Terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

Mais interessante do que deambular sobre os títulos logrados com maiores esmagadoras pelo único jogador que não destoa do resto do colectivo que é o Barcelona é olhar para as recentes votações de final de ano e descobrir sempre entre os favoritos a Ricardo Izecscon. Um fantasma de si próprio, o médio brasileiro é o último reflexo do poder mediático sobre a qualidade de jogo. Porque, desde há quanto tempo que alguém se lembra de um lance memorável de Kaká?

Na imprensa espanhola instalou-se o debate. As excelentes exibições do proscrito Rafael van der Vaart levantam o véu sobre um dos temas tabus do ano no Santiago Bernabeu. Por muito bem que jogue, está o médio condenado a ceder o seu lugar a Kaká? Mais sabendo ainda que este Kaká é um fantasma do que foi? A resposta parece estar já escrita na mente dos directivos madrileños - mais do que do próprio Pellegrini - e acenta na mesma estratégia de glorificação que explica o porquê do quarto posto de Kaká entre os 5 melhores do ano para a FIFA. E a sua altíssima posição no top 10 da revista France Football. Tal como no ano passado aliás. Porque desse médio que gostava de rasgar e arriscar já não se vislumbra um momento de genialidade desde há mais de dois anos. Mas o nome continua aí, a vender camisolas e votos de primeiro nível. Afinal, qual é o curioso caso deste Ricardo Izecson.

 

A sua chegada a Madrid foi envolta com a mesma aura de Zinedine Zidane. Segundo a critica o Real Madrid tinha uma profunda carência de um homem capaz de pautar e controlar o jogo desde a saída do francês em 2006. Promessa de Ramon Calderon, o médio acabou por abrir a galáxia de Florentino Perez. Ofuscado - dentro e fora do campo - por Cristiano Ronaldo, no primeiro meio ano em Madrid o brasileiro simplesmente não existiu. Depois de uma pré-época apagada, Kaká começou a ter problemas em encontrar o seu espaço no puzzle de Pellegrini. Ao contrário de Cristiano Ronaldo, que apesar de se queixar mostrava serviço, o brasileiro nem se queixava nem rendia. Deambulava perdido pelo relvado sem saber como e onde se posicionar. Da inteligência superior de jogo nem um vislumbre. A bola rodeava-o mas ele não a agarrava. O jogo escapava-lhe das mãos e nem a ausência do português por lesão foi suficiente para lhe dar protagonismo. Pelo contrário, Kaká esteve nos maus momentos mais escondido do que nunca. No duplo duelo contra o AC Milan, o seu anterior clube, mal se notou em campo. O mesmo em Camp Nou. Isto para não nos adentrarmos nas noites mais gélidas da liga espanhola. Mas isso não era novidade. Depois da brilhante época de 2006/2007, onde levou o AC Milan a mais um ceptro europeu, Kaká desapareceu dos radares. A última época em Giuseppe Meazza foi um pesadelo em toda a linha entre lesões, erros e tropeções. Parecia que Kaká tinha desaparecido e o seu alter ego divino, esse que joga com a ajuda de Deus e pouco mais, Ricardo Izecson, tinha tomado o seu posto.

 

A Taça das Confederações na África do Sul voltou a dar-lhe protagonismo - afinal o Brasil até foi campeão - mas apesar das boas exibições do brasileiro, a sua performance esteve a anos-luz do conceito de crack mundial que lhe vinha associada. Depois de ter desaparecido no Mundial da Alemanha e de já não constar no radar de Milão, em Madrid acreditou-se que o fausto do Bernabeu o iria ressuscitar. Um pouco como a Zidane, desaparecido também nos últimos meses em Turim. Só que ao contrário do francês, Kaká continua a não convencer. Parece que o sistema táctico de Pellegrini não lhe encontra um espaço. Perito em jogar atrás do ponta-de-lança, solto e sem nenhuma missão em concreto - ao contrário de Zizou que arrancava detrás para a frente - neste 4-3-3 madrileño é obrigado a descair para um lado. Ou a jogar muito longe da baliza. No primeiro caso a Kaká falta-lhe o espirito de jogar de banda, que Cristiano domina à perfeição mas que van der Vaart, Higuain e até Raul podem desempenhar. No segundo caso a posição no coração do meio campo impede-o de chegar perto das redes, por muito bem que esteja escudado por Xabi Alonso e Diarra. Mais uma vez Granero, Guti e van der Vaart se mostram mais apto para esta labor. Sem sitio no onze, sem espirito e sem destelhos de magia, Kaká ameaça transformar-se no primeiro grande erro da nova galáxia.

E no entanto aí está ele, em cerimónias a recolher galardões. Perguntamo-nos porquê? Qual a necessidade de constantemente premiar um atleta que há mais de dois anos que não demonstra estar no top 10 (ou 20) dos melhores do Mundo. Porquê preferir Kaká a Lampard, Drogba, Gerrard, Torres, Rooney, Gourcouff, Iniesta, Silva, Ribery, Fabregas, Arshavin e companhia? Afinal não foram todos estes mais regulares, mais efectivos e mais premiados neste último biénio que o brasileiro? Que tem Kaká para seguir na elite que não tenha nenhum deles? A resposta é clara: marketing.

A FIFA precisa, desesperadamente, de manter em alta o mercado brasileiro. E a verdade é que, exceptuando Lionel Messi que é um caso à parte (europeu no estilo de jogo e na formação, mais odiado que amado entre os seus), desde a explosão de Ronaldinho que o Brasil não tem uma estrela à altura. E a América do Sul um simbolo. Depois de anos consecutivos onde Romário sucedeu a Zico, Ronaldo e Rivaldo se seguiram e logo veio Ronaldinho primeiro e Kaká depois (enquanto que paralelamente havia Valderrama, Salas, Zamorano, Batistua, Lopez, Crespo e afins nos paises latinos vizinhos) , hoje o país que mais vive o jogo não tem icones. O escrete canarinho é uma equipa cinzenta e os grandes nomes jogam adormecidos. Por isso é importante manter Ricardo Izecson no escaparate. Só ele pode vender a imagem de um Planeta do Futebol longe da hegemonia europeia que hoje, efectivamente, se verifica. Olhando para as listas dos grandes atletas mundiais podemos até encontrar dois africanos (Drogba e Etoo) e três sul-americanos (Messi, Kaká e Diego), mas nenhum deles - voltamos a retirar Messi desta equação - vende como Kaká consegue. E por isso continua no escaparate.

Os (exagerados) milhões pagos por Florentino Perez e as óptimas votações logradas entre os prémios FIFA, France Football, Onze, World Soccer e afins justificam o cachet que rodeia o médio. Kaká, que foi um belissimo jogador até há três anos atrás, é hoje um fantasma da mesma forma que Ronaldinho - que esteve sempre uns furos acima do ex-Milan - já não é quem era.  Mas o Brasil precisa de uma estrela, a FIFA precisa de um Mundial com estrelas fora do espectro UEFA e o próprio futebol europeu gosta de valorar as importações internacionais. Talvez seja esse o curioso caso de Ricardo Izecson, um rosto tão familiar e tão desconhecido como o misterioso desaparecimento de um crack chamado Kaká.



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Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

É curioso que o primeiro grande herói do futebol escocês tenha ficado para a posteridade como um "Lisbon Lion". Uma tarde histórica no estádio do Jamor que terminou o dominio do futebol latino na Europa e abriu uma época em que os britânicos se tornaram infaliveis. 29 anos depois, a sofrer no banco como nunca, o seu coração não resistiu a uma nova alegria histórica. E o imortal Stein sofreu o destino que um dia Shankly anunciou como o único digno para um grande Manager: morrer no banco.

 

Que o primeiro conjunto britânico a vencer a Taça dos Campeões Europeus tenha sido escocês é uma alegria que em Glasgow não tem preço. Jock Stein foi o grande responsável por esse feito e por isso mesmo, ainda hoje, o seu nome é reverenciado até mesmo pelos eternos rivais do Rangers. Um feito que poucos podem almejar. Mas a história tem dessas coisas. E é importante que se conte desde o principio.

O principio de Stein remonta a Burnbank, uma pequena localidade do sul da Escócia, onde nasceu em 1922 Jock Stein. Durante a guerra o jovem serviu na RAF e depois de ter sido desmobilizado, como muitos veteranos, optou por seguir uma carreira profissional como futebolista. Mas depois de muitos anos em clubes modestos, só na etapa final da carreira chegou ao clube dos seus sonhos, o Celtic de Glasgow. Em Celtic Park a comunidade irlandesa a viver em Glasgow deslumbrou-se com a qualidade de passe do médio que em cinco anos jogou 150 encontros. A maior parte deles como capitão de equipa. Em 1953 foi o responsável pelo primeiro titulo do clube em 18 anos. No final de 1956 saiu ovacionado. Voltaria, uma década depois, para completar o trabalho.

 

Em 1960 Stein já tinha arrancado a carreira de treinador no Dunfermline onde esteve quatro anos tranquilos. Depois de se retirar do Celtic esteve um ano como treinador das reservas, sagrando-se campeão. Até que decidiu começar a carreira por sua conta e risco. No modesto Dunfermline fez história e em 1961 venceu a primeira Taça da Escócia da história do clube, precisamente diante do Celtic. No ano seguinte a equipa disputou a Taça das Cidades com Feiras onde eliminou o Everton tendo apenas caído diante do Valencia, futuro vencedor, ao terceiro jogo. Daí saiu para o Hibernian depois de ter rejeitado um convite do Glasgow Rangers. Estava à espera da sua oportunidade no seu amado Celtic. As suas inovadoras tácticas, utilizando os alas da mesma forma que Ramsey começava a aplicar em Inglaterra, levaram o seu novo clube a uma das melhores épocas da sua história. No final do ano recebeu um convite do Celtic e não rejeitou. Estava preparado.

Ao chegar a Celtic Park a equipa vinha de 8 anos de seca de titulos. Rapidamente Stein mudou a estrutura da equipa. Promoveu vários jovens dos juniores e aplicou o seu sistema de forte rigor táctico na utilização de falsos extremos. Meses depois bateu o seu antigo clube Dunfermline na final da Taça da Escócia. Compensado estava o triunfo de 61.

 

No ano seguinte Stein foi implacável. Venceu a Liga Escocesa com um dos maiores avanços pontuais da história da prova impondo-se em todos os duelos directos com os principais rivais ao titulo. Na Europa defrontaram vários rivais que iam caindo a cada viagem ao Celtic Park. Nas meias-finais defrontaram o histórico Liverpool de outro intratável escocês, Bill Shankly. A equipa inglesa venceu apenas pela regra dos golos fora e no final do jogo Stein baixou ao balneário para desejar boa sorte ao compatriota. Este disse-lhe que o Celtic era a melhor equipa do Mundo. Ambos tinham razão. O Liverpool venceria a prova e o Celtic faria história no ano seguinte. Pela primeira vez na história do clube a equipa venceu um Treble. No campeonato repetiu o esmagador triunfo da época passada e a isso acrescentou a vitória na Taça da Escócia. O grande êxito acabou por chegar em Maio. A equipa foi eliminando os vários rivais na Taça dos Campeões Europeus e chegou à primeira final da sua história marcada para o Jamor. Era a primeira vez que uma equipa britânica chegava tão longe na prova. E apesar do Inter se ter adiantado de penalty nessa solarenga tarde, os jogadores do Celtic foram verdadeiros fenómenos. Fieis ao desenho táctico do seu mentor, a equipa deu a voltar ao marcador e acabou por vencer por 2-1. A imprensa coroou a sua histórica exibição como a dos "Lisbon Lions": E assim se fez história de um conjunto que só contava com jovens nascidos na comunidade irlandesa de Glasgow.

 

Em 1968 a equipa voltou a vencer a liga - pelo terceiro ano consecutivo - e a Taça da Liga enquanto que 1969 os levou a outro Treble histórico: Liga, Taça e Taça da Liga. Apesar de na Europa o conjunto não ter logrado repetir o nível exibido em 1967, na Escócia o Celtic era intocável. Até que chegou 1970. A equipa voltou a vencer a Liga - um histórico Tetracampeonato decidido no último dia - e a Taça da Liga e apresentou-se para a sua segunda final europeia. O rival era o praticamente desconhecido Feyennord. Mas desta feita a sorte acompanhou os holandeses e o Celtic perdeu a oportunidade de ser o primeiro conjunto do norte da Europa a lograr dois trofeus. Apesar da derrota europeia a equipa continuou uma série histórica. Nove titulos consecutivos que tornaram o conjunto católico no mais bem sucedido do futebol britânico a nivel doméstico. Apesar da velha equipa de Lisboa se ter desmoronado com o tempo, Stein continuava a mostrar-se intratável. Em 1975 salvou-se por milagre de um acidente de carro e esteve meio ano fora dos bancos. Voltou na época seguinte para conseguir a melhor pontuação lograda por uma equipa escocesa no campeonato. Em 1978, ao vencer o seu 14 titulo pelo Celtic a direcção persuadiu-o a abandonar o cargo. O técnico contava então com 56 anos e a sua saúde estava debilitada pelo acidente sofrido anos antes. O técnico aceitou contrariado e assumiu imediatamente outro cargo, o de técnico do Leeds United. Curiosamente, tal como anos antes tinha sucedido a Brian Clough, o técnico apenas ficou 45 dias em Elland Road. Insatisfeito com o nivel de profissionalismo do clube que anos antes era a inveja do mundo, decidiu voltar à sua Escócia natal e assumir um posto há muito sonhado, o de seleccionador nacional.

 

Ao serviço da selecção logrou a qualificação para o Mundial de Espanha de 1982 onde a equipa não passou da primeira fase, fruto de um empate no último jogo com a URSS. Quatro anos depois, a Escócia voltava a lutar pela qualificação. Num play-off contra a Austrália os escoceses lançaram-se ao ataque desde o primeiro instante e rapidamente decidiram o jogo. Mas perto do apito final a emoção apoderou-se do veterano técnico. Com a mão agarrada ao peito, Stein caiu fulminado no relvado. Um ataque cardíaco tinha levada a vida de um dos mais geniais técnicos da história do futebol. O futebol escocês entrou em luto e apesar de apurada, a Escócia nunca mais voltou à sua era de glória que bebeu com Stein ao leme da sua selecção e do seu clube mais emblemático. Isto apesar de Alex Ferguson, que poucos meses antes da morte de Stein tinha já sido nomeado por este como seu sucessor, ter levado a equipa ao Mundial.

Inovador na preparação dos encontros, Jock Stein era um técnico iminentemente ofensivo e as suas equipas sempre se pautaram por um estilo de jogo de puro ataque. Viveu longos anos sem conhecer a derrota. Um treinador verdadeiramente imortal.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 15:28 | link do post | comentar

Num jogo de futebol a equação é simples. No final dos 90 minutos se um ganha outro perde. É ilusório acreditar que o resultado final é consequência da labor de apenas um conjunto. Longe disso. Há sempre alguém que fez algo para ganhar e outro que não fez o suficiente, e acabou por perder. A atitude muitas vezes é o desbloqueador. No duelo da noite passada o FC Porto fez todo o possível para perder e o SL Benfica o suficiente para ganhar. E mais uma vez foi a vontade em campo que determinou o pobre resultado final.

 

No último clássico do ano e década o futebol pecou pela sua ausência.

Os que esperavam um duelo grandioso enganaram-se de recinto. No encharcado relvado da Luz viveu-se uma intensa batalha desportiva, mas na maioria dos casos a bola não estava presente. Uma omissão determinante para decidir um resultado pela minima, esse golpe de sorte e eficácia que separa os que procuram e os que anseiam. O Benfica não foi uma grande equipa sob o terreno de jogo. Mas tinha os seus objectivos bem claros. Teve a atitude certa e soube-se adaptar a cada momento do jogo. Nunca deu a sensação de dominar o encontro. Porque sabia que não ia a necessitar de tanto. Foi uma equipa corajosa e controladora. Mas, acima de tudo, foi uma equipa com atitude. E isso acabou por resolver uma contenda que tinha tudo para terminar igualada. O FC Porto, por outro lado, voltou a mostrar todos os aspectos negativos que fazem deste conjunto de Jesualdo Ferreira o mais débil em toda a década azul-e-branca. Não é por acaso que a equipa caminha a quatro pontos da liderança. Não foi no duelo de ontem que a equipa portista se atrasou. Foi nos pontos desperdiçados contra rivais acessiveis onde faltou sempre a mesma fórmula: atitude. Em Paços de Ferreira, na Madeira, em Braga e com o Belenenses. Um total de 8 pontos perdidos apenas por falta de atitude. Em nenhum jogo o FC Porto foi pior. Mas em todos eles foi a equipa mais débil. Mais medrosa. E mais desanimadora.

 

É inevitável olhar para o banco e não ver as diferenças entre Jorge Jesus e Jesualdo Ferreira.

O técnico encarnado passou durante toda a semana com um discurso cauteloso sabendo bem que as baixas que o seu plantel sofria deixavam a estratégia encarnada desprotegida. Preparou a resposta no silêncio e desnorteou um conjunto que chegou à Luz confiante que a ausência de nomes como Aimar, Di Maria e até mesmo Fábio Coentrão jogavam a seu favor. Não foi assim. Jesus provou que a sua estratégia está de tal forma bem oleada que não emperra pela falta de um elemento. Além do mais exemplificou que o plantel é largo e com duas boas opções por posição, que se transformam também em alternativas capazes de dar outro ritmo ao jogo. Carlos Martins fez esquecer o temido Aimar, o brasileiro Ramires esforçou-se mais do que nunca e Urretavizcaya fez esquecer o melhor Di Maria, provando até ser muito melhor no duelo defensivo. A equipa mudou os rostos mas manteve-se fiel à sua filosofia de ataque. Não foram letais no terreno de jogo como noutras ocasiões mas não precisaram de o ser. Um golo fortuito que diz bem do sentido de oportunidade de uma equipa com atitude - Bruno Alves e Helton estão distraídos enquanto que os atrevidos David Luiz e Saviola fabricam o golo do nada - frente a um conjunto confiado e adormecido. O Benfica funcionou porque venceu a batalha a meio-campo num claro 4 contra 3 onde os seus saíam sempre a ganhar. Funcionou porque o ataque nunca deixou de incomodar a baliza adversária e porque a defesa mostrou-se sempre sólida. Funcionou porque as linhas actuaram juntas, numa enorme entre-ajuda. Funcionou porque o rival a deixou funcionar.

Do lado oposto do espelho desta Alice o FC Porto nunca funcionou.

Em nenhum aspecto desportivo. E em alguns extra-jogo. Jesualdo Ferreira voltou a mostrar que a máxima de que há grandes técnicos sem titulos e muitos técnicos fracos com titulos é bem real. Renunciou ao novo FC Porto, uma equipa arrojada para o ataque e com atitude, com as linhas bem juntas e com os laterais a equilibrarem a desvantagem no meio-campo. A simples troca de Belluschi por Guarin denunciou o jogo azul e branco. De contenção, na expectativa. De medo. Sem atitude. A isso junta-se a eterna predileção por Hulk e Rodriguez como extremos que não o são e avançados que não conseguem nunca ser. Dois elementos a menos no puzzle defensivo onde a guerra se perde realmente. E dois elementos inofensivos no ritmo ofensivo, facilmente domados por uma defesa sólida e perigosa no contra-golpe. A entrada de Belluschi  e Varela equilibrou uma equipa eternamente descompensada. Mas foi insuficiente. A falta de rotinas de um plano alternativo e de um estilo de jogo que fuja ao contra-atqaue medroso foram fatais. A isso junta-se a total falta de concentração. O árbitro Lucilia Baptista não ajudou, quebrando o ritmo do jogo constantemente e impedindo a equipa azul e branca de jogar cómoda. Mas os erros acabaram repartidos e não influenciaram o resultado. Mas sim o ritmo de jogo.

Os jogadores portistas pareciam fantasmas, com a cabeça lá bem longe. Já falamos no lance do golo, exemplo perfeito do porquê do resultado final. Mas a falta de aplicação de Fucile e Álvaro, as constantes falhas de Fernando e o ritmo adormecido de Meireles ajudam a explicar o planteamento defensivo de um conjunto que desaparece nos grandes jogos. Nos que pedem caracter e atitude. Que é a imagem de marca do FC Porto. Mas não deste.

 

Enquanto que a vitória encarnada espelha bem o programa de futuro que constroi Jesus, a derrota azul e branca é o resultado natural da falta de estruturação do dragão. Na Luz não há apenas uma equipa ofensiva, organizada e preparada para o futuro. A cada jogador em campo há uma alternativa mais nova no banco para compensar as contas. Felipe Menezes, Urreta, Ruben Amorim, Coentrão estão treinados e preparados para assumir o seu posto a cada momento. Do outro lado cada vez que há uma mudança no esquema o castelo de cartas cai. Desta vez foi Guarin, o buraco no meio campo. Mas antes já foi a vez de Rodriguez, Varela, Farias, Costa, Mariano e uns quantos mais. O FC Porto não tem um sistema de jogo claro. Tem sim um plantel descompensado que o técnico tenta tapar mantendo-se fiel a uma estratégia para a qual já não tem jogadores. Não tem extremos hábeis para o contra-golpe. Não tem um talento criativo para pensar o meio campo e controlar antes de lançar os golpes venenosos. E não tem a certeza de como resolver os problemas quando o barco começa a afundar-se. O problema azul e branco está muito por cima de um ou outro jogador. É uma questão de fundo que precisa de uma solução drástica. A mesma aplicada neste defeso na Luz e que está a dar bons resultados. Porque se o Benfica não foi muito melhor que o Porto em jogo jogado, teve mais profissionalismo, concentração e atitude. E muitas vezes são esses os aspectos que decidem um jogo. Um campeonato.

A desvantagem para os azuis e brancos é perfeitamente anulável. Já o foi no passado e basta olhar para o ano passado, com as águias a terminar o ano em primeiros. Mas mais do que ficar a perder nos duelos directos e a ver de novo a diferença a cair nos 4 pontos, o FC Porto percebeu que há dois modelos de gestão frente a frente nesta luta. E que o seu sai claramente a perder. No final é quando se fazem as contas e as águias sabem que não podem confiar num simples triunfo onde nunca foram excessivamente melhores. Mas o plano traçado por Jesus é claro e tem um objectivo. E na sua equipa todos remam na sua direcção. Olhar para Hulk, JesualdoMeireles é ver três náufragos à procura de uma bóia salva-vidas. E se no final se salvam os três, tanto melhor. Mas a sobrevivência individual superou o peso do colectivo. E isso é sempre um mau sinal para o futuro. 



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 15:18 | link do post | comentar

As únicas equipas campeãs em Dezembro são as do continente americano. O honorífico título de campeão de Inverno vende jornais mas não otorga títulos com direito a estatistica incluída. Ao terminar o ano há os primeiros campeões honoríficos mas o passado ajuda a perceber que chegar à frente no final do ano pouco impacto tem quando as contas realmente se fazem já com a Primavera a chegar ao seu final.

 

Braga e Benfica, Barcelona e Chelsea, Bordeaux e Inter, Bayer Leverkusen ou Twente. São os prováveis campeões das ligas europeias em Maio ou um reflexo apenas de uma circunstância puramente conjuntural? A experiência diz-nos que se verifica mais o segundo que o primeiro caso. Num jogo repeleto de improbabilidades como é o beautiful game, fechar o ano na liderança é sempre um plus anímico mas com a maioria dos campeonatos ainda sem chegar à sua respectiva metade é demasiado precipitado anunciar campeões. Apesar das pequenas celebrações em alguns balneários por essa Europa fora.

No final de contas é a diferença pontual mais do que a posição na tabela classificativa quem dá sentido à analise da época com a paragem natalicia. Exceptuando a Premier League, que em lugar de levantar arraiais entra numa espiral competitiva única, as restantes ligas dizem até já. E só em principios de Janeiro voltarão a encher estádios num mês, aliás, pautado pelas habituais eliminatórias das taças nacionais e de outras competições criadas para aumentar as depauperadas receitas de bilheteiras por esse continente fora.

 

Olhando para as tabelas classificativas é fácil entender que de todos os proclamados campeões de Inverno, só existe uma equipa que pode ir colocando o champagne no congelador: o Inter de José Mourinho.

Apesar das criticas cada vez mais intensas e das dificuldades que se antevêm com a eliminatória europeia frente ao Chelsea os neruazzurri continuam a fazer da Serie A um passeio com a ajuda preciosa dos rivais mais directos. Nova derrota da Juventus - frente ao último - e a vantagem que se amplia a nove pontos com dezassete jogos disputados. Pelo meio está o AC Milan, a oito pontos e com menos um jogo, adiado devido ao mau tempo. Mourinho sabe que para se dedicar a 100% na Europa deve ter uma vantagem confortável na prova doméstica e a vitória de ontem frente à Lázio, num exercício de pura eficácia, praticamente deixa as contas bem encaminhadas. Uma situação invejável que mais nenhum clube europeu pode presumir.

O único onze que está numa situação similar é o sempre competitivo Girondins Bordeaux. Depois de uma fase de grupos mágica na Champions League - bafejada com um sorteio alentador - os girondinos puderam finalmente concentrar-se em renovar o titulo doméstico. A categórica vitória por 4-1 frente ao Lorient e os enésimos tropeções de Lyon e Marseille abriram uma brecha dificil de sanar na classificação. Oito pontos de vantagem com metade do campeonato cumprido sendo que os de Lyon têm um atraso já de 10 pontos. Recuperável mas em circunstâncias bastante complicadas.

 

Competitiva como nunca está a liga espanhola. O já oficial "Barça de las 6 Copas" lidera a prova mas apenas com dois pontos de avanço para o milionário Real Madrid, que depois de um inicio contestado tem trepado na classificação. Não fosse a derrota no Camp Nou e agora os merengues eram líderes. Não o são mas a vitória por 6-0 diante do Zaragoza deixa-os como a equipa mais eficaz e menos goleada. E dois pontos em Espanha não são absolutamente nada deixando para os próximos meses uma série de confrontos que poderão determinar se a vantagem blaugrana se anula ou, pelo contrário, volta a ampliar-se. E se a vantagem da Premier League é apenas de três pontos para o Chelsea, o facto da prova continuar de forma ininterrumpida até ao principio do ano deixa qualquer análise já bem entrado o mês de Janeiro, já em Portugal a época fecha como decorreu. O Sporting de Braga continua ano frente e pela primeira vez na sua história dobra o ano no primeiro posto. Algo que nem o Boavista logrou quando se sagrou campeão, tendo assaltado a liderança apenas em finais de Janeiro. O conjunto bracarense tem vindo a perder pontos importantes que o impedem de liderar em solitário mas mantém elevados os altos níveis de competitividade. Com os mesmos pontos caminho o Benfica. O onze de Jorge Jesus sabe o que significa acabar o ano em primeiro, nem que seja em ex aqueo. Já o ano passado Quique Flores foi "campeão de Inverno". E de pouco lhe valeu. A vitória ontem diante de um FC Porto a milhas do que pode fazer voltou a manter a diferença entre o duo da frente e o seu perseguidor em quatro pontos. Uma diferença infima e que deixa a luta pelo titulo adiada para os próximos meses com a particularidade de que o Braga não terá de suportar os dificeis duelos europeus.

 

Com a neve a congelar mais de meia Europa e os temporais a anunciar a chegada do "general Inverno", o futebol na Europa entra em modo de pausa. Se a paragem é larga em paises como a Alemanha - onde o Bayer Leverkusen se consagra como a grande revelação - e Holanda, já no sul a pausa é apenas de duas semanas, mais por motivos festivos do que pela intempérie que se vai vivendo. Dentro de nada a bola voltará a rolar e as diferenças que ditam os campeões de Inverno rapidamente se anularão ou até se ampliarão. Mas acreditar que fechar o ano à frente é sinónimo de festa no caloroso Maio é ignorar o principio mágico deste jogo: só acaba quando realmente acaba.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 10:12 | link do post | comentar

Domingo, 20 de Dezembro de 2009

É o máximo duelo do futebol português. Por muito que a imprensa lisboeta teime em valorizar o valor do derby da Segunda Circular, a bola desloca-se com outra dinâmica num duelo que ultrapassa as quatro linhas. É um espelho de uma Nação em constante conflito adormecido. É um jogo de gerações e orgulhos. É o retrato de um país que continua a viver o preto e branco do contra ou a favor. Sem meios termos. Porque nem os empates o são na realidade. Hoje a Luz voltará a iluminar o futebol nacional.

Historicamente os duelos SL Benfica e FC Porto disputados em Lisboa pendem a favor dos encarnados. Mas a estatistica não perdoa e denuncia um equilibrio total na última década. 3 vitórias dos locais, 3 vitórias visitantes, 3 empates. Por isso este jogo desempatará as contas. Mas aqui as estatisticas contam pouco, muito pouco. Um duelo Benfica-Porto é pura emoção. Apesar de não ter o mesmo poder mediático é um duelo ao nível dos grandes clássicos do futebol. Uma longa tradição de conflito institucional, dois clubes que representam duas visões totalmente opostas do desporto. E da sociedade. E para culminar, as duas equipas que dominaram os últimos 50 anos do futebol português. Vinte e cinco anos de dominio encarnado e vinte e cinco anos de supremacia azul e branca. Os portistas procuram o seu segundo Pentacampeonato. Os benfiquistas acreditam, pela primeira vez em muitos anos, na ressurreição desportiva a longo prazo. Já não é só a questão do titulo - quebrada que estava em 2005 a malapata de 11 anos. É o futuro dominante de uma liga que nos últimos anos tem sido tingido com azul e branco. A prova caminha para o seu equador e o lider até é outro, um surpreendente Sporting de Braga que começa a provar o amargo sabor da exigência daqueles que vêm dois empates consecutivos e acham isso estranho. Quando é a situação mais normal do mundo num clube que não ambiciona a nada mais que voltar à Europa. E apesar disso, lidera. Mas mais do que a liderança, na Luz disputa-se outra guerra.

 

O FC Porto chega em alta. Depois de um mês de Outubro muito complicado, os portistas ressuscitaram. A equipa recuperou jogadores chaves que passaram o Outono lesionados. Casos de Fucile, Varela e Rodriguez. A qualificação europeia e as últimas vitórias na liga levaram os portistas ao terceiro lugar, a apenas um ponto da liderança. Algo impensável para os mais criticos há pouco mais de um mês. Mérito para Jesualdo Ferreira, que finalmente impôs o seu modelo de jogo às novas incorporações. No entanto, apesar da subida de forma, o conjunto do Dragão tem manifestado grandes dificuldades em vencer em Lisboa com Jesualdo no banco. Será provavel que a abordagem do treinador seja mais cautelosa, trabalhando um 4-4-2 que utilize o contra-ataque como arma principal. Talvez até sem um ponta-de-lança fixo na área, utilizando a velocidade de Varela e Hulk. O técnico sabe que deve aproveitar as baixas do rival mas ao mesmo tempo não quer perder a luta do meio-campo. Precisamente o ponto forte do rival. E precisamente onde está mais frágil.

As expulsões de Di Maria e Fábio Coentrão no jogo frente ao Olhanense - o pior jogo do ano do Benfica, em que Jesus se mostrou absolutamente vulgar - abrem uma série de dúvidas. A isso há que juntar a débil condição fisica de Ramires e Aimar. Os encarnados que tiveram dois meses ao mais alto nível perderam o gás. Depois da derrota em Braga e frente ao Vitória e com os empates diante de Sporting e Olhanense provou-se que a febre goleadora tinha data de caducidade. O Benfica não deixa de ser um conjunto organizado mas tem-se tornado mais previsível. As polémicas arbitrais também não deixam de acompanhar os encarnados, com vários erros a acabarem por revelar-se determinantes num bom punhado de jogos. A aura de invencibilidade esmorece-se. Mas uma vitória diante do rival directo pode mudar tudo. Será o grande teste de fogo para o técnico. Se o duelo com o Sporting mostrou um Jesus temeroso frente ao leão mais débil da década, muitos se perguntam que Benfica esperar diante do temível dragão. Uma equipa de contenção e calculista com Carlos Martins e César Peixoto? Ou a máquina de ataque que tem encantado gregos e troianos?

 

Os últimos anos têm servido para diminuir o ruido à volta do derby. A polémica à volta do Apito Dourado levou ao presidente azul e branco, Pinto da Costa, a afastar-se da ribalta. E sem o seu cinismo viperino os azuis e brancos ficaram orfãos de um espirito de guerrilha que esteve também na base do seu sucesso desportivo a partir dos anos 80. Por sua vez o Benfica vive uma tranquilidade institucional inesperada, apesar das eventuais consequências desastrosas que possa vir a ter a gestão desportiva e financeira da equipa presidida por Luis Filipe Vieira. Na realidade ambos os presidentes jogam à defesa e abrem caminho ao duelo no relvado. Aí falarão mais alto os sentimentos. O duro Bruno Alves contra o voraz Cardozo. O hábil Aimar frente ao implacável Fernando. O alto Luisão contra o furacão Hulk. O esguio Varela e o adaptado David Luiz. Duelos, pessoais e colectivos, num jogo que vai estar a ser observado à lupa. A polémica nomeação de Lucilio Baptista volta a desenterrar todos os fantasmas da arbitragem portuguesa e apesar das criticas azuis e brancos a verdade é que o FC Porto venceu a esmagadora maioria dos derbys apitados pelo polémico setubalense. Como sempre no futebol a estatistica conta pouco.

O estádio estará repleto. A emoção à flor da pele. É o estandarte do Norte do País contra o clube do povo que não conhece fronteiras. É o duelo gastronómico, cultural, moral e social de dois lados da uma mesma moeda chamada Portugal. Dois elementos irreconciliáveis que perdem valor se o outro não existe. O histórico Norte-Sul é bem mais real do que os pragmáticos querem supor. O duelo do actual Imperador com o Rei deposto é bem mais sentido do que os outsiders conseguem sentir. O titulo não está em jogo porque o equador da prova não foi ainda ultrapassado. Mas o prestigio e a moral são objectivos bem mais valiosos a esta altura da prova. Uma vitória azul e branca é uma injecção de moral apreciável e significa que, pela primeira vez este ano, os dragões ultrapassariam o rival directo. Por sua vez um triunfo encarnado volta a colocar a diferença que separou as duas equipas durante grande parte do periodo outonal. No final a estatistica diz-nos que o resultado mais provável é o empate. Mas como dissemos, isto é um Benfica-Porto. Que interessa a estatistica?



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 00:29 | link do post | comentar

Sábado, 19 de Dezembro de 2009

O Guiness tem-no como um dos 20 treinadores mais bem sucedidos da história do futebol inglês. E não é por acaso. Lawrie McNemeny durante 30 anos foi um técnico audacioso e que nunca descurou um desafio. Mas foi o seu reinado em Southampton que o levou para os livros da história.

 

Foi um jogador mediocre e nunca chegou a profissional. No entanto como técnico parecia conhecer as quatro linhas com a palma das mãos. Nascido em 1936 em Gateshead, Lawrie McNemeny sobreviveu aos duros anos de guerra e tentou uma carreira desportiva que se revelou falhada ao largo dos anos 50. Mas nunca desistiu de estar envolvido no mundo futebolistico que admirava como poucos. Mais tarde comentaria que falhar como jogador lhe permitiu começar mais cedo a preparar-se para técnico. E assim foi. Em 1964, com 28 anos cumpridos, começou a orientar um clube amador do norte de Inglaterra, o Bishop Auckland. Passou então para o Sheffield Wednesday e mais tarde para o Doncaster onde venceu o titulo de campeão da Four Division. Foi então que o Southampton, um histórico que militava na Second Division, decidiu contratá-lo para relançar a equipa. Os Saints estavam na parte baixa da tabela classificativa à chegada de McNemeny. E o técnico fez história. No seu primeiro ano, em 1976, chegou à final da FA Cup. O rival era o todo poderoso Manchester United e poucos davam por uma equipa da segunda divisão contra os Red Devils. Mas os veteranos de McNemeny controlaram o jogo de forma absoluta e num golpe de génio de Bobby Stokes, a sete minutos do fim, decidiu a final. Wembley rendeu-se ao jovem técnico e pela penultima vez uma equipa fora da primeira divisão venceu o trofeu. O sucesso na taça teve consequências no campeonato e a equipa falhou por pouco a subida de divisão. No ano seguinte, no entanto, sagrou-se campeã da Second Division e voltou à elite.

 

Na Premier Division o Southampton rapidamente encontrou o seu sitio e sob as ordens de McNemeny passou os restantes anos da década de 70 na parte alta da tabela. Em 1979 voltaram a uma final, desta feita da League Cup. O rival era o Nottingham Forrest mas desta feita a história esteve do lado do Golias e os campeões europeus de Brian Clough venceram sem contestação. Mesmo assim o Southampton voltou a qualificar-se para a Europa e obteve a sua melhor prestação na Taça UEFA. Com os anos 80 chegou uma nova fornada de jovens talentosos e a equipa voltou a fazer história. Durante 1984 manteve uma impensável disputa com o poderoso Liverpool de Joe Fagan. Até ao final da época McNemeny sonhou com o histórico titulo mas um tropeção contra o Aston Villa a três jogos do fim ditou o destino. O Liverpool foi campeão e o Southampton logrou o melhor resultado da sua história centenária. Foi também o momento ideal de despedida. Consciente que durante uma década o seu trabalho tinha alcançado niveis inigualiveis no mitico The Dell, o já veterano McNemeny decidiu mudar de ares e assinou pelo Sunderland.

 

O clube nortenho tinha acabado de cair na Second Division nesse quente Verão de 1985 e fez de McNemeny o técnico mais bem pago do futebol inglês superando qualquer orçamento dos colegas da Premier Division. Só que o clube estava destroçado, o plantel desfeito e dois anos depois McNemeny saiu pela porta pequena, poucos antes de se consumar a descida do Sunderland à Third Division. A partir daí a sua carreira tomou um rumo descendente. Foi nomeado adjunto de Graham Taylor na selecção de Inglaterra e em 1994 foi nomeado Director Desportivo do seu Southampton. Esteve dois anos tranquilos no posto e em 1997 acabou por ser despedido pela nova direcção. Depois de uma breve passagem como seleccionador da Irlanda do Norte, o homem dos recordes - com o Southampton esteve largos meses sem conhecer o sabor da derrota nas duas primeiras divisões - decidiu deixar o banco de forma permanente passando a trabalhar na televisão como comentador.

 

Apesar de só ter ganho um título de renome o historial de McNemeny está repleto de feitos inesquecíveis. A forma como moldou o Southampton que marcou a segunda metade dos anos 70 tornou-o num dos técnicos mais acarinhados pelo público inglês que passou a ver no The Dell um fortim intransponível. E ainda hoje os Saints recordam aquela tarde em Wembley como a mais bela das suas vidas.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 13:39 | link do post | comentar

Sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

José Mourinho não se livra dos reencontros amargos. O FC Porto enfrenta um rival a quem pode olhar nos olhos. Alex Ferguson volta a ter de viajar até Milão. E os grandes espanhóis agradecem a crueza do sorteio. A Europa parou durante breves minutos. Sem grandes novidades, a nata deve prosseguir o seu caminho e manter o status quo de uma competição cada vez mais previsível.

Haverá poucos descontentes com este sorteio dos Oitavos de Final da Champions League.

Um deles é certamente José Mourinho. Depois dos reencontros contra o FC Porto quando estava em Stanford Bridge, da repetição do duelo contra Ferguson ou a enésima viagem até ao Camp Nou, agora o Inter terá de ir a Londres. A um estádio que o técnico conhece demasiado bem. E depois de ter defrontado a melhor equipa da época passada o Inter defrontará a melhor deste ano. É caso para dizer que a malapata vai perseguindo o homem a quem nada nunca é perdoado se não vier acompanhado do cintilante trofeu europeu. Uma eliminação precoce - pelo segundo ano consecutivo - pode mesmo antecipar a sua estância em S. Siro. O duelo grande deste sorteio é, a todos os titulos, desigual. O Chelsea é hoje a equipa mais sólida do futebol europeu. A velha guarda que Mourinho ajudou a moldar (Cech, Terry, Lampard, Carvalho, Essien, Mikel, Cole, Drogba, Ballack) foi refrescada com sangue novo e com um técnico detalhista e que encaixou como uma luva num projecto que tem tudo para acabar bem em Maio. Perante essa máquina de futebol ofensivo o trapalhão e inconstante Inter terá de oferecer uma figura bem melhor da que lhe fomos vendo este ano. Será a cereja no topo do bolo de uma ronda sem grandes surpesas.

 

Curiosamente está em Milão o outro duelo chave desta eliminatória. Depois de há três anos o Manchester United ter sido derrotado pelo AC Milan, que viria a sagrar-se campeão europeu, Alex Ferguson volta a terras italianas. Agora espera-o o jovem Leonardo e uma equipa que vai crescendo a pouco e pouco. Para Fevereiro ainda falta muito mas, neste momento, a balança está claramente desequilibrada a favor dos Red Devils. Mas que não se confiem em Old Trafford porque não só Ronaldinho está a começar a assumir um papel onde se sente cómodo como as ausências de Tevez e Cristiano Ronaldo ainda não foram devidamente cobertas. E isso conta, e muito.

Por outro lado os grandes de Espanha agradecem o sorteio. Ao campeão europeu tocou-lhe o rival mais acessível. O Estugarda alemão apurou-se de forma tremida e vive no limbo depois do despedimento de Markus Babbell. Navega na parte baixa da Bundesliga e parece ser presa fácil para o Pep Team que assim terá de esperar até ter nova prova de fogo. O Sevilla, por outro lado, terá uma dificil deslocação até Moscovo mas o CSKA é um rival bastante acessível para o onze de Jimenez que procura lograr a sua melhor prestação na prova rainha do futebol europeu. Por fim o Real Madrid tem um duelo fulcral. Eliminado nos Oitavos de Final nos últimos 5 anos, o duelo contra o Lyon será fundamental para testar o verdadeiro valor da equipa. Os merengues são os claros favoritos mas o Lyon é um osso duro de roer. Será uma das eliminatórias mais apetecíveis.

Quanto ao FC Porto, pode dizer-se que o sorteio foi agradável. Evitando os grandes da Europa os comandados de Jesualdo Ferreira terão de medir forças com uma equipa que conhecem bem, o Arsenal. É verdade que o técnico tem um péssimo registo com equipas inglesas e o próprio FC Porto treme sempre que viaja a terras britânicas. Mas também é certo que o Arsenal, apesar do bom jogo exibido, era o cabeça-de-serie mas acessível. Sem Robbie van Persie no ataque e com um plantel bastante curto e permeável a lesões, os comandados de Wenger funcionam bem no meio campo mas são débeis na defesa e pouco eficazes à frente. Por outro lado os dragões jogam com o facto de estarem em clara subida de forma e será de esperar que em Fevereiro a equipa esteja na máxima força. Será uma eliminatória equilibrada, sem favoritismos prévios. O primeiro jogo é no Dragão e será fundamental conquistar um resultado positivo - leia-se vitória - para suportar o habitual sofrimento que implica viajar até Inglaterra.

Quanto aos restantes encontros, destaque para o Girondins de Bordeaux que tem todas as condições de fazer história e estrear-se nos Quartos de Final da prova e do Bayern Munchen, que depois da vitória histórica em Turim parece estar claramente a subir de forma. A Fiorentina provou ser um rival complicado, mas os bávaros partem como favoritos.

O formato da prova implica um novo sorteio onde já serão definidos todos os caminhos rumo à final do Bernabeu em Maio. No entanto a falta de jogos aliciantes espelha bem a previsibilidade que o torneio foi conquistando nos últimos anos. As poucas surpresas no apuramento da fase de grupos e a ausência de grandes candidatos no pote 2 - dos não-cabeças de série - leva a que o adepto tenha de esperar mais uma eliminatória até chegarem os jogos verdadeiramente a doer. Claro que ao adepto, isso pouco importa. Todos arrancam com os seus favoritos e agora não há margem de manobra nem contas a calculadora. Agora é a doer e a Europa começa a engalanar-se para descobrir no meio da floresta a árvore mais bela. 

 



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 11:29 | link do post | comentar

Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

"Não diria que sou o treinador número 1 mas sim que estou lá bem em cima no topo". E estava mesmo. Ainda hoje a figura de Brian Clough paira sobre o futebol inglês com um mixto de grandeza e incredulidade. Numa era onde a televisão começava a ganhar o seu espaço, Clough tornou-se na primeira figura mediática do jogo. E criou uma lenda à sua volta que nem a lenta decadência pôde travar. Afinal era, pura e simplesmente, inigualável.

Quanto José Mourinho chegou ao Chelsea anunciando que era um treinador "especial" todos os jornais fizeram eco de Brian Clough. Afinal ele tinha sido o único homem que se atrevera a afirmar que era melhor do que qualquer outro. E as estatisticas confirmavam-no. Por duas vezes Clough conseguiu o milagre de fazer de uma modesta equipa de segunda divisão campeões. Com o Derby County criou uma escola de bom futebol que rompeu com a hegemonia de Leeds e Liverpool na prova. E com o Nottingham logrou o que nenhum técnico conseguiu até aos dias de hoje. Talvez por isso o próprio Clough, então ainda vivo, aceitou a comparação com um reparo importante: "somos os dois bem parecidos!", acrescentou.

Assim era o homem que ninguém conseguia domar. Como ele bem explicou essa foi a única razão porque nunca foi eleito seleccionador inglês. Era incontrolável e desesperava qualquer direcção. Deixou os directivos do Leeds uma hora à espera para dar uma entrevista à televisão local antes da sua apresentação. Manteve um largo braço de ferro com a direcção do Derby County, clube que tinha elevado à glória, que eventualmente o levou a ser destituido. Na semana seguinte a pequena localidade de Derby ficou paralizada em sucessivas marchas de apoio a "Cloughie". Assim era ele.

 

Nascido em Mideslborough em Março de 1935, Brian Clough mais do que ser um gentleman dos bancos era um autêntico showman. Como futebolista teve uma carreira promissora no Midlesborough e Sunderland que terminou abruptamente com uma grave lesão no joelho. Para trás tinham ficado as suas duas únicas internacionalizações e 300 golos apontados em 280 encontros disputados. Terminada a carreira nos relvados com 29 anos, o jovem promissor juntou-se a Peter Taylor e assumiu o destino do Hartlepool United. A modesta equipa estava na Division 4 e no primeiro ano o técnico conseguiu a inesperada promoção. As noticias do seu talento correram depressa e o Derby County, então a viver dias dificeis a meio da Division 2 decidiu contratar a dupla. No Baseball Ground Clough começa a operar o seu primeiro milagre. Com uma série de contratações cirúrgicas e uma mudança básica no modelo de treino da equipa, Clough monta um conjunto ganhador liderado no meio campo por Dave Mackay. O Derby manteve a sua performance de mediania no primeiro ano mas na segunda época com Clough ao leme a equipa logrou o titulo e a promoção. Entre os homens de confiança de Clough no relvado estavam as futuras estrelas Kevin Hector, Roy McFarland e John O´Hare. O titulo consagrado com uma série de 22 vitórias consecutivas abriu o livro dos recordes que tardaria mais de uma década em fechar-se. No ano seguinte o Derby County logrou um surpreendente quarto posto, o melhor da história do clube. Mas foi em 1971 que o delirio tomou conta da modesta cidade. A equipa tornou-se uma máquina de futebol e rapidamente chegou ao primeiro posto. A última jornada foi disputada em dois dias distintos. O Derby venceu o temivel Liverpool e ultrapassou o Leeds Utd na classificação por um ponto. Mas isto tinha sido numa Quarta-Feira e o Leeds de Don Revie, o histórico rival de Clough, jogava no Sabado. Peter Taylor decide então levar a equipa de férias para Mallorca, como prémio da boa época realizada. Clough prefere a Sicilia. É de férias que ambos descobrem que o Leeds perdera o último jogo. Sem o imaginarem, tinham sido sagrados campeões.

O regresso a Inglaterra foi eufórico e a figura de Clough mitificada pela televisão como o novo rosto do futebol inglês. Na época seguinte o clube falhou repetir o titulo devido à ambição de Clough em vencer a Taça dos Campeões Europeus. O Derby foi eliminando todos os rivais até a uma duríssima meia-final contra a Juventus. A equipa saiu injustamente derrotada, com uma histórica péssima arbitragem, e os italianos acabaram por apurar-se. De volta a casa a direcção aproveitou para punir Clough pelos seus consequentes braços-de-ferro e destituiu-o. A má classificaçbo na liga e os constantes artigos criticos e entrevistas dadas pelo técnico foram a desculpa perfeita. Durante uma semana a cidade viveu em rebuliço e quando se anunciou que Mackay tomaria controlo do clube, Clough e Taylor aceitaram a promissora oferta do Brighton. Taylor ficou na costa sul mas Clough acabou por aceitar um presente envenenado: suceder ao seu eterno rival ao comando do Leeds Utd. Foram 44 dias de inferno retratados num livro que se tornou filme e que popularizou ainda mais a figura de Clough. O despedimento anunciado podia ter acabado com a sua carreira. Mas acabou por dar-lhe novo impulso. Sem contrato, Brian Clough aceitou a proposta do Nottingham Forrest, então um clube da parte baixa da tabela da Division II. Taylor voltou a juntar-se ao seu staff técnico e a dupla começou um novo projecto do zero. Um projecto histórico.

 

Em 1977 a equipa venceu a Division 2 de forma categórica e no ano seguinte confirmaram a sua natural superioridade no futebol inglês ao vencer a liga inglesa com sete pontos de avanço sob o Liverpool. O jogo que consagrou Clough como campeão - apenas um de três técnicos a vencer a liga inglesa com dois clubes distintos - seguiu-se a outra histórica vitória, a League Cup ganha ao Liverpool que se viu incapaz de contrariar a eficácia do onze do Forrest. Na época seguinte Clough fez história ao pagar 1 milhão de libras (apesar do técnico ter passado um cheque no valor de 999,999 mil) por Trevor Francis. Era a primeira grande transferência do futebol mundial a atingir tais valores. A opção revelou-se acertada e o dianteiro foi fundamental na campanha europeia do clube. Era o calcanhar de Aquiles do técnico mas a mitica final contra o Malmo confirmou o dedo mágico do técnico. E se parecia que melhor era impossível, em 1980 o Nottingham voltou a vencer o trofeu, frente ao Hamburg SV, tornando-se na única equipa da história do futebol a deter mais Taças dos Campeões que ligas. Nessa época a equipa tinha sido batida pelo Liverpool o que terminou uma histórica série de 42 jogos sem perder, algo que só o Arsenal de Wenger conseguiu superar. Só dez anos depois, em 1988, o técnico voltaria a conhecer o sabor da vitória ao vencer a League Cup. Durante essa década o clube tinha-se establecido a meio da tabela e Clough, cada vez mais afectado pelo alcoolismo, perdera parte do seu encanto. Entrara em conflicto com o seu eterno número 2, Peter Taylor e tornara-se uma persona non grata na maioria dos recintos. Em 1993, depois de 17 anos aos comandos do Nottingham, Clough abandonou o clube e os relvados. Durante anos trabalhou como colaborador de revistas e jornais até que acabou por falecer em 2004.

Clough foi um visionário, um homem que viveu a anos-luz da sua era. Antecipou o poder mediático que rodeia o futebol e a figura do Manager em particular. Bateu todos os seus grandes rivais e mostrou ser perito em transformar modestas equipas em máquinas de ganhar. Sempre jogando bem. Foi um D. Quixote contra o sistema e um idolo para os jogadores que trabalharam com ele. O seu caracter impediu-o de trabalhar em clubes de primeira linha o que provavelmente teria ampliado o seu registo de triunfos. Mas ainda hoje qualquer adepto do futebol sabe que duas Taças dos Campeões com o Nottingham valem bem mais do que quatro ou cinco com um Liverpool. A história tem esse condão, de por cada um no seu sitio. E o de Brian Clough é o Olimpo dos Managers.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:42 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quando se lembre este Barcelona os primeiros jogadores que virão à memória de qualquer adepto são consensuais. Xavi, Messi, Etoo, Iniesta, Ibrahimovic, Valdez, Pique, Puyol, enfim, a nata do Pep Team. No entanto só um jogador pode presumir de ter sido verdadeiramente histórico. Com o seu golo de ontem, pleno de oportunismo, Pedro Rodriguez tornou-se no primeiro jogador da história em marcar golos em todas as competições do ano. En Can Barça nasceu uma nova estrela. Para a história recordar.

Contemos esta fábula de trás para a frente. Pelo o último capitulo.

Minuto 55 em Abu Dhabi. O Barcelona dá a volta ao marcador e Guardiola suspira de alivio. Começa outro jogo, totalmente diferente. Nota-se no olhar dos jogadores. Querem fazer história. Mas outra pequena grande história. O "Barcelona das 6 Taças" é uma realidade quase iminente. Mas antes desse momento histórico no balneário blaugrana festeja-se outro registo inesquecível. Doze minutos depois Andrés Iniesta regateia dois defesas e coloca a bola a jeito. O jovem canário Pedro Rodriguez, que muitos ainda insistem em chamar de Pedrito, recebe a bola e fuzila as redes do Atlante. O estádio vem abaixo e toda a equipa se precipita sobre ele. Está cumprido o seu sonho. Marcar golos em todas as competições num só ano. Algo que ninguém nunca tinha logrado em mais de cem anos de história. Até que chegou este jovem das Canárias a Barcelona. Depois de um periodo de formação ao serviço de Guardiola começou a treinar com a primeira equipa. A pouco e pouco foi encontrando o seu espaço. E a demonstrar o quão letal pode ser o faro goleador de um extremo.

 

Pedro Rodriguez é a grande sensação de um campeão que ainda não se encontrou com o espelho. O reflexo da época transacta ainda intimida e de que maneira. A equipa teima em mastigar muito a bola e a beleza estética exibida no início de 2009 hoje é uma leve miragem. No meio disto tudo há espaço para crescer. Sem pressão. Há sempre outros com ombros mais largos. Esse atrevimento protegido de Pedro espelha bem o espirito que Guardiola dá aos seus jogadores. Quando lhe perguntaram se estava consciente do record histórico que o seu jogador poderia lograr, Guardiola sorriu, e em lugar de fazer o tipico discurso de que a equipa está em primeiro lugar foi contundente: "Se é assim, vai ser titular de certeza!". E foi. E marcou. E fez história. Outra vez.

Recuamos alguns meses, estamos em Agosto. O Barcelona visita o estádio de San Mamés para disputar a Supertaça de Espanha. Um drible, uma diagonal, um remate poderosissímo. Golo. Do jovem Pedrito. Um golo repleto de atrevimento. Era o 2-1 decisivo que dava o primeiro trofeu da época ao Barcelona. O quarto do ano 2009. Treze dias depois no Monaco o Shaktar Donetsk vai travando a armada blaugrana. O 0-0 prolonga-se no marcador até que o técnico lança o jovem extremo. Um rápido slalom, um remate impertinente e a muralha desmorona-se. Segundo troféu em duas semanas e dois golos mais para a conta pessoal de Pedro. Semanas depois o jovem extremo volta a mostrar a sua eficácia na Liga espanhola ao apontar o golo vencedor diante do Almeria. Uma semana depois novo golo na Taça do Rei frente ao Cultural Leonesa. E quinze dias depois no Camp Nou o golo que deu o triunfo sobre o Dynamo de Kiev. As contas eram fáceis. Cinco provas disputadas, cinco golos apontados. Só faltava uma prova no calendário do ano. E um golo. E assim se cumpriu o destino alegro de Don Pedro.

 

O jovem extremo é a última pérola a sacar La Masia. Recrutado bem jovem a um pequeno clube das Canárias, o jovem de Santa Cruz de Tenerife passou duas temporadas na equipa B do Barcelona. No primeiro ano teve a Guardiola como técnico. Quando este foi promovido a técnico principal o jovem Pedro estava num lote de jovens que queria promover junto a Busquets, Muniesa, Jeffre, Asulin, Sanchez e dos Santos. A pouco e pouco foi treinando com a primeira equipa e estreou-se no final da temporada passada já com o Barça plenamente consagrado. Foi a partir da pré-época que o jovem de 21 anos começou a ganhar protagonismo face às lesões de Henry e Messi. Os golos surgiram de forma natural num jogador que procura constantemente o cara a cara e não tem receio de ensaiar o remate. Esteja onde estiver. Relegado várias vezes por Guardiola para o banco, tem funcionado como alavanca fulcral para resolver jogos complicados. E como provam os seus históricos golos o extremo tem cumprido. Com Henry a caminhar a passos largos para o final da sua carreira, Pedro Rodriguez perfila-se como o seu sucessor natural. Vai ganhando ritmo e minutos nas pernas. Mas também titulos e recordes históricos.

Muitos reclamam uma titularidade indiscutível para um dos jogadores mais em forma dos blaugrana. Mas apesar da pressão mediática Guardiola sabe como medir a dose dos seus jovens talentos. Pedro terá certamente novas oportunidades de voltar a exibir o seu talento. E a selecção espanhola é a última meta. Mais um prodigio para complicar as contas a Vicente del Bosque. E um nome obrigatório para um futuro que já passou.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 09:51 | link do post | comentar

Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

Um dia 16 de Dezembro. Á 13 Jornada. Ao minuto 13. Sombria conjugação suficiente para marcar a letras negras a história do jogo. Um passe para a direita e subitamente o estádio entra em suspense. Horas depois confirmava-se o pior cenário. Tinha morrido Pavão, em pleno relvado das Antas. E o futebol português perdia no campo de batalha a um dos seus melhores guerreiros.

Tinha a transferência para o Manchester United de Tommy Docherty já acertada. Ia tornar-se no primeiro grande emigrado do futebol português, com um salário muito superior ao ganhava no clube que o formou e lançou para a ribalta. Com isso pensava pagar o bar que queria abrir com a mulher na Invicta. Sonhos desfeitos por um momento escalofriante. Anos antes tinha chegado de Chaves repleto de ilusões. Até aquele minuto fatídico, há precisamente 36 anos, tudo lhe tinha corrido melhor do que esperado. Tinha emergido como um lider no meio do destroçado conjunto azul e branco e era o grande baluarte do onze orientado por Bella Guttman, na sua segunda etapa na Antas. Internacional, médio de corte elegante e espirito guerreiro, Fernando Pascoal Neves era o ídolo dos então ainda "andrades". Chamavam-lhe Pavão pela sua peculiar forma de fintar, com os braços erguidos como que dançando sobre os rivais. Tinha nascido 26 anos antes em Trás-os-Montes e fora Flávio Costa, ex-seleccionador brasileiro, que o descobriu nos juniores onde Artur Baeta tinha conseguido fazer que se pagassem 300 contos ao Chaves para o contratar ainda júnior. Promoveu-o rapidamente à equipa principal e com 18 anos estreou-se a titular. Frente ao SL Benfica. Marcou Mário Coluna de forma implacável. Nunca mais saiu da equipa que capitanearia anos depois.

 

Um ano depois chega José Maria Pedroto. O novo técnico traz novas ideias para o seu clube de sempre e imediatamente detecta em Pavão um diamante para pulir. Entrega-lhe a batuta do meio-campo, apesar da sua juventude, e rapidamente o promove a mais jovem capitão de sempre dos azuis e brancos. No segundo ano Pavão lidera o FC Porto para a única vitória durante os longos 19 anos de jejum, uma final da Taça de Portugal no Jamor contra o Setúbal. A saída abrupta de Pedroto voltou a devolver o clube à mediania e os anos seguintes são marcados por constantes vai e vens de técnicos. O inglês Tommy Docherty é dos que mais captivado fica com o jovem e depois de ser despedido deixa uma nota na imprensa: que Pavão era demasiado grande para jogar num clube que não lutava por titulos. A chegada do peruano Cubillas estava confirmada - o peruano tinha sido apresentado poucos dias antes e só se incorporaria em Janeiro - e a venda de Pavão tornou-se numa inevitabilidade que os adeptos já começavam a lamentar. Nesse 1973 o conjunto azul e branco contava com uma nava vaga de talentosos jogadores como António Oliveira e já se lançavam as bases do que viria a ser, anos mais tarde, a equipa do título que acabou com a era de sofrimento nas Antas.

 

Nesse 16 de Dezembro os azuis e brancos recebiam o Vitória de Setúbal de...Pedroto. A equipa sadina lutava pelos primeiros postos e era um rival temivel. Ao minuto 16 da primeira parte Pavão lança um passe de morte para António Oliveira e subitamente cai no chão, inanimado. Os colegas rapidamente se precipitam sobre ele e o estádio fica em silêncio. Pavão é levado do relvado para o hospital de Santo João. O jogo continuou e os azuis e brancos até venceram. Mas a noticia já se começava a espalhar pela cidade. Momentos depois a confirmação, por rádio, da morte de Pavão. 

O motivo da morte nunca foi bem explicado e levantou inumeras teorias, desde um problema coronário aos celebres chazinhos de Bella Guttman, então técnico dos portistas. A direcção não quis aprofundar a investigação e o tempo encobriu o real motivo para a primeira morte súbita num relvado português. A mulher que deixou recebeu promessas de ajuda que nunca chegaram. Poucos anos depois foi erigido um busto comemorativo do capitão à porta do estádio. Com a mudança ao Dragão o busto ficou guardado num qualquer armazem. Curiosamente no passado fim de semana o FC Porto recebeu de novo o Setubal à 16 Jornada, a três dias do fatidico dia da morte do jogador. A direcção azul e branca manteve-se imutável. Como tem sido o seu apanágio nos últimos anos com as grandes glórias passadas do clube. Mas mesmo assim há heróis impossíveis de esquecer.

Hoje os jovens já mal conhecem a lenda de Pavão. Quem o viu jogar guardou na memória a verticalidade do seu jogo, o espirito de raça e a forma tranquila como emergia como o lider de uma geração que viveu os piores anos da história do clube. Em Inglaterra o seu estilo de jogo poderia ter levado a Pavão a outros patamares. O destino ceifou-lhe a oportunidade de se tornar num dos grandes. Ficou a memória de um principe guerreiro como poucas vezes as já extintas bancadas das Antas contemplaram. 



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 10:15 | link do post | comentar | ver comentários (1)

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