Pelo ferro matas, pelo ferro morres. Palavras que muito provavelmente ecoam, nestes momentos, na cabeça de Giovanni Trapattoni. O técnico que conquistou muitos dos seus grandes triunfos com preciosas ajudas arbitrais foi ontem testemunha de um dos lances mais polémicos da história das classificações para Mundiais. Uma mão pouco divina mas que foi suficiente para garantir que a França estará na África do Sul.

A expressão dos jogadores irlandeses não tem preço. Olham atónitos para o árbitro do encontro ao verem este apontar para a linha de meio campo. Martin Hansson acabava de validar um dos tentos mais escandalosos da história do futebol francês. Uma selecção à deriva e à beira da humilhação. Valeu a mão de Thierry Henry, que muito provavelmente se tornará no único futebolista francês a conseguir participar em quatro Campeonatos do Mundo. Mas se do herói de 1998 já se nota muito pouco, pior se poderá dizer de uma selecção que marcou o futebol moderno há precisamente uma década. E que hoje é um fantasma do seu passado glorioso. Esta França tem mais semelhanças com a periclitante equipa dos inicios dos anos 90 - repleta de nomes mas sem estrutura - do que dos temiveis gauleses que em 10 anos lograram um Mundial, um Europeu e ainda um vice-campeonato do Mundo. Números impressionantes num país antes habituado a morrer na praia. E na praia podia ter ficado ontem se não tivesse sido aquele golpe. Numa zona da capital francesa conhecida pela insegurança, os 80 mil espectadores do imponente Saint Dennis testemunharam o maior assalto que se recorda por aquelas bandas.
Raymond Domenech voltou a provar que é, antes de tudo, teimoso. Depois de perder os seus dois médios centro por lesão (Toulalan e Diaby), preferiu não convocar nenhum jogador e apostou por um planteamento conservador. Henry a titular pela esquerda, mostrou estar de novo a anos-luz da sua melhor forma. Pela direito surgia, sem chama, Anelka e atrás do solitário Gignac estava um apagadíssimo Gourcouff. Muito longe do seu melhor jogo. Um ataque ameaçador em nome mas pouco eficaz. E ao contrário dos irlandeses, que entraram com tudo, os franceses encararam o jogo com medo. E notou-se. A equipa orientada por Giovanni Trapattoni foi segura na defesa e mordaz no contra-golpe. A raça de Duff e Keane desorientou a linha defensiva gaulesa e não surpreendeu ninguém que o veterano avançado abrisse a contagem aos 33 minutos. Lloris nada podia fazer - ele que foi o herói da noite, uma vez mais - e a igualdade na eliminatória gelava o estádio sob o olhar sério de Sarkozy e Zidane. Ao contrário do esperado, a França nem reagiu.
A segunda parte ofereceu mais do mesmo. Uma Irlanda perigosa e uma França perdida. Anelka ainda entrou para tentar repetir o feito de Dublin mas o avançado estava, também ele, em noite não. Os minutos iam passando e o público começava a assobiar. Lá fora a festa dos muitos argelinos parecia enturbiar ainda mais a noite. Domenech olhava para o banco e deixava sentado Benzema, que parece não lhe cair no goto, apostando tudo por tudo em Govou e Malouda. Do outro lado Trapattoni era fiel a si próprio. Esperava um golpe de sorte ou até mesmo a loteria dos penaltys. Sabia que os seus homens eram fortes animicamente e aguentariam a pressão. Dos franceses ninguém parecia poder dizer o mesmo. Os 90 minutos chegaram ao fim e arrancou o prolongamento. Com o conhecimento da queda surpresa da Rússia, a França temia igual destino às mãos dos irlandeses. O orgulho dos jogadores significou uma reacção, mas mais com o coração do que com a cabeça. Até que chegou aquele livre, ligeiramente descaído para a direita. Uma multidão de jogadores na área de Given. Um centro tenso e colocado ao segundo poste. Squillaci em claro off-side dá o primeiro golpe e depois Thierry Henry dá não um, mas sim dois hábeis toques com a mão. Ajeita a bola para oferecer a William Gallas o golo mais importante do futebol francês dos últimos anos. Um golo sujo até à medula.

Trapattoni incrédulo clamava contra a FIFA e os jogadores franceses, no calor da vitória, não deixaram de admitir a irregularidade. Pouco importava. Sabem que há muitos campeões que se começam a forjar assim e agora têm todos os olhos postos na África do Sul. Mas se os irlandeses foram guerreiros e mereciam cair de outra forma, esta França apresenta muito mais debilidades do que há quatro anos na Alemanha. Sem Ribery perde verticalidade e face à teimosia do seleccionador a equipa não parece encontrar o seu espaço no terreno de jogo. É cabeça-de-série face à contingência dos sorteios mas hoje serão poucas as nações que olham para esta França como um "papão" à antiga. Em Paris pouco importante. Como diria Domenech, o importante não é como se chega. É como se sai.
Ninguém dava nada pela armada grega. Parecia ser que o sonho do Olimpo desenhado a régua e esquadro por um sagaz alemão tinha chegado ao fim. Mas os deuses tinham outros planos e os guerreiros ucranianos não encontraram o calcanhar de Aquiles da Grécia.
Salpingidis tratou do resto. A Grécia desforra-se da história.

Desde 1994 que não marcavam presença num Mundial.
A eliminação ás mãos da Turquia em 2005, quando ostentavam ainda o titulo de campeão europeu logrado em Portugal, era uma espinha cravada no coração grego. Depois do Euro 2008 foram muitas as vozes criticas de Rehagel e as seus comandados. Da equipa base campeã europeia em 2004 faltavam muitos elementos e a performance dos helénicos foi decepcionante. Tal como o arranque na fase de qualificaçao. Num grupo de baixo nível os gregos nunca mostraram ser superiores a suiços e israelitas. Até ao final mantiveram em suspense o seu apuramento e acabaram por ter de se contentar com o segundo posto. O tal do play-off. Levantava-se o fantasma de 2006, especialmente quando o sorteio colocou a bolinha da Ucrânia no seu caminho. A Ucrânia de Milievsky, Aliev, Shevchenko, Tymoschuk, Chrygisnki e companhia. A Ucrânia que organizará o próximo Europeu e que estava mais motivada que nunca. Um duelo que parecia desigual. Já nem os deuses pareciam estar com o tio Otto.
O primeiro jogo foi equilibrado. Do principio ao fim. Uma Grécia em 5-3-2 com os laterais a arriscar pouco foi suficiente para controlar o ataque ucraniano. Os venenosos contra-golpes iam deixando os de leste em sentido. Mas nenhuma das equipas se decidia pela estocada final. E deixaram tudo para Donetsk, onde o jogo grande inaugurava um dos recintos chave do próximo Euro. Parecia ser tudo feito á medida da Ucrânia. A chuva caiu durante todo o dia e deixou o terreno de jogo empapado. O ambiente era frenético. Mas o monte Olimpo tem largas vistas. E tinhas os olhos postos no Donbass Arena. Os gregos começaram titubeantes mas a pouco e pouco foram subindo, trepando. Hábeis e letais. Karagounis e Katsouranis anulavam os ataques de Aliev e Milievsky. E subitamente surgiu Salpingidis. Para fazer história. Á meia hora de jogo Samarras descubriu o espaço e Salpingidis recolheu a bola e só terminou quando a enfiou dentro das redes de Pyatov. Um golo que valia a ouro. A dobrar.

Durante o resto do encontro o massacre foi total. Shevchenko provou estar no ocaso de uma brilhante carreira ao acumular erro atrás de erro. Tzorvas parava tudo quando podia e ia garantindo a vantagem. Milievsky dispôs do empate nos pés mas falhou na hora H. Os ucranianos deixaram de acreditar e a Grécia soltou-se e lançou-se em busca do segundo tento. Charisteas, Samarras e Gekas tiveram o golo nos pés mas o destino queria apenas um nome para imortalizar. Recuperando o espirito guerreiro de há seis anos, Rehagel gesticulava no banco. Mas com a mesma tranquilidade que exibiu em Portugal. E os gregos fizeram história. Bateram os favoritos e vingaram-se do seu passado. E apesar de partir longe do pelotão de favoritos provaram que a nova geração também tem coração e solidez defensiva, as armas que levaram os gregos ao titulo europeu. Pelo meio alguns talentos a ter em conta e um treinador que muitos davam por enterrado. Mas que na Grécia continua a ser algo mais do que um Deus.
Já passaram mais 30 anos mas José Maria Pedroto continua actual como sempre. Após uma vitória em Colónia, o FC Porto recebia a equipa alemã numa eliminatória da Taça das Taças. O técnico alemão declarou antes do jogo que iam atacar desde o principio. Irónico, como sempre, Pedroto respondeu "Atacar com quê? Só há uma bola?". Faltou-lhe dizer que a bola ia ter a sua equipa, bem colada ao pé. Mas não fazia falta. Os jogadores perceberam e os dragões qualificaram-se. Carlos Queiroz diz hoje que Portugal vai atacar. Mas o que realmente a equipa das Quinas precisa é de ter a bola no pé.

Num aspecto Queiroz tem razão. Portugal terá de marcar. É inevitável.
O sofrimento é habitual nas contas portuguesas mas com um golo a favor o dilema é atacar ou esperar. Obviamente que para marcar não é necessário optar por nenhum destes caminhos tão extremados. O que a selecção precisa, mais do que nunca, é saber controlar o jogo. Talvez o grande problema de Portugal nos últimos jogos onde apesar de ter progredido uns furos, continua com graves problemas em controlar o jogo. Há sempre espaços para o contra-golpe, momentos de susto no coração da área de Eduardo e muito pouco apoio do eixo ofensivo. Liedson não colabora nas acções defensivas e Nani e Raul Meireles perdem mais bolas do que as que recuperam, obrigando Pepe e Deco a um esforço dupla. Nessa mistela de erros e acerto não há um controlo. Não há a bola no pé que impede qualquer ataque rival. Porque a Bósnia precisa da bola para soltar os venenosos golpes para Dzeko e Ibisevic. Na Luz tiveram demasiado tempo a bola nos pés. Foram verticais e perigosos. A sorte protegeu Portugal. Jogar com o destino pode ser perigoso.

Portugal tem de apostar no espaço. Precisa de ser, mais do que nunca, uma equipa com os cinco sentidos bem despertos. Uma equipa solidária e com um ritmo de jogo alto. Com os niveis de concentração ao máximo. Qualquer outro cenário, qualquer distração, pode ser fatal. Até mesmo o golo de que Queiroz tanto fala. É verdade que um golpe nas redes bósnias obriga os locais a apontar 3 golos. Mas a equipa não pode jogar com os serviços minimos. Por aí tem pecado demasiadas vezes Queiroz. A procura do golo tem de resultar do planteamento natural do jogo. Pede-se um meio campo com a bola nos pés e um ataque solidário e vertical. Eficácia numa palavra. Eficácia em não perder a bola. Eficácia em não desperdiçar as oportunidades.
Olhando para o onze escolhida para a Luz é normal que o técnico efectue alterações no onze titular. Duda deve deixar o posto de lateral esquerdo. É uma adaptação pouco convincente e com dificuldade em segurar a bola e colaborar em tarefas defensivas. No seu posto seria mais eficaz a utilização de Miguel Veloso, não só canhoto mas com excelente visão de jogo. Habituado à posição e com um historial como central, será um elemento mais concentrado na linha defensiva mas com claridade para procurar os espaços necessários para o miolo. Ai impõe-se uma mudança táctica chave. Raul Meireles deverá dar o lugar a João Moutinho. Apesar da má forma do médio portista, a substituição prende-se com a facilidade com que o jogador do FC Porto perde bolas na transição. Com Pepe mais preocupado em viajar as tarefas ofensivas dos bósnios, pede-se um jogador trabalhador mas com boa visão de jogo. O capitão do Sporting oferece mais garantias para escudar Deco, que deverá ter um papel mais solto a pensar o jogo.
Essa circunstância obriga os extremos a jogarem mais recuados e o ponta de lança a procurar mais a bola atrás. Aí Liedson tem de saber jogar de costas para a baliza e colaborar com Deco na verticalidade ofensiva. Simão será fulcral para segurar a bola e Nani terá de deixar de perder cada drible que tenta fazer sob pena de apanhar os colegas em contra-pé. Caso contrário o mais natural seria que Queiroz optasse por outro médio (Tiago ou Meireles) encostando-o à linha lateral mas com a precisa função de bascular a dinamica ofensiva da equipa num 4-2-3-1 mais central, tal e qual joga, por exemplo, a selecção espanhola. Esta disposição não só permitia a solidez defensiva necessária - particularmente num jogo conflictivo, com um relvado em más condições e um adversário que tem de marcar, pelo menos, dois golos - como abria espaços ao controlo da dinamica ofensiva com uma progressão constante de quatro elementos, de forma a criar desiquilibrios no sector defensivo bósnio.

Tal como nos dizia Pedroto, desde lá bem longe no tempo, Portugal tem de procurar sempre ter a bola nos pés. Sem ela a Bósnia é, forçosamente, inofensiva. E com ela Portugal terá todas as oportunidades para ampliar a preciosa vantagem que leva para Zenicar. Se na Luz a equipa apostou no ataque deliberado - mas desorganizado - e perdeu o controlo do jogo, na Bósnia o seleccionador tem de estar menos preocupado em atacar e mais em controlar. Só assim poderá Portugal carimbar com segurança o passaporte que todos os portugueses anseiam. Porque a África do Sul está a 90 minutos. E agora é mesmo a valer!
Em Argel houve distúrbios. No Cairo viveu-se uma autêntica batalha. Agora o Sudão espera uma verdadeira guerra. As duas grandes potências futebolisticas do Norte de África defrontam-se num jogo de vida ou de morte. Só um pode carimbar o passaporte para o extremo oposto do Continente Negro. E não serão poucos os que estejam dispostos a matar para lográ-lo..

Foi lamentável assistir à chegada da selecção da Argélia ao Cairo. O ataque dos adeptos egipcios, os rostos ensanguentados, o autocarro destroçado. Imagens que a FIFA não pode permitir que se repitam. No campo a batalha continuou. Os jogadores egipcios precisavam de vencer por dois golos de diferença para forçar um play-off. A equipa dos faraós tinha arrancado com o pé esquerdo a fase de qualificação e durante algum tempo foi o último do grupo. Mas depois da Taça das Confederações - onde desiludiu ao cair aos pés dos Estados Unidos - começou uma espantosa recuperação. De tal forma que em vésperas do último jogo, apenas dependia de si para forçar um último encontro. A eliminar. Os argelinos foram intimidados desde o apito inicial. O estádio eufórico, a arbitragem assumidamente caseira e a violência dos egipcios não teve par. Os faraós abriram a contagem e levaram os adeptos ao extase. Mas faltava outro golo. E que nunca mais chegava. Aos 90 minutos o árbitro anunciou seis de desconto. Os argelinos protestaram. Muitos jogaram de cabeça vendada, espelho das agressões sofridas na véspera. O homem de negro fez-lhes pouco caso e menos ainda quando ao minuto 95 um centro do lateral direito Moawad descobriu a cabeça de Motaeb. O avançado anotou o golo decisivo. Em fora-de-jogo claro. E forçou o terceiro encontro.
Desde há várias semanas que a FIFA estava informada da possibilidade de ter de chegar a este terceiro jogo. Desde então ficou decidido que a partida seria disputada no Sudão, território neutro e terceiro em discórdia. Os argelinos voltaram a protestar mas a FIFA fez-lhes pouco caso. Segundo o central argelino, Khaled Lemmouchia, está tudo preparado para garantir a presença dos egipcios na África do Sul. Uma acusação que já vem de trás e que espelha bem a guerra fraticida entre estas duas potências. O Egipto e a Argélia dominaram o futebol africano nos anos 80. Os argelinos lograram participar em dois Mundiais consecutivos (1982, onde protagonizaram uma inesquecível polémica, e 1986) e os egipcios surgiram em 1990 em Itália. Durante essa era partilhavam o dominio do futebol africano, centralizado então na zona do Sahara. Com a deslocação para sul e o (re)nascimento de novas potências os duelos Egipto-Argelia tornaram-se cada vez mais regionais, particularmente porque então se vivia a era dourada do futebol marroquino. Só que as vitórias dos faraós nas últimas CAN e os sucessos futebolisticos dos seus principais clubes voltaram a colocar o Egipto no mapa. E quando todos acreditavam que o grupo de qualificação estava feito à medida dos faraós surgiu uma renascida Argélia. Os argelinos fizeram uma fase de qualificação irrepreensível e complicaram um cenário que o Egipto (e a FIFA) acreditavam ser simples. É inevitável que uma nova ausência do grande campeão do continente, quando o Mundial é pela primeira vez organziado em África, supõe um revez para a organização. E talvez isso justifique a decisão da FIFA que já mostrou ser bem mais severa com outras nações em casos semelhantes.
Hoje os dois colossos voltarão a defrontar-se. Futebolisticamente o Egipto é uma equipa mais atractiva. Arrisca do primeiro ao último minuto num arrojado 3-4-1-2, com dois laterais velozes e uma série de veteranos que sabe que tem aqui a última oportunidade de ir a um Mundial. Ahmed Hassan, Aboutrika, El-Haddary, Mowad são nomes históricos em África mas poucos conhecidos fora do continente. Uma boa performance no Mundial pode ajudar a consagrá-los além portas. Mas do outro lado está uma Argélia atrevida, menos ofensiva mas, definitivamente, mais organizada tacticamente. Estão motivados depois do último desafio e sabem que podem fazer história. Não têm nenhum crack de nível Mundial como acontecia com a sua mágica geração da década de 80, onde pontificava esse pequeno grande génio chamado Rabath Madjer. Mas são um exemplo de profissionalismo e organização que não deve ser ignorado. Jogar em campo neutro, longe dos fanáticos egipcios, pode ser um ponto a favor.

À parte do jogo quente que se espera levanta-se a dúvida. Face ao comportamento dos adeptos egipcios no Cairo deveria a FIFA permitir o terceiro jogo? Deveria suspender a selecção egipcia e garantir o apuramento aos argelinos? Ou o terreno neutro é solução suficiente para apagar a vergonhosa actuação de todas as entidades no passada sábado? Hoje a bola volta a rolar e não há lugar a empates. Só um cairá e só um viajará até ao outro extremo. A Guerra do Sudão promete entrar para os anais da história do futebol.
Lembro-me de o ver, sempre sério, ao lado de Robson a discutir cada lance com o habitual caderninho. Recordo-me bem da conferência de imprensa, após uma derrota nas Antas diante do Beira-Mar, que significou um antes e um depois na história do FC Porto. Tenho na minha galeria de imagens o rosto triunfador de um homem que ousou desafiar o Mundo...e ganhou. Agora vejo-o triste, abatido, apático. Não é ele próprio. E, melhor do que ninguém, ele sabe-o. Por isso confessou o seu verdadeiro amor. E como qualquer relação é coisa de dois, também eu estou ansioso por voltar v ê-lo no seu habitat natural.

Não há cultura futebolistica como a inglesa. E não há nenhum treinador como José Mourinho.
Os dois estão feitos um para o outro. O futebol inglês é paixão e razão em doses desproporcionais mas que se conjugam como uma mistela quimica única. As bancadas cheias, os adeptos fanáticos que não se calam, 90 minutos. O relvado verdejante, os jogadores a darem o tudo por tudo por cada lance. Uma visão romântica do beautiful game longe dos malabarismos de La Liga ou a rigidez táctica do Calcio. É nos relvados ingleses que se aprende a ver futebol, a amar o futebol. Depois pode-se crescer. Mas como qualquer adulto há sempre uma criança dentro de nós. Dentro de mim. E dentro de Mourinho.
O técnico português mas bem sucedido da história do futebol vive em Milão dias cinzentos. Tão cinzentos como a própria cidade. Ano e meio ao serviço do Inter, um percurso imaculado na prova doméstica (uma Liga ganha e outra bem encaminhada) e uma espinha cravada no reino europeu. Mas, pior do que isso, Mourinho padece a doença do Calcio. E a nostalgia da Premier. Num país onde as bancadas estão cada vez mais vazias. Onde os jogadores correm apenas o necessário e sem paixão. Onde os programas de televisão se divertem mais com os decotes sugestivos das apresentadoras. Um país onde o futebol se respira intensamente. Mas de uma forma bem distinta à que corre no sangue do setubalense. Que sente em si o perfume da saudade.
José Mourinho confessou a sua paixão pelo futebol inglês. "É o meu futebol", disse numa entrevista que agora é forçado a negar. Ele que é sempre frontal também tem de ser estratega. Especialmente com um presidente como Moratti, obcecado com a herança paternal. A frontalidade de Mourinho já lhe valeu demasiados inimigos em Itália. Em Inglaterra, curiosamente, um respeito que ainda hoje se mantém. Com Ferguson entendeu-se às mil maravilhas, com Wenger viveu uma relação de ódio misturada com respeito. E com Benitez, um conflito eterno, porque aí também se vive o espirito Portugal-Espanha dessas quezilias sem fim. Mas no final de contas Mourinho tem tantas saudades da Premier como a liga inglesa do técnico português. O Chelsea nunca esquecerá o homem que ficou para a posteridade como o "Special One". Mas o técnico sabe - e disse-o - que o clube londrino é um novo rico, sem a tradição histórica que ele procura. Mourinho quer emular a longa carreira de Fergusson. Um sonho que partilha com o de ser seleccionador nacional. Tudo a seu tempo. Sabe que em Milão as cabeças rolam com uma velocidade espantosa, por muitos trofeus que se ganhem. Essa não é a sua cultura. Quer ter tempo para deixar a sua marca, muito para além dos titulos. Porque esse é o seu destino. No Porto não foi apenas o facto de ter ganho tudo que o fez imortal. Foi como o logrou. Como pegou num clube destroçado e transformou-o na maior potência europeia. A sua saída deixou a nu o que era o clube com e sem Mourinho. E se o dinheiro do Chelsea fez com que o clube se mantivesse na elite, a verdade é que Stanford Bridge perdeu aquele perfume do homem que, vestido impecavelmente, desafiava o Mundo.

Todos sabemos que Mourinho não perdeu o génio que o torna verdadeiramente especial. É provável que vença o seu segundo scudetto, emulando os feitos no FC Porto e Chelsea. Mas é também provável que este seja o seu último ano em Itália. Felizmente. Mourinho precisa de um ambiente que potencie a sua genialidade. Precisa de ser ele a controlar todos os elementos. A desafiar os trovões. Olhar para a Premier e imaginar o "Special One" de regresso é um sonho partilhado por muitos. Talvez Liverpool seja o destino ideal, o destino que o técnico procura para consumar o seu lugar na história. Os meses vão avançando e o lago Como está gelado. A neve começa a cair sob Milão e Mourinho olha para longe. Não para a sua Setúbal natal. Para a Velha Albion. Sabe que um dia regressará. Sabe que aquele é, verdadeiramente, o seu mundo.
Genova pode parecer uma cidade fria, com um imenso porto a dar as boas vindas a uma das mais célebres cidades da velha bota. Mas nos últimos dois anos o calor do futebol voltou a dotar o burgo de nova vida. Entre os jovens que se destacam na cidade é inevitável memorizar um nome: Salvatorre Bochetti, o jovem patrão da defesa do emergente Genoa CFC.

A Sampdoria lutou pela liderança nas primeiras dez jornadas mas parece estar a perder fulgor. Todo o contrário do eterno rival, o vizinho Genoa com quem partilha o sempre problemático relvado do Luigi Ferrari, um dos mais belos estádios do calcio. A equipa rossoazurri tem trepado na classificação e já está no pelotão de perseguição ao lider. Mesmo perdendo Thiago Motta ou Diego Milito. O técnico Gian Piero Gasperini, responsável pela ressurreição deste histórico, voltou a construir uma base sólida. E com um novo patrão no eixo defensivo.
Bochetti emerge actualmente como a grande promessa da defesa azzurra. Uma posição chave no futebol italiano que procura há anos um sucessor para Fabio Cannavarro. Depois de Andrea Barzagli, Chiellini ou Andreoli, eis que surge mais um candidato ao posto. Mais do que um simples candidato, Bochetti é uma clara certeza como um sucessor digno do Ballon D´Or de 2006. Uma carreira ascendente, uma disciplina férrea e um futuro risonho. A vida corre-lhe bem.
O jovem jogador nasceu em Napoles em 1986. O ano em que Maradona conquistou o Mundo e começou a sua saga napolitana. Depois de ter começado a carreira no modesto Ascoli que lhe permitiu a estreia na Serie A com 20 anos. Acabou por ser emprestado na época seguinte já que o seu técnico acreditava que não tinha o porte fisico necessário para o posto. Com o seu 1m78, Bochetti está realmente longe do protótipo de defensor italiano. Mas compensa a sua compleição com uma técnica primorosa e um sentido de antecipação que faz lembrar o mitico Franco Baresi. Transferido em 2008 para o Genoa, depois de ter brilhado no torneio de Toulon e nos Jogos Olimpicos, o jovem começou a assumir-se como peça chave do jogo genovês. Depois de um ano de afirmação este parece ser o momento da explosão definitiva do jovem central. Já consumou o sonho de estrear-se pela selecção italiana e Marcello Lippi tem-no na lista dos eventuais seleccionáveis para o próximo Mundial. A imprensa italiana defende a sua inclusão obrigatória nos eleitos e o próprio Cannavaro já falou do jovem central como um óptimo parceiro.

Com 22 anos o central é uma das figuras da Serie A deste ano. Pelo Genoa já leva mais de 30 jogos disputados e com Fatic, Criscito e Papastathoupoulos forma um conjunto sólido no eixo defensivo que pode permitir aos adeptos do Genoa sonhar. Quanto ao jovem Bochetti, este pode mesmo ser o seu ano de ouro.
Pela primeira vez na história a Oceânia estará representada num Mundial de Futebol por duas selecções. Graças à "transferência" da Austrália para a fase de qualificação asiática, mas também à eficácia dos "kiwis" que regressam a um Campeonato do Mundo, 28 anos depois. Com os "Ausies" a candidatarem-se à organização da prova não há melhor publicidade do que exibir-se na máxima força na África do Sul. Um cenário até agora altamente improvável. Mas aí estão eles...

Os sul-africanos estão habituados a receber os vizinhos do longo Índico. Afinal são as duas maiores potências mundiais de rugby, o desporto nacional no ponto mais a sul do continente negro. Talvez por isso seja curioso que Austrália e Nova Zelândia se preparem para uma nova viagem à África do Sul. Mas desta vez com as suas selecções de futebol.
Se a Austrália conseguiu bem cedo o seu segundo apuramento consecutivo para um Mundial, provando ser uma selecção a ter em conta, já a Nova Zelândia teve de esperar até à última eliminatória para carimbar o passaporte. Apesar das performances australianas a FIFA continua sem atribuir um lugar directo aos representantes da Oceânia. Indignados, os australianos pediram disputar a fase de qualificação dentro da zona asiática. Mais competição, é certo. Mas um apuramento categórico. E merecido. Curiosamente esta "transferência" surpresa abriu as portas à nação dos kiwis. Que a aproveitaram ao máximo.
Desde o Espanha 1982 que a Nova Zelândia não marcava presença num Mundial de Futebol. Foi a sua primeira performance internacional e acabou por cumprir as (poucas) expectativas que se levantaram. No grupo de Brasil, URSS e Escócia acabou em último e nunca mais voltou. Até hoje. A ausência da Austrália ajudou a apurar-se tranquilamente entre as pequenas nações oceânicas. Para chegar à fase de play-off contra o último candidato da zona asiática. Curiosamente um lugar que até podia ter sido ocupado pela Austrália. Não o foi. Coube ao Barhein, depois de eliminar a Arábia Saudita, ser o grande rival. Seria um duelo inédito e os especialistas preparam-se para categorizar o vencedor do play-off como a mais fraca selecção em prova. A eliminatória a duas mãos não ajudou a mudar a perspectiva. No Médio Oriente os "kiwis" foram organizados mas pouco incisivos. Os árabes inofensivos. O 0-0 acabou por ser lisongeiro. E deixou para Wellington a decisão final. Aí Rory Fellon fez a diferença. Diante de 35 mil neo-zelandeses - uma assistência record - mais habituados aos gritos de guerra da equipa nacional de rugby. Os All Whites (ao contrário da equipa de rugby, conhecida por All Blacks pela cor do equipamento) foram superiores durante todo o encontro mas as evidentes debilidades da equipa deixaram a eliminatória em suspenso até ao último suspiro. Ao minuto 50 um penalty a favor do Bahrein poderia ter mudado tudo. O guardião Paston evitou o pior. E no final fez-se a festa.

Agora a Oceânia logra o inédito. Duas equipas presentes no Mundial de Futebol. Uma boa publicidade para uma zona do globo sempre menosprezada, a única que até hoje não oferece uma equipa directamente para a grande festa do futebol. Uma publicidade que ajudará certamente a Austrália. O gigante país-continente é um dos grandes candidatos à dupla organização do Mundial de 2018/2022 e para lá das infra-estruturas e do sabor a novidade, esta fase de qualificação ajuda a demonstrar que competitividade é algo que também não faltará. Resta saber se a rotação de continentes se cumpre definitivamente. Até lá basta desfrutar com os "ausies" e "kiwis" nesta viagem inesquecível a terras bem conhecidas...
A épica campanhã do Leixões na Taça de Portugal de 2001 - então na Segunda Divisão B - deixou um nome bem impresso. O futuro passaria os oito anos seguintes a comprovar um engano. Apesar dos elogios fáceis os triunfos sempre foram uma miragem longinqua. E as mudanças de banco também. Agora, aos 43 anos, Carlos Carvalhal tem a oportunidade da sua vida. Ele que dizia ser técnico digno de um grande terá agora de afiar bem as garras de um leão domesticado e inofensivo que até na escolha do técnico mostrou estar a anos-luz do seu estatuto.

Quando um rapaz convida uma rapariga para sair é habitual esta sentir-se lisonjeada. Especialmente porque dificilmente saberá que o seu nome era o último de uma longa lista de negas que deixaram o pobre pretendente desesperado. Quando essa lista é tornada pública, ao largo de uma longa semana, a reputação da rapariga torna-se duvidosa. E o seu valor também. Carlos Carvalhal está ansioso por agarrar uma oportunidade que há anos pedia a gritos. Mas não se livrará tão cedo de ser visto como o "último da fila". A rapariga que ninguém quer mas a que alguns têm de recorrer...quando não há mais ninguém. Carvalhal é um técnico de reputação duvidosa. Mas o Sporting também não é, hoje em dia, o mais interessante pretendente. Depois da saída de Paulo Bento e de parte da estrutura desportiva, ficou ainda mais a nú a debilidade organizativa de um clube que vive, cada vez mais, do seu centro de formação. E mesmo este, apesar de todo o esforço do anterior técnico, começa a dar sinais de fraqueza. Basta lembrar que há um par de bons jogadores que teimam em não renovar com os leões, à espera de uma jogada certeira do seu agente. Crescer em Alvalade já não é sinónimo de sucesso.
Com a equipa desfeita e sem remendos possiveis - o dinheiro escasseia, e muito - Carvalhal terá de trabalhar com a mesma matéria prima do seu antecessor. Mas, tendo em conta o seu perfil e o seu contrato a curto prazo, o novo técnico também não parece ter capital para reinvidicar algo mais. Terá de fazer o milagre da mediania, ou seja, de retirar o Sporting do agónico sétimo posto e levá-lo até ao top 4, porque o título é já uma miragem longinqua. Terá o novo treinador capacidade de pegar na equipa e trepar na classificação? Voltamos às origens.
O antigo jogador bracarense (que também passou por Chaves, Porto ou Tirsense) tem apenas um trofeu na carreira. Uma Taça da Liga ganha por Eduardo na ronda de penaltys, precisamente contra a sua nova equipa. Por essa época Carvalhal orientava o Vitória de Setúbal e vivia uma segunda juventude depois do falhanço total que foi a sua passagem por Braga. Antes tinha feito nome em Matosinhos, levando o clube leixonense à final da Taça de Portugal. Começou a ser considerado como a grande esperança dos bancos nacionais. As épocas seguintes desmistificariam o duvidoso titulo. Passou de forma inglória pelo Maritimo e este ano acabou por não resistir aos fracos resultados. Chegou a ponderar nova viagem ao estrangeiro - esteve por pouco tempo no campeonato grego, igualmente sem sucesso - quando lhe chegou um convite que não poderia recusar.
Nesta surpreendente escolha o factor surpresa é relativo. É evidente que os adeptos sportinguistas esperavam um nome consagrado para recuperar animicamente do consulado Paulo Bento. Dos consagrados Pekerman, Adriaanse ou Therim à promessa Vilas-Boas, um autêntico case-study de como a imprensa é capaz de transformar um rookie em génio em poucas semanas, tudo era esperado. Tudo menos o inevitável. Sem dinheiro em caixa e com o campeonato a caminhar para a sua primeira metade, é normal que a aposta do clube fosse num técnico barato e conhecedor da prova. Carvalhal enquadra-se nesse sistema e muito provavelmente a sua estadia será apenas até ao mês de Junho. Tem já no próximo fim de semana uma dura prova de ferro mas o duelo contra o eterno rival será a mais pequena das suas preocupações. Com um plantel curto e em baixo de forma (fisica e mental) o Sporting pode ambicionar a pouco este ano. Qualquer logro tornar-se-á, imediatamente, algo grandioso aos olhos dos adeptos. E é a essa realidade que o técnico que prometeu um "super-Braga" e um "super-Maritimo", defraudando sempre, tem de se agarrar. A Taça será a sua principal prioridade para garantir um posto europeu, já que a Champions é cada vez mais um tabu em Alvalade. Na liga Carvalhal tem apenas de esperar que se reponha a ordem normal das coisas, que uns tropecem e outros trepem, para acabar, como sempre, tudo na mesma.

No inicio da época o Sporting arrancava como candidato ao titulo. Havia um passado de estabilidade, uma equipa sólida e coerente e um técnico que conhecia os cantos à casa. Tudo aquilo que eram trunfos tornou-se em pesadelo. Hoje é preciso ar fresco, uma verdadeira trovoada para amainar a nau leonina. Carvalhal parece não ter o perfil para afiar as garras do leão. O passado não abona em seu favor. Mas realmente, o mesmo se sucede com o próprio Sporting. Talvez isso torne este casamento em algo profundamente natural, como sucedeu aliás há precisamente uma década, com então outro nome que não inspirava confiança a ninguém e que acabou por surpreender os mais optimistas, um tal de Augusto Inácio. Emular o seu destino é hoje o principal sonho do novo técnico, um homem que ainda não percebeu bem se entrou no céu ou no inferno. A liga será o seu longo purgatório!
1-0. Um resultado que soa demasiado familiar numa cultura futebolistica historicamente habituada ao sofrimento. Depois de uma era de vacas gordas, com a matemática aprovada a tempo, Portugal volta a suster a respiração e partir para a segunda parte do play-off a olhar para o relógio. Com a habitual agonia de uma impotência desesperante, de uma equipa que não tem qualquer perfume futebolistico.

O perigo dos bósnios era real, bem se comprovou. Mas não suficiente para tapar todos os erros e debilidades dos portugueses. Está bem visto que, hoje em dia, Portugal está a anos luz da elite futebolistica. Numa segunda divisão, digamos, mais perto de cair para a terceira do que voltar ao grupo de seleções que podem aspirar, com legitimidade, a fazer história. Uma triste realidade que se espelha nos nomes e no jogo da equipa de todos nós nos últimos anos. E que frente á Bósnia, num jogo onde se pedia a gritos um murro na mesa, voltou a ficar clara. Portugal foi uma selecção assustada e sem ritmo competitivo. Nunca dominou o jogo de forma clara, deixou sempre brechas aproveitadas (mal) pelo ataque bósnio e continua sem convencer gregos e troianos. Carlos Queiroz apostou no seu onze preferido, onde Nani rendeu o lesionado - mas presente - Cristiano Ronaldo. O extremo do Manchester United pediu durante a semana a sua oportunidade. O técnico deu-lhe mais uma vez a titularidade e o número 17 voltou a provar que Ferguson tem razão. Nani não explodiu ainda como se esperava e caminha a passos largos para se tornar num novo Ricardo Quaresma. Apesar da assistência para golo, foram mais as perdas de bola, as fitas e a falta de atitude que marcaram o jogo do extremo. Um espelho do que é hoje Portugal.
Pepe á frente dos centrais funcionou bem na conteção do ataque bósnio mas o técnico croata Blazevic ajudou ao deixar no banco (até ao minuto 85) o seu melhor jogador, Milan Pjanic. Mesmo com três centrais de raiz em campo, a defesa portuguesa foi um autêntico passador. Os bósnios tiveram várias oportunidades claras de golo, especialmente em lances de bola parada. Os postes e a sorte - que tantas vezes faltou na fase de grupos - evitaram males maiores. Portugal saiu com o primeiro objectivo cumprido. Não sofrer golos era fundamental. O problema esteve no outro lado. Bruno Alves voltou a ter de fazer de avançado face á total ineficácia de Liedson - nunca cheirou verdadeiramente o golo - Simão e Nani. O seleccionador tentou sacudir o jogo com Fábio Coentrão, mas o jovem extremo, a jogar em casa na sua primeira internacionalização, ficou-se pelas boas intenções. Deco foi pautando o jogo ao seu ritmo - baixo, claro - e a transição de jogo ofensiva foi nula. Pepe limitava-se a ficar pela linha de meio campo. Raul Meireles continuava a dar mais provas aos que defendem o seu afastamento do onze nacional (e do FC Porto claro) e Deco está a anos-luz do que foi. O resultado foi um jogo partido, onde os laterais pouco se aventuravam (o medo de sofrer um golo estava bem presente) e os extremos tinham dificuldades em rasgar. Portugal não conseguia sair de uma teia de aranha que criou com o seu planteamento.

No final a vitória é um bom resultado. Feliz, graças aos postes da baliza de Eduardo. Na Bósnia agora as contas são mais fáceis e uma eliminação parece um cenário cada vez mais distante. Mas o fantasma está presente. É agónico olhar para o jogo desta selecção que não dá nenhuma garantia de tranquilidade. Com um péssimo jogo, Portugal caminha uma vez mais para a África do Sul com a certeza de que está muito longe do nível exigido para estar numa grande prova internacional. Um rápido zapping aos jogos internacionais será suficiente para Queiroz entender que muito tem de mudar nesta selecção. Ele é o homem certo para o posto. A fraca qualidade de jogo portugues é resultado do nível dos jogadores seleccionáveis. E da sua atitude. Não de um técnico que chegou sem tempo para tapar todos os buracos de um barco a naufragar. Queiroz é um homem para preparar, com tempo, o futuro. Portugal pode muito bem conseguir este desejado apuramento. Mas que ninguém espere brilharetes. Esta selecção não tem um traje de nível para uma cerimónia deste calibre.
Depois de um surpreendente renascimento, uma dura execução. Assim se pode definir a história da vida da selecção francesa sob o comando de Raymond Domenech. O técnico que resgatou a ferida selecção gaulesa em 2006, levando-a à final do Mundial - apenas derrotado por Zidane e Buffon - também foi incapaz de superar a fase de grupos no último Europeu. Agora joga o seu futuro diante de uma velha raposa preparada para montar mais uma ratoeira.

Dos quatro jogos a eliminar, desses jogos que determinam quais serão os grandes europeus que ficarão em casa quando no próximo mês de Junho se disputar o Mundial, provavelmente o maior equilibrio estará no França-Irlanda. Há quem pense que o Grécia-Ucrânia ou até mesmo o Portugal-Bósnia oferecem mais dúvidas. Discordo. No primeiro caso parece que a selecção grega vive o último capitulo da sua belíssima história. A selecção helénica falhou o apuramento directo num grupo extremamente acessivel e cada vez mais se remite ao sector defensivo, como se viu no último Europeu ao actuar com 5 defesas e assim abdicando do miolo do terreno. Onde realmente venceu o Euro 2004. Do outro lado está a Ucrânia, uma selecção atrevida e com um estilo harmónico coordenado entre um forte sector defensivo e um ataque rápido que segue o bom exemplo dado na Europa por Shaktar Donetsk e Dynamo Kiev. Uma selecção a um passo de organizar um Europeu e que quer provar já no Mundial que está disposta a ser mais do que um anfitrião de corpo presente. Quanto ao duelo da selecção das quinas, apesar do excelente ataque bósnio e do habitual dramatismo português, no compûto geral, Portugal é uma selecção superior à rival. Que logo erros, dentro e fora do terreno de jogo, comprometam um apuramento que devia ter sido logrado de forma directa, isso já é outra conversa.
Resta-nos portanto o duelo entre Giovanni Trapattoni e Raymond Domenech. Dois eternos mal-amados. Mas com um futuro bem distinto. O técnico italiano já viu todo o Mundo futebolistico. Campeão europeu, italiano, alemão e português, o seleccionador irlandês vive apenas mais uma etapa da sua reforma adiada. Com a Irlanda criou uma equipa à sua medida, bem distinta do irish spirit que nos anos 90 fez moda. Esta selecção irlandesa é um caso bicudo de resolver. Uma defesa sólida, como só "Il Trap" sabe conjugar. Um meio campo solidário, onde antes de se atacar pensa-se em defender. E um ataque que procura, acima de tudo, a eficácia. Trapattoni teve um dia uma (das muitas) discussões com Michel Platini ao intervalo de um jogo da Juventus. O francês queixava-se de que estava só no ataque e pedia mais bola e mais dinamica ofensiva. O técnico respondeu-lhe, com a sua habitual ironia, "Muito bem Michel, mas primeiro mostra-me a bola sempre lá em cima e logo eu mando a equipa subir." Para Trapattoni a defesa é sagrada e fixa. E portanto, extremamente complicada de superar em lances de contra-golpe. E quase impossível de penetrar em ataque continuado. A prova é simples. A Irlanda não perdeu um único jogo na fase de qualificação. E agora quer lutar por um lugar no Mundial até ao fim.

Do outro lado da barrica está Domenech.
É provavelmente o homem mais odiado de França. E tem prazer nisso. O cargo de seleccionador sempre foi polémico, e que o diga Aime Jacquet. Mas Domenech é distinto ao seleccionador que levou a França ao seu único titulo Mundial. O actual seleccionador é homem de ideias fixas e com pouco espirito de diálogo. Transformou o sólido balneáiro gaulês num barril de polvora. Primeiro optou por uma defesa extrema dos veteranos pretorianos. Os mesmos que foram à final de Berlim. Ninguém acreditava neles a não ser o técnico. Henry, Trezeguet, Makelele, Barthez, Zidane, Vieira. Todos eram homens condenados. A épica caminhada rumo ao subcampeonato do Mundo deu-lhe razão. Talvez por isso, quando chegou a hora da forçada renovação, Domenech tenha sido hesitante. Procurou sempre os homens de confiança mesmo quando estes não o podiam ajudar. Na Áustria já não havia Zidane ou Barthez e Henry, Makelele ou Vieira ofereciam muito menos do que Benzema, Gourcouff ou Toulalan. Mas foram eles que jogaram e foram eles que não lograram o apuramento. Subitamente os heróis eram vilões e Domenech, o maior de todos. Pediu-se a sua cabeça, falou-se em Deschamps, Tigana ou Blanc. Mas o técnico não abdicou. E mudou o rumo. Olhou para os nomes que gritavam por uma oportunidade. E começou a lenta renovação. Lloris, Sagna, Clichy, Diaby, Sissoko, Gourcouff, Benzema, Gignac são hoje os rostos da nova França. E atrás deles há outra geração à espera da sua oportunidade. Vieira ficou de fora, Makelele já não conta e Henry é cada vez mais um fantasma. A França volta a desenhar-se mas terá Domenech força suficiente para ir até ao final.
Será um duelo de morte, um jogo temível. A França foi de menos a mais na fase de qualificação mas continua ser ser um forte colectivo. À frente da baliza continuam os problemas que Anelka e Gignac esperam resolver. Os irlandeses ainda vivem do génio de Robbie Keane, mas em Dublin o que conta verdadeiramente é o colectivo. E a sabedoria de um técnico que sabe que nem sempre uma derrota significa uma eliminação. Os irlandeses, herdeiros de Michael Collins, não têm nada a perder. A França parece que, mesmo apurada, tem pouco a ganhar. Aí pode estar a diferença!
A trágica morte de Robert Enke soltou um tema que nos corredores do futebol continua a ser tabu. O heroi desportivo, e futebolistico está claro, continua a vender a imagem de super-homem. Tanto fisica, como psicologicamente. Mas atrás está uma realidade muito mais dura num mundo altamente competitivo e, tantas vezes, tremendamente injusto. A pouco e pouco o assunto começa a ser discutido, mas a percepção de choque ao conhecer a história de um jogador como Enke é ainda o espelho real da percepção do público sobre quem é realmente o futebolista.

Eram da mesma geração. Coincidiram nas selecções jovens da Mannschafft e ambos eram tidos como cintilantes promessas. Um faleceu, tristemente, esta semana. Não aguentou as sucessivas depressões, os fantasmas do passado, o temor do insucesso. Sucumbiu diante de si mesmo e depois o resto tornou-se inevitável. O outro é vivo, ainda. Mas já longe do grande circo da bola redonda. Decidiu tomar uma decisão surpreendente mas que, como ele próprio confessaria, pode ter-lhe salvo a vida. Aos 27 acabou com uma carreira que tanto prometia. Talvez por isso, pelo peso da promessa, nunca soube resolver os seus dilemas interiores. E preferiu sair do barco a tempo. Fartou-se dos assobios, dos falsos elogios e das expectativas inalcançáveis. "No Bayern Munchen", dizia ele, "só sobrevives se acreditares que és o melhor do mundo". Ele não o era. E sabia-o. E não se conseguiu convencer do contrário. Por isso desistiu. Chama-se Sebastian Deisler e os mais atentos ainda se lembrarão do seu rosto perdido no relvado. Podia ter sido um mito, acabou por ser um exemplo.
Após a morte de Enke despertou-se um fantasma adormecido no futebol europeu, particulamente na Alemanha. Um país rigido, onde os sentimentos se escondem até dos mais próximos, o fenómeno da depressão nos atletas de alta competição é um imenso tabu. Ao contrário dos futebolistas britânicos, conhecidos pelos seus ciclos depressivos transformados imediatamente em excessos, dentro e fora do terreno (Best, Adams, Parlour, Gascoine...), na Alemanha tudo vive sob a sensação de perfeição. O que está muito longe da verdade. Em 1997, com apenas 17 anos, estreou-se na Bundesliga a jovem promessa Sebastian Deisler. Era tido como o lider da nova geração teutónica, destinada a substituir os já veteranos Klinsmann, Bieroffh, Kirsten e companhia. Explodiu no Borussia de Monchenladgbach e rapidamente transferiu-se para o emergente Hertha Berlin, onde fez dupla com o irania Ali Daei. Uma lesão nos ligamentos atirou-o para fora do Mundial - onde ia fazer dupla no meio-campo com Michael Ballack, também ele a surgir como grande esperança alemã - mas não o impediu de se transferir para o Bayern Munchen. A partir daí começou o seu martírio. Lesões mal curadas, assobios nas bancadas, mudanças tácticas. Tudo isso influiu no carácter do médio que passou vários periodos depressivos que o acabaram por levar a ponderar o seu futuro desportivo. Em 4 anos e meio alinhou apenas em 62 jogos. Nunca esteve ao mesmo nível que se viu na sua etapa de Berlim. E foi o primeiro futebolista a confessar que era incapaz de encarar a alta-competição como dele se esperava. E em Maio de 2007 pôs o definitivo ponto final à carreira. Não aguentava mais.

Também Leonardo, actual técnico do AC Milan, confessou que durante a sua estadia na capital da Lombardia sofreu graves períodos de depressão que o levaram ao divórcio e a finalizar a carreira desportiva. O insucesso em Milão tornou-se impossível de superar e só largos anos de tratamento terapêutico permitiram ao actual treinador do clube milânes voltar a enfrentar o espirito competitivo do meio futebolistico. Já Eric Cantona também optou por terminar abruptamente a carreira. Nunca confessou ter sofrido uma grave depressão, mas o estilo de vida que levava, dizia, tiraram-lhe todo o prazer de jogar futebol. Era um imenso vazio que o jogador não conseguiu arrastar, apesar das insistências do seu técnico e dos adeptos do Manchester United. Terminou com a carreira antes que ela terminasse com ele. Problemas fisicos, transferências goradas, conflitos com treinadores, pressão dos adeptos. São inúmeros os motivos que podem levar este ou aquele jogador a não aguentar a pressão do meio futebolistico. Muitos tentam aguentar até aos últimos momentos em que o corpo diz basta. Mas a quebra anímica nota-se claramente na sua performance. Outros preferem "pendurar as botas" antes do previsto. Mas a tentação está sempre aí. Robert Enke não conseguia viver sem o futebol, segundo a sua esposa. Mas também foi a pressão do meio que o levou ao suícidio. Deisler confessou que ponderou tomar a mesma decisão várias vezes. Gascoine em várias entrevistas afirmou que a sua alta dependência do alcool foi aumentando à medida que a frustração que lhe transmitia o jogo ia crescendo. Os jogadores provam, da forma mais trágica, que não são máquinas.
A morte de Enke e o exemplo de Deisler caminham lado a lado. Não só é irónico que sejam companheiros geracionais, compatriotas, herdeiros da mesma escola de pensamento. Fizeram opções diametralmente opostas e espelham bem a dificuldade de um meio onde falhar não é permitido. Há demasiada gente a olhar. Enke mostrou até que ponto pode chegar um jogador de futebol quando a sua paixão se torna num inferno. Deisler provou que há outra alternativa ao seguir lutando. Perceber que o jogo acabou e que o melhor é sair a tempo. Os mais novos que se preparam agora para arrancar com as suas carreiras têm aqui motivos para reflexionar. Quantas grandes promessas não ficaram assim pelo caminho? Esperemos que nenhuma volte a chegar a estes extremos...
Chegando a casa tarde de um voo de Milão percorre velozmente as habituais páginas online para analisar as últimas novidades. Subitamente uma notícia destaca-se sobre as demais. Robert Enke morreu. Robert Enke. O nome ecoa imediatamente e traz-me recordações antigas. Lembro-me de o ver, numa noite de diluvio de Janeiro no velho estádio das Antas, desesperado com os seus companheiros à medida que os azuis e brancos metralhavam a sua baliza. Lembro-me da carreira em queda de uma das maiores promessas do futebol europeu. Robert Enke, um anjo caído que nunca mais terá de se defrontar à angústia da última linha. Infelizmente, deixou-nos um dos grandes.

Tinha 32 anos. Um longo historial clinico depressivo que pode explicar, em parte, o que passou ontem. Uma vida repleta de pequenas grandes tragédias. A morte de uma filha pequena, uma grave crise intestinal nunca verdadeiramente explicada. Uma série de noites negras que marcaram a sua carreira. E o seu caracter. Enke parece-nos hoje, mais do que nunca, producto daquela sociedade germânica que não admite o erro. E que procura o hara-kiri como forma de expiar os seus pequenos pecados. Enke nunca chegou aonde se esperava. E essa mágoa parecia acompanhá-lo. Aos 22 anos, quando aterrou em Lisboa, já trazia um olhar sério e ferido. Dez anos depois, as últimas imagens mostram um guardião resignado com o destino sem vontade de voltar à luta. Joachim Low tinha-lhe prometido um lugar na Mannschafft para o próximo Mundial. Algo que Enke perseguia há tanto tempo. O seu Hannover estava em alta na tabela e o seu nome, se bem que ofuscado pela nova geração dos Adler e Neuer, continuava a ser altamente popular. Mas parecia não ser suficiente. Pelo menos não para ele.

Enke começou muito novo a destacar-se da anónima multidão. Aos 19 anos no Borussia de Monchenlagdbach era já uma imensa promessa. Brilhou de tal forma que passou a ser referenciado como o sucessor natural de um tal Oliver Kahn. A Alemanha vivia uma grave crise de guarda-redes como alternativa àquele que era, então, um dos melhores do Mundo. Ao aterrar em Lisboa, pela mão de Jupp Heynckes, um bom conhecedor do anterior clube do guardião, a frieza germânica de Enke transparecia por todos os poros. Durante três anos mostrou que era, realmente, um jogador com grande potencial. Chegou a ostentar a braçadeira de capitão - espelho claro do estado desastroso em que vivia o Benfica de então - e quando percebeu que na Luz não conseguia mais, bateu com a porta. O próximo passo chamou-se Barcelona mas a jogada saiu-lhe mal. Não conseguiu convencer van Gaal, que apostou pelo argentino Roberto Bonano e ao fim de um ano ficou ligado à eliminação precoce dos catalães na Copa del Rey. Disputou apenas esse jogo e a partir daí passou a persona non grata. Foi um ano para Istambul, envolvido no polémico negócio de Rustu Recber, e noutro esteve nas Canárias, onde disputaria apenas 9 jogos ao serviço do Tenerife. Parecia amaldiçada a antiga promessa.
Terminado o contrato com o Barcelona voltou à Alemanha. E renasceu.
Em Hannover voltou a ser o Enke original. Frio mas com os reflexos a ponto. E num meio tranquilo. Sem a pressão dos grandes holofotes voltou a ser ele próprio. E tornou-se no idolo da bela cidade hanseática. Foi promovido a capitão, fez jogos inesquecíveis que levantaram a cobiça dos grandes da liga, venceu o prémio da Bild a melhor guardião da Bundesliga e estreou-se - finalmente - pela selecção. Tinha chegado ao zénite da sua carreira desportiva quando começaram os dramas familiares. A perda da filha, os problemas de saúde, uma vida pessoal conturbada. A sua vertente depressiva começou a desiquilibrar a balança. O final da época passada foi complicado. O início deste ano também. Mas pouco importa. Agora os canais de televisão tratam de recuperar as melhores imagens do passado, os sites da internet exploram as teorias de conspiração à volta do seu suicídio e os adeptos genuinos choram a perda de um grande desportista.

O futebol torna o mais comum dos mortais em semi-deuses. Alguns entram no panteão da imortalidade. Outros são vencidos pelo tempo e transformam-se em "anjos caídos". Mas alguns merecem esse lugar especial junto dos inesquecíveis. Independentemente dos motivos deste triste fim, este "anjo caído", este Robert Enke merece esse lugar. O panteão dos imortais agora também é dele.
Em Espanha habituaram-se a chamar santo a Iker Casillas. Deíficaram o guardião do Real Madrid ao nível a que só Zamora teve direito. Mas o verdadeiro santo protector da liga espanhola está bem longe da capital. Todos os dias sai de Hospitalet de Llobregat para garantir que a máquina perfeita de Guardiola pode continuar com o show. Com Victor Valdés nas redes não é preciso recorrer a santos.

É o único duplo vencedor do prémio Zamora (entregue ao guarda-redes com melhor média da liga) que nunca vestiu a camisola da selecção espanhola. Uma surpresa? Nem por isso.
Desde que surgiu no futebol profissional que Valdés tem sido o eterno mal amado. Primeiro em Barcelona e logo em Espanha. Por fim, o Mundo. São já quase 10 anos de carreira para o jovem guardião catalão, que este ano cumpre 27 anos. Está na sua melhor etapa profissional e é um elemento chave para o seu técnico, Josep Guardiola. O actual treinador do Barcelona viu o seu jovem guardião ser sucessivamente promovido nas escolas de formação até chegar à equipa B do Barça. Depois de Radomir Antic aterrar em Camp Nou, o guardião teve a sua oportunidade. Suplantou a concorrência directa de Bonano e Rustu e assumiu-se como o guardião número 1 em Can Barça. Mas ninguém confiava verdadeiramente nele. Alguns erros de palmatória nos dois primeiros anos foram-lhe concedendo a fama de guardião macio. Muito longe da realidade.
Com Frank Rijkaard o jovem guarda-redes, então com 22 anos, assumiu-se definitivamente como a primeira opção. Graças à sua época notável o clube blaugrana logrou a sua primeira liga em seis anos. Ronaldinho vendeu o jogo bonito mas a eficácia de Valdés não passou desapercebida e o guarda-redes venceu o seu primeiro Zamora, prémio à sua eficácia absoluta. No ano seguinte voltou a ser peça chave para a renovação do titulo e em Paris conheceu a sua primeira noite de glória europeia. Num duelo épico o Barcelona conquistou a sua segunda Champions e a exibição mágica de Valdés ajudou a aguentar a equipa até ao golo decisivo de Belleti. Uma vitória épica que marcaria um ponto de infleção na carreira do guardião, que a partir de então passou a ser a referência número um para os adeptos culés. O ano seguinte foi de recordes. Valdés igualou os 38 jogos consecutivos de Andoni Zubizarreta (que com Ramallets tinha sido o mais eficaz guardião do clube) batendo o veterano guardião com um recorde de 448 minutos sem sofrer golos. Depois dos dois anos de seca em títulos, com Guardiola o guardião voltou a ser fulcral. A eficácia defensiva do Pep Team dependia muito da sobriedade do número 1. Na liga voltou a ser implacável, conquistando o seu segundo Zamora. E na Champions League foi fundamental com as suas defesas impossíveis nos dois jogos das meias-finais ante o Chelsea. Em Roma mereceu a coroa mais do que ninguém e tornou-se dos poucos guarda-redes bicampeões da Europa.

Apesar de todos os titulos - é hoje o mais titulado guardião da história blaugrana - nunca Valdés actuou pela selecção espanhola. Presença regular nas diferentes etapas de formação, chegado à selecção principal viu a sua promoção barrada pela presença de Iker Casillas. A imprensa colocou-se lado do santo do Bernabeu e para evitar guerras de balneário tanto Aragonés como del Bosque preferiram chamar Reina, Palop e Jorge Lopez às sucessivas concentrações. Sem renunciar a um posto que, actualmente e por mérito, é seu de direito, Valdés aproveitou para expor a sua costela catalã e actuou por três vezes pela selecção autonómica agora treinada por Johan Cruyff. Apesar dos méritos e das palavras vagas do seleccionador, a boa escola de formação de guardiões espanhois parece ser o pretexto ideal para dar ao duplo campeão da Europa a oportunidade de se estrear internacionalmente. Um caso praticamente inédito a nível mundial e que espelha bem a complexidade do futebol espanhol.

Alheio a tudo isto e com a merecida renovação conseguida - depois de se queixar, justamente, que o seu contrato estava desfazado do restante plantel - Valdés continua a provar porque é um dos melhores do Mundo. Viu a FIFA e a France Football voltarem a preferir quase todos os colegas para os prémios do ano. Viu a UEFA atribuir a van der Sar o prémio de guardião da Champions. Mas em Kazan voltou a ser fulcral, tal como já tinha sido em Milão e Ossassuna. Um notável arranque de época que tranquila Guardiola. O treinador sabe que tem ali um homem de confiança, um guarda-redes que marcará uma época no Camp Nou.
Há muito tempo que um derby minhoto não tinha tanta transcendência. O Sporting de Braga procura confirmar o notável arranque de temporada vencendo num dos terrenos mais complicados. O de um inimigo figadal à procura de uma nova identidade com um técnico que quer seguir o caminho de sucesso de Domingos. Porque um Vitória-Braga tem um sabor especial que nenhum outro derby tem em terras lusas...

O derby da Segunda Circular é um duelo sempre sobrevalorizado pela imprensa e por aí ficamos. O derby do Porto é uma incógnita porque, apesar do titulo axadrezado em 2001, o FC Porto sempre foi a força dominante da região. Mas o Minho tem uma longa tradição de disputa entre as suas duas grandes cidades. Uma rivalidade que vem dos dias da fundação e que nunca diminuiu com o tempo. Pelo contrário, o futebol tornou o confronto entre vimaranenses e bracarenses uma questão de orgulho única. Duas equipas emblemáticas, dois públicos fanáticos. Todos os condimentos para mais uma noite épica que só as gentes do Minho percebem realmente. E se o resto do país estará mais interessado em saber se a equipa da cidade dos Arcebispos continua sem perder, os minhotos sabem que estes confrontos são sempre especiais, independentemente das posições tão dispares na classificação. Afinal, isso é mesmo o que faz de um derby algo mágico.
O Vitória de Guimarães tentou durante quase duas décadas subir ao patamar do quarto grande. Primeiro contra o Boavista e logo com o rival bracarense. E se até esteve perto de fazer história em 2008, com um segundo lugar que escapou por pouco, a verdade é que o D. Afonso Henriques já não é o mesmo de há uma década. A saída precipitada de Nelo Vingada mostrou bem as debilidades estruturais de um clube que passou dos céus ao inferno num ápice, voltou ao mundo dos divinos para acabar na mais dura realidade. Agora com Paulo Sérgio ao leme, o responsável pela notável performance do Paços de Ferreira da época passada - com final da Taça incluida - o Vitória procura, antes de tudo, redifinir-se. Numa equipa agressiva, de ataque e que faz do seu castelo um forte inexpugnável. Tudo aquilo que o fez grande e tudo aquilo que falta hoje aos vimaranenses. Que olham para norte com inveja, muita inveja de um rival mais antigo que o tempo.

Ao contrário dos soldados da cidade do fundador, em Braga o crescimento foi recente e sustentado. A equipa sempre teve aspirações europeias, mas estava mais habituada a viver na metade da tabela na última década. Até que, subitamente, a cidade deixou de ser conhecida como a Lisboa do norte - pela forte presença de adeptos encarnados - para redescubrir o seu clube. Os adeptos que antes apenas apoiavam o Sporting local contra o rival de Guimarães são os mesmos que encheram o Estádio Axa no passado fim-de-semana para festejar o triunfo sobre o Benfica. Que há uns anos aí jogava em casa, dizia-se sempre à boca pequena. Obra de uma direcção inteligente que criou um projecto sólido onde nem a mudança de técnicos levou a dar passos em falso. Depois do Braga de Cajuda veio o Braga de Jesualdo Ferreira. Equipas aplicadas, adeptas do futebol espectáculo e com uma regularidade impressionantes. Mas algo faltava e os anos conturbados entre a saída de Jesualdo e a chegada de Jorge Jesus não convidavam a grandes augúrios. O técnico da Amadora recuperou o espirito original do projecto e montou uma equipa de ataque. Funcionou melhor na Europa do que na liga mas deixou um sinal de que a grande alternativa aos grandes já não morava no Bessa - com o Boavista a cair em desgraça - nem em Guimarães.
Braga era a alternativa.
Domingos Paciência trabalhou muito a herança de Jesus. Sem um criativo como Luis Aguiar, um avançado com as caracteristicas de Renteria ou um elemento decisivo como César Peixoto, o ex-técnico da Académica soube potenciar o plantel que tinha à disposição e transformar uma equipa excessivamente ofensiva num baluarte defensivo invencível. Apenas quatro golos sofridos em oito jogos. E nenhuma derrota. Uma equipa virada para o ataque mas com os pés no solo, com um meio campo cerebral onde Vandinho é o pêndulo ideal que solta Hugo Viana e Mossoró para tarefas mais ofensivas no apoio ao trio de ataque. Um 4-2-3-1 enganoso que tem sido inteligente suficiente para cercar os rivais. E dar a estocada definitiva. Uma nova identidade que encontrou eco no desejo da cidade em afirmar-se. Especialmente diante da sua eterna rival.

No duelo de hoje está algo muito mais em jogo do que a liderança da Liga Sagres. Estarão frente a frente duas mentalidades distintas com o mesmo objectivo. Um Vitória em reconstrução que procura na sua gente, talvez a mais "fanática" entre os adeptos nacionais, a força necessária para superar a temida superioridade do rival. E assim voltar à ribalta. Do outro lado um projecto com cabeça, tronco e membros que vai passo a passo. Sem assumir frases pomposas que só servem para vender jornais e preparar editoriais para Maio. Em Braga há um grupo inteligente que sabe o que tem de fazer. E se para isso é necessário continuar a manter a invencibilidade frente ao mais duro rival, então mais doce se pode tornar este duelo minhoto.
Durante sete anos consecutivos em Lyon o mês de Maio era de festa garantida. Um recorde histórico numa liga conhecida pelo seu equilibrio. Depois veio a derrota amarga e uma série de interrogações. Mas Claude Puel pediu paciência. E o tempo, parece dar-lhe razão. O tempo e o seu guardião de ferro. Hoje a referência do novo Olympique Lyon está debaixo dos postes.

Hugo Lloris voltou a mostrar frente ao Liverpool o que há anos se antecipava, suspeitava e se dizia. Num país onde a escola de guardiões nunca foi muito interessante (de Joel Bats a Fabien Barthez), o jovem guardião surgia como uma luz ao fundo do túnel. Desde as camadas jovens do Nice que o seu nome começou a ser tido como uma referência da formação gaulesa. Presença assídua nas selecções jovens, Lloris chegou cedo ao mundo dos profissionais. E mostrou que o seu valor estava fora de qualquer dúvida. Hoje, quatro anos depois de se estrear como profissional, é indiscutível o número 1 de França. E um dos mais completos guarda-redes do futebol europeu, lider de uma nova geração de talentos capazes de herdar as luvas dos grandes nomes da última década. Já longe da sua Nice natal, o jovem Hugo tornou-se no grande simbolo do Lyon regenerado. Depois de uma época complicada é ele o primeiro obstáculo intransponível no Gerland. Com uma defesa de remendos Lloris tem sido decisivo na Europa e na Ligue 1. Para já a época corre-lhe às mil e uma maravilhas.
O jovem de 22 é hoje em dia a primeira opção de Raymond Domenech para as redes gaulesas. Diante da Irlanda terá um verdadeiro duelo para a história. Superou Yohan Pellé, Carraso, Mandanda e Frey na titularidade das redes dos bleus. O culminar imediato de uma ascensão meteórica.
Em 2003 já era o titular da selecção francesa de sub 17. Com 16 anos. Dois anos depois tornou-se no guardião titular dos seniores do Nice na Ligue 1 e as suas exibições tornaram-no um heroi local da mágica cidade da Cote d´Azur. Daí ao salto a um grande foi um breve suspiro. O Lyon procurava herdeiro para Gregory Coupet - para muitos o melhor guardião francês da década anterior, tapado pelo polémico Fabien Barthez - e a direcção nem arriscou. Ao jovem de 21 anos foi entregue o testemunho mas a equipa hepta-campeã estava em crise. Perdera elementos fundamentais na estrutura ofensiva e a defesa continuava a ser o seu sector mais premeável. A participação europeia terminou nos Oitavos de Final, com goleada do Barcelona incluida, e na prova nacional a derrota tornou-se inevitável com os sucessivos tropeções. O terceiro lugar marcava o fim de uma era. Mas Puel ficou. Jean-Michel Aulas, o mitico presidente dos gonnes, percebeu que o técnico era homem de ideias fixas. E que era preciso voltar a tentar. E Lloris fazia parte do plano.

Desde o arranque da nova temporada o guardião tem-se exibido ao seu melhor nível. O Olympique de Lyon apresenta números de campeão. Na Ligue 1 disputa com o Bordeaux, Monaco, Marseille e Montpellier os primeiros postos. Ainda nenhum clube se destacou. Na Europa o empate frente ao Liverpool carimbou o apuramento. Duas equipas francesas já apuradas, algo que há muito não se via. No duelo do Gerland o jovem Lloris voltou a ser a figura. Parou as investidas de Voronin, os golpes certeiros de Torres e os desesperados ataques do Liverpool. Só não conseguiu travar a bomba de Babel. Mas a justiça divina de Lisandro permitiu-lhe dormir tranquilo. A heróica exibição voltou a ser aplaudida nas bancadas que no principio duvidavam da eficácia de um número 1 tão jovem. Agora estão rendidos e esperam segurar um jogador que é pretendido por meia Europa.
Em ano de Mundial, com a França ainda a sonhar com a África do Sul, Hugo Lloris espera que a afirmação seja definitiva. E que o seu nome passe a ser definitivamente sinónimo de sucesso.

