma má equipa, nem de longe nem de perto.
Pelo contrário, domina os processos de jogo com facilidade e faz milagres com um plantel curto e constantemente rejuvenescido. Mas dificilmente passa daí. Se olharmos para a mágica equipa do principio da década vemos que eram jogadores maturos. Hoje são as eternas promessas. Imaginar Nasri a isolar-se diante de Cech e simular um remate que nunca chega é lembrar Bergkamp e o seu remate espontâneo. Ver Diaby e Song a trocar a bola na linha de meio campo é ter saudades da rápida movimentação do eixo Vieira-Petit. Essa mutação no plantel reflecte-se no jogo. O Arsenal não tem o punch necessário para ganhar grandes maratonas. Nem os grandes duelos. É uma equipa que tem de sobreviver da regularidade para manter-se vivo em qualquer refrega. Mas que tropeça sempre na Hora H. No ano passado a equipa foi humilhada pela Man Utd na Champions League. Este ano saiu vergada diante de todos os rivais directos. O FC Porto que o tenha em atenção, e não veja um lobo onde ele não existe. Ao contrário do Chelsea, a quem nenhum dos grandes de Inglaterra logrou marcar um golo até agora. Uma equipa para as grandes noites. Uma equipa com que a história tem uma divida pendente de há anos. Será curioso ver o melhor treinador da Europa contra o projecto que criou e que hoje é, mais do que o próprio Barcelona versão Pep 2.0, a melhor equipa europeia.

De lobos e ovelhas se faz o futebol. Quando Liniker lançou a mitica frase sobre a natureza do jogo e a eterna vitória da Alemanha simplesmente personalizava a eterna luta entre lobos e ovelhas. E se a Alemanha e Itália sempre foram esse tipo de lobos insaciáveis e letais, hoje não há equipa que mais se assemelhe a esse espirito do que o Chelsea. Em Stanford Bridge já cheiram o sangue da próxima ovelha. Resta saber se o Inter de Mourinho não é outro lobo, disfarçado de ovelha...
Quem segue habitualmente os sorteios das grandes provas sabe que as regras do jogo estão de tal forma condicionadas que o mais fácil é que se repitam os mesmos cenários. Durante muito tempo Portugal defrontou Irlandas. Agora volta a reencontrar-se com uma conexão nórdica.

Primeira boa notícia.
Portugal está dentro dos grupos de cinco equipas. Isso significa, em primeiro lugar, menos jogos. Menos deslocações. Menos adversários pequenos e irritantes. Menos contas. Se as regras de mais um Europeu com dupla-organização ditam que só se apuram directamente os primeiros e o melhor segundo (os restantes oito disputam, tal como no último Mundial, um play-off), também obrigam a que só contem os resultados entre as cinco primeiras equipas. Isso complica a vida das selecções dos grupos de seis conjuntos, que terão dois jogos que não contarão para nada. Para Portugal todos contam e isso evita andar de calculadora na mão. Não há rivais fáceis. Mas também não há papões. Repete-se o frio do Norte da Europa e uma complicada, mas acessível, viagem aos confins do Mediterrâneo. Vantagens de se ser cabeça-de-serie, apesar de tudo. E de se ter evitado a grande potência nórdica, a Suécia. De resto, só a Finlandia faltou mesmo à festa nórdica que irá desfilar pelos relvados portugueses nos próximos dois anos.
Dinamarca, Noruega, Islandia e Chipre.
Um grupo acessível a todos os niveis e que Portugal pode e deve vencer. Em teoria o adversário directo será o mesmo do último apuramento. Coisas da vida. Os dinamarqueses superaram Portugal na corrida à África do Sul sem nunca terem sido melhores que a armada lusa. Uma vitória conquistada no limite em Alvalade - talvez a derrota mais dura do consulado Queiroz - e um empate lisongeiro na Dinamarca saldam contas. Mais do que a desforra, Portugal terá a oportunidade de confirmar com pontos a superioridade de jogo já evidenciada. Os dinamarqueses são um conjunto compacto mas pouco mais. Definitivamente, pouco mais do que isso.
Quanto aos restantes rivais nórdicos, Portugal ficou com a sorte de evitar suecos e finlandeses. Os noruegueses há muito que vivem das lembranças da sua era dourada da década de 90. Já não há Flo, Solskjaer, Carew e companhia para assustar a defesa lusa. Depois de uma campanha decepcionante num grupo bastante acessível, os noruegueses são hoje uma equipa da terceira divisão europeia. Tal como a Islandia, que apesar da progressão sustentada, pouco mais pode ambicionar do que vencer o derby nórdico que os espera. O pior que pode ditar o sorteio são sempre as viagens às frias paragens nórdicas. Mas até para isso Portugal já se vacinou. Dois empates no ano passado mostraram que Portugal está imune ao frio. E quanto ao calor do Chipre, uma equipa muito a ter em conta com demonstraram as boas campanhas europeias do Apoel e Anorthosis, o importante é a concentração. O resto vem naturalmente.
O Portugal do Euro 2012 será bastante diferente daquele que irá à África do Sul.
Se o sorteio ditou um apuramento acessível - que pode fazer com que a selecção nacional garanta o seu quarto europeu (e séptima prova) consecutivo - a verdade é que há ainda muitas dúvidas sobre o futuro de uma selecção ainda à procura de si própria. O anuncio de Deco, que se retira do futebol internacional após o Mundial, abre as portas às dúvidas que acompanharão Queiroz ou um eventual sucessor. Há jogadores titulares na selecção que começam a chegar a uma idade complicada para encarar grandes provas com todas as garantias. É o fechar de um ciclo que arrancou antes do Euro 2004 e que naturalmente se concluirá noutro campeonato da Europa. Apesar de não haver anuncios oficiais é legitimo pensar que homens influentes como Paulo Ferreira, Ricardo Carvalho, Nuno Gomes, Liedson ou Simão Sabrosa podem falhar a viagem à Europa de Leste onde polacos e ucranianos esperam receber o Velho Continente.
Aí Queiroz terá uma vantagem. O grupo de cinco equipas abre a porta a mais amigáveis para testar soluções de futuro e definir um onze sólido. Um onze onde poderão estar consolidados Rolando, Fábio Coentrão, Miguel Veloso, Varela ou Orlando. E todos aqueles que até lá despontarem.

Um grupo acessível nem sempre é sinónimo de sucesso desportivo. Bastou ver o complicado apuramento ao último Europeu onde Portugal partia com um favoritismo absoluto que nunca se concretizou no terreno de jogo. No entanto a conexão nórdica que espera Portugal não é uma ameaça ao sonho de voltar a fazer história. A equipa das Quinas pode estar à beira de fazer história. Agora só tem de o comprovar no terreno. Faltam 720 minutos...
A partir desta semana o website Futebol Magazine começa a sua cobertura especial ao Mundial de 2010 a disputar no próximo mês de Junho na África do Sul.
A quatro meses do arranque da prova o FM começará uma viagem no tempo relembrando os episódios mais destacados e curiosos das anteriores edições dos Mundiais, começando, de forma inevitável, pela larga viagem ao Uruguai de Jules Rimet, o mentor da competição.
A continuação podem ler o primeiro parágrafo do texto que abre uma série que continuará todos os domingos até ao início da competição. Carregando no link podem continuar a leitura dentro do Futebol Magazine. Boa viagem!

É uma das poucas boas notícias este ano nas margens do Ródano. O temível Olympique vai tendo dificuldades em manter-se na luta pela Ligue 1 e o duelo Champions com o Real Madrid ameaça cortar pela raíz a ambição europeia dos Gonnes. Mas a chegada de um jovem sobrevivente como Maxime Gonalons parece manter um fio de esperança numa equipa a aprender a viver com o fracasso.

Com 18 anos a vida esteve para destroçar um dos mais promissores médio do futebol francês. O jovem Maxime Gonalons, que tinha totalmente passado desapercebido para as selecções jovens francesas, era um desconhecido que brilhava na equipa junior do Olympique de Lyon. No Verão de 2008 foi-lhe detectado pelo médico do clube uma grave infecção no tornozelo. As análises que imediatamente se realizaram deixaram o jovem em estado de terror. Muito provavelmente a sua perna teria de ser amputada. Gonalons não acreditou no diagnóstico e o clube também não. Consultaram vários especialistas e a infecção foi tratada progressivamente. Em meio-ano o jovem médio defensivo voltava a jogar pela equipa de reservas lionesa. No final do ano teve o prémio que há tanto esperava, a convocatória para a primeira equipa. Gonalons não se pôde estrear mas percebeu que o seu futuro tinha passado em pouco tempo do desespero à glória.
Formado na cantera do Olympique de Lyon, o jovem nascido em Venissieux em Março de 1989 revelou-se esta época como um dos nomes próprios da Ligue 1. Estreou-se pelo Olympique no Verão na segunda mão da pré-eliminatória da Champions League. Uma estreia de rompante na prova já que dois jogos depois, já na fase de grupos o jovem marcou o seu primeiro golo oficial pela clube contra o Liverpool. Semanas depois estreou-se também a marcar na Ligue 1 num desafio diante do Nancy. Ao contrário do esperado, Gonalons fixou-se na equipa principal. Muito por culpa da praga de lesões na defesa que obrigou o técnico Claude Puel a deslocar-lo para o eixo defensivo onde actuou por seis vezes esta temporada. É no entanto no centro do terreno de jogo que Gonalons exprime melhor o seu jogo. De tal forma que rapidamente deu o salto à selecção sub-21 francesa, estreando-se num amigável contra a Tunisia. Uma ascensão impressionante de um médio de recorte técnico e com um sentido táctico eximio que faz dele o parceiro ideal de Toulalan e Kallstrom no miolo do jogo do Lyon. A sua formação continua e é de esperar que para a próxima época seja já uma aposta fixa no ataque lionês.

Com meio França em suspenso com a sua evolução, o jovem Maxime provou que a sobrevivência é algo que sai dentro de nós. Num dos seus melhores lances na liga francesa deste ano, um duelo contra o AS Monaco, arrancou com a bola desde a defesa e em sucessivas tabelas foi progredindo até chegar ao outro lado do campo. Disparou para fora mas no seu rosto não se via nem raiva, nem desespero, nem desilusão. Apenas a alegria de um jovem que poderia ter perdido uma vida e que acabou por concretizar um sonho.
Não há catedrais góticas a impor-se sobre o Reno. Em lugar do passado, há futuro. As fábricas e prédios uniformes substituem as velhas e apertadas ruas. E no meio ergue-se o BayArena. Numa cidade que só existiu finalmente quando há muito fazia vibrar as suas gentes o ambiente é de festa. Acabará a maldição do "Vizekusen"?

Caminhar pelas ruas de Leverkusen é como entrar num mundo imaginário. Há 100 anos a cidade não existia. O seu nome deve-o ao primeiro homem que explorou a indústria na zona, um senhor muito sério chamado Carl Leverkus. Mas foi o homem que lhe comprou a fábrica, Friederich Bayer, quem ficou com a fama. A empresa Bayer, lider mundial em antibióticos, tornou-se no eixo central de pequenas localidades que hoje são bairros. A formalização da cidade de Leverkusen chegou já quando a equipa da fábrica disputava de forma sucessiva jogos nas divisões regionais. O futebol antecipa-se sempre ao mundo, mesmo que nunca nos apercebamos disso. A cidade continua a ser uma pequena e trabalhadora localidade onde há pouco espaço para o ócio. Salvo o Bayer04. A equipa tornou-se, desde os anos 80, presença regular na Bundesliga. E por várias vezes roçou o titulo. Acabou sempre por perder e tem apenas duas miseras taças na sua estante que serve de museu. Nenhuma Bundesliga. A imprensa, impiedosa na Alemanha como em qualquer outro sitio, mudou o nome à equipa. Chamavam-lhe o "Vizekusen", o eterno segundo. Terão coragem de continuar a dizer o mesmo?
Há poucas equipas ainda invenciveis nos campeonatos europeus. A esta altura do campeonato pelo menos. O Bayer 04 é uma delas. E parece complicado ver o conjunto rubro e negro cair. É tal a solidez e a naturalidade com que os de Leverkusen encaram desafio que os adversários - Bayern Munchen e Schalke 04, os mais directos perseguidores - vão desesperando. Ora é um desvio oportuno de Stefan Kiesling. Ou um remate colocado de Toni Kroos. Ou então Rene Adler que salva, sobre a linha, um golo inoportuno. Já passou de tudo isto ano na Bundesliga. Menos ver o Bayer 04 sair de cabeça baixa no final dos 90 minutos. A equipa é orientada por Jupp Heynckhes. O técnico alemão foi despedido com uma palmadinha nas costas do Bayern Munchen, depois de ter apagado o fogo que Klinsmann lá deitou para os lados de Munique. Entrou pela porta de atrás em Leverkusen, uma equipa do meio da tabela, simpática. E pouco mais. O trabalho do técnico tem-se notado mas o grande sucesso desta época do clube da Bayer radica ligeiramente mais acima, nos escritórios da direcção. Aí trabalho um desses jogadores polémicos que fizeram história e que agora percebem que nos bastidores, muitas vezes, há mais tempo para brilhar. Rudi Voeller é o grande artifice deste projecto.
O director-desportivo, muito mais tranquilo com o Mundo, montou uma equipa jovem e cheia de ambição. Com um pequeno orçamento foi recrutando jovens promessas e veteranos que ninguém parecia querer. Sammi Hyppia é um improvisado patrão na defesa. E assume o posto de forma imperial. Ao seu lado reune-se a juventude. Daniel Schwaab, Gonzalo Castro ou Luke Sinkiewicz. Todos eles jovens da "Nova Alemanha". Todos eles sedentos de titulos. Nas redes Adler vai provando, semana após semana, que é o herdeiro natural de uma baliza demasiado orfã de Oliver Kahn. O guardião tem um dos melhores registos de eficácia da prova e isso reflecte-se na equipa.
Com uma linha defensiva sólida onde os laterais jogam com uma imensa liberdade, a equipa expande-se num constante 4-4-2 que no terreno de jogo se torna em 2-2-2-2-2. Um meio campo forte onde Arturo Vidal se tem exibido de forma sublime (fazendo esquecer a lesão do promissor Simon Rolfes) na companhia do brasileiro Renato Augusto, uma contratação cirúrgica de que poucos se aperceberam. A vagabundear no meio campo e no ataque uma nova raça de jovens lobos. O suiço Barnetta, os alemães Kiesling e Kroos - este emprestado pelo rival de Munique - e o turco Derdyadok. Nomes que impressionam pouco mas que têm, semana após semana, esmagado a concorrência.

A evolução desportiva da Bundesliga é notória e depois do sucesso inesperado do Wolfsburg na edição do ano passado poucos se atrevem a prever que o cenário não venha a repetir-se. Apesar dos grandes estarem bem perto do conjunto de Leverkusen, a equipa tem lidado bem com a pressão. Enquanto o conjunto ganho no terreno a Bayer vai ganhando com as aspirinas que os rivais têm de ir tomando porque esta equipa está composta por mais do que 11 invictus.
Depois de emergir no Maritimo como um colosso na área e de ter provado a bancada do Estádio da Luz mais do que o relvado, o congolenho que se fez português tem a Turquia a seus pés. Que mutação transformou o azarento Makukula no goleador Ariza?

São 19 golos, uma das melhores médias dos campeonatos europeus. Mais ainda num liga onde jogam dianteiros do nivel de Dani Guiza ou Harry Kewell. E se quisermos ir, ainda mais longe, mais mérito tem por ser lograda numa equipa com expressão minima no campeonato dominado pelos gigantes de Istambul. Mesmo os mais atentos fãs de futebol têm dificuldades em nomear uma equipa turca que não pertença ao trio Bessiktas-Galatasaray-Fenerbache. E no entanto aí está Ariza Makukula, internacional português, a mostrar que a baliza tem o mesmo tamanho em qualquer liga do mundo. Ou será que em Portugal o tamanho é diferente?
Makukula foi resgatado do anonimato pelo futebol espanhol. O seu primeiro contrato profissional foi com o Vitória de Guimarães quando ainda tinha 18 anos. Depois de um ano na "cidade berço" o dianteiro mudou-se para a raia e assinou pelo UD Salamanca. Na II Liga espanhola voltou a dar que falar levando a equipa salmantina até aos Oitavos de Final da Copa del Rey. Aos 20 anos estreava-se como internacional sub-21 de Portugal e viajava para França onde o Nantes o esperava.
As coisas correram mal e rapidamente o avançado de 1m92 voltou a Espanha, como aposta pessoal d a equipa técnica do Sevilla. Nessa altura a equipa andaluza, já liderada pela dupla Jose Maria del Nido-Monchi, e orientada por Joaquin Caparrós, resgatou o avançado e lançou-o aos leões. Makukula deu conta do recado. No Sanchez Pijzuan o possante dianteiro impôs-se de forma clara. Marcou golos de todas as formas e feitios e tornou-se num dos nomes próprios da liga. Chamado à selecção de sub-21 com regularidade - desde cedo que adquiriu a nacionalidade lusa - Makukula surgiu como um possível gigante de área num país onde os matadores tinham estrado em vias de extinção. Depois de anos onde alternou os golos e as lesões - fez parte da equipa que venceu a Taça UEFA, apesar de pouco ter actuado - o avançado acabou por ser cedido ao Maritimo. No Funchal redescubriu a sua faceta goleadora e chegou finalmente à primeira internacionalização A com Portugal. O país parecia ter encontrado um novo ponta-de-lança e o SL Benfica não hesitou em resgatá-lo aos insulares. Só que na Luz o dianteiro passou mais tempo na bancada do que no relvado e os dirigentes encarnados trataram de livrar-se dele face. A Turquia surgiu como uma boa oportunidade no horizonte.

E aqui chegamos, ao presente. Ao momento do golo. No modestíssimo Kayserispor o avançado encontrou-se consigo mesmo. Ágil nos movimentos de área e com o faro de golo apuradíssimo, Makukula está a concretizar uma época de sonho. Por muito paradoxal que possa parecer, é de todos os internacionais lusos, aquele que está em melhor forma este ano. Mais do que Liedson, Nuno Gomes, Hugo Almeida, Orlando Sá e companhia. Numa equipa modesta mas num conjunto que ambiciona fazer história. O clube cumpre este ano apenas o seu 35 aniversário e o único feito na sua história foi ter vencido em 2007 uma Taça da Turquia. Mas este ano as coisas são distintas. O conjunto segue no quarto posto a apenas cinco pontos do lider, o intratável Fenerbache. O avançado português soma 15 golos e a equipa 30. Conversados quanto a eficácia e peso na equipa! A verdade é que a época é longa e faltam mais de quinze jogos até ao final do torneio mas o titulo de revelação da prova já ninguém lhes tira. E a ele também não!
O último golo foi contra o Gazientsport. Decisivo uma vez mais. Carlos Queiroz pode até nem estar atento e talvez as balizas na Turquia sejam maiores do que no resto do Mundo. Mas Makukula está com sede de glória e por terras turcas encontrou o seu retiro espiritual. Resta ver se a segunda volta se revela tão productiva. Porque há poucos goleadores com um passaporte lusitano a tratarem a baliza com o discernimento que tem este bom gigante.
No único jogo da era Jesualdo Ferreira em que o técnico portista deixou de lado o seu habitual modelo conservador e burocrata, o FC Porto esmagou com uma facilidade abrumadora um Sporting que no papel viajava ao Dragão como uma equipa corajosa mas que, na prática, foi uma inevitável avestruz. A vitória por 5-2, mais do que pelos números, reafirma mais uma vez o poder da supremacia creativa no tabuleiro de jogo.

Em teoria o 4-3-3 de Jesualdo Ferreira é mais cuidado e conservador do que o arrojado 4-1-3-2 que Carlos Carvalhal está a tentar implementar até Junho em Alvalade. O técnico do Sporting tinha feito uma interessante recuperação na liga mas a derrota em Braga deixou, uma vez mais, a nu, todas as debilidades da sua equipa. Por isso o seu esquema muitas vezes era um 4-3-1-2 disfarçado, com Moutinho e Veloso a serem forçados a recuar para ajudar um desamparado Adrien. Com Saleiro estático e Liedson domado, a boa vontade de Carvalhal esbarrou com a incapacidade de por em prática o seu plano mais ambicioso. E, acima de tudo, com a perfeita organização táctica do melhor FC Porto dos últimos meses. Jesualdo, que deixou em casa a membros-chave do exército portista, deixou de parte a sua tendência mais calculista e arriscou. E saiu-lhe bem, especialmente porque na sua nova equação mora um jogador capaz de trazer o equilibrio necessário às transições tão do seu agrado. Se até à chegada de Ruben Micael o FC Porto vivia em três secções totalmente separadas, ontem a equipa exibiu-se com uma harmonia inédita. O madeirense pautou o jogo no ataque, trouxe balanço ao sector defensivo e basculou o jogo à sua vontade. O resultado final não poderia ter sido outro.
O jogo começou com a tendência ofensiva dos da casa que esbarrou com a habitual inércia frente aos redes do rival. Foi sol de pouca dura. Por essa altura já João Moutinho era adormecido pelo rápido jogo do triângulo composto por Fernando-Micael-Belluschi. Pela primeira vez alinharam dois elementos criativos, o chamado número 10, num onze azul-e-branco. O Sporting nunca conseguiu lidar com essa dinâmica preparado que estava para mais um jogo de musculo como os muitos duelos entre leões e dragões nos últimos anos. Apesar da boa dinamica foi num confuso lance de bola parada que Rolando abriu o marcador. Um golo justo que ficou ensombrecido pelo empate, um potente remate de Izmailov que Beto não agarrou da melhor forma. O empate era um injusto prémio à passividade sportinguista e rapidamente a equipa da casa levantou cabeça e partiu para uma noite que ficará nos anais do recinto azul e branco. O oportunismo do colombiano Falcao, com dois tentos de belo efeito, e o movimento de Varela, destroçando pela enésima vez a um péssimo Grimi, ampliou a vantagem do FC Porto para 4-1. Por essa altura já Pongolle tinha rendido, sem que se tivesse feito notar, Saleiro e Adrien dava lugar a Matias Fernandez. O modelo de jogo do Sporting manteve-se igual e a dinamica portista também. Num lance atipico na sua atribulada relação com as bancadas do Dragão Mariano Gonzalez marcou um golo de bandeira. A braçadeira de capitão, por uma vez, acentou-lhe bem.

A vitória por 5-2 - Liedson reduziu já depois dos 90 - espelhou de forma clara a diferença de nivel entre Porto e Sporting. Os azuis e brancos conseguiram o lider de meio campo que necessitavam e dão boas sensações para os próximos desafios. Estão em quatro frentes e repletos de problemas internos e externos. Mas no campo a equipa desconectou e funcionou como nunca. Manter o nível será complicado. Mas possível. Já o Sporting foi vitima de uma clara supremacia creativa deixando bem claro que o musculo e o pulmão ajudam mas nunca são suficientes para uma equipa que em Agosto ambicionava em fazer deste o seu ano.
Fartos de verem os clubes da "provincia" proclamarem-se campeões de França, os parisinos olhavam desesperados para o progressivo fim dos pequenos clubes da mágica cidade. Um dia a bolha estalou e um grupo de empresários decidiu que era a hora de Paris ter o seu clube. Num dia 20 mil pessoas contribuiram para o nascimento do Paris Saint-Germain. 40 anos depois o PSG continua a ser um dos maiores fenómenos espontâneos da história do futebol europeu...

Paris tinha estado na vanguarda do foot francês. Clubes como o Racing, o Red Star ou Stade Français tinham sido durante décadas o simbolo da capital. Mas finalizados os anos 60 todos viviam no limbo. A cidade mais icónica da Europa não contava com um clube forte num dos mais reconhecidos campeonatos europeus. Para o ego dos parisinos, habituados a ser sempre o centro das atenções, ver os festejos dos clubes de Rennes, Marselha, Bordeaux, Cannes, Lyon ou Nantes era doloroso. Demasiado.
A ideia geral de que era necessário criar um projecto vencedor ganhava forma em vários circulos. Na Primavera de 1970 o sonho começou a ganhar forma. Os empresários detentores do Paris RFC, uma pequena instituição desportiva da capital, Pierre Ettienne-Guyot e Guy Crescent juntaram vários elementos da elite financeira da cidade. Juntos persuadiram um modesto clube dos campeonatos inferiores, o Stade Saint-Germain a fundir ambos projectos. A ideia foi lançada em debate público e num só dia, a rádio local de Paris anunciou que se procuravam apoiantes para a formação de um clube de futebol de primeiro nível na cidade. Mais de 20 mil pessoas aceitaram comprar subscrições no clube. O sonho tinha conquistado as ruas.
O PSG nasceu oficialmente em Agosto de 1970 mas o projecto já vinha sendo desenvolvido há meses. A equipa foi inscrita na III Divisão e durante três anos foi trepando etapas até em 1974 chegar à Ligue 1. De onde não voltou a cair, o maior recorde de sempre. Por essa altura a cidade tinha abraçado o Paris Saint-Germain como seu. O apoio à equipa tornou o clube no segundo com mais adeptos do país, apenas atrás do Olympique Marseille. Rapidamente se remodelou o Parc des Princes que se tornou na casa do clube. Vários designers contribuiram para a criação de um equipamento e logotipo que representassem a Cidade das Luzes. No simbolo o destaque ia para a torre Eiffel e o berço do rei Luis XIV. O equipamento, inicialmente da marca Le Coq Sportife, sediada em Paris, era azul com uma larga tira vermelha ao centro, também representativa da verticalidade da mitica torre.
Desportivamente o projecto foi um sucesso retumbante. Com muito dinheiro para investir e uma invejável vaga de apoio popular, rapidamente o PSG desafiou os poderes estabelecidos do futebol francês. As presidencias de Daniel Hetcher e Francis Borelli tornaram o clube numa das três máximas potenciais desportivas do país, juntamente com Bordeaux e Marseille. Em 1986, doze anos depois de chegar à elite, o clube venceu o seu primeiro titulo. Em 1994 repetiu o sucesso. Em 1996 venceu frente ao Rapid Wien a Taça das Taças tornando-se no segundo clube francês a triunfar na Europa.
Pelo Parc des Princes passaram vários técnicos e jogadores de renome. Carlos Bianchi, Louis Fernandez ou Safet Suci foram os primeiros simbolos do clube que mais tarde receberia a distinção em 1996 de ser eleito o melhor clube do mundo. Bernard Lama, Paul Le Guen, Youri Djorckaeff, David Ginola, George Weah, Leonardo e mais tarde Pauleta, que ainda hoje é o máximo goleador da história do clube, foram dando prestigio a uma equipa que sempre teve mais glamour que efectividade no terreno de jogo. Desde há várias épocas que a venda do clube pela Canal+, que a principios dos anos 90 tinha adquirido a maioria das acções em bolsa, destabilizou o PSG. A equipa está há várias temporadas fora dos lugares cimeiros apesar da qualidade dos planteis. No entanto os adeptos não deixam de marcar presença regularmente no seu santuário.

Fenómeno espontâneo de uma cidade fascinante que não quis perder o comboio do glamour futebolistico, o Paris Saint-Germain é um autêntico case study. Numa era em que muitos dos grandes da Europa já completaram a centena de anos, o clube surge como um jovem adulto desportivo cheio de vitalidade e energia para os desafios do futuro. É o último grande clube da Europa a nascer, mas parece que nos lembramos dele muito antes da cidade se ter juntado para lhe dar forma.

