A firmeza do resultado coloca em destaque a progressiva subida de forma do FC Porto. Os campeões nacionais voltaram a demonstrar, tal como num ano passado, que começar a época de forma titubeante é já sina. Mas com quase todos os jogadores disponíveis a máquina de Jesualdo Ferreira apareceu, pela primeira vez, oleada. E os dragões mostraram finalmente a sua face mais letal.

É curioso que as criticas ao FC Porto sempre vieram de par em par com os elogios ao SL Benfica. A equipa encarnada arrancou a época de forma determinada e aliou as boas exibições aos excelentes resultados. Mesmo assim nunca logrou liderar o campeonato de forma isolada, graças ao excelente trabalho de Domingos Paciência no SC Braga. A eliminação precoce na Taça de Portugal e o empate com o Sporting deixaram a nu todas as debilidades encarnadas. E entretanto, calmamente, o FC Porto aproximava-se sem fazer muito barulho. Apesar das fracas exibições, a equipa das Antas mantinha os lideres a tiro e agora apresenta-se, em vésperas de ir à Luz, a três pontos do primeiro posto. Partilhado por arsenalistas e encarnados.
Os mais criticos dirão que não fosse pelos quatro pontos perdidos contra Maritimo e Belenenses, onde o dragão mostrou a sua pior versão, e hoje a equipa já seria lider. É um facto contra o qual não há argumentos possíveis. Nesses dois jogos - que mediaram o apuramento para os Oitavos de Final da Champions League - a equipa azul e branca provou que pode ser extremamente débil. Quando quer. Esta sexta-feira, no D. Afonso Henriques, os mesmos provaram que podem ser demolidores. De novo, quando querem.
Jesualdo Ferreira foi forçado a reconstruir de novo uma equipa e voltou a receber um carregamento de novos jogadores, a maioria dos quais sem conhecimento táctico suficiente para se impor numa estrutura altamente rigida como é a equipa de Jesualdo. O treinador teima em manter o 4-3-3 e sem um armador de jogo e extremos velozes e desiquilibrantes a fórmula, pura e simplesmente, não funcionava. As sucessivas lesões que foram afectando elementos desiquilibrantes (Rodriguez, Fucile, Varela, Belluschi) e o baixo-rendimento de Hulk, que se tornou no seu próprio inimigo, iam explicando em parte o problema. Mas não todo. Falcao deixou de marcar, Helton e Beto trocavam posição nas redes demonstrando uma desconfiança desnecessária e o banco parecia sempre curto, muito curto para os problemas evidenciados no relvado. O facto do treinador optar sempre pelas mesmas substituições dava ainda mais a ideia da limitação ser maior do que era na realidade. Em Guimarães ficou provado que o FC Porto tem manta para se tapar bem. Sem sobressaltos. Foi uma exibição categórica, do primeiro ao último minuto. A única do ano. Uma exibição que tremeu quando a (falta de) eficácia da equipa permitiu ao Vitória de Guimarães reduzir e alimentar a esperança da reviravolta. Pura ilusão.
Varela voltou a demonstrar que tem de jogar como titular. É um jogador de colectivo mas sabe destacar-se pelas iniciativas individuais. Todo o contrário de Hulk, verdade seja dita. A sua exibição veio em continuação que tinha vindo a demonstrar antes da inoportuna lesão que o afastou da equipa. A forma como combinou com Rodriguez - mais cómodo no lado esquerdo do ataque - e Falcao, muito trabalhador apesar de continuar trapalhão à frente das redes, foi a chave para a eficácia goleadora dos azuis e brancos. As estatisticas já o diziam, este FC Porto atacava mais que o goleador Benfica. Mas não marcava. Pura e simplesmente, não marcava.
O meio campo seleccionado por Jesualdo Ferreira voltou a espelhar a filosofia do técnico. Um triângulo de combate onde Fernando continua a ser o elo mais fraco e com Raul Meireles e Belluschi a dar luta ao esforçado meio campo vimaranense. Na defesa notou-se a importância de Fucile na equipa. Regressado após lesão o uruguaio provou que é fundamental no apoio ao ataque. Subiu e ajudou a combater desiquilibrios e permitiu a Alvaro Pereira uma noite mais tranquila. O centro da defesa, onde Rolando voltou a fazer dupla com Bruno Alves, agradeceu. E teve tempo de ir à frente ajudar.

A vitória em Guimarães deixa claro qual é o onze ideal de Jesualdo. Se a equipa for poupada a longas lesões - que continuam a espelhar o erro de ir preparar a pré-temporada a Sevilla para poder participar na PEACE Cup - o técnico sabe que tem à sua disposição os homens certos para as posições certas. Continua claro que Valeri e Prediguer são cartas fora do baralho. E espera-se que Miguel Lopes e Orlando Sá possam rapidamente juntar-se aos disponíveis. Os azuis e brancos sabem que na Luz não podem perder, sob pena de voltar a estar a seis pontos dos lideres. Mas longe das exibições titubeantes de Outubro e Novembro, este FC Porto assemelha-se mais á equipa que pode concretizar o sonho de repetir o mitico Pentacampeonato.
Os mais velhos adeptos de White Hart Lane lembram-se bem da era gloriosa em que a equipa era uma peça chave no cosmos desportivo britânico. Uma era onde o Tottenham Hotspurs podia ter antecipado em quase uma década o dominio europeu do futebol inglês. Uma era onde o homem do banco era um veterano de guerra indomável conhecido pelos jogadores como "Tio Bill". A história imortalizou o nome completo: William "Bill" Edward Nicholson.

Apanhado, como tantos outros, no calor do conflito, Bill Nicholson esteve várias vezes perto de ser ferido em combate. A sua notável condição fisica e o espirito de liderança que o destacou como sargento do exército britânico salvaram-no sempre. Talvez se uma bala perdida tivesse encontrado outro destino, a história do futebol inglês tivesse sido bem diferente. Mas não foi. Quando o conflito terminou o jovem William Nicholson voltou a White Hart Lane. Tinha assinado aos 16 anos pelo Tottenham mas o irromper da guerra, dois anos depois, tinha parado a sua promissora carreira. Com 25 anos o jovem do Yorkshire estava de regresso. Utilizado como extremo pelo mitico Arthur Rowe, foi peça chave na equipa "Push and Row" que conquistou o título de 1951, ano em que conseguiu a sua única internacionalização. Contra Portugal, em Goodison Park, entrou e apontou imediatamente o seu único golo pelos Pross. Tapado por Billy Wright, o veterano extremo entrou tranquilamente na etapa final da sua carreira. Em 1955 deixou os relvados e foi admitido no staff técnico do Tottenham. Os seus conhecimentos levaram-no imediatamente a colaborar também com a selecção inglesa onde esteve como adjunto no Mundial da Suécia. Em Outubro do ano seguinte, sem emprego, foi chamado de novo a Londres. Propuseram-lhe o posto de treinador principal de uma equipa que por então lutava para não descer. Pediu plenos poderes à direcção. Disseram-lhe que sim, a contra-gosto. Aceitou. E mudou por completo a história dos Spurs.

Os adeptos acorreram em massa para ver o primeiro jogo do novo técnico. Não se enganaram. O Tottenham venceu por 10-4 o Everton, resultado que começava a ser pouco habitual e que era o novo recorde do clube. Recuperou na tabela e terminou bem longe dos lugares de despromoção. Estava lançada a base que iria remodelar por completo o futebol inglês. Com o Liverpool pelas ruas da amargura e o Manchester United em reconstrução, o Tottenham emergiu como a primeira potência das ilhas britânicas. Nicholson foi um visionário ao aplicar ao tradicional kick and rush um componente táctico importante. O apoio constante de um médio centro aos dois avançados transformava a linha ofensiva da equipa num conjunto diabólico. Com uma linha marcada por Branchflower, White, Mackay, Jones e o mitico Jimmy Greaves, os Spurs tornaram-se no rival a abater.
Em 1961 arrancaram para o primeiro título em 10 anos. A equipa dominou por completo a prova e depois de vários jogos invencível sagrou-se campeã. Duas semanas depois em Wembley venceram a FA Cup e tornaram-se na primeira equipa a conseguir a dobradinha no século XX. No ano seguinte a Europa era o objectivo. O campeonato perdeu-se em Março e apesar de nova vitória na FA Cup a grande esperança estava no duelo das meias-finais contra o SL Benfica. Na Luz os ingleses perderam por 3-1 às mãos de Eusébio e companhia. Mas esperam poder dar a volta em White Hart Lane. Os adeptos eufóricos receberam os encarnados de forma furiosa e a equipa rapidamente conseguiu os dois golos que valiam o apuramento. Mas um golpe de génio do avançado do Benfica e uma série de graves erros da equipa da arbitragem adiaram a consagração europeia de uma equipa de sonho.
Em lugar de si ir abaixo, Bill Nicholson encarou a época seguinte de forma singular. Começou a substituir progressivamente os veteranos do plantel e com uma equipa rejuvenescida a equipa conquistou finalmente a Europa. Venceram o Atlético de Madrid por uns demolidores 5-1 na final da Taça das Taças em Roterdão e abriram o dominio inglês do futebol europeu. A equipa contava então com grandes promessas como Terry Venables, Joe Kinnear, Allan Mullery, Mike England, Alan Gilzean e Johnny Gilles. O futebol de Nicholson era duro mas atractivo. A equipa defendia bem e atacava melhor e os golos de Greaves faziam a diferença. Com o Liverpool e o Manchester United de volta ao topo, o Tottenham era a grande alternativa. Terceiros durante dois anos seguidos, a equipa conquistou a FA Cup de novo em 1967 e a Taça da Liga em 1971 e 1972. Para confirmar a condição de potência europeia, a equipa venceu a Taça UEFA de 1972 tornando-se na primeira equipa britânica a ter dois trofeus europeus. Foi de facto uma época dourada para os Spurs e não havia adepto que contestasse as decisões do reverenciado Nicholson. Mas a sua era estava perto do fim.
Em 1974 a equipa começou mal e os grandes cracks da época dourada começaram a retirar-se. A má posição no campeonato e o péssimo comportamento dos adeptos do clube depois da final perdida da Taça UEFA em Roterdão frente ao Feyennord precipitaram a sua retirada. Saiu contra o desejo dos adeptos e da direcção, mas Nicholson sabia que a sua época tinha chegado ao fim. Tal como Shankly e Busby, ele representava a primeira era dos managers. Apesar de ter deixado o banco a longa história de amor entre o clube e o técnico evoluiu naturalmente. Tornou-se num dos olheiros do clube e levou para White Hart Lane jogadores como Glenn Hoddle e Gary Mabutt, essenciais para o ressuscitar do clube nos anos 80. Em 1991, para surpresa de poucos, tornou-se presidente do clube. Desempenhou o cargo durante um mandato antes de retirar-se finalmente. Em 2004 acabou por falecer depois de uma longa doença.

Autor de frases miticas como "Os meus jogadores nunca podem acabar um jogo satisfeitos com a sua performance. E não admito que suportem perder!", Bill Nicholson fez parte da primeira grande geração de técnicos do pós-guerra. Aplicou a disciplina militar que herdou da sua passagem pelo exército mas também soube trazer ao jogo uma componente estética que o futebol inglês nunca tinha realmente tido no passado. Os adeptos do Tottenham choraram genuinamente quando souberam a notócia da sua morte. Sabiam que com ele ia também a última memória de uma era onde White Hart Lane era um forte inexpugnável.
O futebol está repleto de histórias curiosas. O que hoje damos por certo já foi duvidado. E o que nos parece uma aberração, muitas vezes tem razão de existir. Olhemos, por exemplo, para a Juventus. Choveram críticas ao último equipamento cor-de-rosa que a equipa utilizou como segunda opção e nos jogos europeus. Criticou-se a Nike por desrespeitar o espirito forte e colectivo da Vechia Signora. Mal sabiam eles que os "bianconero" nem sempre o foram e que o rosa é mesmo a sua primeira cor.

Em 1903 a Juventus era já uma das formações mais respeitadas de Itália. A terceira mais antiga, depois de Genoa e Udinese, a "Vechia Signora" rapidamente lançou as bases que a tornariam na mais bem sucedida formação do futebol italiano. Mas por essa época o clube não tinha ainda um touro como simbolo. Nem equipava de branco e negro. Longe disso.
O primeiro equipamento da Juventus era cor de rosa. O clube tinha escolhido o nome de Juventus por ter sido organizado por um grupo de jovens estudantes burgueses italianos e ingleses que residiam na cidade. Para respeitar a filosofia do projecto escolheram o rosa como cor do equipamento. Uma cor ligeira e divertida, como deveria ser a equipa em campo. A equipa tinha sido fundada três anos antes do final do século XIX e em 1900 inscreveu-se na recém-criada federação italiana. Começou por disputar os campeonatos regionais do Piemonte e rapidamente passou para o campeonato nacional. Por essa época exibia um equipamento com calções negros e camisola cor de rosa. O mesmo que a Nike recuperou há algumas épocas e que tanto escândalo lançou. Só em 1903 a história se reescreveu e começou a formar-se a lenda bianconera.


Com a equipa a lutar pelo titulo nacional italiano a Juventus vivia uma complicada. As discussões entre os fundadores eram constantes e Alfred Dick, responsável número um pela criação do clube, acabou por abandonar o projecto com vários colegas. Juntou formaram o Foot-Ball Club Torino que rapidamente se iria tornar no grande rival da Juventus. Com ele partiram vários jogadores e do cor-de-rosa original da sua Juventus passou a um grenã que faria história no Calcio.
Entretanto os jogadores da Juventus, ainda à procura da sua identidade, decidiram trocar de equipamento. Foi fundamental a influência de John Savage, um industrial inglês que residia na cidade e que habitualmente acompanhava os jogos da Juventus. Ao ver que o equipamento original começava a perder cor devido às constantes lavagens, Savage decidiu encomendar de Inglaterra um novo kit para oferecer aos amigos. Para tal desenhou um equipamento dividio a meio entre o negro e o cor de rosa e entrou em contacto com um colega de Nottingham, solicitando-lhe que este lhe enviasse vários exemplares deste novo modelo. Só que a cópia remitida perdeu cor e ao ver um equipamento negro e esbranquiçado, este decidiu enviar, em contrapartida, réplicas do equipamento do seu clube, o histórico Notts County, o primeiro clube da história. Quando a mercadoria chegou a Turim Savage viu-se surpreendido e pediu desculpas aos colegas. Mas estes apaixonaram-se pelo novo equipamento e adoptaram-no de imediato. As riscas pretas e brancas verticais davam, segundo eles, uma aura de força implacável que acabaria por se tornar na imagem de marca do clube.

A partir de 1903 a Juventus nunca mais voltou a abandonar as cores adoptadas. Os adeptos por toda a Itália começaram a utilizar a alcunha de "bianconeros" e ao criar o primeiro emblema mantiveram as cores como fundo do escudo de Turim onde pontificava já o mitico touro negro (que nos anos 80 e 90 foi substituido temporalmente por uma zebra). Com a compra do clube pela família Agnelli, nos anos 20, a equipa deixou de importar os equipamentos de Inglaterra e passou a produzir as suas próprias camisolas. Que ainda hoje utiliza. Durante anos utilizou o azul como segunda cor, por homenagem à cidade de Turim, cor que esteve presente na mágica noite que lhes valeu o segundo título de campeões europeus. Até que o cor-de-rosa voltou à ribalta e lançou de novo o debate sobre as origens históricas dos clubes, desconhecidas hoje pela maioria dos adeptos. Um recuperar do passado que está presente também na modernização do emblema e na constante utilização de estrelas para simbolizar o número de ligas ganha pelo clube.
"É a segunda vez que bato aqui os alemães. A primeira foi em 1944 quando entrei pela cidade montado num tanque do exército no dia da libertação". Com simples e honestas frases como esta, Bob Paisley tornou-se num dos maiores mitos do futebol moderno. É o técnico com mais titulos numa carreira que não durou uma década. Ofuscado pelo forte caracter do seu antecessor, a verdade é que Paisley marcou a era dourada do futebol inglês. E se muitos atribuem a Bill Shankly a paternidade do "espirito Liverpool" a verdade é que foi sob o comando do modesto Paisley que o clube viveu as suas maiores épocas de glória.

"Lembro-vos que também tivemos momentos dificeis. Um ano acabamos em segundo!". Um desabafo que explica bem o consulado de Robert "Bob" Paisley em Anfield Road.
Em nove anos como técnico principal Paisley ganhou quase tudo o que havia para ganhar. Faltou-lhe apenas a FA Cup, trofeu maldito que sempre se lhe escapou pelas mãos. É, ainda hoje, o único treinador que conta com 3 Taças dos Campeões Europeus. Em nove épocas ganhou seis ligas inglesas, uma Taça UEFA, três Taças da Liga, cinco Supertaças e uma Supertaça Europeia. Um registo, ainda hoje, inigualado. Ao final, Paisley saiu como chegou. Sem fazer muito ruído, mas sob uma enorme ovação. Sempre reconheceu ter herdado um projecto ganhador e nunca se quis atribuir o mérito do melhor Liverpool da história. Permaneceu fiel ao espirito criado no mitico "Boot Room", a sala que Shankly transformou em salão de chã e tácticas, e que forjou a magia que rodeia, ainda hoje, Anfield Road. Foi o exemplo perfeito de um técnico de causas. Esteve envolvido durante 50 anos no mundo do futebol. Sempre ao serviço do Liverpool. Primeiro como jogador, chegando a capitão de equipa. Mais tarde como membro de várias equipas técnicas. Até ao dia em que Shankly lhe confessou que se retirava. E que o tinha acabado de nomear sucessor. Paisley disse que não ao seu mentor. À direcção. E aos próprios jogadores. Acabou por aceitar, a contragosto, o papel que desempenhou com mestria.

Na Primavera de 1939 Bob Paisley entrou pela primeira em Anfiel Road. Para não voltar a sair.
Contava então com 20 anos, um forte sotaque "geordie" e um ar bonacheirão que o tornava simplesmente irresistível. Tornou-se num filho adoptivo da cidade. Demorou sete anos a estrear-se com a camisola vermelha. Durante esse tempo serviu, como tantos outros da sua geração, nas frentes de guerra. No regresso assumiu o seu posto em Anfield e tornou-se decisivo no titulo logrado em 1947. Quatro anos depois era já o capitão indiscutível. E quando em 1954, com 35 anos, decidiu retirar-se, o clube ofereceu-lhe de imediato o posto de fisioterapeuta na equipa técnica. Paisley aceitou de bom grado e começou uma longa e épica aventura. Fez parte de várias equipas técnicas que marcaram a época da decadência dos "Reds". A equipa desceu de divisão e foi aí onde, em 1959, conheceu Bill Shankly. O ousado escocês escolheu Pasley, Joe Fagan e Reuben Bennett como os seus adjuntos. Juntos criaram o célebre "Boot Room" onde se reuniam todos os dias para discutir tácticas, jogadores, rivais e politica. Seria a base do espirito napoleónico do Liverpool de Shankly. Durante os 15 anos seguintes o escocês transformou o clube por completo. Mas em 1974 surpreendeu todos ao anunciar a sua retirada. Tinha deixado a equipa montada para a era de glória que lhe esperava. E precisava de um sucessor. De todos, optou por Paisley, que era o seu oposto. A ideia caiu bem no grupo de jogadores que adoravam Paisley pelo seu espirito de camarada de balneário. Na primeira época a equipa terminou em segundo e muitos questionaram o papel do técnico. Rapidamente iria provar o quão enganados estavam.
Em 1976 o Liverpool entrou para a história. Venceu a Liga Inglesa com uma facilidade insultante e conquistou a Taça UEFA de forma autoritária. A equipa acentava ainda na base deixada por Shankly com Keegan e Toshack na frente com um 4-4-2 tipicamente britânico. O jogo passava essencialmente pelos alas com Keegan a recuar no terreno para trabalhar a bola com a dupla de médios centros - Callaghan e Hughes sempre desiquilibrantes. A estes juntavam-se outros nomes chave como Clemence, Heighway e McDermott. Progressivamente o técnico foi dando o seu cunho pessoal.Chegaram Dalglish e Rush para o ataque, Souness, Lee, Hansen e Kennedy para o meio-campo. E a equipa continuou a fazer história. Em 1977 repetiu o triunfo na liga - o primeiro clube em vários anos a conseguir o bicampeonato - e venceu a sua primeira Taça dos Campeões, numa inesquecível final em Roma. Em 1978 novo triunfo europeu que fez esquecer a derrota na liga diante do Nottingham Forrest. No ano seguinte o Liverpool voltou a ser campeão tal como viria a suceder em 1980, 1982 e 1983. Todas elas sob a orientação de Paisley que em 1981 conquistaria a sua terceira Taça dos Campeões Europeus numa final contra o Real Madrid. Foi a última grande vitória europeia do conjunto "red" sob os comandos de Paisley. O técnico que tinha assistido à tranquila revolução da geração Shankley para aquela que iria - ainda - dominar os anos 80, preparava-se para dizer adeus. Em 1983, quando cumpria o nono ano no banco de Anfield Road, Paisley anunciou que punha um ponto final na carreira. Tal como o seu antecessor, também ele recomendou outro membro do "Boot Room", o seu velho amigo Joe Fagan. A equipa então liderada por Dalglish venceu a liga e Paisley saiu sob ombros. Aceitou um posto como directivo onde esteve na década seguinte até que lhe foi diagnosticada Alzheimer. Lutou oito anos contra a doença, mas esta batalha não a pôde ganhar.

Apesar de todos os contras que a história teimou em criar à sua volta, Bob Paisley continua a ser hoje o mais bem sucedido treinador do futebol inglês. Sem um carácter forte como Shnakly mas com um espirito extremamente humilde e pacato, Paisley transformou o Liverpool no mais bem sucedido clube do futebol europeu. Os seus homens pareciam invenciveis sob o seu comando. O seu papel é de tal forma fulcral na história do futebol inglês que basta pensar que sir Alex Ferguson demorou vinte e cinco anos em tentar igualar os feitos que Paisley logrou em nove.
É um dos clubes do Mundo com mais adeptos. O popular "Mengão" estava há 17 anos longe da disputa do título de campeão. Agora está a 90 minutos de repetir um feito histórico. Numa equipa sem estrelas e grandes promessas, o novo rosto do Flamengo é também o espelho de um campeonato que vai perdendo relevância a cada ano que passa, vitima da corrupção das instituições e de um fluxo migratório que parece não ter fim...

Quatro candidatos. Quatro percepções do jogo. Quatro sonhos. Quatro presentes.
O título de campeão do Brasil é ainda uma incógnita para quem vive longe da pátria que democratizou o desporto-rei. No meio de tantas provas estaduais, inter-estaduais e paralelas organizadas pela CBF, o campeão do Brasil é sempre um título sui generis. Porque, convenhamos, no Brasil há sempre campeões para todos os gostos e feitios. Mas, na realidade, só um conta. E faltam 90 minutos de sofrimento puro para descobrir qual dos quatro candidatos faz a festa. Sai à rua e antecipa o ansiado Carnaval. No Brasil o futebol é a festa do ganhar e o sofrimento do perder. É pouco o jogo dentro do relvado com sotaque. Aí a disciplina táctica perde sentido, as iniciativas individuais de jovens pés descalços que só querem carimbar o seu bilhete para o Velho Continente decidem jogos. E titulos. Ou despromoções. Com vários históricos a fazerem contas para perceber como se pode escapar ao suplicio de vaguear pela II Divisão - por onde anda hoje um "monstro" como o Vasco da Gama - há quatro torcidas preparadas para fazer a festa. Haverá mais lagrimas do que alegrias. Espelho de um futebol, como descreveu Nelson Rodrigues, habituado ao masoquismo do sofrimento, traumatizado por um jogo que nunca existiu e que olha para a pequena bola como a solução para todos os mistérios da Humanidade.
À porta do Maracanã começam a formar-se os aglomerados de adeptos. Há largos anos que esperam voltar a celebrar um "Brasileirão". Muitos lembram-se da equipa mágica de Zico, tricampeã no inicio dos anos 80. A maioria dos meninos de rua nem sabem quem é Zico. Vivem para imitar o novo rei do povo, Adriano. O ex-avançado do Inter enganou Moretti, Mourinho e companhia e fugiu de Milão para o seu Rio natal. Aí voltou a calçar as chuteiras e deu um novo ar de grandeza ao abandonado Flamengo, equipa ferida por ter visto o seu mitico Ronaldo assinar pelo rival Corinthians. Não é o instável Adriano quem faz a diferença nesta equipa. Mas é ele quem traz o glamour que encanta os adeptos e dá cor às conversas de bares. Os seus golos ajudam mas o "Imperador" está longe daquele jogador que encantou o Mundo e que o levou a ser um dos mais bem pagos do jogo. Incapaz de aguentar com a pressão de ter de ser um dos melhores, Adriano fugiu. Voltou ao bairro, onde ninguém lhe pede que seja o melhor. Só que seja ele mesmo. Como o antigo dianteiro do Inter, outras velhas glórias voltam a casa para provar a si próprios que a bola não mudou. Foram os outros. Zé Roberto, Edmilson, Alecsandro, Washington e o inevitável Ronaldo. Fantasmas. Num país onde o passado e o presente se misturam demasiadas vezes.
A Serie A - também conhecida como Brasileirão - arrancou com 20 equipas em Maio, depois dos estaduais. Durante o ano o Palmeiras e o Atlético Mineiro mostraram-se implacáveis mas ambos foram fraquejando nas horas decisivas. Os verdes começaram o ano de forma implacável. E depois sofreram na pele o implacável desleixo dos que tudo querem sem nada lograr. Os mineiros, em boa forma até ao Inverno, viveram graças ao génio de Diego Tardelli. Quando a máquina secou, a equipa foi tropeçando. O surpreendente Flamengo, que andou vários jogos pela parte baixa da tabela, foi trepando a classificação e com um golpe de autoridade diante do Corinthians passou para o primeiro posto. Graças a mais um tropeção do S. Paulo que hipoteca assim a possibilidade de conquistar o Tetra depois de ter dominado os últimos anos da prova. A 90 minutos do final do torneio uma vitória do "Mengão" devolve o título à equipa mais amada do Brasil. Há zonas imensas do país onde não há clubes, apenas filiais do histórico Clube de Regatas do Flamengo. É a única formação que ombreia, em popularidade, com a "canarinha". Terá segundo se presume, 40 milhões de seguidores no Brasil. E uns 10 milhões mais fora. Ainda detém o recorde de levar o maior número de adeptos a ver um jogo oficial da prova. 155 mil espectadores. E no entanto, há anos que vive no poço profundo da mediania. Até que a equipa despertou da letargia. O tanque Adriano começou a recuperar o gosto pelo disparo letal e os veteranos Petkovic e Zé Roberto apareceram na hora H. Mas, ao contrário de outras versões do "Mengão", esta equipa é lenta, aborrecida e altamente previsivel. Espelho do futebol brasileiro de hoje.

Os seus rivais directos ao título exploram um jogo mais ofensivo. Mas repleto de debilidades. Ricardo Gomes continua a apostar num falso 3-5-2 no São Paulo com Hernanes como pivot das transições e Dagoberto e Washington como dupla de avançados. Uma equipa rápida nos movimentos ofensivos mas pouco prática a pensar o jogo a meio campo. Falta-lhe um pensador nato, um jogador que saiba respirar o jogo. Sim, exactamente, falta-lhe Kaká naquele coração. Por outro lado o Internacional é o risco puro em movimento. Equipa profundamente jovem, acenta o seu jogo na coragem de apostar na velha máxima brasileira de "quem marcar mais ganha". Bonita ideia no papel, pouco prática no gramado. Apesar dos velozes Giuliano, Taison e Marquinho, é no labor de Sandro que está o grande mérito do cojunto de Porto Alegre. Uma equipa que continua fiel ao velho futebol brasileiro, onde a táctica perde para o poder da verticalidade individual. E que faz das suas forças, inevitáveis fraquezas. E quanto ao Palmeiras, a habitual desorganização táctica hipotecou um titulo de que parecia garantido. E faz com que até a participação na próxima Libertadores esteja em causa. Castigo pesado para quem sonhou com tanto.
Numa prova repleta de velhas glórias que aproveitam o baixo ritmo de jogo para mostrar que ainda sabem do seu mister, o Brasileirão desta época deixará poucas recordações inesqueciveis. Os rápidos resumos mostrarão os belos golos, as apertadas defesas, os lances geniais e o delirio nas bancadas. É assim que o brasileiro vive o jogo que adoptou como seu. Mas futebolisticamente pouco sobra perante tanto tropeção, desengano e desorganização absoluta. Tacticamente o Brasil continua um passo atrás que o resto do Mundo. E a constante migração dos seus mais jovens talentos provoca o aparecimento de novas equipas, de ano para ano, muitas vezes com jogadores de terceira ou quarta linha. Os melhores, cada vez mais, procuram cedo outras paragens. Na Améria Latina as equipas brasileiras perderam influência. No seu próprio campeonato igualam-se em disparates e tiros no pé. Face a esse cenário, a liga brasileira volta a perder a magia que há anos parecia ter recuperado a pulso.

Espelho de uma potência mundial incapaz de se encontrar, o jogo no Brasil continua a ser o mesmo das ruas poeirentas ou dos longos areais. Daí sairão futuras vedetas, mas muito poucos futebolistas. Aí nascem com o talento nos pés. A escola fazem-na fora. E os que aprendem a "biblia" do jogo transformam-se em estrelas. Os outros, limitam-se a ser brasileiros com uma bola nos pés. O que em muitos casos, é mais do que suficiente.
Há poucas eras tão marcantes na história do beautiful game como as décadas de 60 e 70. Em cerca de 20 anos o futebol viveu vários pequenas grandes revoluções que mudaram para sempre a face do jogo. O profissionalismo tornou-se definitivo, a publicidade entrou de rompante, os estádios começaram a preparar-se para uma nova etapa e a televisão trouxe os jogos aos milhões de adeptos, um pouco por todo o mundo. Mas as duas décadas foram também chaves na evolução técnico do jogo. A era da afirmação do 4-4-2 e do nascimento do 4-3-3. A era do Futebol Total, do futebol cientifico ou do mais preguiçoso kick and rush.
Durante 20 anos Inglaterra voltou a ser o centro do Mundo. A Liga Inglesa viveu a sua era mais dourada e os seus clubes dominaram na Europa como nunca. E tudo graças a uma excepcional geração de mestres da táctica que a partir de hoje o Em Jogo vai homenagear.
Olhar para esse período de tempo e analisar a evolução do futebol implica viajar até Inglaterra. Se o Futebol Total holandês foi apenas o aprimorar de um movimento que já vinha ganhando forma no centro da Europa, do Wunderteam aos Mágicos Magiares, e se o futebol cientifico extremamente fisico e metódico confirmou os países do bloco de Leste como potências mundiais, em Inglaterra o futebol respira um ar diferente. De campeões do Mundo os ingleses passaram a ser a chacota do Mundo ao falharem uma década de provas internacionais. Mas se a selecção da Rosa falhava, os clubes davam início a uma era histórica. Sem o glamour da liga espanhola e italiana, a First Division podia parecer rude, pouco elaborada e até mesmo trapalhona para muitos. Mas era todo o oposto. Tacticamente era uma prova implacável e altamente equilibrada. Raramente os campeões se sucediam e ano após ano nascia uma nova formação repleta de magia e inovações. Durante 20 anos todos os grandes clubes ingleses passaram dos céus aos infernos e vice-versa. E todos mostraram a sua melhor versão. Os adeptos enchiam os estádios como nunca desde a II Guerra Mundial. Os jogadores britânicos atingiam um primor técnico nunca visto. E as condições permitiam tornar o jogo mais espectacular ainda. Tudo isso foi fundamental para preparar o dominio britânico. Mas tudo isso seria insuficiente se não tivesse nascido uma geração de técnicos geniais capazes de dar forma a essa revolução.
Foram vários os treinadores de excelência nesse periodo que arranca com a década de 60 e só termina a meio dos anos 80 com os desastres do Heysel e Hillsborough que lançaram o futebol britânico para quarentena. Da qual nasceu a Premier League de hoje. Mas houve 15 nomes que merecem o seu nome inscrito a letras de ouro na história do futebol. Esta reportagem de quinze episódios leva-nos à vida, carreira e peripécias de cada um desses 15 técnicos de excelência, cada qual responsável por uma equipa e um momento chave na história do jogo. As rivalidades, as ambições e as amargas derrotas ajudaram a criar uma aura de mitos à volta destes homens, muitos dos quais hoje os mais novos só conhecem das estátuas à porta dos estádios modernos que eles ajudaram a idealizar. E construir. Durante esse periodo foram responsáveis pelas múltiplas conquistas europeias dos clubes britânicos - e aqui incluimos a liga escocesa - e pela profissionalização absoluta da primeira liga do Mundo. Todos eles teriam certamente lugar na lista dos 50 melhores treinadores da história do futebol.

Esta série de reportagens leva-nos de volta a um passado distante que aproveita também para desmistificar o papel do "Manager" inglês. Figura hoje reverenciada e imitada, recuperamos os primórdios da figura de um homem que era mais do que um simples treinador. E das dificuldades inerentes aos primeiros anos desta figura hoje tão consensual. Não existiriam hoje Alex Ferguson, Arsene Wenger, José Mourinho, Rafa Benitez, David Moyes, Martin O`Neill ou Harry Redknapp se não fosse pelo trabalho destes pioneiros capazes de levar o jogo do universo do pós-guerra onde o jogo das ilhas ainda vivia isolado do resto do Mundo até fazerem, nos dias de hoje, que a Premier League seja a prova mais admirada e respeitada do mundo. Abre-se o espaço às verdadeiras estrelas...
O jogo está feito de frases feitas que têm tanto de absurdas como de incoerentes. Diz-se que um vencedor tem de estar apto para ganhar a qualquer um. Um discurso liricamente repetitivo e que escamoteia a crua realidade. É por isso que a partir de amanhã se começa a definir o próximo campeão do Mundo. Ou há ainda quem duvide, que depois de uma longa e extenuante época, é indiferente o emparelhamento que ditará o sorteio final?

Em Espanha, entusiasmados com a notável forma de La Roja, os editoriais sucedem-se falando a uma mesma voz: os espanhóis são favoritos, cabeças-de-serie e não temem ninguém, calhe quem calhar amanhã no sorteio. Pelo mesmo discurso vão alinhando Brasil, Argentina, Itália, Alemanha, Inglaterra e Holanda. Só, como é compreensivel, a África do Sul olha para os potes com expectativa. Precisa de um grupo acessível para não defraudar à primeira como sucedeu, por exemplo, no último Europeu com os dois anfitriões. Mas este discurso, não se enganem, é para animar as hostes. Atrás está um genuíno receio e temor que atingirá niveis de adrenalina impensáveis à medida que cada país soar na cerimónia de amanhã em Cape Town. Porque todos sabem, a começar pelos favoritos - principalmente os favoritos - que não é o mesmo arrancar com um grupo complicado. Que o digam os últimos campeões Itália, França, Brasil, Alemanha, Argentina, Itália e por aí fora. Todos os campeões do Mundo das últimos seis edições escaparam aos inevitáveis "grupos da morte". Mais, na maioria dos casos, tiveram a sorte de grupos francamente acessiveis. Lembramos a África do Sul, Arábia Saudita e Dinamarca do França 98. Ou o Peru, Polónia e Camarões do Espanha 82. No final os kilómetros a menos corridos, o desgaste emocional poupado revelaram-se decisivos quando o jogo era a doer.
Portugal benificiou de uma situação similar na Alemanha.
Um grupo extremamente acessível onde os lusos não partiam como cabeças-de-série. Irão e Angola eram os mais fáceis rivais nos potes onde estavam inseridos. E México o mais sedutor dos cabeças-de-série. Um cenário que permitiu a Portugal estar na maxima força para os jogos a eliminar. E que ajudaram a explicar a bem sucedida campanha lusa. Algo altamente improvável de se repetir, apesar de Portugal se manter no mesmo pote. Ao contrário de há quatro anos, as equipas europeias seriam o menor problema possível. Dentro dos cabeças de série não há, salvo a selecção organizadora com os perigos que isso acarreta, como os lusos já bem sabem, uma equipa do mesmo nível que Portugal. E graças à politica da FIFA em criar potes para se evitar que equipas do mesmo continente coabitem no mesmo grupo será inevitável cruzar-se com uma potência africana e sul-americana e uma possível revelação da Ásia, Oceania e América do Norte. Sabendo igualmente que o último jogo será sempre com o cabeça de série e o primeiro - e decisivo - contra o rival do pote 3.
Sem esquecer que a prova se desenrola no Inverno do Hemisfério Sul - com os sul-americanos e africanos a jogar nas mesmas condições que encontram nos países de origem - são os europeus os deslocados. Tal como aconteceu com o Mundial de 2002 que testemunhou a estrepitosa queda dos favoritos. Incluida a delegação lusa.

Entre os cálculos possíveis para amanhã sabe-se que haverá sempre cinco grupos com duas equipas europeias. E há a possibilidade de haver dois com duas equipas sul-americanas. Isso permitirá às formações dos restantes continentes uma séria oportunidade dar um passo para a seguinte etapa. Espanha, Holanda e África do Sul são também os únicos cabeças-de-serie que não ostentam o titulo de campeão. Isto numa edição onde estão presentes todas as selecções campeãs mundiais. E a história diz-nos que esse restrito grupo de sete equipas se manteve assim ao longo de 70 anos por algo. São os favoritos, em menor ou maior dimensão. E tentar entrar no grupo é sempre tarefa hérculea. Aviso a holandeses, espanhóis, portugueses ou a qualquer selecção africana que, pela primeira vez na história, tem a legitima hipótese de dar o salto qualitativo de que sempre se fala. Gana, Costa do Marfim, Camarões e Nigéria surgirão com selecções temiveis. México e Estados Unidos estão no mesmo patamar. Coreia do Sul, Austrália e Paraguai também. Na maioria dos casos muito por cima de selecções europeias como Eslováquia, Eslovénia ou Suiça.
O fundamental acabará por ser tudo o que não esteja relaccionado com as equipas escolhidas.
As regras da FIFA dictam que o cabeça-de-serie abrirá com uma equipa do segundo pote, jogando posteriormente com o do terceiro para o último - e previsivelmente decisivo - ser contra uma selecção europeia do quarto. Isso significa que Portugal - nesse último pote - terá de garantir o apuramento nos dois jogos inaugurais, sob pena de necessitar de vencer o cabeça-de-serie no último encontro. A realidade não é nova. Em 2002 Portugal abriu o grupo com a equipa teoricamente mais débil tal cmo em 2006. E fechou ambos com o cabeça-de-serie. Perdeu com a Coreia do Sul e venceu o México. A decisão da FIFA - pouco divulgada mas já de longo historial - tem uma simples razão de ser. Facilitar um apuramento precoce aos cabeças-de-serie e evitar grandes confrontos logo a abrir a prova, deixando a emoção para o final.
Por outro lado há quem esteja mais concentrado no rival do que propriamente nas condições que irá encontrar. Queiroz já anda há semanas à procura de um quartel-general ideal, mas o seleccionador sabe bem que não são as instalações o mais importante: é a localização. Num país maior do que a França, as deslocações serão longas e cansativas. E a equipa que está no último pote a que menos possibilidades tem de repetir jogos no mesmo recinto. Resta esperar estar num grupo que esteja reduzido a uma área geográfica restrita. Viajar do norte ao sul do país pode implicar viagens de 1700 kms (aproximadamente 3 horas e meia) e mudanças drásticas nas condições climatéricas. Do frio e elevadas altitudes do centro do país às chuvas tropicas do norte sem esquecer a humidade da zona costeira. Diferentes equações que parecem invisiveis mas que muitas vezes decidem competições.
A decisão dos grupos será fundamental também por isso. Tal como o emparelhamento das eliminatórias. Espanha e Brasil, os favoritos claros, sabem que não se podem encontrar na primeira fase. Mas podem cruzar-se nos Oitavos. E quererão evitá-lo. Ninguém quer um novo duelo de morte a abrir os jogos a eliminar, como sucedeu, por exemplo, com o França-Espanha de 2006, o Inglaterra-Argentina de 1998 ou o Argentina-Brasil de 1990. Por isso teme-se que a FIFA não seja totalmente transparente neste aspecto. Como não o foi na escolha dos cabeças-de-serie onde a passagem da França do pote 1 ao 4 soa mais a castigo pela polémica do golo marcado por Gallas frente à Irlanda do que a uma real actualização do ranking.

Com o final do sorteio inaugural as fichas começam a mover-se.
Sairão as listas dos quarteis-generais, e a contagem das distâncias. Os seleccionadores saberão contra quem se medem e nascerão os amigáveis de preparação. Com eles as últimas provas, a chamada daquele jogador alto para os lances de cabeça ou o sprinter para aproveitar a lentidão do rival. Escolhe-se a roupa ligeira ou abrigada. As casas de apostas começam a frenética actividade que rodeia o jogo impunemente e os favoritos começarão a perceber se realmente o são. Passar por Madrid ou pelo Rio de Janeiro hoje é sentir a euforia de futuros campeões. Um grupo com Portugal ou França, Costa do Marfim ou Gana e Estados Unidos ou México pode mudar muitos sorrisos. E quem tiver a aparente sorte de estar sorteado junto a Coreia do Norte ou Nova Zelândia, Chile ou Argélia, e Eslovénia ou Eslováquia começará a ver Joanesburgo com outros olhos. Enfim, a bola começa a rolar bem antes do apito inicial.
No último Mundial de sub-20 entrou em todas as selecções ideais. Foi um dos poucos jogadores consensuais de um torneio que revelou uma interessantíssima nova geração de talentosos magiares. Apesar de ter nascido na Ucrânia, o jovem Vladimir Koman é o simbolo da Hungria renascida.

Nascido a 16 de Março em Unzghorod, pequena localidade ucraniana da URSS, o jovem Vladimir Koman não teve tempo para conhecer a antiga Cortina de Ferro. A queda do Muro de Berlim levou a que sua família trocasse a cidade natal da recém-independente Ucrania por uma pequena localidade na vizinha Hungria. Aí o jovem Vladimir seguiu os últimos anos da carreira do seu pai e começou a dar os primeiros toques na bola no clube local, o Halladas. Aos 15 anos estreou-se pela equipa principal e foi imediatamente referenciado entre os grandes da Hungria. Mas a Sampdoria antecipou-se. Com 16 anos transferiu-se para Genova onde foi incorporado à equipa Primavera do conjunto italiano. Por essa época Koman recebeu o primeiro convite da federação ucraniana para integrar a sua equipa de sub-16. O jovem rejeitou e preferiu aceitar a convocatória hungara onde rapidamente se tornou no maestro do meio campo.
Aos 17 anos Koman estreou-se finalmente na Serie A num desafio contra o Torino. Entrou como titular e assistiu Bonazolli para o único golo do encontro. O médio passou a treinar habitualmente com os titulares ao mesmo tempo que liderava a equipa Junior ao titulo de campeão de Itália de 2008. No mesmo ano tomou as rendas da selecção de sub-19 hungara que surpreendeu tudo e todos no Europeu, onde chegou até às meias-finais. No ano seguinte o jovem foi emprestado ao Avellino, da Serie B, onde marcou quatro golos em vinte e quatro encontros. Um empréstimo bem sucedido mas que foi insuficiente para o manter junto dos titulares.

Esta época começou da melhor forma para o jovem criativo. Emprestado de novo, mas desta feita ao primodivisionário Bari, as suas prestações começaram a chamar a atenção do Liverpool que chegou a fazer uma proposta ao clube genovês para unir os dois jovens hungaros, Koman e Nemeth no ataque da equipa. Uma decisão natural, especialmente depois de seguir o último Mundial de Sub-20. O criativo foi fulcral na campanha hungara apontando cinco golos em seis jogos, a apenas um do Bota de Ouro do torneio. No final Koman tornou-se no médio da moda e muitos são os que suspeitam que na próxima época poderá estar bem longe do Luigi Ferrari tal é o assédio dos grandes da Europa por este pensador magiar.
O futebol é um desporto colectivo. Os prémios são méritos individuais. Errado. E errado. Nem sempre o jogo se remete aos 11. Nem sempre os prémios representam apenas 1. O arrebatador triunfo de Lionel Messi na última edição do Ballon D´Or da década cai no duplo erro de personalizar o jogo colectivo e deíficar um que não foi, na realidade, primus inter pares. A maior vitória da história do prémio atribuído pela publicação francesa confirma que o futebol precisa, cada vez mais, de figuras para fascinar o colectivo.

480 votos são o máximo que um candidato pode atingir. Matematicamente é quase impossível lograr tamanho consenso. Messi conseguiu 473. A sete do total absoluto. Um record esmagador, retumbante, histórico. E profundamente injusto.
O argentino venceu à terceiro tentativa depois de ficar atrás de Kaká e Cristiano Ronaldo em 2007 e do português em 2008. Um triunfo que já era esperado, mas nunca com esta magnitude. Afinal, o grande mérito de Messi foi pertencer a um colectivo que fez história, uma equipa que fascinou o futebol europeu pela sua qualidade colectiva. Onde as individualidades não tinham lugar. Uma mensagem passada vezes sem conta pelo orquestrador desta sinfonia gloriosa. Mensagem que caiu em saco roto. À hora de premiar - e isto dos prémios é sempre profundamente relativo - o mundo do futebol prefere a figura individual ao valor colectivo. Porque Messi podia ter ganho. Mas nunca de forma tão unânime. Nunca a tamanha distância dos artistas que lhe permitem existir no relvado. Fica a dúvida no ar ao ver a brutal diferença nas votações. Nos cinco primeiros encontramos a quatro jogadores do Barcelona. No meio, Cristiano Ronaldo, prova que a sua figura individual é bigger than life, esteja onde esteja. Porque o Manchester United é uma equipa com e sem CR7. Porque o Real Madrid é uma equipa com e sem CR9. Mas o Barcelona mantém-se exactamente o mesmo relógio suiço, precioso e metódico, com e sem Lionel Messi. E isso os votantes não perceberam.
Se Cristiano foi um justo vice - logrando estar, pelo terceiro ano consecutivo nos dois primeiros lugares - ele que não fez méritos para triunfar mas que não teve igualmente deméritos para perder, olhar para o resto do quadro é perceber a importância do Barcelona no ano que finda. O maestro de cerimónias, Xavi Hernandez, trepa até ao terceiro posto. Apenas. Um triste fado para um pequeno grande génio, já habituado a ser suplantado pelo valor das figuras mediáticas. Primeiro Rivaldo, logo Ronaldinho, agora Messi. Atrás, sempre como fiel escudeiro, o inevitável Xavi. Justissimo vencedor por representar o colectivo blaugrana, tanto Xavi como o seguinte na classificação, Andrés Iniesta, foram tão ou mais decisivos do que o ganhador na época do Barcelona. Foram eles a treve mestre do Pep Team. Mas não vendem suficiente camisolas, capas de revistas ou videojogos para sonhar com algo mais. Desditas do futebol, desditas da nossa sociedade.
No quinto posto, a fechar com chave de ouro o ano blaugrana, o amaldiçoado Samuel Etoo. Os seus golos foram tantos e de tal forma decisivos que era inevitável a sua presença. Apagado em Milão, mal-amado em Barcelona, o homem que abriu o triunfo europeu e doméstico do Barcelona é uma das figuras do ano. Por muito que (quase) ninguém, o queira reconhecer.

Acabado o top 5 começa a confirmar-se a ideia que faz de Messi um vencedor tão retumbante. Kaká na sexta posição é premiar o nome, não o jogador e muito menos, a época. Zlatan Ibrahimovic surge à frente de Rooney, Drogba, Gerrard e Torres, elementos fulcrais na Premier League e na última edição da Champions League. O genial sueco faz a diferença, de forma individual. Mas teve um ano agridoce, bem longe do nível exibido pelo quarteto que fecha o top 10. E claro, depois vêm todos aqueles que colheram as migalhas deixadas pelos grandes. Dzeko soma mais 10 pontos que Diego? Giggs conta com o dobro dos votos de Lampard? Henry e Casillas à frente de Forlan e Gourcouff? São coisas das votações que sempre deixam um ar de compadrio e amiguismo que só o futebol europeu é capaz de suportar. No top 30 final não é surpresa alguma que haja apenas um futebolista sem votos. Karim Benzema, avançado de futuro com um presente dúbio, é nomeado por ser francês. Um dos quatro na lista. E surge atrás do turbilhão Touré Yaya. Não há problema, recebemos a mensagem.
Nos próximos dias publicar-se-ão artigos de louvor ao génio de Messi.
O argentino é, sem margem de dúvidas, um dos melhores futebolistas da década. Um jogador hipnotizante, com um drible sedutor, uma picardia bem sul-americana e um posicionamento táctico que prova que o seu crescimento se fez bem longe das ruas poeirentas de Rosário. É um nome ilustre para uma lista que já conheceu vencedores bastante mais polémicos. Apesar de haver outros nomes mais dignos do trofeu, este ano, Messi tinha, inevitavelmente, de acabar por figurar nesta lista. Logrou-o com 22 anos, o terceiro mais jovem da história do futebol - atrás de Michael Owen e Ronaldo. Depois de um ano negro com a Argentina, onde continua a parecer invisível. Depois de um arranque de temporada bem cinzento que volta a confirmar que este - e outros prémios - deveriam entregar-se em Junho e não em Dezembro. Messi assinou o seu nome na lista com o golpe de cabeça de Roma. Nesse momento provou o valor do individualismo. Talvez fazendo esquecer ao mundo, habitualmente cego para estas coisas, que esse mesmo golo resultou de uma movimentação ofensiva onde actuaram os três soldados blaugranas que o escudam também na classificação final.
E se estes prémios são para individualidades, a verdade é que também sabem mandar uma mensagem ao colectivo. Se não cairem na tentação. A France Football fê-lo antes, com menos motivos. Lembrar os triunfos de Fabio Cannavaro - a premiar o esforço defensivo de uma Itália campeã mundial inesperada - de Mathias Sammer, marechal de uma Alemanha bem cinzenta, de Igor Belanov, rosto destacado da armada soviética de Lobanovsky ou até mesmo Josef Masopust, o imperial central checo. Todas essas vitórias espelharam, não os méritos individuais dos ganhadores, mas o triunfo de um inesquecível colectivo. Colectivos que marcaram a história do futebol. Mas que nunca atingirão o nível deste Barcelona.

O cometa argentino cumpriu o seu designio. Ofuscou os seus próprios pares e meio-mundo. Ou mais, a julgar pela classificação final. No campo, onde realmente a realidade é bem distinta, não há futebolista que acredite nesta diferença. Nem o próprio Messi. Para o ano voltaremos a ver o individual a premiar o colectivo, desta feita o colectivo vencedor do Mundial. Como Ronaldo em 2002, desaparecido dos relvados quase todo o ano, determinante na prova mais vista a nível mundial, depois das Olimpiadas. Um cenário onde não se espera ver Messi brilhar a ponto de justificar esta votação. Talvez por isso a pressa em confirmar um novo "Deus" antes de que se perceba que também La Pulga é humana aos olhos do Mundo que hoje o coroa como o novo rei e senhor de um desporto onde a memória é sempre bem curta.