O futebol vive de titulos. A história precisa de algo mais para escrever-se com H maiúsculo. O Pep Team desafiou a filosofia blaugrana e ajudou a enterrar, de uma vez, o espirito derrotista do clube de Barcelona. Culminou um trabalho de gerações no presente mas sem nunca descurar o futuro. Thiago Alcântara é o protagonista do amanhã. A referência a seguir, o exemplo perfeito de como uma filosofia subsiste quando a bola entra ou quando a bola bate na barra. Este Barcelona eterniza-se porque jogadores como Thiago estão preparados para tomar o testemunho.
Hoje em dia é fácil ver como a maioria dos clubes procura que as suas camadas de formação actuem como fazem os mais velhos.
Um conceito que parece elementar mas que demorou a popularizar-se por essa Europa fora. Mas uma coisa é ter todas as equipas a jogar num sistema táctico. Outra é criar uma filosofia que os jovens bebem desde o primeiro instante até à sua consagração definitiva. E para isso, acima de tudo, é preciso ter uma filosofia própria. Algo que o futebol, que vive do momento, dos títulos e da inconstância do tempo, dificilmente permite. Qual é a filosofia do Chelsea, do Real Madrid, do SL Benfica, da Juventus, do AC Milan ou do Manchester City?
Ninguém, nem eles mesmos, realmente o sabem. E não é por acaso que falamos de clube sem cantera. Sem filosofia de formação. Sem um espírito de grupo trabalhado desde a raiz. São clubes que vivem do e para o momento, de e para o resultado e que procuram, com o dinheiro, comprar o sucesso. Podem lográ-lo, e alguns conseguiram-no, mas estão destinados, tarde ou cedo, a ceder perante equipas com projectos a longo prazo. Arsenal, Manchester United, Shaktar, FC Porto, Olympique Lyon...Barcelona.
O clube catalão transformou-se na quintessência da filosofia futebolística. Misturou as origens do Futebol Total, adoptou a herança artística culé e a precisão táctica italiana e criou uma verdadeira máquina de vencer. Jogando um futebol atractivo, veloz, dinâmico, o Barça de Guardiola é uma equipa plena e matura. Mas é também o culminar de um processo evolutivo que não quer ser visto como a ultima etapa do caminho. Apenas mais um passo. Guardiola sucedeu a Milla na posição do playmaker e graças a ele La Masia, a escola que definiu o futebol de formação do clube blaugrana, começou a entender o que era preciso para manter o estilo de jogo. Desde Pep, jogador, que ali se treinam os seus sucessores tendo por base o seu ritmo, o seu estilo e a sua precisão. Os rondos popularizados por Rexach e Cruyff criaram Xavi e Iniesta. Mas também De la Peña, Fabregas...e Thiago.
Filho do brasileiro Mazinho, um dos mais talentosos jogadores da liga espanhola dos anos 90, Thiago é mais uma etapa na evolução.
Cresceu como jogador seguindo os ensinamentos posicionais que determinam a maturidade dos playmakers catalães. Toque curto, basculação lateral, visão de jogo, tabelas, futebol total com a ponta de uma chuteira. Desde a sua tenra infância que bebeu as mesmas palavras de Guardiola, Xavi, Fabregas e Iniesta. Desde cedo que percebeu que pontos tinha de desenvolver para singrar no Camp Nou. Apesar da sua idade, é já uma certeza. Define o jogo da Espanha juvenil, centraliza já em si o pensamento ofensivo do super-Barcelona quando Guardiola lhe dá, sem medo, a batuta. A sua coragem é também espelho dessa filosofia de nunca desistir. A mesma que evitou que Xavi um dia partisse, que Iniesta conseguisse roubar o lugar a Deco e que Fabregas triunfasse além-mar. Aliás, é o médio centro do Arsenal o mais prejudicado com a maturidade deste fantástico produto da La Masia. Com Thiago a preparar-se para herdar a camisola de Xavi, o Barcelona pode mesmo decidir saltar uma geração (a de Cesc) e esquecer-se definitivamente dos milhões que o Arsenal pede pelo seu capitão. Porque Thiago - e os que vêm a seguir - têm a lição bem aprendida.
O jovem hispano-brasileiro funciona porque o método de treino da Masia garante à primeira equipa que qualquer jogador, dos juvenis ou dos juniores, está preparado para assumir o seu papel no esquema da equipa principal. Guardiola confia na cantera porque é o primeiro a saber o que por ali se cose. Bartra, Fontás, Montoya, Dos Santos, Deulofeu, Soriano e Thiago são nomes de futuro que podem ter um impacto imediato, da mesma forma que Busquets tinha a licção bem aprendida e Pedro sabia o que lhe esperava quando Pep decidiu lançá-lo às feras. Essa forma de preparar o futuro, que começou no Ajax holandês e que Cruyff exportou para Can Barça, garante que este Barcelona é uma máquina de ganhar com presente e futuro. Ultrapassado o vitimismo típico catalão, agora o Barça é quem é visto como a equipa arrogante que humilha o seu rival histórico, e todos os que se lhe atravessam pelo caminho. Não é por acaso que a sua equipa B, composta maioritariamente por jogadores na casa dos 20 anos, seja a terceira classificada da Liga Adelante. Ou seja, que mostra nível suficiente para subir de divisão, algo a que está vetado mas a que ninguém acabaria por surpreender. Graças ao génio de Thiago mas, sobretudo, graças ao génio de uma ideia.
Thiago é o futuro que pode transformar-se em presente assim que o clube e o seu técnico queiram. Tem maturidade, espírito competitivo e know-how para manter o ritmo qualitativo do jogo do Barça. Supera em classe e talento qualquer playmaker a jogar em Madrid, Valencia, Villareal ou Sevilla. E tem uma imensa margem de progressão. Não chega sozinho, atrás dele há toda uma legião de talentos à espera da sua oportunidade. Como moldou Messi, como moldou Iniesta, como moldou Pique, como moldou Xavi, La Masia voltou a demonstrar que ter uma ideia de futuro é a melhor forma de consolidar o presente. O Barça gasta dinheiro como qualquer outro clube, mas sabe a que joga. E sabe implementar uma filosofia do berço até à idade adulta. Talvez de uma forma inédita na história do futebol. Também por isso ou, talvez por isso, esteja hoje no trono internacional. E sem grandes ganas de abdicar. Thiago está lá para o garantir.

