Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010

O Barcelona venceu. De forma avassaladora. E acabou eliminado. Sofreu o mesmo tratamento que votou ao Chelsea na época passada e acabou com uma série de invencibilidade sobre-humana. 500 dias depois de chegar a Can Barça, esta pode ter sido a vitória mais importante de Guardiola.

Já se sabem os chavões das vitorias morais de cor e salteado? Não é por aí que vamos.

O Barcelona venceu e mesmo assim perdeu. Venceu em campo. Venceu em atitude. Venceu em futebol. Perdeu no conjunto das duas eliminatórias de uma prova que, no ano passado, abriu a sua sede goleadora. Um cenário anormal? Pelo contrário, um cenário necessário. De tal forma que esta vitória pode ser bem mais importante do que muitos dos titulos ganhos

As lágrimas de Josep Guardiola no final do último Mundial de Clubes tinham um significado claro: "já está". Depois de vencer o Tri em Maio, o técnico sabia que a imprensa - mais até de que os próprios adeptos - iria estar pendente mais dos trofeus ganhos do que do rendimento da sua equipa. E assim foi. Apesar de haver mil e uma teorias sobre o rendimento dos dois "Barças", a verdade é que até Dezembro só se falava em história. Em lenda. Em novidade. A primeira vez que uma equipa vence 6 trofeus num ano. Que um técnico não perde nenhuma competição disputada. Enfim, que uma equipa se assume perfeita. Depois da tremida vitória nas Arábias o ciclo fechou-se. Guardiola chorou porque todo o peso lhe tinha finalmente saído dos ombros. O objectivo fora logrado. História tinha sido feita. Agora a equipa podia voltar a desfrutar do jogo. Até que surge o Sevilla.

 

Há poucas equipas no futebol europeu do nivel do conjunto andaluz.

Um bom técnico, uma direcção desportiva de primeirissimo nível e um plantel, que segundo o próprio Guardiola, "é o melhor de Espanha". E não estará muito longe da verdade. Os sevillistas foram ao Camp Nou vencer por 1-2 num jogo em que Guardiola deu oportunidade a jogadores menos rodados. Acusaram-no de tudo. Assobiaram alguns dos jogadores. De repente parecia que nada do que havia para trás tinha alguma vez existido. A paciência no futebol pura e simplesmente, é uma utopia.

O Barcelona colocava-se assim na iminência da eliminação. A primeira do mandato Pep.

A imprensa da capital esfregava as mãos e antecipava o cataclismo de uma derrota blaugrana. O futebol em campo da equipa de Guardiola tinha baixado uns furos, face à época passada. E no entanto, a equipa seguia lider e tinha apenas 2 derrotas em toda a época. E nenhuma na liga. Os profetas da tragédia fizeram a sua labor e o Barcelona chegou a Sevilla como se tratasse de um jogo de vida ou morte. Um jogo que questionava o próprio projecto. Da unanimidade, o Barcelona tinha passado à descrença pura e dura.

 

Foi eliminado. Era o cenário mais esperado. Mas não como sucedeu. A vitória no terreno provou que, futebolisticamente, o conjunto blaugrana continua a viver um patamar acima de todos os outros.

Pep Guardiola deu uma licção de futebol. Uma vez mais. Aceitou a eliminação com a sua habitual atitude de gentleman que desarma o mais saloio dos criticos. Implacável no jogo de palavras, desarmou tudo e todos. Antes já o tinha feito, em campo. Num Sanchez Pijzuan inundado o Barcelona assinou um dos seus melhores jogos do ano. Talvez até o melhor tal foi o massacre a que o Sevilla foi sujeito. Num estádio onde os andaluzes vergaram o Real Madrid e em que acreditavam ser invenciveis face aos grandes, o Sevilla não existiu. A velocidade de Navas - um miudo supersónico - e o olfacto de Negredo davam, ocasasionalmente um descanso a Palop. Mas pouco. O guardião foi, uma vez mais, o herói.

A equipa catalã venceu por 1-0. Golo de Xavi. O inesperado. O mesmo que foi ontem consagrado, finalmente, o melhor do Mundo. Podia ter sido uma goleada histórica. Messi, Zlatan, Henry, Pedro, Iniesta, Busquets, Bojan. Todos tentaram. Todos podiam tê-lo logrado. A bola aninhou-se sempre nas mãos do gigante Andrés Palop. E aí ficou, segura.

Agora o Barcelona pode finalmente despertar do sonho letargico e ébrio da glória.

Acabou-se o fenómeno do sempre vencer, do nunca cair eliminado. Caiu mas, mais do que cair de pé, o Barcelona ergue-se do peso que o curvava. Tem agora os seus dois objectivos bem definidos. Tem menos cinco jogos nas pernas para preocupar-se. Um mês mais tranquilo. E, acima de tudo, a certeza de que não é invencível. Uma certeza que lhes poderá dar, certamente, o ânimo de voltar a provar o sucesso. O Barcelona do próximo fim-de-semana será certamente o mais motivado da temporada. Guardiola volta a sentar-se tranquilo. A equipa pode voltar a sorrir sem a pressão de serem deuses. Porque o futebol continua a ser o mais humano dos jogos.



Miguel Lourenço Pereira às 08:27 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010

É um verdadeiro globetrotter do futebol português. Aos 28 anos prepara-se para dar inicio a novo ciclo. Em seis anos marcou presença nas principais ligas europeias, sempre em clubes de topo. Mas nunca deu verdadeiramente o salto para o patamar que prometia quando ainda deambulava pelo meio-campo do Braga. Terá ainda um final feliz a história de Tiago?

A neve em Madrid congelou o Vicente Calderon.

No meio do manto branco que cobre a capital espanhola chega Tiago. Depois de um negócio surreal, como só o Atlético é capaz - o jogador assinou, voltou a Turim para disputar o derby e acabou por ser apenas apresentado ontem pelo temporal que cancelou a sua viagem inicial na segunda-feira - finalmente o português aterrou no estádio madrileño. Um estádio habituado a grandes jogadores e com uma profunda relação com o futebol português. Desde os dias de Lourenço. Hoje o atleta, que continua ligado à Vechia Signora, procura uma nova oportunidade. Porque à quinta liga distinta que prova continua a ideia de que Tiago pode sempre dar algo mais. Será aqui?

Em Braga deslumbrou com o seu estilo de jogo elegante. Certeiro no passe, atrevido no remate, foi uma das grandes revelações do inicio da década. A Luz foi o patamar seguinte e aí confirmou o que se suspeitava. Mais do que potencial, ali havia um toque de classe distinto que fazia de Tiago um médio com um futuro de excepção. Se fosse na direcção certa.

 

A forma como liderou um Benfica destroçado por constantes hara-kiris trouxe-lhe a maturidade que em Braga não tinha ainda provado. Na cidade dos Arcebispos era a jovem promessa. Em Lisboa tinha de ser um lider à força. Conseguiu-o de tal forma que José Mourinho, recém-chegado a Londres, não hesitou em convocá-lo para o seu projecto ganhador com o Chelsea. Muitos se surpreenderam com a escolha do técnico. Em lugar de Maniche, que conhecia bem melhor desde os dias da Luz, o técnico preferiu o jovem bracarense. A principio parecia que Tiago destoava naquela equipa repleta de estrelas e operários puros. Makelele e Lampard dominavam o meio-campo e fechavam-lhe as portas à titularidade. Teve de sofrer. No banco. Na bancada. Em casa. Parecia ver o tempo passar e as oportunidades a escaparem-se-lhe das mãos. Foi paciente e acabou recompensado. Começou a jogar. A cumprir as missões delineadas no caderninho do Special One. E fez-se notar. Mas o mundo das estrelas de Londres nunca o entendeu verdadeiramente e depois de dois anos preferiram o musculo de Essien à classe de Tiago. A viagem de troca acabou por ser a lufada de ar fresco que o médio necessitava. Em Lyon foi feliz. Foi um pêndulo. Foi o sócio perfeito do brasileiro Juninho. E voltou a um meio mais de acordo consigo. Pequeno, modesto mas repleto de ambições. Em França Tiago foi verdadeiramente Tiago.

Sem espaço na selecção - e quando o tinha nunca o aproveitava verdadeiramente - e com o Lyon a precisar de fazer dinheiro pensou que viajar a Turim e afirmar-se no meio campo da Juventus. Seria o salto mediático que faltava numa carreira ascendente. A principio parecia que as coisas corriam bem. Mas o futebol pensado e repleto de preciosismo de Tiago não parecia quadrar com a escola mais musculada do Dell Alpi onde Zanetti, Poulsen, Camoranesi, Sissoko eram mais apreciados. E do campo passou ao banco. À bancada. A ter de ter paciência uma vez mais. Aos 28 anos. Pensou que não. Pensou que era a oportunidade ideal de sair bem. Sem dar um passo atrás. Surgiu o Atlético de Madrid. Um clube desesperado, sem identidade e que vive num mundo surreal. Mas onde encontra um velho amigo. E um estilo de jogo que mais se adequa ao seu. Tem seis meses para convencer uma afficion triste e desperada. Tem todas as condições para o lograr. E dar finalmente aquela imagem prometida há largos anos de um jogador que tinha o mesmo perfume de jogo de Rui Costa e a insolência de João Vieira Pinto

Com o 5 às costas Tiago quer ser um dos nomes próprios desta La Liga. Quer voltar a ser um dos nomes próprios do futebol português. Durante meia década foi mais promessa do que realidade. Agora o tempo escapa-se-lhe das mãos. É hora de reencontrar-se consigo mesmo! 



Miguel Lourenço Pereira às 09:18 | link do post | comentar

Terça-feira, 12 de Janeiro de 2010

Pode até ser irónico que tenha sido um português a causar os primeiros calafrios à máxima potência africana. Depois do empate a 0 de ontem a Costa do Marfim está mais perto do que nunca de cair na Fase de Grupos da CAN. O temido rival de Portugal, um dos favoritos de Platini para o Mundial, tem um lado escuro que é oportuno decifrar. Para evitar cair na mitologia bem portuguesa da desgraça.

Antes de mais é verdade que a cabeça dos marfilenhos tivesse estado fora do lugar. O ataque ao Togo era fresco, a zona a mesma e as ameaças de morte que alguns elementos da selecção receberam foram bem reais. Mas isso não explica o empate a zero contra o Burkina Faso. Nem a sensação de que a equipa das estrelas de África deixou em 90 minutos. Nervosismo, incapacidade de reagir perante a adversidade e muitos, muitos problemas de tomar o controlo ao jogo. Notas importantes para Queiroz e companhia.

Para os que acreditam na natural superioridade do Brasil - que também é algo que merece uma análise bem mais profunda do que se parece fazer - a Costa do Marfim seria a inevitável besta-negra portuguesa no próximo Mundial. Afinal é a selecção da moda de África - há meia década concretamente - e uma das selecções melhor armadas do certame. Mas que continua a mostrar um desiquilibrio que pode ser-lhes fatal. Ter Didier Drogba, Kalou, os irmãos Touré, Zokora, Eboué ou Koné é o sonho de qualquer seleccionador. Mas o bósnio Vahid Hallidodzic parece ter problemas bem mais complexos. E que pouco têm que ver com os nomes no terreno.

 

Os Elefantes apenas venceram a prova uma vez, no longinquo 1992.

As duas últimas tentativas - já com Drogba como estrela absoluta - esbarraram no muro egipcio. As ambições para esta edição eram legitimas mas o empate diante do Burkina Fase de Paulo Duarte deixou claro que são ainda significativas as debilidades do conjunto marfilenho. A defesa de quatro com Eboué, Boka, Touré e Demel é sólida mas joga demasiado atrás, deixando um grande espaço de manobra para uma ataque móvel como o português. Se Touré é excelente na marcação homem a homem, a ausência de um ponta-de-lança fixo pode ser um verdadeiro quebra-cabeças, particularmente para Eboué, longe da boa forma que mostrou em Highbury Park há uns anos. Touré, Zokora e Romaric são os carros de combate e trazem o espirito competitivo da liga espanhola. Os sevillistas são excelentes nas transições e Touré é dotado de um nível táctico e técnico soberbos.Mas parecem jogar muito compactados no eixo central, deixando as alas sempre a descuberto. Por aí atacou o Burkina Faso e por aí deve ferir o ataque luso.

Porque no ataque as armas falam por si. Drogba, KalouKoné são os habituais titulares. Doumbia, Gervinho e Keita suplentes de luxo. E no entanto são jogadores que preferem grandes espaços, jogar em velocidade e em contra-ataque. Defesas bem povoadas e distribuidas são o seu antidoto natural. Viu-se durante a qualificação africana. Viu-se ontem. Jogar com uma defesa avançada é suícidio. Utilizar um bloco sólido é o primeiro caminho para neutralizar o ataque da mais temida selecção africana. A Costa do Marfim não deixa de ser uma belíssima selecção, que tem os seus dias. Melhores ou piores. Como qualquer outra equipa. Tem jogadores que decidem um jogo. E um sistema de jogo fluído e que procura a velocidade e o toque antes do calculismo e a força pura. Mas a sua grandeza também se torna facilmente na sua ligeira perdição. E é com essas armas que terá de ser encarada.

A Costa do Marfim pode acabar por vencer a CAN. Precisa de ganhar ao Gana - outro dos favoritos - ou esperar que o Burkina Faso não consiga melhor resultado que eles frente aos ganeses. Mas também pode cair à primeira. Isso pouco interessa a Portugal. O fundamental ficou a nu e é uma base de trabalho útil para Queiroz. Decifrar o código marfilenho é a chave para determinar o futuro de Portugal no Mundial. Encarar o rival nos olhos e feri-lo nos pontos débeis é o que faz uma equipa vencedora. Portugal vai ainda bem a tempo de deixar a débil teoria e tornar-se num perfeito exemplo de mutação prática e competitiva. O futuro o dirá.



Miguel Lourenço Pereira às 14:24 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Haverá ainda quem se lembre da histórica equipa da Real Sociedad que dominou o futebol espanhol a principio dos anos 80. Hoje pouco resta desse clube repleto de história e misticismo. Relegado há ano e meio para a Segunda Divisão, os adeptos txuri-urdin viviam nas sombras. Até agora. Com uma volta por cumprir o sonho da subida é cada vez mais real. E é-o em grande parte graças a Antoine Griezmann.

Ilustre desconhecido no seu país, o jovem Griezmann é uma das grandes promessas do futebol francês. Apesar de ter passado toda a sua carreira no conjunto basco. Nascido em 1991 na Borgonha, o sonho do jovem Antoine sempre foi ser futebolista. Para tal apresentou-se a captações de vários clubes. Um Verão foi até Montpellier, no sul de França. Os responsáveis da equipa local descartaram-no mas um olheiro da Real Sociedad, presente nesse dia, ficou impressionado. Dias depois o jovem de 13 anos mudou-se para San Sebastian com um contrato de juvenil. Durante quatro anos e meio foi trepando pelas equipas de formação da Real Sociedad, sempre com o catálogo de grande promessa. Apesar de ignorado pelas selecções jovens do seu país, em Espanha o seu nome começou a soar familiar. Quando se estreou pela equipa principal de Donosti muitos adeptos esfregavam já as mãos para o poder ver, finalmente ao vivo. Tinha 18 anos e nunca tinha disputado nenhum partido oficial com a equipa B da Real Sociedad, etapa habitualmente fulcral para chegar ao conjunto principal. Foi a finais de 2009 que Griezmann começou a sua etapa como txuri-urdin. Mas o festival futebolistico começou já esta época.

 

Depois de um Verão onde chegou a ser sondado por Lyon e Liverpool, o jovem médio centro passou a figurar nas primeiras escolhas do conjunto azul e branco. No seu primeiro jogo como titular, frente ao Huesca, apontou o seu primeiro golo. Um remate de meia distância que deixava em evidência uma das suas melhores armas. Rápido, preciso no passe e com um disparo potentíssimo, Griezmann é um médio centro equilibrado. O seu 1m74 não o incomoda, particularmente numa liga marcada pela rudeza dos centrais rivais. Durante o Outono foi a grande figura da Liga Adelante. Liderou a Real Sociedad a 12 vitórias que permitem ao conjunto histórico ocupar a liderança da prova com oito pontos de avanço sobre o quarto classificado, o último fora dos lugares de promoção. E se é bem verdade que ainda falta uma ronda completa, no Anoeta já poucos se imaginam fora da Liga de las Estrellas da próxima época. Tendo ao jovem de 18 anos como porta-estandarte.

A sua carreira em constante ascensão começou a despertar a cobiça dos grandes da Europa. O clube basco já reconheceu ter rejeitado ofertas de Lyon, Liverpool, Arsenal e Manchester United para conseguir os serviços do jovem médio. Recentemente o seu contrato foi ampliado até 2015 mas torna-se cada vez mais natural a ideia do jovem Antoine fora do seu estádio de sempre. Os donostiarras jogam de momento à defesa mas parece impossível travar a carreira meteórica da sua maior esperança.



Miguel Lourenço Pereira às 10:36 | link do post | comentar

Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010

Entre a crueza das armas e a inocência dos anfitriões arrancou a CAN. No ano em que o futebol e África se assumem como sinónimos insperáveis o arranque da prova mostrou ao mundo que o Continente Negro continua a ser um caso sui generis nisto da globalização. A bola já arrancou mas poucos parecem importar-se muito.

 

África está de parabens. Pelo menos, devia.

No ano em que arranca o seu primeiro Mundial de Futebol, a CAN serve de antecamara perfeita para tomar o pulso ao futebol mágico do imenso continente. Ou melhor, servia. Ainda nem a prova tem dois dias e já o sangue, o luto e a inocência mancharam de forma inevitável o torneio. A segurança - assunto tão criticado quando Sepp Blatter optou por apoiar a África do Sul em lugar das potências europeias - pode não ser a mesma na África do Sul e em Angola. Mas a verdade é que o ataque à equipa do Togo, que provocou duas mortes e vários feridos, incluindo o guardião titular, deixa a nu o calcanhar de Aquiles do continente. Que o facto tenha sucedido em Angola, um dos países que quer juntar-se à África do Sul como economias emergentes, tem um travo ainda mais amargo. Para muitos o ataque da FLEC coloca o futuro Mundial em cheque. De momento, pelo menos, destroçou o espectáculo futebolistico que é a CAN.

 

Depois do Europeu de Futebol talvez não exista nenhuma competição desportiva tão atractiva como a Cup of African Nations. Mais excitante que a Copa América, muitos furos acima da Golden Cup ou Asean Cup, o torneio em que medem forças as dezasseis mais fortes selecções africanas é o tubo de ensaio perfeito para analisar a evolução do futebol africano. A alternância entre as selecções da "África Negra" com a "África do Magrebe" espelha bem a dinamica desportiva: o futebol de força e táctica contra o futebol de pura técnica. As últimas vitórias do Egipto - bicampeão em titulo, apesar de ter falhado, uma vez mais a qualificação para o Mundial - são, no entanto, enganadoras. O futebol de Aboutrika e companhia é sedutor mas, hoje em dia, também se tornou num oásis. Nunca a África setentrional se mostrou tão fascinante. Da histórica vitória do Gana no último Mundial de sub-20 à afirmação definitiva da Costa do Marfim e Camarões, passando pelas intermitentes Nigéria e Mali. Tudo serve para espelhar esse futebol de raça que tem vindo a evoluir de forma sustentada. E implacável. A migração da esmagadora maioria dos jogadores africanos para as melhores ligas europeias significou uma profunda mudança de mentalidades. A chegada de seleccionadores europeus capazes completou a formação. Hoje as selecções africanas são tacticamente coerentes, fisicamente imponentes e tecnicamente fascinantes. Um producto capaz de ombrear com qualquer equipa europeia. Portugal está avisado.

 

A FIFA investiu muito em África nos últimos 20 anos.

Havelange e Blatter - principalmente este - foram os mentores de vários projectos de formação e de criação de infra-estruturas para preparar o continente para provas deste calibre. Se a evolução na formação tem sido notória, também é verdade que em campos relvados e condições de treino os países africanos começam a aproximar-se do nivel dos rivais sul-americanos e asiáticos. Mas o grande salto foi desportivo, pelo que é legitima a aspiração da organização da FIFA em sonhar com uma equipa africana nos melhores lugares possíveis em Junho. Com um pequeno aparte. As suas melhores formações formam parte dos dois "Grupos da Morte".

No entanto é fáicl perceber que a maturidade não chegou a todos os cantos de África ao mesmo tempo. No continente com mais países do mundo há selecções que ainda estão numa fase pós-amadora e cometem erros de palmatória. É o outro lado do futebol africano. É essa dicotomia que faz esta prova algo fascinante. Se a Copa América é bastante igualada, com dois favoritos destacados, e se o Europeu é a prova mais disputada do Mundo - mais ainda que o Mundial - na CAN há os dois rostos do continente bem presentes. E ontem cruzaram-se para demonstrar que há cada vez menos lugar para a ingenuidade numa prova de alta competição. Mesmo em África. Que uma equipa, motivada por jogar em casa, esteja 4-0 à frente no marcador não é novidade. Que a 10 minutos do fim lidere a contagem por 4-1 também não. Que conceda o empate a 4 nos instantes finais é o espelho claro de que há ainda muito a fazer. Angola ontem foi o espelho da ingenuidade desportiva. Mali, o resultado do oportunismo, da dedicação e do querer de quem tem um trio de ases com o peso dos grandes europeus nas costas.

 

Os próximos dias prometem muita polémica à volta da equipa do Togo - que até contava com algum favoritismo - e muito futebol. Bom futebol. Pelos relvados angolanos andarão alguns dos melhores jogadores do Mundo. De hoje e de amanhã. Essien, Drogba, Kanouté, Keita, Toure, Obi Mikel, Etoo, Belhadj, Diarra, Inkoom são apenas alguns exemplos. A realidade é que África é um continente cada vez mais consolidado. Já não é só a liga francesa que recebe os melhores productos da sua infinita formação. Mais completos que o jogador brasileiro, os africanos querem fazer deste o seu século. A festa começa agora. Apesar dos tiros. Apesar das lágrimas. Apesar da ingenuidade, não há nada como o fresco cheiro do relvado africano...



Miguel Lourenço Pereira às 12:15 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Sábado, 9 de Janeiro de 2010

Hoje em dia qualquer treinador gosta de ter como pivot defensivo um jogador com caracteristicas particular: deve ser alto, possanto, rápido, bom a sair com a bola nos pés e possante. A juntar isso, preferencialmente, de origem africana. Um contexto hoje banal em qualquer liga europeia. Mas houve uma época em que a situação era bem distinta. Até que apareceu no Arsenal Patrick Vieira. O marechal está de regresso à Premier!

Há um antes e um depois na concepção táctica do médio defensivo com Patrick Vieira.

É provavelmente um dos jogadores mais completos das últimas décadas, um médio de encher o campo com a precisão dos seus movimentos. Possante como poucos, elegante de forma súbtil, Vieira foi o fiel da balança da equipa que redefiniu o jogo bonito a finais dos anos 90. Arsene Wenger percebeu rapidamente que o então jovem médio francês era o elemento ideal para equilibrar a sua balança. Levou-o para Higbury Park - com outro francês de enorme classe, Emanuel Petit - e montou um meio-campo que faria história. Antes de Vieira os médios-defensivos eram habitualmente jogadores baixos e entroncados. Viviam do choque, do golpe e poucos sabiam sair a jogar com a bola. Eram elementos fisicos, operários em equipas de charme. Com Vieira passaram a ser refinados, inteligentes e óptimos leitores de jogo. Com o Arsenal e a França de finais dos anos 90 o médio-defensivo tornou-se no primeiro pensador de jogo ofensivo. Distinto da escola do 4 do Barcelona - onde pontificava então Guardiola - o médio francês era o perfeito aliado do corpo e mente. A sua origem africana - nasceu no Senegal - dava-lhe a força e resistência perfeitas para o lugar. A sua classe definia-o como um jogador desiquilibrante a qualquer momento do jogo.

Durante 10 anos Patrick Vieira viu nascerem sucessivos clones do seu estilo de jogo.

O sucesso do Arsenal de Wenger - onde o médio combinava na perfeição com Petit, Pires, Ljunberg, Bergkamp e Henry - levou a que quase todos os treinadores começassem a procurar imitar o seu modelo de jogo. Encontrar médios fortes fisicamente e de bom toque de bola passou a ser a prioridade em cada defeso. Mourinho encontrou Costinha no FC Porto, o ganês Essien e o nigeriano Obi Mikel no Chelsea e Muntari no Inter. O Barcelona conta com a dupla Keita-Touré. O Real Madrid viveu largos anos à sombra do trabalho de Makelelé. Em França qualquer equipa começou a trabalhar no mercado africano os Diarra, Haruna, Mensah e afins e até mesmo a Itália dos médios-defensivos clássicos não deixou de procurar as suas alternativas e recebeu de bom grado os "gigantes africanos" que seguiam a escola do mestre senegalês. O método Vieira era uma forma refinada de aliar a constante exigência do futebol de alta competição contemporâneo. A passagem da maioria das equipas a um 4-3-3 com um pivot-defensivo (que mais tarde gerou o 4-2-3-1 hoje tão a uso) pedia um jogador que fosse uma âncora defensiva mas que também desse a possibilidade à equipa de começar a jogar rapidamente desde o seu bloco defensivo. Médios excessivamente fisicos da onda de Roy Keane ou Mauro Silva perdiam essa lucidez. Médios excessivamente técnicos como Sammer, Mathaus, Guardiola e companhia eram demasiado ligeiros para arcar defensivamente com o duro jogo do ataque rival. Vieira tinha tudo o que era necessário. E a sua explosão foi revolucionária.

 

Depois de ter arrancado ao lado de Zidane - com que formou uma dupla histórica na equipa dos Bleus de 1996 a 2006 - no Cannes, o médio passou pelo AC Milan antes de ser repescado por Wenger para o seu novo projecto em Londres. Aí esteve sete anos e deixou uma profunda marca no estilo de jogo ofensivo da equipa londrina. Apesar de indisciplinado, Vieira era respeitado por tudo e todos e a sua saída, para a Juventus em 2005 foi um duro golpe às pretensões europeias de Wenger, como este viria a admitir. Desde então o francês procura um sucessor ao médio, de Diaby a Denilson, passando por Flamini e Fabregas, numa primeira fase mais recuado no campo. Sem o mesmo efeito.

Vieira foi feliz em Itália. Dominou a seu belo prazer o meio-campo da Juventus e permitiu a Del Piero, Nedved, Ibrahimovic e Trezeguet a mesma liberdade que dava aos companheiros do Arsenal. Com a descida de divisão do clube de Turim seguiu o sueco e mudou-se para o Inter, onde entrou em colisão com Mourinho. Curiosamente o português é um dos maiores apreciadores do seu estilo de jogo. Mas é pragmático. O Vieira de hoje em nada se assemelha ao jogador que há dez anos deixou a Europa boquiaberta. E deixou-o partir

Por isso Patrick Vieira volta à Premier League.

O Manchester City, novo rei dos milhões, acredita que o francês ainda tem qualidade para equilibrar o meio-campo dos citizens. Uma aposta pessoal de Mancini, o seu primeiro técnico em Milão. Apesar do conjunto de Manchester contar com um meio campo sólido (Johnson, De Jong, Weiss, Barry), o técnico vê o médio francês como a chave para encontrar o equilibrio perfeito. A expectativa é imensa. A recordação de Vieira é forte e em ano de Mundial o médio quer ter a sua última oportunidade. Consiga-a ou não, Patrick Vieira é parte da história viva do jogo, uma lembrança inesquecível de três equipas chave para compreender a evolução futebolistica dos últimos 15 anos. Um homem nascido para ganhar!



Miguel Lourenço Pereira às 19:36 | link do post | comentar

Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010

Mais do que preocupantes, o estudo publicado pelo site Futebol Finance espelha uma realidade desoladora. O producto que mais vende nas televisões nacionais e que, supostamente, é o "ópio do povo" luso, é mais visto in loco nos estádios da Bundesliga 2, a segunda-divisão alemã, do que na liga portuguesa. Afinal, em Portugal há ainda quem goste de futebol?

O Século XX português ficou cunhado com a popular expressão "Portugal dos Três F´s". Havia Fado, havia Fátima e sobretudo, havia Futebol. Havia estádios repletos, semana atrás semana, com adeptos de pé durante hora e meia num apoio incessante da equipa. Havia jogos de reservas e juniores com mais espectadores que muitos encontros de equipas da I Divisão e raro era o adepto que não tinha visto mais de 15 jogos ao ano no estádio do seu clube ou em oportunas deslocações. O país respirava efectivamente o jogo pelos poros e apesar de ser conhecido por toda a Europa pela sua impaciência, também é verdade que os grandes jogos europeus em estádios como a Luz, Alvalade ou Antas eram um verdadeiro pesadelo para os mais fortes rivais. Mas isso era dantes. Quando Portugal era, efectivamente, uma liga de dimensão internacional. Uma prova respeitada e que era capaz de impor o seu nome. Apesar da popuñação, apesar dos negócios milionários, apesar das estrelas. Hoje, o cenário é totalmente o oposto.

O estudo divulgado pelo Futebol Finance indica que a Liga Sagres portuguesa é a 12 mais vista nos estádios da Europa. Isto num estudo onde se analisaram 15 provas. A média de adeptos nos estádios portugueses ronda os 10 000 espectadores. Uma média que depende, excessivamente das habituais assistências no Dragão ou na Luz, onde regularmente se superam os 35 mil espectadores. Imediatamente depois está Alvalade e logo a seguir um imenso hiato até cair nas degradantes assistências que ás vezes nem roçar o milhar de adeptos.

Problemático não é apenas o baixo valor de adeptos que se deslocam aos recintos para ver, in loco, o jogo. Nessa mesma classificação, liderada pela Bundesliga - hoje em dia uma das mais dinamicas provas europeias - com 42 833 adeptos de média por jogo (a média de ocupação dos 18 estádios é de 48 mil, o que indica uma presença superior aos 90% em cada jogo) - Portugal encontra-se atrás da Premier League, La Liga, Serie A e Ligue 1. Mas também da Liga Escocesa, Belga e Suiça. E pasme-se, da Division One e Bundesliga 2, as segundas divisões de Inglaterra e Alemanha. Um resultado que coloca em cheque o adepto e o futebol português.

 

Já muito se leu e escreveu sobre o porquê da fraca assistência nas bancadas portuguesas. Um país que se diz tão amante do beautiful game não pode, pura e simplesmente, ter uma assistência inferior a um país como a Suiça ou Bélgica, muito inferiores em população mas também a nivel desportivo. As habituais desculpas dadas em Portugal não funcionam no resto da Europa. É verdade que em Portugal se joga de sexta a segunda-feira, maioritariamente em horários nocturnos para agradar à cadeia de televisão que tem os direitos da prova. Uma situação impensável em Itália e Espanha, onde só se jogam sábados e domingos e preferencialmente pela tarde. Mas em Inglaterra há jogos quase todos os dias da semana, com jornadas em atraso e encontros para várias provas. Nas principais divisões. E todos os jogos estão com as bancadas cheias. 

Também há quem fale nas deficientes condições de alguns recintos. Um argumento válido talvez para pequenos estádios como a Mata Real ou o estádio dos Arcos. Mas incompreensível quando a prova recebe jogos em estádios construidos para um Europeu de Futebol há menos de uma década. Ver um jogo da liga escocesa, belga ou suiça é encontrar-se muitas vezes com estádios de mais de 50 anos. E que o aparentam. 

Pensamos então noutra queixa habitual, a falta de qualidade desportiva. Realmente a qualidade de jogo do futebol português tem vindo a cair ao longo dos últimos anos. Mas também está claro que as equipas do meio da tabela em Portugal podem ombrear com os rivais escoceses, suiços, belgas e, certamente, com as divisões inferiores de Alemanha e Inglaterra. Não se pede - de momento - assistências ao nivel da Premier League ou La Liga, mas todas as semanas há bons e maus jogos em qualquer liga do Mundo. Só que os portugueses não perdem tempo em ir vê-las.

Por fim chega a questão final: os preços das entradas.

Num país que vive praticamente em crise desde a sua génese, a principal queixa é a falta de sensibilidade dos clubes à hora de colocar os preços dos bilhetes à venda. Afinal os jogos no bar custam um café ou pouco mais. Mas se virmos que já houve várias iniciativas de entrada gratuita, descontos e bilhetes a baixo preço - e que os preços mais altos são praticados em jogos com os grandes clubes, que já por si mobilizam sempre o grosso dos adeptos - continua sem ser perceber o vazio dos lugares durante um encontro de futebol. E fica a dúvida instalada. Será que os portugueses gostam mesmo de futebol?

 

Imaginar uma equipa despromovida em Portugal é um pesadelo. Insultos, lenços brancos, cânticos insultuosos. Já se viu de tudo. Viajamos a Inglaterra e vemos 55 mil pessoas de pé no St. Jame´s Park a aplaudir o onze do Newcastle que levou o histórico à despromoção. Parece que estamos num filme de ficção-cientifica. Quem nunca saiu do rectângulo pode achar que o comportamento do adepto português é comum lá fora. Não o é. Os milhares de adeptos que seguem a equipa em jogos fora em Espanha, França, Itália, Alemanha e Inglaterra são impressionantes. A "Mareona" de adeptos do Sporting Gijon, um histórico espanhol que só na época passada voltou à I Liga depois de largos anos nas categorias inferiores, leva aos recintos que a equipa visita mais de 5 mil adeptos quinzenalmente. O Leeds Utd, a militar na terceira divisão inglesa, logra deslocar em jogos fora mais de 10 mil adeptos. Em Inglaterra aplaude-se uma derrota, se a atitude for boa. Assobia-se, grita-se, mas ainda se vive a cultura de que o adepto vai ao estádio para apoiar. Em Portugal vigora a tese de que é a equipa quem tem de puxar pelo adepto. O comodismo supera a devoção.

 

Depois de todas as inovações, das pipocas, bebidas e aquecimento central, das coberturas caras e dos lugares primorosamente desenhados para dar mais e mais comodidade, cada vez menos se vê um adepto português nas bancadas. Cada vez menos se vêm miudos a jogar nas ruas. Sempre é melhor a Playstation. O futebol de formação está destroçado, não só nos grandes clubes. Os pequenos clubes de bairro que subsistiam formando os jovens da zona nas suas primeiras etapas fecham portas ano atrás de ano. E históricos como Boavista, Farense ou Beira-Mar caem nas últimas divisões sem apoio nem interesse por parte dos seus associados. Há excepções como a Alma Salgueirista, os adeptos do Vitória de Guimarães ou o grupo de adeptos do Leixões. Mas são exiguas para uma realidade preocupante. E o problema não está já em decidir ficar em casa ou num café a seguir um jogo que podia ser visto ao vivo. Está na consequência dessa decisão. O adepto português tornou-se num adepto de bar sem cheiro do relvado. Vive das trifulcas dos presidentes - que só em Portugal têm tanto mediatismo - das arbitragens e das decisões dos técnicos. Nunca da táctica, do jogo, da experiência. Vivem de costas voltadas para o relvado.

Portugal está a atrvessar uma crise existencial em muitos sectores da sociedade. E sempre se tentou veicular a ideia de que o futebol era a salvação. A selecção nacional, os tais seis milhões de adeptos do SL Benfica que nunca ninguém viu, tudo isso rodeava a aura de imensa popularidade do jogo. O Euro 2004 ainda hoje é lembrado em toda a Europa como uma das provas desportivas com maior mobilização popular. Mas hoje em dia, no futebol português, as bancadas nuas, os adeptos desconectados e os jovens sem uma bola nos pés, contam-nos outra história. Bem mais triste. E é cada vez mais seguro poder dizer-se que há cada vez menos gente em Portugal que realmente ame o mais belo dos jogos.



Miguel Lourenço Pereira às 08:56 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010

Foi uma das máximas estrelas do último Campeonato de sub-20 Sul-Americano. E não é para pouco. Aos 20 anos de idade é a máxima promessa do futebol paraguaio e já começa a cheirar os relvados europeus. Em Villareal esperam ansiosamente toques de magia da sua nova estrela. Um tal de Hernan Pérez. 

 

 

Rápido, com um remate potente e uma qualidade de toque inusual, Perez é um dos mais excitantes futebolistas sul-americanos dos últimos anos. Aos 13 anos começou a dar nas vistas do pequeno clube de bairro onde passava horas a treinar ao lado dos mais velhos. O Cristobal Colon de Nemby tornou-se pequeno, demasiado pequeno. Em 2005 chegou o Tacuary e com ele a projecção. Começou por actuar na equipa junior mas rapidamente deu o salto para o plantel principal com apenas 16 anos. Destacava-se já a velocidade e os pés habilidosos. Meses de treino tornaram-no mais disciplinado e menos conflictivo. Os vários vermelhos que recebeu no primeiro ano, fruto do seu temperamento algo irrascível, foram desaparecendo. A maturidade tornava-se efectiva na mente do jovem que sonhava em dar o salto. Em 2008 esteve prestes a conseguir passar para a Europa mas o interesse do Sporting esfumou-se nos milhões envolvidos. Acabou por mudar de casa mas para o Libertad, um dos grandes do Paraguai.

 

O clube abriu-lhe as portas da selecção sub-20 e foi com ela que no Inverno de 2009 se deslocou à Venezuela. Perez foi um dos melhores do torneio. O jovem guarani destacou-se como falso extremo direito. O seu poderoso pé esquerdo permite-lhe descair para o coração do meio-campo e actuar atrás dos avançados. E nas bolas paradas é simplesmente letal. Provou-o com três golos de livre directo. Os paraguaios não levaram o trofeu - perderam na final com o Brasil - mas deixaram o seu nome escrito a ouro. Perez foi o melhor marcador do torneio e eleito de forma indiscutível como um dos melhores da prova, entrando no onze tipo.

 

 

O Verão tornou inevitavel a sua saída.

O Villareal, perito em descobrir pérolas jovens, particularmente no mercado sul-americano, não hesistou e contratou o jovem para a sua equipa B. Actualmente a militar nas divisões secundárias, a Perez pede-se-lhe que respeite o periodo de adaptação. O técnico Marcelino já o chamou várias vezes para treinar com o plantel principal e aos 20 anos Hernan Perez está pronto para dar o salto e liderar uma nova era do "Submarino Amarelo" que tem feito uma verdadeira recuperação na liga espanhola. E os adeptos vão esfregando aos mãos vendo as noticias que chegam do filial. O perfume guarani de Perez já chegou a Castellon. Falta agora que o vejo o resto do Mundo.

 



Miguel Lourenço Pereira às 16:47 | link do post | comentar

Segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010

Vitória do Leeds United em Old Trafford. Um resultado que não é nem histórico, nem surpreendente. Há uma boa década atrás. Hoje em dia é um pequeno grande milagre que só uma prova com a magia da FA Cup era capaz de nos presentear. Uma bela forma de arrancar o ano.

Depois do Boxing Day e das três jornadas de final de ano que provaram que há mais luta daquela que se imaginava a principio de Dezembro com o Chelsea a sofrer multiplos tropeções, o Arsenal a provar a sua subida de forma - mesmo sem van Persie - e o Manchester United a dar uma no cravo e outra na ferradura havia algo mais. Em Inglaterra, se há algo mais importante que a liga, é a FA Cup. A mais antiga competição da história do desporto-rei, a Taça de Inglaterra, como é mais conhecida fora das ilhas, é uma competição que todos os técnicos querem ganhar. Por muito complicado que esteja o panorama na liga ou na Europa, negligenciar a prova significa uma grosseira reprovação do público, habituado aquelas tardes inesquecíveis no velho Wembley, hoje transformado num multiusos sem alma. E se alguém sabe bem do que falo, esse é Alex Ferguson. Em 2000 abdicou de participar na prova por preferir viajar até ao primeiro Mundial de Clubes no Brasil. Os adeptos assobiaram o seu técnico pela primeira vez em largos anos e a fraca imagem deixada no Mundialito só piorou as coisas. Mas nunca os Red Devils tinham sofrido como este fim-de-semana.

Minuto 19 em Old Trafford. Um lançamento rápido e um desvio oportuno. Estava feita história num desses simples gestos que definem o contundente futebol inglês. Um jovem desconhecido, Jermaine Beckford, logrou o que nenhuma das estrelas do conjunto rival conseguiu em largos 90 minutos. Não só era a primeira vez que o Manchester United era eliminado na primeira ronda da FA Cup no consulado de Ferguson. Era também a primeira vez que era eliminado por uma equipa da League One - a terceira divisão do futebol inglês. Que essa equipa seja um dos dois grandes rivais extra-muros do United torna a tarde ainda mais dramática. Que essa equipa seja o Leeds United torna o futebol ainda mais belo.

A histórica formação do Yorkshire, a terceira máxima força do futebol inglês a norte das Midlands - a par do Liverpool e Man United - agoniza nos escalões secundários. Vitima de uma politica financeira desastrosa, o Leeds United que abriu a década como uma das melhores equipas da Europa, fechou-a no topo da tabela da League One. Sem as estrelas que marcaram a década desportiva do clube - Kewell, Smith, Viduka, Bridges, Woodgate, Ferdinand e afins - o conjunto de Elland Road aposta agora na sua formação e a vitória em Old Trafford parece indicar que estão no bom caminho. O apoio incansável dos 9 mil adeptos do Leeds prova bem que o clube está vivo. Mas a precisar de dinheiro e estabilidade para trepar na classificação. A eliminação de um velho rival pode ser o suplemento de oxigénio necessário em Leeds para atacar a subida.

Nem Giggs. Nem Owen. Nem Berbatov. Nem Rooney. Um quarteto de luxo que não soube dobrar uma defesa composta por adolescentes. A derrota do United depois de uma goleada ao Wigan diz muito desta versão do conjunto de Old Trafford. Sem Cristiano Ronaldo e Carlos Tevez a equipa perdeu em garra e contundência. Rooney está a fazer uma boa época mas Giggs - depois de um excelente arranque de ano - Owen e Berbatov parecem pouco talhados para os momentos dificeis. O bulgaro continua a ser um case-study. Se de Owen se sabia que era um jogador marcado pela inconstância e se Giggs tem a eterna desculpa da idade, já Dimitri Berbatov continua a dar razão a quem o aponta como uma das piores contratações da década de Ferguson. Com ele em campo a equipa não rende tanto, não ataca tão bem e falha muitos, muitos golos. Ferguson insistiu com ele no duelo contra o Leeds depois das boas indicações dos últimos duelos para a liga mas há algo no avançado que continua a não funcionar. E que começa a ser verdadeiramente preocupante. Apesar dos tropeções do Chelsea - que agora perderá Obi Mikel, Essien e Drogba - este United parece pouco talhado para os grandes titulos e algo terá de mudar radicalmente em Old Trafford se a equipa quer conseguir o histórico Tetracampeonato.

No meio do duelo pelo titulo e da magia de uma tarde de taça, em Leeds festejou-se como há muito a cidade não via. As camisolas brancas voltaram a subir ao mais alto e por uma vez foram capa de jornais pelos motivos certos. Quem se lembra das históricas formações de Elland Road sabe o quão importante é para o futebol inglês contar com um Leeds forte na Premier League. Contamos os largos dias que teremos de esperar ainda pelo regresso. Sabendo que terá de acontecer eventualmente...



Miguel Lourenço Pereira às 09:12 | link do post | comentar

Sábado, 2 de Janeiro de 2010

É um dos rostos mais cintilantes da nova Alemanha. Um país que redescubriu o futebol belo e eficaz e que tem dominado a formação europeia nos últimos três anos. Lewis Holtby é mais do que puro atrevimento. É a junção do descaro, da força e atrevimento de uma nova geração que quer recuperar uma velha tradição e voltar a colocar a Alemanha no topo. 

É curioso que um dos simbolos da nova Alemanha seja filho de um inglês. Uma dessas ironias da vida que só o cáustico humor germânico poderia suportar. A influência paternal levou o jovem Lewis a eleger o Everton como o clube do seu coração. Um sonho que é conhecido em Goodison Park. No entanto desde sempre o jovem assumiu que queria jogar pela Mannschaft, onde tem vindo a subir, etapa a etapa, cada uma das selecções de formação que têm deslumbrada a Europa.

 

Lewis Holtby nasceu a 18 de Setembro de 1990 em Monchenlagdbach. O pai era um oficial inglês instalado na base local e a mãe uma professora local. Aos quatro anos o jovem já jogava nas escolas de formação do modesto Gerderath, o clube do bairro da sua zona. Esteve aí até aos 11 anos quando o Borussia decidiu repescá-lo à sua filial e lançou-o na sua equipa de infantis. No entanto três anos depois o jovem foi dispensado. O clube invocava as fracas condições fisicas que apresentava mas o Alemania Aachen não teve problemas e contratou-o de imediato. Holtby começou a actuar muito cedo na equipa dos juniores e em 2007 estreou-se com 17 na equipa principal. O Aachen actuava na Bundesliga II e as suas exibições começaram a ser seguidas pelos dirigentes do vizinho Schalke 04. Um ano depois o jovem assinava um contrato de larga duracção e era integrado no plantel principal do conjunto de Gelsenkirchen. Por essa altura o seu nome era já um dos referentes da formação germânica tendo actuado pela equipa campeã da Europa de sub-19. Era uma estrela em potência. 

 

Com 2009 chegou a sua definitiva afirmação. Primeiro no Schalke 04 onde foi encontrando, a pouco e pouco, o seu espaço. O jovem extremo tem sido utilizado com regularidade desde o banco de suplentes e o técnico Armin Veh, sagrado campeão pelo Wolfsburg, não hesita em declará-lo como o melhor património da equipa de Gelsenkirchen. A época de Holtby foi suficiente também para incluí-lo no onze da selecção da Alemanha que viajou até ao Egipto para disputar o Mundial de sub-20. Os germânicos cairam apenas aos pés do Brasil e Holtby apontou dois golos, um dos quais na eliminatória frente ao escrete. Foi eleito um dos melhores do torneio. De então para cá tem-se afirmado na equipa do Schalke e termina o ano como um dos jogadores mais utilizados.

 

Rapido e letal nos sprints, Holtby utiliza toda a sua velocidade para trazer verticalidade à equipa. É uma especie de jogador quase já inexistente na Bundesliga e o seu poderoso remate, aliado a uma imensa resistência têm-no transformado numa das mais brilhantes pérolas do futebol germânico. Sem a omnipotência fisica e o ritmo demoníaco dos panzers germânicos Lewis Holtby segue a nova escola germânica onde pontificam também Mezut Ozil ou Christopher Butchmann. Sinais de uma nova Alemanha.



Miguel Lourenço Pereira às 14:49 | link do post | comentar

Sexta-feira, 1 de Janeiro de 2010

Os finais de anos, décadas e séculos são propicios a estas análises que feitas a quente deixam sempre escapar pormenores que só num par de anos se tornam claros. Num mundo como o futebol resumir 10 anos é tarefa hérculea porque ficamos sempre sem saber a quem pertenceu essa década? O futebol é universal e cada adepto, jogador, técnico, arbitro e dirigente terá a sua década, a sua história, os seus momentos. O jogo, esse, continuará a viver dos 90 minutos mágicos que só no futuro deixarão perceber as pequenas nuances do que apenas significa virar a página e um número no calendário.

 

1 de Janeiro de 2010.

O Mundo está exactamente igual ao 31 de Dezembro que já nos parece tão distante. O Barcelona continua a ser treinado por Guardiola e o Chelsea continua a ser uma máquina de futebol. Mourinho é contestado, Jesualdo assobiado e o Bayer Leverkusen e Bordeaux são as rainhas das médias ligas europeias? Algo mudou de há um dia para cá? E no entanto mudamos o ano, a década e tudo o mais. Alguém se lembra hoje daquele 1 de Janeiro de 2000? Dessa inicio de uma década histórica como qualquer outra, com momentos inesquecíveis e noites para afogar eternamente as mágoas? Como lembrar estes últimos dez anos? Quem recordar nesta década que acabou? Que momentos ficam? Há lugares comuns que nos levam aos feitos gloriosos que a história imortaliza. Uma década que teve dois Mundiais com dois campeões distintos e pouco espectaculares. Uma década de ouro para o futebol português que viveu as suas melhores e piores noites? Ou lembrar o lado negro, a queda nas divisões inferiores de vários históricos que não sobreviveram ao constante endividamento? Um adepto do Boavista viverá a década do titulo ou da queda na II Divisão B? Um adepto do Benfica lembrar-se-á do único titulo logrado em 10 anos ou da morte de Miklos Feher em Guimarães? Onde pairam os adeptos do Salgueiros, Farense, Campomaiorense, Estrela da Amadora, Alverca, Moreirense e afins que estiveram lá em cima antes de cairem bem lá em baixo?

 

Com que galáxia ficamos, a de Zidane, Figo e Ronaldo ou a de Kaká, Benzema e Cristiano Ronaldo? Sabe melhor um passe milimétrico de Xavi para Messi e seis taças à mistura ou uma desmarcação de Ronaldinho com o Bernabeu a aplaudir? De quem se lembrará primeiro neste momento José Mourinho? Da noite em que vergou o Sporting na Luz, nas vitórias do pequeno Leiria, dos titulos europeus com o FC Porto, na histórica era do Chelsea ou no seu Inter? Uma década é muito tempo, muito tempo para quem tem apenas 90 minutos. Resumir o jogo é complicado. As televisões trataram de rebaixar o futebol aos golos, aos lances violentos e ás fifías. É preciso encaixá-los nesses micro-resumos a que chamam noticiário desportivo. Perdem as fintas, os passes, as recuperações de bola, os cortes de cabeça, os lances estudados e aqueles remates que por pouco não entraram. Uma década é incapaz de os resumir a todos. 90 minutos menos ainda. O futebol continua a ser o jogo mais belo. E continua a ter, mais coisa menos coisa, essa duração cronometrada. Nela cabem os lances de Ronaldinho, Zidane, Xavi e Cristiano Ronaldo, os mais da década. Ou as defesas de van der Sar, Baía, Cech ou Casillas. As tristezas e alegrias, a história e a vergonha. As mortes no relvado e nas bancadas. Os gritos de dor e de extâse. No futebol cabe a vida. Em 90 minutos cabe muito mais.

 

A nova década começa com as mesmas interrogações de quem vive o presente a querer antecipar o futuro. Alguns jornais divertem-se a inventar imagens e gráficos e mostrar já a fria noite do 31 de Dezembro de 2009 com um Ronaldo envelhecido a tentar mais um livre de folha seca. As pessoas adoram imaginar o futuro. E muitas vezes esquecem-se do presente. Do momento. Quando a década arrancou poucos imaginariam quase todos os eventos que a iriam marcar. Os adeptos do Chelsea não acreditavam que um desconhecido Mourinho os ia fazer grandes. Em Barcelona era impensável sonhar com tudo o que foi ganho e perdido. Nas Antas os adeptos apanhavam frio sem sonhar com a quente Sevilla e a mágica Gelsenkirchen. A magia do futebol está aí, na sua total imprevisibilidade. Imaginar hoje o alinhamento de Portugal nesse Mundial de 2018 é um exercício de pura arrogância. O jogo obriga-nos a esperar. E assim será sempre.

 

Olhar para trás e resumir a década é um exercicio aparentemente fácil. Na realidade é uma conta impossível. Faltará sempre algo, faltará sempre tudo. Ficar com o ouro e perder a prata. Perder horas a resumir segundos. Deixemos para o tempo, que para isso é infinito, essa vã tarefa. Olhemos para o futuro e não é preciso olhar tão longe. Esqueçam o tal 31 de Dezembro de 2020. Está aí já o dia de amanhã!


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Miguel Lourenço Pereira às 11:07 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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