O Guiness tem-no como um dos 20 treinadores mais bem sucedidos da história do futebol inglês. E não é por acaso. Lawrie McNemeny durante 30 anos foi um técnico audacioso e que nunca descurou um desafio. Mas foi o seu reinado em Southampton que o levou para os livros da história.

Foi um jogador mediocre e nunca chegou a profissional. No entanto como técnico parecia conhecer as quatro linhas com a palma das mãos. Nascido em 1936 em Gateshead, Lawrie McNemeny sobreviveu aos duros anos de guerra e tentou uma carreira desportiva que se revelou falhada ao largo dos anos 50. Mas nunca desistiu de estar envolvido no mundo futebolistico que admirava como poucos. Mais tarde comentaria que falhar como jogador lhe permitiu começar mais cedo a preparar-se para técnico. E assim foi. Em 1964, com 28 anos cumpridos, começou a orientar um clube amador do norte de Inglaterra, o Bishop Auckland. Passou então para o Sheffield Wednesday e mais tarde para o Doncaster onde venceu o titulo de campeão da Four Division. Foi então que o Southampton, um histórico que militava na Second Division, decidiu contratá-lo para relançar a equipa. Os Saints estavam na parte baixa da tabela classificativa à chegada de McNemeny. E o técnico fez história. No seu primeiro ano, em 1976, chegou à final da FA Cup. O rival era o todo poderoso Manchester United e poucos davam por uma equipa da segunda divisão contra os Red Devils. Mas os veteranos de McNemeny controlaram o jogo de forma absoluta e num golpe de génio de Bobby Stokes, a sete minutos do fim, decidiu a final. Wembley rendeu-se ao jovem técnico e pela penultima vez uma equipa fora da primeira divisão venceu o trofeu. O sucesso na taça teve consequências no campeonato e a equipa falhou por pouco a subida de divisão. No ano seguinte, no entanto, sagrou-se campeã da Second Division e voltou à elite.
Na Premier Division o Southampton rapidamente encontrou o seu sitio e sob as ordens de McNemeny passou os restantes anos da década de 70 na parte alta da tabela. Em 1979 voltaram a uma final, desta feita da League Cup. O rival era o Nottingham Forrest mas desta feita a história esteve do lado do Golias e os campeões europeus de Brian Clough venceram sem contestação. Mesmo assim o Southampton voltou a qualificar-se para a Europa e obteve a sua melhor prestação na Taça UEFA. Com os anos 80 chegou uma nova fornada de jovens talentosos e a equipa voltou a fazer história. Durante 1984 manteve uma impensável disputa com o poderoso Liverpool de Joe Fagan. Até ao final da época McNemeny sonhou com o histórico titulo mas um tropeção contra o Aston Villa a três jogos do fim ditou o destino. O Liverpool foi campeão e o Southampton logrou o melhor resultado da sua história centenária. Foi também o momento ideal de despedida. Consciente que durante uma década o seu trabalho tinha alcançado niveis inigualiveis no mitico The Dell, o já veterano McNemeny decidiu mudar de ares e assinou pelo Sunderland.
O clube nortenho tinha acabado de cair na Second Division nesse quente Verão de 1985 e fez de McNemeny o técnico mais bem pago do futebol inglês superando qualquer orçamento dos colegas da Premier Division. Só que o clube estava destroçado, o plantel desfeito e dois anos depois McNemeny saiu pela porta pequena, poucos antes de se consumar a descida do Sunderland à Third Division. A partir daí a sua carreira tomou um rumo descendente. Foi nomeado adjunto de Graham Taylor na selecção de Inglaterra e em 1994 foi nomeado Director Desportivo do seu Southampton. Esteve dois anos tranquilos no posto e em 1997 acabou por ser despedido pela nova direcção. Depois de uma breve passagem como seleccionador da Irlanda do Norte, o homem dos recordes - com o Southampton esteve largos meses sem conhecer o sabor da derrota nas duas primeiras divisões - decidiu deixar o banco de forma permanente passando a trabalhar na televisão como comentador.

Apesar de só ter ganho um título de renome o historial de McNemeny está repleto de feitos inesquecíveis. A forma como moldou o Southampton que marcou a segunda metade dos anos 70 tornou-o num dos técnicos mais acarinhados pelo público inglês que passou a ver no The Dell um fortim intransponível. E ainda hoje os Saints recordam aquela tarde em Wembley como a mais bela das suas vidas.
José Mourinho não se livra dos reencontros amargos. O FC Porto enfrenta um rival a quem pode olhar nos olhos. Alex Ferguson volta a ter de viajar até Milão. E os grandes espanhóis agradecem a crueza do sorteio. A Europa parou durante breves minutos. Sem grandes novidades, a nata deve prosseguir o seu caminho e manter o status quo de uma competição cada vez mais previsível.

Haverá poucos descontentes com este sorteio dos Oitavos de Final da Champions League.
Um deles é certamente José Mourinho. Depois dos reencontros contra o FC Porto quando estava em Stanford Bridge, da repetição do duelo contra Ferguson ou a enésima viagem até ao Camp Nou, agora o Inter terá de ir a Londres. A um estádio que o técnico conhece demasiado bem. E depois de ter defrontado a melhor equipa da época passada o Inter defrontará a melhor deste ano. É caso para dizer que a malapata vai perseguindo o homem a quem nada nunca é perdoado se não vier acompanhado do cintilante trofeu europeu. Uma eliminação precoce - pelo segundo ano consecutivo - pode mesmo antecipar a sua estância em S. Siro. O duelo grande deste sorteio é, a todos os titulos, desigual. O Chelsea é hoje a equipa mais sólida do futebol europeu. A velha guarda que Mourinho ajudou a moldar (Cech, Terry, Lampard, Carvalho, Essien, Mikel, Cole, Drogba, Ballack) foi refrescada com sangue novo e com um técnico detalhista e que encaixou como uma luva num projecto que tem tudo para acabar bem em Maio. Perante essa máquina de futebol ofensivo o trapalhão e inconstante Inter terá de oferecer uma figura bem melhor da que lhe fomos vendo este ano. Será a cereja no topo do bolo de uma ronda sem grandes surpesas.
Curiosamente está em Milão o outro duelo chave desta eliminatória. Depois de há três anos o Manchester United ter sido derrotado pelo AC Milan, que viria a sagrar-se campeão europeu, Alex Ferguson volta a terras italianas. Agora espera-o o jovem Leonardo e uma equipa que vai crescendo a pouco e pouco. Para Fevereiro ainda falta muito mas, neste momento, a balança está claramente desequilibrada a favor dos Red Devils. Mas que não se confiem em Old Trafford porque não só Ronaldinho está a começar a assumir um papel onde se sente cómodo como as ausências de Tevez e Cristiano Ronaldo ainda não foram devidamente cobertas. E isso conta, e muito.
Por outro lado os grandes de Espanha agradecem o sorteio. Ao campeão europeu tocou-lhe o rival mais acessível. O Estugarda alemão apurou-se de forma tremida e vive no limbo depois do despedimento de Markus Babbell. Navega na parte baixa da Bundesliga e parece ser presa fácil para o Pep Team que assim terá de esperar até ter nova prova de fogo. O Sevilla, por outro lado, terá uma dificil deslocação até Moscovo mas o CSKA é um rival bastante acessível para o onze de Jimenez que procura lograr a sua melhor prestação na prova rainha do futebol europeu. Por fim o Real Madrid tem um duelo fulcral. Eliminado nos Oitavos de Final nos últimos 5 anos, o duelo contra o Lyon será fundamental para testar o verdadeiro valor da equipa. Os merengues são os claros favoritos mas o Lyon é um osso duro de roer. Será uma das eliminatórias mais apetecíveis.

Quanto ao FC Porto, pode dizer-se que o sorteio foi agradável. Evitando os grandes da Europa os comandados de Jesualdo Ferreira terão de medir forças com uma equipa que conhecem bem, o Arsenal. É verdade que o técnico tem um péssimo registo com equipas inglesas e o próprio FC Porto treme sempre que viaja a terras britânicas. Mas também é certo que o Arsenal, apesar do bom jogo exibido, era o cabeça-de-serie mas acessível. Sem Robbie van Persie no ataque e com um plantel bastante curto e permeável a lesões, os comandados de Wenger funcionam bem no meio campo mas são débeis na defesa e pouco eficazes à frente. Por outro lado os dragões jogam com o facto de estarem em clara subida de forma e será de esperar que em Fevereiro a equipa esteja na máxima força. Será uma eliminatória equilibrada, sem favoritismos prévios. O primeiro jogo é no Dragão e será fundamental conquistar um resultado positivo - leia-se vitória - para suportar o habitual sofrimento que implica viajar até Inglaterra.
Quanto aos restantes encontros, destaque para o Girondins de Bordeaux que tem todas as condições de fazer história e estrear-se nos Quartos de Final da prova e do Bayern Munchen, que depois da vitória histórica em Turim parece estar claramente a subir de forma. A Fiorentina provou ser um rival complicado, mas os bávaros partem como favoritos.

O formato da prova implica um novo sorteio onde já serão definidos todos os caminhos rumo à final do Bernabeu em Maio. No entanto a falta de jogos aliciantes espelha bem a previsibilidade que o torneio foi conquistando nos últimos anos. As poucas surpresas no apuramento da fase de grupos e a ausência de grandes candidatos no pote 2 - dos não-cabeças de série - leva a que o adepto tenha de esperar mais uma eliminatória até chegarem os jogos verdadeiramente a doer. Claro que ao adepto, isso pouco importa. Todos arrancam com os seus favoritos e agora não há margem de manobra nem contas a calculadora. Agora é a doer e a Europa começa a engalanar-se para descobrir no meio da floresta a árvore mais bela.
"Não diria que sou o treinador número 1 mas sim que estou lá bem em cima no topo". E estava mesmo. Ainda hoje a figura de Brian Clough paira sobre o futebol inglês com um mixto de grandeza e incredulidade. Numa era onde a televisão começava a ganhar o seu espaço, Clough tornou-se na primeira figura mediática do jogo. E criou uma lenda à sua volta que nem a lenta decadência pôde travar. Afinal era, pura e simplesmente, inigualável.

Quanto José Mourinho chegou ao Chelsea anunciando que era um treinador "especial" todos os jornais fizeram eco de Brian Clough. Afinal ele tinha sido o único homem que se atrevera a afirmar que era melhor do que qualquer outro. E as estatisticas confirmavam-no. Por duas vezes Clough conseguiu o milagre de fazer de uma modesta equipa de segunda divisão campeões. Com o Derby County criou uma escola de bom futebol que rompeu com a hegemonia de Leeds e Liverpool na prova. E com o Nottingham logrou o que nenhum técnico conseguiu até aos dias de hoje. Talvez por isso o próprio Clough, então ainda vivo, aceitou a comparação com um reparo importante: "somos os dois bem parecidos!", acrescentou.
Assim era o homem que ninguém conseguia domar. Como ele bem explicou essa foi a única razão porque nunca foi eleito seleccionador inglês. Era incontrolável e desesperava qualquer direcção. Deixou os directivos do Leeds uma hora à espera para dar uma entrevista à televisão local antes da sua apresentação. Manteve um largo braço de ferro com a direcção do Derby County, clube que tinha elevado à glória, que eventualmente o levou a ser destituido. Na semana seguinte a pequena localidade de Derby ficou paralizada em sucessivas marchas de apoio a "Cloughie". Assim era ele.
Nascido em Mideslborough em Março de 1935, Brian Clough mais do que ser um gentleman dos bancos era um autêntico showman. Como futebolista teve uma carreira promissora no Midlesborough e Sunderland que terminou abruptamente com uma grave lesão no joelho. Para trás tinham ficado as suas duas únicas internacionalizações e 300 golos apontados em 280 encontros disputados. Terminada a carreira nos relvados com 29 anos, o jovem promissor juntou-se a Peter Taylor e assumiu o destino do Hartlepool United. A modesta equipa estava na Division 4 e no primeiro ano o técnico conseguiu a inesperada promoção. As noticias do seu talento correram depressa e o Derby County, então a viver dias dificeis a meio da Division 2 decidiu contratar a dupla. No Baseball Ground Clough começa a operar o seu primeiro milagre. Com uma série de contratações cirúrgicas e uma mudança básica no modelo de treino da equipa, Clough monta um conjunto ganhador liderado no meio campo por Dave Mackay. O Derby manteve a sua performance de mediania no primeiro ano mas na segunda época com Clough ao leme a equipa logrou o titulo e a promoção. Entre os homens de confiança de Clough no relvado estavam as futuras estrelas Kevin Hector, Roy McFarland e John O´Hare. O titulo consagrado com uma série de 22 vitórias consecutivas abriu o livro dos recordes que tardaria mais de uma década em fechar-se. No ano seguinte o Derby County logrou um surpreendente quarto posto, o melhor da história do clube. Mas foi em 1971 que o delirio tomou conta da modesta cidade. A equipa tornou-se uma máquina de futebol e rapidamente chegou ao primeiro posto. A última jornada foi disputada em dois dias distintos. O Derby venceu o temivel Liverpool e ultrapassou o Leeds Utd na classificação por um ponto. Mas isto tinha sido numa Quarta-Feira e o Leeds de Don Revie, o histórico rival de Clough, jogava no Sabado. Peter Taylor decide então levar a equipa de férias para Mallorca, como prémio da boa época realizada. Clough prefere a Sicilia. É de férias que ambos descobrem que o Leeds perdera o último jogo. Sem o imaginarem, tinham sido sagrados campeões.

O regresso a Inglaterra foi eufórico e a figura de Clough mitificada pela televisão como o novo rosto do futebol inglês. Na época seguinte o clube falhou repetir o titulo devido à ambição de Clough em vencer a Taça dos Campeões Europeus. O Derby foi eliminando todos os rivais até a uma duríssima meia-final contra a Juventus. A equipa saiu injustamente derrotada, com uma histórica péssima arbitragem, e os italianos acabaram por apurar-se. De volta a casa a direcção aproveitou para punir Clough pelos seus consequentes braços-de-ferro e destituiu-o. A má classificaçbo na liga e os constantes artigos criticos e entrevistas dadas pelo técnico foram a desculpa perfeita. Durante uma semana a cidade viveu em rebuliço e quando se anunciou que Mackay tomaria controlo do clube, Clough e Taylor aceitaram a promissora oferta do Brighton. Taylor ficou na costa sul mas Clough acabou por aceitar um presente envenenado: suceder ao seu eterno rival ao comando do Leeds Utd. Foram 44 dias de inferno retratados num livro que se tornou filme e que popularizou ainda mais a figura de Clough. O despedimento anunciado podia ter acabado com a sua carreira. Mas acabou por dar-lhe novo impulso. Sem contrato, Brian Clough aceitou a proposta do Nottingham Forrest, então um clube da parte baixa da tabela da Division II. Taylor voltou a juntar-se ao seu staff técnico e a dupla começou um novo projecto do zero. Um projecto histórico.
Em 1977 a equipa venceu a Division 2 de forma categórica e no ano seguinte confirmaram a sua natural superioridade no futebol inglês ao vencer a liga inglesa com sete pontos de avanço sob o Liverpool. O jogo que consagrou Clough como campeão - apenas um de três técnicos a vencer a liga inglesa com dois clubes distintos - seguiu-se a outra histórica vitória, a League Cup ganha ao Liverpool que se viu incapaz de contrariar a eficácia do onze do Forrest. Na época seguinte Clough fez história ao pagar 1 milhão de libras (apesar do técnico ter passado um cheque no valor de 999,999 mil) por Trevor Francis. Era a primeira grande transferência do futebol mundial a atingir tais valores. A opção revelou-se acertada e o dianteiro foi fundamental na campanha europeia do clube. Era o calcanhar de Aquiles do técnico mas a mitica final contra o Malmo confirmou o dedo mágico do técnico. E se parecia que melhor era impossível, em 1980 o Nottingham voltou a vencer o trofeu, frente ao Hamburg SV, tornando-se na única equipa da história do futebol a deter mais Taças dos Campeões que ligas. Nessa época a equipa tinha sido batida pelo Liverpool o que terminou uma histórica série de 42 jogos sem perder, algo que só o Arsenal de Wenger conseguiu superar. Só dez anos depois, em 1988, o técnico voltaria a conhecer o sabor da vitória ao vencer a League Cup. Durante essa década o clube tinha-se establecido a meio da tabela e Clough, cada vez mais afectado pelo alcoolismo, perdera parte do seu encanto. Entrara em conflicto com o seu eterno número 2, Peter Taylor e tornara-se uma persona non grata na maioria dos recintos. Em 1993, depois de 17 anos aos comandos do Nottingham, Clough abandonou o clube e os relvados. Durante anos trabalhou como colaborador de revistas e jornais até que acabou por falecer em 2004.

Clough foi um visionário, um homem que viveu a anos-luz da sua era. Antecipou o poder mediático que rodeia o futebol e a figura do Manager em particular. Bateu todos os seus grandes rivais e mostrou ser perito em transformar modestas equipas em máquinas de ganhar. Sempre jogando bem. Foi um D. Quixote contra o sistema e um idolo para os jogadores que trabalharam com ele. O seu caracter impediu-o de trabalhar em clubes de primeira linha o que provavelmente teria ampliado o seu registo de triunfos. Mas ainda hoje qualquer adepto do futebol sabe que duas Taças dos Campeões com o Nottingham valem bem mais do que quatro ou cinco com um Liverpool. A história tem esse condão, de por cada um no seu sitio. E o de Brian Clough é o Olimpo dos Managers.
Quando se lembre este Barcelona os primeiros jogadores que virão à memória de qualquer adepto são consensuais. Xavi, Messi, Etoo, Iniesta, Ibrahimovic, Valdez, Pique, Puyol, enfim, a nata do Pep Team. No entanto só um jogador pode presumir de ter sido verdadeiramente histórico. Com o seu golo de ontem, pleno de oportunismo, Pedro Rodriguez tornou-se no primeiro jogador da história em marcar golos em todas as competições do ano. En Can Barça nasceu uma nova estrela. Para a história recordar.

Contemos esta fábula de trás para a frente. Pelo o último capitulo.
Minuto 55 em Abu Dhabi. O Barcelona dá a volta ao marcador e Guardiola suspira de alivio. Começa outro jogo, totalmente diferente. Nota-se no olhar dos jogadores. Querem fazer história. Mas outra pequena grande história. O "Barcelona das 6 Taças" é uma realidade quase iminente. Mas antes desse momento histórico no balneário blaugrana festeja-se outro registo inesquecível. Doze minutos depois Andrés Iniesta regateia dois defesas e coloca a bola a jeito. O jovem canário Pedro Rodriguez, que muitos ainda insistem em chamar de Pedrito, recebe a bola e fuzila as redes do Atlante. O estádio vem abaixo e toda a equipa se precipita sobre ele. Está cumprido o seu sonho. Marcar golos em todas as competições num só ano. Algo que ninguém nunca tinha logrado em mais de cem anos de história. Até que chegou este jovem das Canárias a Barcelona. Depois de um periodo de formação ao serviço de Guardiola começou a treinar com a primeira equipa. A pouco e pouco foi encontrando o seu espaço. E a demonstrar o quão letal pode ser o faro goleador de um extremo.
Pedro Rodriguez é a grande sensação de um campeão que ainda não se encontrou com o espelho. O reflexo da época transacta ainda intimida e de que maneira. A equipa teima em mastigar muito a bola e a beleza estética exibida no início de 2009 hoje é uma leve miragem. No meio disto tudo há espaço para crescer. Sem pressão. Há sempre outros com ombros mais largos. Esse atrevimento protegido de Pedro espelha bem o espirito que Guardiola dá aos seus jogadores. Quando lhe perguntaram se estava consciente do record histórico que o seu jogador poderia lograr, Guardiola sorriu, e em lugar de fazer o tipico discurso de que a equipa está em primeiro lugar foi contundente: "Se é assim, vai ser titular de certeza!". E foi. E marcou. E fez história. Outra vez.

Recuamos alguns meses, estamos em Agosto. O Barcelona visita o estádio de San Mamés para disputar a Supertaça de Espanha. Um drible, uma diagonal, um remate poderosissímo. Golo. Do jovem Pedrito. Um golo repleto de atrevimento. Era o 2-1 decisivo que dava o primeiro trofeu da época ao Barcelona. O quarto do ano 2009. Treze dias depois no Monaco o Shaktar Donetsk vai travando a armada blaugrana. O 0-0 prolonga-se no marcador até que o técnico lança o jovem extremo. Um rápido slalom, um remate impertinente e a muralha desmorona-se. Segundo troféu em duas semanas e dois golos mais para a conta pessoal de Pedro. Semanas depois o jovem extremo volta a mostrar a sua eficácia na Liga espanhola ao apontar o golo vencedor diante do Almeria. Uma semana depois novo golo na Taça do Rei frente ao Cultural Leonesa. E quinze dias depois no Camp Nou o golo que deu o triunfo sobre o Dynamo de Kiev. As contas eram fáceis. Cinco provas disputadas, cinco golos apontados. Só faltava uma prova no calendário do ano. E um golo. E assim se cumpriu o destino alegro de Don Pedro.
O jovem extremo é a última pérola a sacar La Masia. Recrutado bem jovem a um pequeno clube das Canárias, o jovem de Santa Cruz de Tenerife passou duas temporadas na equipa B do Barcelona. No primeiro ano teve a Guardiola como técnico. Quando este foi promovido a técnico principal o jovem Pedro estava num lote de jovens que queria promover junto a Busquets, Muniesa, Jeffre, Asulin, Sanchez e dos Santos. A pouco e pouco foi treinando com a primeira equipa e estreou-se no final da temporada passada já com o Barça plenamente consagrado. Foi a partir da pré-época que o jovem de 21 anos começou a ganhar protagonismo face às lesões de Henry e Messi. Os golos surgiram de forma natural num jogador que procura constantemente o cara a cara e não tem receio de ensaiar o remate. Esteja onde estiver. Relegado várias vezes por Guardiola para o banco, tem funcionado como alavanca fulcral para resolver jogos complicados. E como provam os seus históricos golos o extremo tem cumprido. Com Henry a caminhar a passos largos para o final da sua carreira, Pedro Rodriguez perfila-se como o seu sucessor natural. Vai ganhando ritmo e minutos nas pernas. Mas também titulos e recordes históricos.

Muitos reclamam uma titularidade indiscutível para um dos jogadores mais em forma dos blaugrana. Mas apesar da pressão mediática Guardiola sabe como medir a dose dos seus jovens talentos. Pedro terá certamente novas oportunidades de voltar a exibir o seu talento. E a selecção espanhola é a última meta. Mais um prodigio para complicar as contas a Vicente del Bosque. E um nome obrigatório para um futuro que já passou.
Um dia 16 de Dezembro. Á 13 Jornada. Ao minuto 13. Sombria conjugação suficiente para marcar a letras negras a história do jogo. Um passe para a direita e subitamente o estádio entra em suspense. Horas depois confirmava-se o pior cenário. Tinha morrido Pavão, em pleno relvado das Antas. E o futebol português perdia no campo de batalha a um dos seus melhores guerreiros.

Tinha a transferência para o Manchester United de Tommy Docherty já acertada. Ia tornar-se no primeiro grande emigrado do futebol português, com um salário muito superior ao ganhava no clube que o formou e lançou para a ribalta. Com isso pensava pagar o bar que queria abrir com a mulher na Invicta. Sonhos desfeitos por um momento escalofriante. Anos antes tinha chegado de Chaves repleto de ilusões. Até aquele minuto fatídico, há precisamente 36 anos, tudo lhe tinha corrido melhor do que esperado. Tinha emergido como um lider no meio do destroçado conjunto azul e branco e era o grande baluarte do onze orientado por Bella Guttman, na sua segunda etapa na Antas. Internacional, médio de corte elegante e espirito guerreiro, Fernando Pascoal Neves era o ídolo dos então ainda "andrades". Chamavam-lhe Pavão pela sua peculiar forma de fintar, com os braços erguidos como que dançando sobre os rivais. Tinha nascido 26 anos antes em Trás-os-Montes e fora Flávio Costa, ex-seleccionador brasileiro, que o descobriu nos juniores onde Artur Baeta tinha conseguido fazer que se pagassem 300 contos ao Chaves para o contratar ainda júnior. Promoveu-o rapidamente à equipa principal e com 18 anos estreou-se a titular. Frente ao SL Benfica. Marcou Mário Coluna de forma implacável. Nunca mais saiu da equipa que capitanearia anos depois.
Um ano depois chega José Maria Pedroto. O novo técnico traz novas ideias para o seu clube de sempre e imediatamente detecta em Pavão um diamante para pulir. Entrega-lhe a batuta do meio-campo, apesar da sua juventude, e rapidamente o promove a mais jovem capitão de sempre dos azuis e brancos. No segundo ano Pavão lidera o FC Porto para a única vitória durante os longos 19 anos de jejum, uma final da Taça de Portugal no Jamor contra o Setúbal. A saída abrupta de Pedroto voltou a devolver o clube à mediania e os anos seguintes são marcados por constantes vai e vens de técnicos. O inglês Tommy Docherty é dos que mais captivado fica com o jovem e depois de ser despedido deixa uma nota na imprensa: que Pavão era demasiado grande para jogar num clube que não lutava por titulos. A chegada do peruano Cubillas estava confirmada - o peruano tinha sido apresentado poucos dias antes e só se incorporaria em Janeiro - e a venda de Pavão tornou-se numa inevitabilidade que os adeptos já começavam a lamentar. Nesse 1973 o conjunto azul e branco contava com uma nava vaga de talentosos jogadores como António Oliveira e já se lançavam as bases do que viria a ser, anos mais tarde, a equipa do título que acabou com a era de sofrimento nas Antas.
Nesse 16 de Dezembro os azuis e brancos recebiam o Vitória de Setúbal de...Pedroto. A equipa sadina lutava pelos primeiros postos e era um rival temivel. Ao minuto 16 da primeira parte Pavão lança um passe de morte para António Oliveira e subitamente cai no chão, inanimado. Os colegas rapidamente se precipitam sobre ele e o estádio fica em silêncio. Pavão é levado do relvado para o hospital de Santo João. O jogo continuou e os azuis e brancos até venceram. Mas a noticia já se começava a espalhar pela cidade. Momentos depois a confirmação, por rádio, da morte de Pavão.
O motivo da morte nunca foi bem explicado e levantou inumeras teorias, desde um problema coronário aos celebres chazinhos de Bella Guttman, então técnico dos portistas. A direcção não quis aprofundar a investigação e o tempo encobriu o real motivo para a primeira morte súbita num relvado português. A mulher que deixou recebeu promessas de ajuda que nunca chegaram. Poucos anos depois foi erigido um busto comemorativo do capitão à porta do estádio. Com a mudança ao Dragão o busto ficou guardado num qualquer armazem. Curiosamente no passado fim de semana o FC Porto recebeu de novo o Setubal à 16 Jornada, a três dias do fatidico dia da morte do jogador. A direcção azul e branca manteve-se imutável. Como tem sido o seu apanágio nos últimos anos com as grandes glórias passadas do clube. Mas mesmo assim há heróis impossíveis de esquecer.

Hoje os jovens já mal conhecem a lenda de Pavão. Quem o viu jogar guardou na memória a verticalidade do seu jogo, o espirito de raça e a forma tranquila como emergia como o lider de uma geração que viveu os piores anos da história do clube. Em Inglaterra o seu estilo de jogo poderia ter levado a Pavão a outros patamares. O destino ceifou-lhe a oportunidade de se tornar num dos grandes. Ficou a memória de um principe guerreiro como poucas vezes as já extintas bancadas das Antas contemplaram.
Hoje o Manchester City vive dos milhões de sheiks com ambições desmedidas. Mas nem sempre foi assim. O Maine Road chegou a ser a casa do bom futebol inglês, de uma equipa capaz de bater-se com as melhores do mundo. Um onze de citizens comandado com mestria por Joe Mercer, grande dentro e fora das quatro linhas.

Foi um dos grandes jogadores ingleses da primeira metade do século. Internacional várias vezes, eleito em 1950 Melhor Jogador do Ano, Joe Mercer era um médio respeitado por tudo e por todos. Durante dez anos comandou o meio campo do Everton. A guerra travou-lhe a carreira mas mesmo assim, em 1946, assinou pelo Arsenal onde disputou alguns dos seus melhores jogos e venceu três ligas e uma FA Cup. Chegou a fazer mais de 400 jogos como profissional antes de retirar-se. Filho de um conceituado futebolista dos anos 20, Mercer decidiu continuar no meio e optou por tornar-se treinador. A experiência como jornalista desportivo não tinha corrido bem e depois de um negócio como merceeiro ter falhado, ser técnico tornou-se no escape óbvio. O seu passado no entanto nunca o deixaria e mesmo quando se sagrou campeão pela única vez, os jornais falavam do "Footballing Grocer".
Entrou a dois dias do inicio da época ao serviço do Sheffield United devido à morte súbita do técnico anterior. A experiência correu mal e a equipa foi despromovida. Aqueles que lhe auguravam um futuro complicado pareciam ter razão. A experiência seguinte correu pior. Tomou controlo do Aston Villa, que seguia em último na Primeira Divisão, e não logrou salvar o exército villain. A derrota no último jogo provocou-lhe um ataque cardíaco. A direcção, sem piedade, aproveitou para despedi-lo. Seria a última vez na sua carreira.
Em 1965 Joe Mercer estava ao comando do Manchester City. Um ano de interregno para recuperar forças e um projecto aliciante em Maine Road. Mercer apanhou o conjunto a meio da tabela da segunda divisão e tornou-os campeões no primeiro ano. Com a ajuda de Malcolm Alisson, como adjunto, a equipa logrou a subida de divisão e no primeiro ano entre a elite terminou na parte alta da tabela. Os adeptos do City viviam à sombra do sucesso desportivo dos eternos rivais, os Busby Babes. E em 1968 aconteceu o inesperado. Com o Man Utd concentrado em vencer a sua primeira Taça dos Campeões Europeus, o Manchester City de Mercer dominou a liga. A equipa colocou-se rapidamente no topo da tabela, depois de derrotar Liverpool e Leeds em dois jogos consecutivos no celebre Boxing Day. Liderados pelo duo composto por Summerby e Bell o City mostrou-se intratável e venceu o título. Apenas o segundo da sua centenária história. Um triunfo que elevou Mercer à categoria de génio táctico, particularmente depois de ter dado a reviravolta num jogo electrizante contra o Man Utd de Busby. A equipa celebrou o titulo que não voltaria a vencer desde então. No ano seguinte o Man City cedo se viu afastado do trofeu mas em troca venceu a sua primeira FA Cup em largos anos. Um trofeu fundamental para em Maio de 1970 o clube de Manchester lograr o seu unico titulo europeu, uma mitica final da Taça das Taças contra os polacos do Gronik Zabzre no Prater. Um jogo ganho por 2-1 sem Summerbee mas com um Neil Young em óptima forma. O avançado apontou um golo e sofreu a falta que possibilitou a Francis Lee ampliar a vantagem. Os polacos reduziriam na segunda parte e até ao final o sofrimento dominou o banco do Man City. A vitória deu a Mercer a alegria da sua vida, poucos dias depois de já ter vencido a sua primeira League Cup.
Na inicio da década de 70 o City de Mercer continuava a ser uma força de respeito. A equipa lutou pelo titulo contra o Liverpool e Leeds mas voltou a falhar na Europa. A renovação geracional começou a opor os dois técnicos do conjunto. Allison aliou-se então a um grupo de descontentes que queriam um novo rumo para a direcção. Joe Mercer ficou fiel ao quadro directivo de Albert Alexander. Este acabou por ser destituido e o novo grupo de donos do clube imediatamente começou a cortar nos privilegios do técnico. Num dia em que Mercer chegava ao estádio para dar mais um treino, a situação atingiu o limite. O técnico tinha ficado sem o seu lugar de estacionamento entregue a Allison. Decidiu demitir-se no acto quando a equipa ainda estava a disputar o título. A saída enfureceu os adeptos do City mas por essa altura já Mercer tinha assinado um contrato com o Coventry onde estaria até 1974. No final da época foi eleito como seleccionador de transição, para substituir Sir Alf Ramsey. Orientou os Pross durante sete jogos, concedendo apenas uma derrota. A nomeação de Don Revie significou o seu afastamento dos quadros da federação. O ex-técnico do Leeds não suportava a figura de Mercer e anunciou que traria a sua própria equipa. A decisão precipitou o final da carreira de Mercer. O técnico tornou-se director do Coventry City, acabando por se retirar nos anos 80 quando lhe foi diagnostecida a doença de Alzheimer.
Mercer não foi um técnico tacticamente inovador e a sua carreira teve vários altos e baixos. Mas a sua etapa como manager do Manchester City faz parte dos anais da história do futebol inglês. Mercer montou um onze sólido onde o vedetismo não tinha lugar. A equipa jogava bom futebol e durante dois anos deixou à sombra o poderoso rival de Manchester. Depois da sua saída o clube nunca mais atingiu o mesmo sucesso e ainda hoje, enquanto esperam uma finta de Robinho ou Adebayor, os adeptos veteranos dos citizens lembrar-se-ão com saudade das danças de Mike Summerbee e os golos de Colin Bell, os Mercer Boys.
Foi um dos elementos mais questionados na estratégia delineada por Carlos Queiroz mas acabou por revelar-se o mais regular de toda a fase de qualificação. A grave lesão sofrida no Mestalla destroça não só o resto da época para Pepe. Também irá obrigar ao seleccionador a reinventar o seu esquema. Consequência directa de perder o "central total".

O seu estilo alto e esguio chamou à atenção ainda militava no Maritimo. José Mourinho avalou a sua contratação para se tornar no sucessor natural de Costinha mas no FC Porto acabou por se impor como central, graças ao 3-4-3 ambicioso de Co Adriaanse. Daí que o Real Madrid não resistisse a pagar 30 milhões pelo seu passe foi um salto. E nem o peso dos euros pagos por um jogador do eixo da defesa lhe pesou. Campeão no primeiro ano no Santiago Bernabeu hoje Pepe é o lider da defesa madridista. E não só.
Lançado por Scolari na selecção portuguesa, foi o mais regular dos internacionais no decepcionante Euro 2008. A partir daí não voltou a perder o lugar mas com Queiroz ganhou uma importância suplementar. Deixou o eixo da defesa para a dupla Ricardo Carvalho e Bruno Alves e caminhou um passos em frente no terreno de jogo. Fulcral no 4-4-2 (ou 4-3-3) utilizado por Queiroz, o jovem luso-brasileiro assumiu-se rapidamente como insubstituível no onze das quinas. Até ao fatidico momento 44 do filme que se desenrolava a alta velocidade em Valencia. Um salto mal calculado, uma queda aparatosa, uma dor intensa. 6 meses é o tempo minimo. Pode ser menos. Pode ser mais. Mas não será suficiente. E Portugal terá de voltar a reinventar-se.
É sina nacional. Antes de uma grande prova mundial a equipa de Portugal perde um jogador nuclear. Foi assim com Simão Sabrosa em 2002 - uma lesão inoportuna num amigável no Bessa contra a Finlândia - e com Luis Figo, incapaz de recuperar definitivamente de uma larga lesão provocada por um choque com Deco num duelo de Champions em Madrid. E em 2006 coube a Jorge Andrade o papel de ilustre ausente, ele que, sem o saber, caminhava então para o precoce final de uma carreira que tanto prometera anos antes. A meio ano do Mundial a sina cumpriu-se e Portugal já tem a sua baixa de vulto. E seria complicado eleger outro elemento tão preponderante.
O lugar de Pepe no ponto mais recuado do eixo do meio campo foi contestado desde o principio. Mas surtiu efeito. Determinante nos lances de bola parada, Pepe tornava-se rapidamente no terceiro central contra rivais complicados. Possibilitava também a subida controlada dos laterais, uma circunstância particularmente interessante numa selecção que conta com Bosingwa pela direita e Duda, um extremo adaptado, pela esquerda. É no entanto a facilidade de controlo de bola que tem Pepe quem o tornava ideal para o posto. Mais esclarecido muitas vezes que os seus companheiros no terreno, Pepe era fundamental a provocar desiquilibrios no contra-golpe. A sua velocidade funcionava sem falhas. A sua loucura era temperada com uma boa dose de genialidade. A sua função era fulcral.

Queiroz sabe que o central é um jogador insubstituível. Não há ninguém que tenha as suas caracteristicas dentro do lote de seleccionáveis. Agora a sua substituição traz um duplo problema. Seleccionador um médio defensivo titular e um central alternativo à dupla titular. Pepe consagrava os dois postos e abria uma vaga para ser preenchida com um jogador ofensivo. Agora provavelmente esse avançado extra terá de se tornar em mais um central. Muito possivelmente o duelo pela titularidade no eixo do meio campo estará entre Pedro Mendes e Miguel Veloso. São dois jogadores totalmente distintos a Pepe. Não dominam o jogo aereo, não possuem o mesmo espirito e entrega de luta e ralentizam o jogo. Onde Pepe metia velocidade, eles irão responder com tranquilidade. E a diferença notar-se-á bastante na capacidade de transição de um meio campo já lento por natureza. Pedro Mendes mostrou serviço frente à Hungria mas este ano já sofreu uma lesão complicada e a idade que tem permite questionar a forma a que chegará no final de ano. A Veloso perde-lhe o caracter e o pouco profissionalismo. Apesar do seu talento natural poucos seriam os treinadores que lhe confiariam um posto fulcral, particularmente tendo em conta os temiveis meio-campos de Brasil e Costa do Marfim. Fora desse espectro há pouco por onde pescar. Paulo Machado, Ruben Amorim ou Manuel Fernandes são outras alternativas, mas demasiado verdes para este tipo de exigência.
Por fim, quanto ao terceiro central, parecendo certo que Bruno Alves e Ricardo Carvalho são titulares a 100% abre-se a porta a surpresas. Rolando terá de subir de produção e Ricardo Costa e Zé Castro.

Portugal será forçosamente uma selecção diferente do que exibiu na bem sucedida etapa final da campanha de qualificação. Menos acutilante e mais pausada. Um ritmo que encontra eco na história da selecção mas que se revela pouco animador perante o lote de futuros rivais. E quanto a Pepe, esse central total que hoje ombreia com Pique, Puyol, Terry, Vidic e Ferdinand como um dos melhores do mundo, fica a tristeza de ver um jogador da sua dimensão falhar uma prova que poderia demonstrar, de forma definitiva, que por vezes a integração de naturalizados traz cor a uma geração demasiado cinzenta.
Com a profunda crise financeira que assola o campeonato argentino os últimos anos têm sido pródigas em surpresas. Mas nenhuma tão grande como a do Banfield. O modesto clube dos subúrbios de Buenos Aires nunca tinha ganho nenhuma prova no duplo campeonato argentino. Para os verde-e-brancos 2010 será um ano inesquecível...

Nem foi preciso ganhar. A derrota mais feliz. Uma loucura impensável. No mitico La Bombonera foram poucos os lugares para os fanáticos do pequeno clube buenarense. As noticias que vinham do jogo do Newell´s Old Boys dispararam a euforia. A derrota dos rivais era suficiente para consagrar o modesto Banfield como vencedor do Torneo de Apertura. O primeiro triunfo no futebol argentino de um dos clubes mais modestos da liga. Sem um historial passado, sem grandes estrelas no presente, o Banfield trabalhou mais e melhor que todos os outros. E com essa naturalidade arrecadou um trofeu que há três semanas ninguém pensava que poderia suceder. A partir do momento em que treparam para o primeiro posto, os jogadores de Julio Falcioni nunca mais falharam. Apesar da critica sob o mau jogo exibido em campo na etapa final da prova, o técnico foi cabaz. A equipa não joga bonito, mas vais à frente. E assim foi, até ao final.
O San Lorenzo de Almagro ajudou à festa mas o titulo parecia uma certeza no coração dos adeptos de um clube centenário mas modesto. A equipa teve apenas duas derrotas na prova. Uma, imediatamente a abrir o campeonato. Outra, a fechar. Pelo meio 17 jogos sem perder que foram suficientes para garantir a supremacia sobre os grandes favoritos. E se o River Plate e o Boca Juniores rapidamente mostraram que esta prova não era para eles, os rivais directos Newells, San Lorenzo e Estudiantes também foram batidos sucessivamente pelo modesto Banfield. Ontem foram 5 mil no Bombonera e muitas mais nas ruas do pequeno subúrbio a sul da capital argentina. Uma festa inédita.
A equipa de Falcioni não aguentou o killer instinct de Martin Palermo, autor dos dois golos do conjunto xeneize. Mas a cabeça deles há muito que tinha abandonado o relvado ao saber das noticias que vinham do campo do rival, que até tinha a vantagem de jogar diante dos seus adeptos em Rosario.
Apesar de não ter feito o gosto ao pé no jogo decisivo - que afinal nem o foi - foram os 14 golos de Santiago Silva que ajudaram a fazer história. O dianteiro uruguaio, um de muitos jogadores charrua que compõe o onze do Banfield, foi determinante ao longo da temporada e acabou por ser eleito o Melhor Jogador e Marcador do Torneo Apertura 2009. Ao seu lado, os fieis escudeiros, Sebastian Fernandez - médio de qualidade superior - e o jovem Joaquin Rodriguez, um extremo promissor, lideraram a carga do modesto Banfield.

A modesta equipa sabe que o feito logrado este fim-de-semana ecoará durante largos anos nos livros de história. Num campeonato controlado de forma a que os grandes clubes nunca descam de divisão e acabem sempre por pairar sobre os primeiros postos é altamente complicado um clube tão pequeno ficar com o troféu. Muito mais retê-lo. A equipa sabe que o próximo Torneo Clausura será o oposto do que acabou de viver. De surpresa passarão a favoritos e é muito provavel que os seus melhores jogadores deixem a equipa. Mas para os adeptos o futuro não conta. Depois de anos a lamentar-se dos erros do passado, agora a "hinchada del Taladro" desfruta, pela primeira vez, do presente. E todos sabemos que a primeira vez sabe sempre muito melhor...
Não há nenhum treinador no Mundo que possa presumir de ter sido o único a sagrar-se campeão mundial com a selecção inglesa. A fundadora do beautiful game. Um título que perseguiu Sir Alf Ramsey durante toda a sua carreira e ofuscou outros elementos brilhantes da carreira de um técnico que ainda hoje é lembrado como um dos grandes gentlemans do futebol.

A carreira de Alf Ramsey ficou marcada pelos recordes. Há homens predestinados para a grandeza e ele era certamente um deles. Um génio capaz de sacar o máximo de uma equipa durante 90 minutos. Um pastor de homens à antiga, dedicado com os seus jogadores mas inflexível a partir do momento em que a sua decisão estava tomada. Optar por Geoff Hurst em lugar do demoníaco Jimmy Greaves poderia ter manchado eternamente a sua carreira. Mas ajudou a fazer história. Assim era o tranquilo Ramsey, o primeiro seleccionador inglês promovido ao título de Sir. E que os jogadores conheciam como "The General".
Nascido em Londres no mês de Janeiro de 1920, Alfred Ramsey foi um dos muitos recrutas que a Guerra levou para as areias do deserto africano e logo para as praias da costa francesa. Depois de cinco anos ao serviço da infantaria voltou a Inglaterra para retomar uma velha paixão: o futebol. Começou a actuar como profissional com o Southampton onde esteve cinco anos de bom nível. Defesa direito com um imenso sentido táctico, Ramsey foi transferido em 1949 para o Tottenham Hotspurs. Aí tornou-se na estrela de uma equipa que ficou para a história como a primeira formação a ser campeã da liga no ano seguinte a ser promovida. Por essa época Ramsey era igualmente titular com a selecção inglesa, onde chegou a levar a braçadeira de capitão. O seu último jogo marcou uma era. A derrota por 6-3 com a Hungria no Wembley acabaria com o reinado dos Pross na sua própria casa. E o final do dominio ficticio do futebol inglês. Treze anos depois o domínio seria restaurado. Pelo próprio Ramsey.
Ao acabar a carreira como jogador Alf Ramsey declinou entrar no mundo dos negócios, convidado por familiares, e decidiu abraçar a carreira de treinador. O seu primeiro desafio ia chamar-se Ipswich Town. O modesto clube de East Anglia militava então na Terceira Divisão e era um bom ensaio para futuros voos. A história provou estar enganada e logo no primeiro ano Ramsey conseguiu terminar no terceiro posto da liga, bem longe da habitual mediania do conjunto de Suffolk. Uma equipa extremamente ofensiva que acabaria por sagrar-se campeão na época seguinte mas que acabaria por terminar os anos seguintes na metade alta da tabela da segunda divisão. Por essa época o Ipswich era uma temível máquina de fazer golos mas sofria muitos, particularmente em bolas paradas. A equipa passou por um processo de regeneração e em 1961 o onze de Portman Road conseguiu vencer a prova e subir à Primeira Divisão. Ramsey era um técnico sério. Tinha disposto os seus jogadores num 4-4-2 clássico mas com uma variação fundamental. Onde extremos transformavam-se em médios ofensivos para organizar a equipa quando esta não tivesse a posse de bola. O técnico preferia homens que se adaptassem à sua táctica e que colocassem o colectivo como prioridade. Foi com guerreiros como John Wark que o Ipswich fez história.
Depois de uma promoção histórica a equipa entrou de rompante na Primeira Divisão. Uma série de vitórias inesperadas lançaram o Ipswich para o topo da classificação. De onde nunca mais iriam sair. Alguns tropeções sem importânica. E no final o título. Com três pontos de vantagem do Burnley. Histórico. Único. Irrepetível. Dois anos depois a equipa tinha caído de novo no poço. Ramsey já lá não estava.

Em 1963, depois de celebrar o título de campeão, Alfred Ramsey foi nomeado seleccionador inglês. O objectivo era preparar a equipa para o Mundial, que se disputaria pela primeira vez em solo inglês, três anos depois. O seleccionador rapidamente montou a sua equipa tipo e manteve-se fiel a ela durante os primeiros anos do seu mandato. Banks, os irmãos Charlton, Greaves, Bobby Moore, Stiles e companhia. Ao ser apresentado, prometeu vencer o Mundial. Ninguém o levou muito a sério. A selecção inglesa vinha de outra debacle no Mundial do Chile e tinha perdido o amor próprio. A sua decisbo de tomar controlo de todas as decisões que rodeavam a selecção levaram-no a ser o primeiro Manager dos Pross. Começava a desenhar-se a formação que iria devolver a glória aos inventores do jogo. Recuperou a táctica ensaiada com sucesso no Ipswich e colocou atrás dos dois pontas de lança dos médios ofensivos móveis, apostando por fazer a bola circular pelo miolo. Isso permitia maior eficácia a defender, dava liberdade ofensiva aos laterais e criava superioridade no meio campo. Quando chegou o Campeonato do Mundo a sua selecção estava bem oleada. A prova começou com um empate cinzento com o Uruguai e os primeiros assobios. A equipa actuava com Greaves e Hunt no ataque e Charlton e Callaghan no apoio. Seguiram-se as vitórias diante de México e França - com Peters e Connelly a estrearem-se pela equipa - e a nos quartos-de-final o choque contra a Argentina. Já com Hurst no lugar do tocado Greaves e com Alan Ball, Nobby Stilles, Bobby Charlton e Martin Peters no apoio à dupla atacante, a Inglaterra bateu os argentinos graças a um golo de Hurst e à auto-expulsão de Ratin. A meia-final com Portugal provou o génio táctico do seleccionador. Depois do 4-3-3 e 4-4-2 sem alas, contra os Magriços a Inglaterra neste desafio foi a força defensiva que fez a diferença. Dois erros do guardião luso deram a Charlton o carimbo ideal para marcar o passaporte para a final. A história tratou de resolver o resto. Ramsey cumpriu a promessa e a Taça Jules Rimet ficou em casa.
No final da prova Ramsey foi elevado a Sir, a primeira vez que um técnico de futebol recebia tal distinção. No Europeu que se seguia a selecção inglesa ficaria em terceiro e para o México chegava com altas expectativas. A derrota com o Brasil ficou marcada como um dos grandes jogos da década. Apesar da defesa de Banks o escrete venceu e os ingleses tiveram de defrontar de novo a Alemanha nos Quartos de Final. Aí, e apesar de terem estado à frente do marcador até aos 70 minutos, os alemães tiveram direito à sua desforra com um jogo memorável de Gerd Muller. O final da prova marcou o fim da aura invencível do técnico que começou a sofrer contestação. A renovação geracional dos campeões do Mundo passou a ser um problema que nem Ramsey logrou resolver. Ao falhar o apuramento para o Euro 72, numa dramática eliminatória com a RF Alemanha, e, dois anos depois, para o Mundial da Alemanha contra a Polónia, Alf Ramsey foi demitido sem honra nem piedade. A critica queixou-se de que as suas tácticas, antes inovadoras, não cabiam num mundo onde o futebol total era a nova moda. Incapaz de encontrar um sucessor digno para Charlton, Moore ou Hurst, a equipa inglesa tinha perdido a sua coerência.

Depois de breves passagens pelo Panatinaikhos e Birmingham, em 1978 Alf Ramsey pôs fim à sua carreira como treinador. Vinte e um anos depois acabaria por morrer. Curiosamente tinha sido um ex-técnico do Ipswich, Bobby Robson, o único seleccionador que esteve perto de emular o seu sucesso. Ao morrer Inglaterra reencontrou-se como o seu único treinador campeão do Mundo depois de anos onde a sua figura foi deixada em segundo plano. A sua frieza e dominio tácticos ajudaram a fazer história e o seu espirito visionário mudou para sempre o futebol inglês.
Depois dos gloriosos anos de Herbert Chapman e antes do longo consulado de Arsene Wenger o Arsenal foi sempre uma equipa à procura da sua identidade. Consegui-o durante uma larga década, altura em que um modesto técnico que só queria ser preparador-fisico ajudou a acabar com uma longa seca de titulos. E deu inicio a outra com a sua partida.

Bertie Mee é um nome desconhecido para a maioria dos adeptos europeus mas para os fãs do Arsenal é uma lenda que ombreia taco a taco com Champan e Wenger no altar dos grandes técnicos da formação londrina. Ao contrário de muitos dos seus rivais da época, Mee era tudo menos o que se podia esperar de um manager de sucesso. Extremamente humilde e desligado do universo das estrelas que começava a dar forma ao futebol inglês, Mee tornou-se treinador do Arsenal por acaso e contra a sua vontade. Obrigou mesmo a direcção a adiccionar uma cláusula ao seu contrato que especificava que podia voltar ao seu posto de fisioterapeuta no final da época se o clube encontrasse um técnico substituto. Mas não, não encontrou. E Mee ficou no banco de Highbury Park durante 10 anos.
O técnico tinha sido um modesto jogador do Derby County nos anos 40 e a II Guerra Mundial precipitou o final da sua carreira desportiva. No exército tornou-se fisioterapeuta, posição em que entrou no Arsenal em 1960 depois de breves passagens por outros clubes londrinos. Seis anos depois de chegar a equipa vivia os seus piores momentos. Sem titulos desde 1953 e longe da celebre era de Chapman, a direcção queria sangue novo no banco. Surpreendentemente elegeu o modesto preparado fisico. Mee rejeitou. A direcção insistiu e este acabou por aceitar, exigindo no entanto que Dave Sexton e Don Howie se tornassem nos seus adjuntos. Bertie Mee sabia que tacticamente era um técnico mediano, mas era perito em descobrir e polir novos jogadores. O balneário adorava-o e os adeptos rapidamente se renderam ao seu estilo. O "boring Arsenal" tornou-se numa equipa viva e divertida, especialmente após a sucessiva aposta na formação do clube. Como antes. Como depois.

Com Pat Rice, George Graham, Ray Kennedy, Charlie George e mais tarde Liam Brady, o Arsenal tornou-se numa equipa atractiva, apesar de pouco eficaz. Entre 1968 e 1969 esteve em duas finais da Taça da Liga e em 1970 ganhou a sua única prova europeia até hoje, a Taça das Cidades Com Feiras ao Anderlecth belga. Uma vitória que devolveu o orgulho aos adeptos gunners e que seria a ante-camara da época gloriosa de 1970-1971. Com os seus soldados a postos, Mee apostou numa equipa rejuvenescida e mais eficaz. Durante todo o ano esteve nos postos cimeiros da classificação, ao contrário de épocas anteriores. E, subitamente, saiu disparado em Março ultrapassando Leeds e Liverpool e ganhando o primeiro título em 18 anos. Uma vitória histórica que teve o sabor especial de ter sido lograda em White Hart Lane, nos últimos minutos da derradeira jornada frente ao Tottenham. Uma semana depois, para dar forma à festa, a mesma equipa deu a volta a um marcador desfavorável e bateu por 2-1 o Liverpool em Wembley. O técnico que não queria sê-lo conseguiu um feito ao alcance de muito poucos. Tornou-se imediatamente o idolo de Highbury.
O ano seguinte acabou por não corresponder às expectativas. Eliminado precocemente na Taça dos Campeões Europeus, a equipa desde bem cedo perdeu o comboio do título e apesar de ter logrado uma presença na final da FA Cup, acabou por sair derrotada pelo Leeds de Don Revie. A derrota marcou também o fim da era de Mee. Os seus jogadores chave começaram a abandonar a equipa e em 1976 o técnico também decidiu colocar o lugar à disposição depois de ter voltado a falhar o ataque ao titulo. Levava no entanto um recorde de 241 vitórias (algo que só em 2006 Wenger lograria bater) e o coração dos adeptos do Arsenal. A equipa já não apresentava o seu melhor futebol, aquele que tinha perfumado os relvados ingleses desde finais da década de 60, e Mee estava desencantado com a politica da direcção que teimava em não apostar forte no mercado como o técnico solicitava ano atrás ano. A sua saída do Arsenal significou igualmente o final da sua carreira. Ainda colaborou como ajdunto para o seu amigo Graham Taylor no Watford, tendo lançado então o desconhecido John Barnes, mas a sua paixão pelo jogo tinha-se esmorecido e rapidamente decidiu optar pelo tranquilo caminho da reforma. Acabaria por falecer em 2001, depois de ver o seu clube voltar a apresentar o seu mais belo rosto.

Hoje técnicos como Bertie Mee são uma raridade. Homem de um clube só, pôde manter o seu estilo apostando constantemente no futebol de formação, uma realidade que desde então se tornou escola em Highbury Park e que lançou as bases do sucesso de hoje. Sem a genialidade táctica de outros rivais da mesma era, Mee era mais um pastor de homens tranquilo e da mesma forma como chegou ao futebol, assim se despediu. Mas sempre deixando saudades juntos daqueles que vibraram com aquelas tardes debaixo da bancada do relógio.
Quando a FIFA decidiu acabar com o duelo da Taça Intercontinental para criar um Mundial de Clubes onde cabiam representantes dos quatro cantos do Mundo, os adeptos do futebol aplaudiram a democratização. Mas há regimes mais democráticos que outros. A imprensa centra-se no já antecipado "Barcelona das 6 Taças" e deixa passar um ligeiro, mas importante detalhe. O troféu já começou a disputar-se.

Campeão Europeu, Sul-Americano, da CONCAF, Africano, Asiático, da Oceânia e o organizador. Sete representantes num trofeu cujo o impacto internacional está nos minimos históricos. Quando deveria ser, precisamente, o oposto. A FIFA quis acabar com esse duelo entre europeus e sul-americanos que durante quase meio-século ficou conhecido como Taça Intercontinental. Salvo pela Toyota - que deu o nome ao trofeu e uma taça extra - depois das problemáticas edições a duas mãos dos anos 70 (onde a maioria dos campeões europeus preferiu nem participar), o torneio chegou ao seu final com a vitória do FC Porto frente ao Once Caldas. Desequilibrou-se a balança para o lado europeu mas o resto do Mundo queria também entrar na festa. Em 2000 a FIFA tinha tentado criar uma edição piloto que não correu lá muito bem. A final entre brasileiros, a polémica à volta da participação do Manchester United e o baixo nível apresentado por muitos dos candidatos ao trofeu levou a organização a repensar o modelo de dois grupos de quatro equipas. A ideia madurou mais cinco anos até que em 2005 voltou de novo à prática. Ainda no Japão, o novo Mundial de Clubes FIFA copiou apenas os maus exemplos da sua antecessora. Incapaz de criar uma brecha no calendário e face à impossibilidade de coordenar a presença de campeões sagrados de forma tão dispar no tempo, a FIFA optou pelo modelo fácil. Prés-eliminatórias para as federações menos importantes com os europeus e sul-americanos - os mesmos da Intercontinental - tranquilamente à espera nas meias-finais. Inevitavelmente passaram à final que o São Paulo levou para casa.

Ontem começou a quinta edição do Mundial de Clubes. E ninguém deu por isso.
Apesar da democratização da competição o enfoque continua a estar todo nos participantes europeus e sul-americanos. As regras do sorteio ditam que ambas equipas estão livres de disputar pré-eliminatórias. Num trofeu onde o representante da Oceânia pode disputar até quatro jogos, o europeu ou sul-americano nunca farão mais de dois. Democracia futebolistica pura.
O Barcelona viaja tranquilo para o Dubai, novo centro da competição. Os petrodolares foram suficientes para levar a FIFA do fiel Japão a novas paragens. Mas nem a mudança de cenário conseguiu gerar publicidade suficiente para criar interesse por uma prova que a maioria dos adeptos desportivos ignora e não acompanha. Os horários proibitivos para o público europeu, a falta de conhecimento dos clubes do resto do Mundo são justificações normais. Mas insuficientes. A FIFA ainda não logrou entender que uma prova organizada no final do ano desagrada a todos. Aos representantes continentais, obrigados a largas viagens em momentos cruciais da sua época desportiva. Aos agentes publicitários que não sabem como vender um producto que parece, a todos os titulos, incombustível. E ao próprio adepto. No meio das contas tudo acaba por passar a segundo plano.
No final de contas a Oceânia continua a ser - até neste aspecto - o continente mais prejudicado. É forçado a disputar uma pré-eliminatória com o clube do país organizador. Ontem o Auckland City, campeão da Nova-Zelândia e da Oceânia, defrontou o Al Ahli, campeão dos Emirados Árabes Unidos. E venceu. 2-0. Um triunfo categórico que tem o condão de abrir as portas...para a próxima eliminatória. Uns falsos quartos-de-final onde o campeão da CONCAF - o Atlante - será o próximo rival. No outro encontro jogam os actuais senhores de África - TP Mazembe - contra os asiáticos Pohang Steelers. Enquanto isso o Barcelona acaba de vencer o Dynamo de Kiev para a Champions League e no próximo sábado defronta o Espanyol de Barcelona. Que a FIFA permita que uma prova deste calibre decorra enquanto que o máximo favorito ainda tem tempo para disputar encontros de outros dois troféus é sinal claro da total desorganização desportiva que rodeia este Mundial.
Em lugar de respeitar o ideal de Mundial que aplicou na primeira edição da prova - dois grupos de quatro equipas (onde poderia ter lugar o vencedor da edição passada) a FIFA prefere adoptar a fórmula de agradar a gregos e troianos. Não o consegue. Os grandes favoritos desprezam o torneio, que os abriga a largas viagens para disputar dois jogos. Não é por acaso que todas as finais anteriores acabaram por se disputar entre os mesmos que mediam forças na Intercontinental. Quando aos clubes de outros continentes, perdem o aliciante mediático de medir forças com os grandes, chegando já batidos aos encontros das "meias-finais". Uma prova onde não há igualdade de circunstância não pode ser uma prova a ser levada a sério.

Imaginemos o Mundial de Futebol de Selecções. Agora pensemos numa fase de grupos onde Brasil, Itália, Alemanha e Argentina surgem como isentos. Esperam tranquilamente nos Quartos-de-Final que outras selecções os acompanhem. No final as probabilidades de vencer são suas. E assim se controla a história. O Mundial de Clubes continua a ser uma farsa desportiva da FIFA sem razão de existir. Mais do que mudar o local da prova ou as regras que envolvem o torneio, o que é preciso é mudar o espirito que a rodeia. Quando Mputo, avançado do TP Mazembe, tenha as mesmas igualidades de circunstância que Verón do Estudiantes ou Messi do Barcelona, aí sim falaremos de um torneio real. Este que se disputa pela calada no Dubai é um falso holograma desportivo que não interesse realmente a ninguém.
Era o dia chave do consulado de Louis van Gaal. O técnico holandês que marcou de forma determinante o futebol dos anos 90 tinha renascido na Holanda com o modesto AZ Alkmaar. Incapaz de resistir ao desafio de comandar o ogre de Munique, o técnico viajou até ao Allianz Arena. Uma viagem repleta de sobressaltos e que ontem esteve perto de terminar. O que se seguiu foi um furacão futebolistico com a trademark de um técnico eternamente incompreendido.

Foi uma doce desforra. Ciro Ferrara tinha marcado na mitica final que a Juventus venceu ao Ajax Amsterdam de van Gaal em 1996. Era o final de um projecto de sonho que o holandês tinha criado do zero lançando uma nova geração que talentos holandeses que povoariam meia Europa na década seguinte. Ontem van Gaal voltou para casa com um sorriso como há muito não se lhe via. Sabia que tinha a corda ao pescoço no minuto em que o árbitro apitou para o inicio do jogo. Esse empate a zero era suficiente para a Vechia Signora seguir em frente. E o jogo podia até ter acabado assim que o Mundo do futebol não se surpreendiria. O arsenal ofensiva do Bayern Munchen anda há muito em crise e a solidez defensiva do conjunto de Turim é sobradamente conhecida. Que o diga José Mourinho, último vitima da teia da Juve. Mas não, o jogo tomou outro rumo. Precisamente no instante em que Diego rouba uma bola no meio campo e lança Marchisio. O herói do duelo contra o Inter descobre Trezeguet que bate Hans Jorg Butt sem apelo nem agravo. A Baviera começava a afiar as facas para o regresso de van Gaal. Só que ninguém tinha percebido que o seu jogo começava ali.
O que se seguiu foi um verdadeiro festival futebolistico. Lembrou os dias do melhor Ajax, do Barcelona bicampeão de Rivaldo, Luis Enrique, Figo e toda a cantera que hoje pauta o jogo do Pep Team. E até mesmo o autoritarismo arrogante do modesto AZ Alkmaar. Ontem o Bayern foi menos Bayern e mais van Gaal. A equipa encontrou-se cómoda, jogou bem entre as linhas e desmontou cada elemento do puzzle turinês. Schweistenger e Van Bommell no eixo foram suficientes para travar o trio Marchisio-Melo-Diego, que tanto tinha empolgado os adeptos, apenas cinco dias antes. E o ataque, sem Robben (que só entraria para 20 minutos finais deliciosos), Klose e Ribery foi mais eficaz do que nunca. Muller, Olic e Gomez fizeram a festa. Primeiro o croata provou o penalty que o letal Hans-Jorg Butt apontou. Do outro lado Buffon estava numa noite negra, ele que tinha forçado a recuperação para chegar a tempo. Olic, endiabrado como nunca, não perdoou e no reatar do jogo deu a volta ao marcador. A Juventus ainda estava a um golo do apuramento mas o golpe de efeito de Mario Gomez - que começa a encontrar o seu sitio - e o remate colocado de Tymochuscuk confirmaram a goleada história. Há muitos anos que a Juventus não sofria um correctivo tão evidente. E há muitos meses que o Bayern Munchen não era tão letal.

Uma goleada histórica que abre novas perspectivas. Se para a Juventus é um sinal de que o projecto de Ferrara ainda é bastante verde - apesar da vitória sobre o Inter - e que a Europe League terá de ser uma prova levada a sério este ano, já para os bávaros a noite é de festa. E equipa consegue um apuramento que há um mês parecia hipotecado. Ganha uma equipa sólida onde as grandes estrelas deram lugar aos mais batalhadores. E recupera o melhor fio conductor futebolistico da era van Gaal. O técnico holandês é um homem que precisa de tempo para por em prática o seu método de jogo. A licção começa a ser assimilada, a pouco e pouco. E certamente que em Fevereiro este Bayern será mais van Gaal. E muito mais temível.
Poucos homens foram tão amados na história do futebol. O reinado absoluto de Don Revie em Leeds foi uma etapa nuclear na profissionalização do futebol britânico. O seu objectivo era tornar o clube de Yorkshire no Real Madrid de Inglaterra. O seu dominio não foi o mesmo, mas a sua equipa tornou-se no alvo a abater. A história, infelizmente, ficou apenas com os seus aspectos negativos e hoje pouco se lembram da lenda de invencibilidade que o rodeia.

No recente The Damned United - filme que retrata a mês e meio que Brian Clough passou no banco do Leeds Utd - a figura de Don Revie é olhada com um desprezo reverencial. Transformado quase num oficial do exército vermelho, Revie surge como um ogre, capaz de controlar à distância tudo o que o rodeia. A nemesis perfeita de um génio em convulsão. A figura do técnico que marcou a viragem da década do futebol inglês é, por isso mesmo, ainda hoje extremamente confusa. Há os que se recordam dos seus 11 invenciveis, uma equipa inesquecível que se mostrava implacável contra qualquer rival. Há também os que apontam o dedo ao seu consulado falhado ao serviço da selecção inglesa. E por fim paira no ar as suspeitas de corrupção ilicita ao largo dos últimos anos de Revie como técnico. Como o mau sempre parece enturbiar o bom, Don Revie ainda é visto como o brigão do futebol inglês. O técnico do qual nenhum adepto quer ser admirador hoje em dia. O politicamente correcto do futebol diriamos.
E no entanto à época, Don Revie era vivido, tratado e reverenciado como um génio. Foi rival directo de três dos maiores treinadores da história do futebol e pode gabar-se de os ter batido a todos. De forma regular. O seu Leeds United foi, na segunda metade dos anos 60 e no principio da década de 70 a alternativa lógica ao duo Liverpool-Manchester United. E se em Londres havia bom futebol nos pés dos jogadores do Arsenal, Chelsea e Tottenham. E se Manchester tinha duas equipas de respeito e um tal de Brian Clough fazia maravilhas com o desconhecido Derby County, a verdade é que era o Leeds quem enchia as capas de jornais. Obra de um só homem.
Don Revie nasceu em Middlesborough - tal como o seu rival Clough - no Verão de 1927. Começou como jogador no Leicester e foi no Sunderland onde atingiu o seu apogeu desportivo. Em 1958, depois de 64 jogos ao serviço dos nortenhos, transferiu-se para o Leeds Utd por valores históricos. Era um avançado de renome, internacional e o responsável pela criação do falso-avançado no futebol inglês, posição durante anos reconhecida como o "Revie Plan". Em 1962, com 36 anos retira-se. O clube convida-o a pegar na equipa que por então penava na Second Division. Começavam os Glory Years.

Em três anos o técnico montou uma equipa ganhadora. Depois de um ano como treinador-jogador, dedicou-se exclusivamente ao aperfeiçoamento táctico do seu 4-2-4 que rapidamente se tornaria em 4-4-2. O Leeds sagrou-se campeão da segunda divisão e no primeiro ano na Division One a equipa terminou no segundo lugar, disputando até à última jornada o titulo com o Manchester United de Matt Busby. As ácidas relações entre ambos técnicos ficariam para a história tal como os duelos de Revie com Shankly, que nesse ano o derrotou na final da FA Cup. A equipa voltou à carga no ano seguinte e voltou a terminar o ano no segundo posto, agora atrás do Liverpool e de novo disputando o trofeu até ao último momento. Os dois anos seguintes foram complicados, com vários jogadores da equipa base de Revie a terminarem a carreira. Era a época de apostar em sangue novo. O treinador montou um meio-campo de ferro com Billy Bremner, Peter Lorrimer, Jack Charlton e Johnny Gilles. Um quarteto que faria história a partir de 1968. Por essa época a equipa já tinha deixado o tradicional azul e amarelo, passando a equipar de branco. Segundo Revie, o Leeds tinha de se tornar no Real Madrid do futebol inglês e nada melhor do que equipar-se como os espanhois.
Em 1968 a equipa comemora os dois primeiros trofeus com Revie. Vence a Taça da Liga e a Taça das Cidades com Feiras pela primeira vez. Numa final histórica contra Ferencvaros a equipa desforrou-se da derrota no ano anterior (frente ao Dinamo Zagreb) e antecipou um ano de luxo para o futebol inglês. Duas semanas depois os rivais de Manchester sagravam-se campeões europeus. O ano seguinte foi o da consagração. Com Bremner e Gilles no seu melhor o Leeds proclamou-se finalmente campeão com uma larga vantagem sobre o segundo classificado, o Liverpool de Shankly. A equipa confirmava a sua superioridade e Don Revie era, pela primeira vez, eleito Treinador do Ano. Prémio a um trabalho genial que levou a que, durante uma década, o Leeds nunca tivesse saído dos quatro primeiros. Algo que nenhum outro conjunto inglês logrou. Em 1971 a equipa voltou a disputar o titulo até ao final. Por esta altura começaram as acusações de jogo violento e anti-desportivo que tornaram o clube de Yorkshire no mais odiado do país. A campanha de Clough, Shankly e Busby contra Revie fizeram dele persona non-grata. Mas em Leeds adoravam-no. No mesmo ano a equipa venceu a sua segunda Taça das Cidades com Feiras (diante da Juventus) e voltava à final da FA Cup. Depois de voltar a vencer o trofeu, em 1973 o Leeds conquistou o título da liga pela segunda vez com Revie ao comando. Seria o último trofeu no banco de Elland Road. No Verão o técnico que tinha rejeitado suceder a Matt Busby não resistiu a tomar controlo da selecção inglesa. Os adeptos mostram-se contra a sua nomeação. E Leeds começou a descida aos abismos.
Ao serviço de Inglaterra a carreira do homem que tinha vencido por três vezes o prémio de Treinador do Ano começou a sua etapa final. Falhando o apuramento para o Euro 1976, Revie começou a envolver-se em polémicos negócios com empresas onde detinha participações. Uma delas, a Admiral, tornou-se na primeira patrocinadora a ver o seu nome inscrito na camisola dos Pross. Um atento à tradição inglesa que precipitou a sua demissão. Ter falhado o apuramento ao Mundial de 1978, estando várias vezes ausente do país em datas chave da qualificação, foi a gota que transbordou o vaso. Emigrado para os países árabes, Revie assumiu o cargo de seleccionador dos Emirados Arabes Unidos mas novas polémicas à volta de apostas ilegais levaram-no a rescindir o milionário contrato. Voltou amargo para a sua Inglaterra natal onde a sua figura tinha passado para segundo plano. Quando morreu, em 1989, o seu Leeds vivia horas complicadas. Seria campeão cinco anos depois, mas hoje vive na amargura da III Divisão onde caiu depois de entrar em falência.

Em Elland Road todos se lembram ainda do Boss Revie, um técnico que tratava os jogadores como filhos e que forjou uma das mais competitivas equipas da história do futebol. Poucos clubes lograram jogar tantas finais e disputar tantos campeonatos até à última jornada como o seu Leeds. A história preferiu o lado negro de Ron. Os amantes do beautiful game nunca esquecerão o seu sorriso ganhador.
Foi a maior derrota europeia do Atlético de Madrid no seu recinto. Um feito que diz muito da insultante superioridade azul-e-branca no Vincente Calderon. O FC Porto chegou, viu e esmagou os colchoneros e provou que está bem instalado na hierarquia do futebol europeu.

Depois de um arranque titubeanta, o FC Porto demonstra ter encontrado o caminho do golo. Da eficácia. Do primeiro ao último minuto foi a única equipa no relvado do Calderon. Controlou todas as investidas dos "Quatro Magnificos" madrileños que ontem foram pouco mais do que fantasmas. Sergio "Kun" Aguero aguentou apenas meio-jogo. O seu fisico é um aviso sério a quem se dispõe a pagar 50 milhões pelo passe do genro de Maradona que continua longe de mostrar aquilo que tanta se augura sobre o seu futuro de estrela. Forlan continua a disparar pólvora seca e Simão Sabrosa e Maxi Rodriguez estiveram sempre bem controlados pela defesa portista. Uma defesa coordenada e solidária que deu a Helton uma noite bem distinta da de há um ano quando um empate a dois esteve perto de comprometer o apuramento para os Quartos de Final da Champions. Esse ano o Atlético de Madrid saiu da prova sem ter perdido um jogo. Desta feita parte sem ter ganho um. Os dragões saiem com 12 pontos metidos ao bolso, um dos seus melhores registos na prova. E com a certeza que serão uma das equipas a evitar pelos grandes tubarões europeus no próximo sorteio.
Bruno Alves voou mais alto sob os céus de Madrid e com um golpe impressionante matou o jogo. Estavamos ainda nos primeiros instantes e o cabeceamento letal do central surpreendeu tudo e todos. Sergio Asenjo nem se podia estirar para travar um golo certo a partir do momento em que o capitão portista se eleva. Uma entrada de rompante que a equipa não desmereceu. Longe de ver uma reação dos locais - que jogavam ainda o apuramento para a Europe League - foi o FC Porto que continuou à carga. Explorando bem Rodriguez e Hulknos flancos, a equipa não se ressentiu da ausência de Belluschi - o argentino Valeri mostrou, pela primeira vez, estar em condições de discutir um lugar - e esteve sempre organizada. Aos 15 minutos uma subida de Fucile pelo flanco direito - onde se nota a diferença em relação a Sapunaru - resulta num centro-remate que Asenjo não consegue segurar. Oportunista como qualquer goleador inspirado, Falcao antecipa-se ao compatriota Perea e amplia a vantagem. Ponto final.
O Atlético de Madrid ainda tentou responder, mas Helton teve uma noite bastante tranquila. A defesa azul e branca não comprometeu e a entrada de Guarin, já na segunda parte, deu ainda mais musculo aos azuis-e-brancos. Os portistas poderiam ter ampliado a vantagem em diversas ocasiões mas coube a Hulk o momento da noite. O brasileiro beneficiou de um toque magistral de Varela para destroçar as pernas de Dominguez antes de fuzilar as redes de Asenjo. Um golo de bandeira para fechar uma noite de luxo.

Sob o céu frio de Madrid ficou a prova de que o Manzanares é um riacho comparrado com a força das águas do Douro. Os azuis e brancos transformaram o Atlético de Madrid numa equipa pequenina e inofensiva. Deixaram mais uma vez boas indicações de que os dias dificeis ficarão para trás. Uma reviravolta no marasmo bem a tempo de atacar a Liga e preparar com tranquilidade mais uma investida europeia. Numa final que, curiosamente, será disputada debaixo dos mesmos céus que ontem foram mais azuis do que nunca.
"Não sabia que para ser jockey antes era preciso ser-se cavalo!". Arrigo Sacchi foi um dos mais revolucionários técnicos da história do futebol. Mas nunca foi jogador profissional. Acusado pela falta de experiência como atleta de alta competição, respondeu assim aos criticos jornalistas. E deixou a nu a grande linha divisória que orienta o mundo dos técnicos de futebol. A escola dos treinadores com passado no relvado e a dos técnicos de formação teórica e iminentemente cientifica. Hoje o beautiful game volta a recuperar uma velha luta...

Nos primórdios os técnicos eram gentlemans que poucas vezes tinham passado como atletas. Muitas vezes eram profissionais de educação fisica, psicologos consagrados ou simplesmente, autênticos inovadores. Mas o lugar do banco nunca lhes pertenceu de forma exclusiva. Bem pelo contrário. Com a explosão de popularidade à volta do jogo e o nascimento do profissionalismo tornou-se normal que um jogador optasse pela vida de treinador ao acabar a carreira. Nasceram os técnicos com formação no relvado, antigas glórias desportivas ou nomes obscuros de uma equipa modesta. A partir do pós-guerra tornaram-se na esmagadora maioria. Tinham melhorado a nível táctico e tinham a seu favor a experiência de longas carreiras. E eram figuras conhecidas do adepto. E acarinhadas. E isso dava-lhes autoridade para vender ou comprar jogadores, lidar com a direcção e aguentar resultados negativos. O fenómeno implementou-se com tamanha naturalidade que o Brasil campeão do Mundo de 1970 contava no banco com um antigo jogador que, oito anos antes, tinha sido campeão no relvado. Chamava-se Mário Zagallo e tinha levado à glória uma equipa que meses antes era orientada por um jornalista desportivo. Que não aguentou a pressão de ser um desconhecido do meio. Pressão dos dirigientes, jogadores e dos adeptos.

Com os anos 80 o cenário alterou-se por completo.
A velha geração de técnicos nascidos no pós-guerra começou a deixar os bancos. E o desenvolvimento técnico-táctico tornou o futebol num fenómeno mais perto de uma ciência exacta do que um mero espectáculo desportivo. Termos como pressão alta, jogo entre linhas, transições, dinamismo ofensivo, lances estudados começaram a entrar no quotidiano do jogo. E com eles chegaram verdadeiros estudiosos do jogo. Mestres da táctica que nunca tinham estado numa grande competição. Homens mais interessados no aspecto da prepração fisica e na psicologia dos jogadores do que propriamente em lembrar aos mesmos quão épica foi a sua final como elemento de campo. O aparecimento de Arrigo Sacchi confirmou a revolução. O jovem técnico nunca tinha sido profissional. Silvio Berlusconi repescou-o no Parma e deu-lhe as ferramentas perfeitas para montar uma equipa de sonho. O seu AC Milan foi a sua primeira equipa assumidamente moderna. A dinamica de jogo do conjunto lombardo acentava na optimização de todos os principios de treino. Uma pressão alta e vertical, um jogo de linhas bem espaçadas, perita em jogar com o fora-de-jogo (algo idealizado no final dos anos 70 por Guy Thys no Anderlecth) e que marcava à zona e não ao homem. O sucesso do Milan abriu as portas a uma nova geração de técnicos com uma experiência passada quase infima. Otmar Hitzffeld na Alemanha, Arsene Wenger em França, ou Louis van Gaal na Holanda tornaram-se nas bandeiras da nova escola. Os seus métodos profissionalizaram o jogo e levaram a concepção táctica a outro patamar. O culminar chegou na final do Mundial de 1994. Sacchi contra Parreira. Dois teóricos que provaram que não era preciso ser-se cavalo de puro sangue para chegar a ser jockey de primeira.

No entanto a vertente de carreira nunca foi totalmente posta de parte. Continuava a ser a primeira - e mais fácil - das escolhas e dentro desse movimento houve também nomes de excelência que souberam aproximar os seus conhecimentos práticos com a dimensão teórica do jogo. O Dream Team de Johan Cruyff recuperava o ideal técnico do Futebol Total. Por outro lado Fabio Capello punha em ordem o sistema defensivo italiano com um trabalho táctico apuradíssimo. Sem esquecer Fergusson, talvez o último da velha linhagem de managers britânicos, Lippi, Valdano, Rehagel, Hiddink. Todos eles começavam a colaborar nos cursos de formação dados pela UEFA e assimilavam ao seus métodos pessoais os conhecimentos téoricos dos técnicos com quem trabalhavam nessas sessões. Hoje é indismentível que os grandes técnicos saídos da carreira de jogador manejam tão bem os aspectos de formação técnico-táctica como qualquer teórico do jogo. São os ex-jogadores de pequena expressão que acabam por destoar. É facil começar uma carreira como técnico, habitualmente num clube pequeno ou ligado ao clube onde fez a carreira desportiva. Complicado é manter-se no topo. E aí fica provado que a maioria dos antigos jogadores se torna em treinadores extremamente limitados.

Para o fim deixamos os expoentes máximos de ambas as correntes neste século, José Mourinho e Josep Guardiola.
Mourinho é talvez o culminar da corrente de teóricos do jogo. Uma carreira como jogador nula, uma vida como técnico de excepção. Desde jovem Mourinho bebeu futebol a pensar no jogo como técnico e não como atleta. Formou-se na Escócia e trabalhou ao lado de dois técnicos de excepção. Bebeu culturas futebolisticas, ensinamentos tácticos e formas de lidar com os jogadores. A isso aliou o seu génio pessoal. O resto é história e hoje Jose Mourinho é o técnico perfeito por excelência. Encara o jogo como um analista. Não procura o espectáculo. Procura a vitória. Analisa metodicamente cada aspecto do jogo. Motiva os jogadores como um psicologo profissional, rodeia-se dos melhores especialistas na preparação fisica e trata de construir um bloco à sua volta que o torne inexpugnável. É o simbolo perfeito do técnico que começa a carreira do zero. E que triunfa de forma inequivoca.
Do outro lado da barrica está Josep Guardiola. Houve poucos jogadores tão determinantes ao longo dos anos 90 como ele. Foi a balança do Dream Team de Johan Cruyff. Começou muito cedo a carreira como jogador mas esteve sempre ao lado dos seus técnicos, de Cruyff a van Gaal passando por Robson e Capello. E deles bebeu toda a cultura táctica que o ajudou a perceber melhor o jogo. Desde sempre foi treinador. Mas no terreno. O seu carácter de perfeccionista tratou de fazer o resto. Estudou, pendurou as botas e beneficiou do seu estatuto de velha glória azulgrana para ser lançado às feras. O resta é igualmente história. E mérito seu. Faltam-lhe alguns anos para perceber a dimensão do seu génio.

Mourinho leva oito anos na elite do jogo. Guardiola está apenas no segundo. Mas ambos falam a mesma lingua. Independentemente do local de origem, ambos entendem o futebol na sua vertente moderna. Mais do que um jogo, mais do que uma arte, mais do que uma ciência. O futebol é a complexidade em estado puro. O resto é uma bola a rolar durante 90 mintuos.

