Apresentada na sede da FIFA a candidatura conjunta de Portugal e Espanha à organização do Mundial de 2018 ou 2022, começa a ficar a nu a frágil posição portuguesa num negócio que só interessa aos espanhóis. 40% dos custos e apenas três, máximo quatro recintos, num certame que cumpre a ambição de Espanha de voltar a albergar uma grande prova internacional. No final Portugal fica com o habitual ar de idiota!

Há cinco anos atrás o Euro 2004 conseguiu unir o país à volta de um grande evento desportivo. À parte do mês da prova - onde os portugueses sentiram, pela primeira vez em largos anos, orgulho do seu país - a verdade é que os efeitos do Euro não foram totalmente benéficos. Os chamados grandes enceteram a construção de novos recintos, mas esses eram planos prévios à organização do torneio e realizar-se-iam com ou sem este. Tal como a reformulação do Bessa, D. Afonso Henriques e Municipal de Coimbra. E se exceptuarmos o estádio de Braga, a jóia arquitectónica da coroa, todos os restantes investimentos tornaram-se rapidamente em pesadelos logisticos e financeiros. A ponto que se estude hoje a sua (polémica) destruição. Os gastos do orçamento previsto foram largamente ultrapassados, as contrapartidas financeiras infimas e a balança pendeu para o lado negativo. E como desportivamente o titulo até voou para Atenas, pior cenário ainda.
Surgiu então a ideia de utilizar as infra-estruturas e partir para uma nova aventura.
Os tempos de crise não o aconselhavam e depois de descartada uma candidatura olimpica de Lisboa chegou a ideia de um Mundial de Futebol. Só que a exigência da FIFA é superior à da UEFA tal como o leque de rivais. Para o Europeu tinha-se batido a toda poderosa Espanha e a candidatura conjunta de Áustria e Hungria. Para o Mundial haveria projectos vindos dos quatro cantos do Mundo. Mais, a FIFA tem padrões de exigência a nivel de capacidade de recintos superiores ao minimo de 30 000 da UEFA - que foi utilizada em cinco dos recintos. E para as grandes jornadas de fecho e abertura um estádio com capacidade por cima dos 70 mil lugares. Nada assim existe nas fronteiras lusas pelo que a ideia parecia ridicula já à partida. Mas eis que entra Espanha e complica as contas.

Desde o Mundial de 1982 - um sucesso desportivo e um desastre logistico - que os espanhois não organizam uma grande prova de selecções. Viram a Alemanha receber um Euro e um Mundial, passando o mesmo com a França e quase com a Itália (falta o previsivel Euro de 2016). Superados por Portugal quando já davam por certo a organização do Euro 2004, em Espanha rapidamente começou uma fortíssima campanha para a organização de um novo Mundial. Só que a candidatura a sós parecia frágil se avançassem outras potências europeias. E como a Inglaterra (que não tem um Mundial desde 1966) e a Rússia (nunca organizou uma grande prova futebolistica) anunciaram cedo o seu interesse em suceder ao Brasil, as contas começavam a sair mal a Angel Villar, Jaime Lissavetsky e todo o exército da federação espanhola. E no entanto, eis que se fez luz. Os votos portugueses - conseguidos através dos "Palops", especialmente a influência brasileira - seriam ideais para garantir uma maioria diante da Commonwealth inglesa ou a esfera de influência russa em África. E nasceu a candidatura ibérica, a súbtil "união de dois povos".
Olhando claramente para os números é fácil ver que a Espanha, só, consegue organizar um Mundial de futebol sem problemas.
A candidatura ibérica existe apenas por dois motivos: necessidade de votos e de partilhar gastos. A apresentação da malfadada candidatura na Suiça espelha bem o plano espanhol que a federação portuguesa vê com bons olhos e com a habitual pequenês que caracteriza este país. Aproveitar os recursos existentes, publicitar o nome do país e atrair ainda mais turistas. Contas simples nas mentes pequenas de Madail, Dias e companhia. Esquecem aqui o principal. A figura de idiotas que os portugueses farão caso a candidatura ibérica, essa união tão bela de duas nações tão intimamente unidas, siga em frente.
A FIFA já alertou contra o problema de candidaturas conjuntas ao largo do último ano. Não as pode rejeitar mas não é a aposta ideal. E não o é por questões logisticas e de identidade. Modelo adoptado já por uma vez, e com má experiência, a candidatura conjunta tem sido mais recorrente na Europa. E nos três casos conhecidos até hoje sempre se verificou uma ideia base: 50% dos gastos. 50% dos jogos. 50% do protagonsimo. Só Portugal está disposto a fazer história e abdicar dessa percentagem apenas e só para rentabilizar três estádios (fala-se num quarto, altamente improvável no Algarve) que se rentabilizam a si mesmo porque são os únicos que existiriam se o Euro 2004 não tivesse seguido em frente. Ao estádio do Algarve - zona sudoeste da Peninsula, Espanha pode responder com Huelva, Cádiz e um segundo recinto em Sevilla. Ao estádio de Braga, no Noroeste, há a opção Coruña. Ambas são, claramente, mais rentáveis!
Os espanhóis preparam-se para apresentar entre 9 a 13 estádios. Num projecto que varia entre os 12 - minimo - ou 16 recintos no dossier final. E ficarão várias cidades do país vizinho de fora com capacidade logistica, hoteleira e desportiva para fazer parte da organização. Por outro lado Portugal apresenta duas cidades, três estádios e nada mais. Nem jogo de abertura, nem jogo de encerramento, nem grandes encontros. Meia dúzia de encontros sem grande mediatismo. E prometem arcar com 40% dos gastos da organização. Falha-me a matemática. A Madail não, estranhamente. Portugal não tem, claramente, estofo para organizar um Mundial a sós. E não o deve fazer nunca com outro país - inevitavelmente Espanha - por perder em toda a linha. É contra-producente. É inútil. E um péssimo investimento. Em 2022, por exemplo, os estádios construídos para o Euro 2004 terão 20 anos aproximadamente. Uma idade já significativa com todas as alterações a que seriam obrigados. Enquanto isso há vários projectos actuais e para a próxima década de construção de novos estádios em Espanha (Madrid, Bilbao, Valencia, Sevilla, Barcelona, Malaga). São gastos já suportados pelos clubes e municipios, previstos e que não dependem desta organização. Tal como o aspecto logistico e hoteleiro, onde o país vizinho supera de longe os objectivos minimos. De tal forma que os gastos pela parte espanhola serão inferiores aos que teve Portugal em 2004. Só isso já indica o quão beneficiada sai a ideia do país vizinho.

Estou completamente contra esta candidatura idiota. Não tenho nada contra o lado espanhol da questão. Aliás, acredito que Espanha pode - e merece - organizar perfeitamente um Mundial de Futebol a sós. O que não posso aceitar é a idiotez dos governantes e dirigentes desportivos nacionais, sempre preparados para vender o nome de Portugal em troca de uns tostões mais no bolso. Uma candidatura que não traz nenhum beneficio a médio e longo prazo não tem sequer que existir. Mas como Portugal é Portugal, os Mundiais, aeroportos e TGV`s continuam a ser os grandes designios nacionais. E nós continuamos a ser os idiotas da Europa.
Perigoso. Subtilmente perigoso. Mas oportuno. Necessariamente oportuno.
A divisão das equipas em cabeças de série permite evitar adversários historicamente complicados. Mas hoje em dia a primeira e a segunda divisão do futebol europeu está cada vez mais ténue. A Irlanda e Ucrânia partem com legitimas aspirações. E a Bósnia também. Foi uma das equipas revelações e marca um novo rosto do futebol balcânico. É o rival que Portugal precisa para afirmar, de uma vez por todas, que merece realmente ir à África do Sul. 180 minutos sem lenga-lengas. Agora é a sério!

Dos bósnios já falamos a semana passada e pouco ou nada há a acrescentar.
É uma equipa compacta, coesa, capaz de causar surpresas onde menos se espera. Que o digam turcos e belgas, aparentemente os favoritos para seguir à Espanha. Selecção essa que apesar da goleada no jogo final sofreu, e de que maneira, para bater os bósnios no jogo em casa. Ficou aí o aviso de que Blazevic e companhia tinham um conjunto sério e complicado. Seguro e sólido a defender e letal a atacar. Provam-no 25 golos em 10 jogos. Dzeko, Ibisevic, Pjanic e Misimovic. Um quarteto de luxo, de desiquilibrantes que actualmente Portugal não tem. Dois avançados goleadores e dois médios de poder creativo, capazes de coexistir no mesmo espaço sem nunca perder o sangue frio. A Bósnia é uma equipa que gosta de entregar o controlo do jogo e actuar no contra-ataque. Mas à medida que deixa a bola ao rival envolve-o com uma teia súbtil capaz de neutralizar as principais figuras do adversário. A defesa é sólida mas algo lenta o que beneficiaria uma equipa com um ataque desiquilibrante. Como teve a Espanha. Como não tem Portugal.

A grande questão da eliminatória não gira à volta dos bósnios. Gira à volta de Portugal.
Depois de uma fase de grupos intermitente, que foi de menos a mais em termos de resultados e de mais a menos em qualidade de jogo, Portugal logrou o segundo posto com pouco mérito e muitas dúvidas. A primeira presença no play-off indica que esta é uma equipa indecisa. Não suficientemente boa para vencer um grupo acessível mas também não má de todo para ficar automaticamente de fora. Por isso é importante para os lusos uma prova destas caracteristicas. Em 180 minutos não há vencedores morais nem honra aos vencidos como sempre apregoou o seleccionador. Haverá sangue, suor e no final lágrimas. Resta saber de que lado estará a honra e de que lado estarão os vencedores. Portugal dá-se mal com jogos a eliminar. Por isso nunca venceu um grande torneio. Nem mesmo o seu. No último Europeu caiu à primeira. No Mundial de 2006 sobreviveu a uma batalha contra a Holanda mas não voltou a marcar um só golo. E Em 2004 beneficiou - e muito - do factor sorte. Sorte que poderá não estar presente no dia 14. Ou no dia 18. E aí a equipa precisará de outro factor essencial nestes momentos: caracter.
A dupla ronda da passada semana provou que o seleccionador tem um onze base e ainda algumas dúvidas. O meio campo e o lado esquerdo da defesa são enigmas na própria cabeça de Queiroz. A possível ausência de Cristiano Ronaldo - ou uma versão a meio gás do capitão - pode ter o seu efeito positivo. Desconectar do vedetismo habitual que rodeia o capitão e trabalhar mais o espirito colectivo. Mas Ronaldo é um dos melhores e os bósnios temerão o número 7, mesmo que não esteja a 50%. E nestes jogos, como o Cid que cavalgou ferido de morte os seus homens, o carisma conta muito. Ficando o caso Ronaldo suspenso até ao fim - com Nani a aquecer o lugar apesar de continuar a estar muito longe do que se espera dele - sabe-se que Queiroz apostará sempre em Simão e Liedson num 4-3-3 recuperado que se adapta bem ao jogo dos bósnios.
Na batalha do meio campo estará o busilis da questão.
Pepe volta seguramente para o eixo mais recuado. Não só porque é a opção preferida do técnico, mas porque também será decisivo nos lances de bola parada. Que a eliminar valem e muito. Tal como Bruno Alves, que voltará ao eixo da defesa para ganhar as bolas de cabeça e rematar os livres. Onde continuamos a anos luz de uma equipa de primeiro nível. Sobra então saber quem acompanhará Deco. Raul Meireles, Pedro Mendes e Tiago lutarão por um lugar. A razão daria a titularidade ao jogador do Glasgow Rangers, imperial frente à Hungria. O nome de Tiago continua a ser o preferido do técnico e Raul Meireles tem aquela caracteristica que tanto gosta aos técnicos. É o boxeador de serviço. Corre e desgasta o adversário. Tem pouco futebol nos pés mas muita raça e um rival duro como o bósnio respeita sempre um médio destas caracteristicas.
Sobra então o sector defensivo, onde Bosingwa, Bruno Alves e Ricardo Carvalho são certos à frente de Eduardo. No lado esquerdo a experiência Miguel Veloso é um remendo. Tal como Duda. Antes de encontrar uma solução óptima (olhamos para os seleccionáveis e percebemos o drama do seleccionador), talvez o ideal seria optar por um jogador com as caracteristicas de Miguel Veloso, mais centrado nas tarefas defensivas. O eixo ofensivo da Bósnia é fortissimo e a defesa precisa de estar altamente concentrada. Porque golos fora contam a dobrar e Dzeko e Ibisevic estarão atentos. Duda funcionará melhor no jogo da segunda volta, mas tudo isso dependerá das lesões e do resultado do confronto na Luz.

Estádio elegido pela FPF no meio da habitual polémica. Continua a pergunta óbvia neste tipo de casos: a (não) utilidade do Jamor, estádio dito nacional mas que continua a provar que mais não é do que um simples campo de treinos. Até se redefinir o conceito de estádio "nacional" continuaremos a viver o constante caciquismo de Lisboa e Porto à procura de um pouco mais de protagonismo. E assim continua o futebol de um país que procura rapidamente o bâlsamo de um Mundial para apagar as misérias de geração perdida.
Acabado de sagrar-se campeão do Mundo de sub-20, a verdade é que a momento histórico de Ransford Osei foi vivido há um par de anos atrás, quando a mesma equipa de Sub-17 ganesa bateu o Brasil e só foi travado pela Espanha a caminho do titulo. É um ganhador por natureza e já deu o tão desejado salto para a Europa. Tem tudo. Força, potência no remate, agilidade e sentido de posicionamento. Não foi o goleador da prova mas confirmou todo o seu potencial. O futuro pertence-lhe por direito próprio.

Em 1990 nasceu em Accra o futebolista do futuro. Um futebolista capaz de reunir as caracteristicas que se pedem aos avançados do século XXI. No mesmo ano em que Roger Milla provou a vitalidade africana e em que Abedi Pelé e George Weah reforçavam a ideia de que o futuro do futebol podia passar pelo Velho Continente, dava os primeiros soluços o jovem Ransford Osei. Um nome que começa a dar muito que falar.
Depois de uma infância relativamente feliz num dos potentados mais significativos da África ocidental, Osei começou a sua carreira desportiva no modesto Kessben ganês. Rapidamente se fez valer pelos dotes de goleador e tornou-se num dos jogadores de moda do jovem futebol africano. Aos 15 anos jogava já pela selecção de sub-17 do seu país, eterna rival da Nigéria e Camarões no que ao melhor futebol jovem africano se refere. De tal forma que os olheiros europeus começaram a notar nele qualidades pouco usuais para a sua idade. Começou por um período de prova no Legia Warsow, mas problemas legais com o passaporte levaram-no a voltar ao seu clube de origem. Foi então que surpreendentemente surgiu o Maccabi Haifa, campeão israelita. Sob o rumor de que o Arsenal se preparava para avançar para a sua contratação, os israelitas ofereceram um contrato de luxo para o jovem depois de um ano de empréstimo. Sem hesitar Osei mudou-se para Haifa.

Semanas antes de confirmar a transferência o avançado provou o porquê de tanto rebuliço à sua volta. A selecção sub-17 do Gana disputava o Mundial da categoria e surpreendia tudo e todos. Osei foi determinante para eliminar a favorita Brasil e só a Espanha e a sua brilhante geração jovem foi capaz de por um travão nas aspirações do conjunto ganês. Mas o brilhante desempenho daquele que foi igualmente o melhor avançado do torneio não passou despercebido. Em 30 internacionalizações Osei tinha apontado 20 golos. Suficiente para o próprio seleccionador principal do Gana o convocar para a fase de qualificação para o Mundial de 2010. Ao internacionalizar-se com 18 anos tornou-se num dos mais jovens jogadores do seu país a representar a selecção nacional.
Um arranque de temporada genial para um atleta que milita agora no Twente, lider da liga holandesa. No entanto a sua presença na equipa neste brilhante arranque de época viu-se interrompida pela viagem ao Egipto. Numa performance inesquecível os Black Satelites venceram tudo e todos e na final bateram o Brasil. Osei apontou 4 golos e sagrou-se como o terceiro melhor goleador do torneio. O mesmo torneio que o transformou em campeão do Mundo e que lhe abre as portas da África do Sul onde se espera que dê o salto definitivo. Afinal de contas, está aqui a mais brilhante pérola africana do momento.
Divulgada a lista ficam os juizos pessoais. As justiças e injustiças dos ausentes e presentes. De 30 nomes dourados ficará apenas 1 para a posteridade. Poucos se lembram do segundo e terceiro. Quanto mais do tregésimo. Mas durante dois meses estes heróis do ano futebolistico viverão na glória de estarem entre os eleitos...

Cristiano Ronaldo é o rei mas a coroa provavelmente mudará de mãos. O português sabe-o bem e por muito que se esforce, Cristiano sabe que há um grande logro por trás do conceito de prémio de melhor do ano. Todos os que votam sabem que, realmente, a votação termina em Julho, quando a época desportiva chega ao seu final. Os cinco meses seguintes apenas limam asperezas. Um erro que a própria organização da France Football nunca quis corrigir porque lhe interessa. Interessa criar suspense sob um trofeu que nos últimos 15 anos ganhou um rival de peso no FIFA Award Player, mas que continua a ser o sonho máximo de qualquer futebolista a titulo individual. Poucos grandes ficaram sem o troféu que teve o condão de, ao largo da história, saber repartir o mal pelas aldeias. Mas mesmo assim sempre haverá injustiçados. Maldini, Baresi, Giggs, Laudrup, Cantona e uns quantos mais tiveram de contentar-se a ver outros nomes, mais mediáticos por vezes, a ficarem com as honras. E o facto de só há cerca de quinze anos poderem vencer jogadores não-europeus levantou a dúvida sobre alguns dos ganhadores do passado. Mas isso é outra história.

O ano desportivo de 2009 caminha para o seu final e os 30 gloriosos nomeados foram divulgados. 30 nomes que marcaram o que de melhor teve o ano futebolistico. Não são, certamente, nomes 100% consensuais. Mas este ano a revista francesa que criou o prémio para rivalizar com o L´Equipe, revista rival que esteve por detrás do nascimento da Taça dos Campeões Euorpeus, esteve muito perto da perfeição. Analisando os nomeados há provavelmente 3 nomes que destoam dos restantes. E que poderiam ser facilmente substituido por três atletas que marcaram o ano. Só o poder mediático de Kaká, num dos seus anos mais mediocres, e a nacionalidade gaulesa de Henry e Benzema (todos sabemos que as revistas franceses gostam do producto nacional) justicam a sua presença num top onde poderiam (e deveriam estar) Gerard Pique, Daniel Alves e Dario Srna. Mas salvo estes casos é inequivoca a lista apresentada. Uma lista onde, naturalmente, o Barcelona surge á cabeça. O mediatismo de Lionel Messi parece ter-lhe já assegurado o triunfo. Mas ao contrário dos seus antecessores, Ronaldo e Kaká, herois e lideres únicos das suas equipas, o argentino está longe de ser o elo desiquilibrante e decisivo numa equipa que vale pelo seu colectivo. O genial futebol de Messi marcou presença em vários jogos do ano mas não decidiu as provas ganhas pelo Barça da mesma forma que Kaká ou Ronaldo. Mais, o jogo de Barcelona deve tudo ao seu técnico, que pegou numa equipa esfarrapada emocionalment, e deu-lhe uma nova alma. E um novo maestro.
Xavi Hernandez é, claramente, o Jogador do Ano.
É hoje em dia o melhor do Mundo, o mais completo e genial futebolista. Um pensador como só os clássicos eram capazes de o ser. Um elemento decisivo na circulação de jogo durante largos 90 minutos. E um elemento chave para qualquer lance determinante. Xavi pauta o jogo do Barcelona. Xavi encarna o jogo do Barcelona. Não há lance ofensivo que não passe pelos seus pés. Menos goleador que outros jogadores na sua posição, Xavi é o fiel da balança que permite que o equilibrio defensivo que Guardiola deu ao Barça (e que o Dream Team de Cruyff não tinha) tenha continuidade no eixo ofensivo. Tanto Messi como os geniais Iniesta, Etoo e agora Zlatan Ibrahimovic, dependem do número 6 para respirar e mover-se. Ao recuar no terreno de jogo e deslocar-se timidamente para o lado direito, o médio catalão formou com Daniel Alves e Messi um tridente de luxo, decisivio na manobra ofensiva catalã. E com Iniesta e Touré, ou Keita, equilibrou o jogo no lado esquerdo ofensivo dos blaugrana. Mediaticamente tem pouco impacto, comparado com os seus colegas. Mas se este é um prémio aos melhores, então não deveria existir qualquer dúvida. O Melhor Jogador do Euro 2008 (acreditado pela UEFA), Melhor Jogador da final de 2009 da Champions League é hoje, claramente, o Melhor Jogador do Mundo.

Mas como a justiça desportiva nem sempre é uma realidade, Xavi dificilmente levará para casa o galardão. Nem sabemos se estará no top 3 final, onde parece certo que haverá dois jogadores do Barcelona (Messi e outro, que tanto pode ir de Etoo a Iniesta, como ao próprio vice-capitão). E claro, Cristiano Ronaldo.
O português poderia até benificiar de uma divisão de votos entre os craques ofensivos do Barcelona mas parece complicado que repita o triunfo. No entanto olhando friamente para os números é fácil ver que o agora extremo do Real Madrid merece disputar até ao final pelo trofeu de que é o actual detentor. Decisivo na campanha europeia do United (que o digam Inter, FC Porto e Arsenal), foi o único Red Devil vivo em Roma. E apesar de ter perdido para Anelka o titulo de melhor goleador da Premier, foi também graças a ele que o Manchester United conquistou o terceiro título consecutivo. Os muitos milhões pagos pelo Real Madrid também tiveram continuidade. É o melhor marcador da equipa na Liga e na Champions e o melhor merengue da nova era de Florentino Perez. E quanto a Portugal, apesar das fracas perfomances, pode escudar-se na também fraca prestação desportiva do seu mais directo rival. Uma vitória de CR9 é hoje, altamente improvável. Mas, repetimos, não necessariamente injusto. Não existisse um super-Barcelona pelo caminho.
Quanto aos restantes nomes, aparentamente alheados do triunfo, há que destacar o brasileiro Diego - o melhor jogador da Taça UEFA e da Bundesliga - o francès Yohan Goucouff, craque da Ligue 1, e ainda o espanhol Fernando Torres. Três futebolistas de mais alto nível que fazem jogar as suas equipas como poucos. A armada do Chelsea (Terry, Lampard e Drogba), Arsenal (Fabregas, Arshavin) ou Liverpool (onde Gerrard continua a brilhar), provam o bom nível desportivo da Premier, apesar dos milhões da liga espanhola. Mas são mais elementos de equipa do que individualidades determinantes. O Calcio continua a perder importância apesar do trio nomeado do Inter (Julio César, Maicon e Etoo...para não falar em Zlatan Ibrahimovic) e Dzeko, Villa, Forlan e Fabiano cumprem a habitual quota reservada aos goleadores. Resta olhar para o Manchester United e o seu trio Vidic, Giggs e Rooney, que beneficiaram do efeito Cristiano Ronaldo para lograr os titulos chave na época transacta. E pensar que o Real Madrid, que apresenta 4 candidatos, tem apenas um jogador nos seus nomeados que actuava no ano passado, Iker Casillas. Afinal os milhões podem mesmo mudar realidades bem distintas.
A revista fancesa divulgará o vencedor a 1 de Dezembro. Até lá todas as apostas e todos os cálculos esforçar-se-ão por conhecer o nome do grande vencedor. Messi é o vencedor provável, Ronaldo o vencedor mediático. E Xavi o vencedor futebolistico. Qualquer um fora deste trio prova que nem tudo na vida se pode prever com tamanha facilidade.
É o mais belo estádio do Médio Oriente e um dos poucos recintos do mundo a ter as desejadas 5 estrelas da FIFA. Renovado dos pés à cabeça em 2006, tornou-se no símbolo da nova Turquia. Partilha com os rivais Ataturk e Ali Semin o título de estádio oficial turco. Mas há algo no recinto do histórico Fenerbache que o torna verdadeiro único. O exotismo de uma cidade repleta de pura magia...

É o mais antigo e belo estádio turco.
Nasceu em 1908 e renasceu há três anos e desde sempre foi o farol do futebol da emergente Turquia. Ao receber da UEFA a honra de organizar a última final da Taça UEFA, o Şükrü Saracoğlu teve direito à sua devida homenagem. O recinto do Fenerbache é um prodigio de história e modernidade. 60 mil lugares preparados para dar ao adepto uma comidade inusitada em muitos recintos do mundo. Todos os lugares têm um televisor LCD incorporado para acompanhar o jogo. O estádio tem duas bancadas de 15 mil lugares, das mais luxuosas da Europa, e duas superiores entregues aos fanáticos seguidores do clube que com os seus espectáculos de pirotecnia e papeis amarelos e negros enchem o relvado de emoção e ajudam a equipa a carregar sobre o rival. Como qualquer clube turco aliás. Só que aqui há uma dimensão especial.
Construido em 1908 foi o primeiro recinto de futebol turco.
Comprado em 1933 pelo Fenerbache com a ajuda do primeiro-ministro de então, um fanático do clube chamado Şükrü Saracoğlu, o campo tornou-se rapidamente no maior do país. Em 1959 foi ampliado até 55 mil lugares e tornou-se na base da selecção em Istambul. A ascensão do Fenerbache foi notória nos anos 60 e 70 e só posteriormente o clube perdeu influência para os rivais Galatasaray e Bessiktas. Depois de várias remodelações o estádio continuou a exercer o seu fascinio diante dos adeptos que eram atirados para bancadas que cercavam o recinto de jogo de forma alucinante. Em 1999 a equipa directiva decidiu mudar o nome do estádio em honra do presidente do clube e ex-primeiro ministro que tinha feito da instituição o clube número um da Turquia. E aprovou um plano de renovação das instalações para ter um estádio digno do novo século. As bancadas foram totalmente derrubadas e o clube teve de jogar em casa emprestada durante três anos. Em 2006 as obras ficaram concluídas e a FIFA impressionada. Deu imediatamente 5 estrelas ao recinto, algo que apenas tem no país o Ataturk, o novo estádio olimpico de Istambul.

Hoje o Fenerbache já não é o único clube que é dono do seu próprio recinto. A época gloriosa do clube coincidiu com o renascimento do seu santuário particular. A Champions League trouxe ao estádio noites inesquecíveis e o Şükrü Saracoğlu tornou-se conhecido pelos adeptos de toda a Europa. É hoje em dia um dos estádios mais copiados do mundo e há já vários projectos de grandes clubes europeus que seguem o inovador modelo do Fenerbache. Os próprios rivais, Galatasaray e Bessiktas decidiram construir novos recintos para concorrer com o belo Saracoğlu. O Bessiktas já tem nova casa, mais pequena do que a do rival, enquanto que o novo Ali Semin será ainda maior, mas só terá direito a inauguração daqui a dois anos. Até lá o Şükrü Saracoğlu continuará a reinar sob o céu único de Istambul.
Para fechar esta viagem pelos Balcâs passamos da periferia ao eixo central, e das candidatos à consagrada selecção herdeira da máxima jugoslava. A Sérvia apresenta o seu melhor rosto e diz presente na lista de possiveis surpresas na próxima edição mundialista...
O renascido Império
Radomir Antic é uma velha raposa. Uma velha e sábia raposa. Há um ditado espanhol que diz que o Diabo sabe mais por velho do que por Diabo. Antic é dessa casta. Um técnico de larga experiência que sabe montar bem as peças do puzzle. Com um toque quase cirúrgico, o seleccionador da Sérvia operou um milagre. Um quase milagre, vamos!
A Sérvia está qualificada para o Mundial. Assim, sem mais. Sem necessidade de play-offs ou sofrimentos de última hora. Logrou-o com uma goleada histórica a um velho rival, a Roménia. Um 5-0. Mais claro não podia ser. Num grupo onde estavam três equipas presentes no último Euro (os romenos e ainda Áustria e França) e a surpreendente Lituânia, eis que surge o novo rosto de um império adormecido. Em pontos ninguém supera o exército sérvio. Em golos marcados e sofridos também não. E em qualidade de jogo é dificil encontrar alguém no futebol europeu que possa dizer que joga melhor que a selecção de Antic. A velha raposa sabe bem o que fêz.
Recuamos quatro anos no tempo e no espaço. Os sérvios deixavam o Mundial da Alemanha pela porta pequena depois de uma humilhante goleada diante da Argentina. Acabava-se o ciclo da "velha Jugoslávia". Os jogadores, os equipamentos, o simbolo da federação, a equipa técnica...tudo cheirava já a mofo. Andavam por lá os Milosevic, Kovacevic e cracks de outros tempos, dessa geração que teimava em não deixar um velho nome esquecido e em concentrar-se no futuro. A selecção Sérvia nascia então finalmente. Montenegro seguia o seu caminho e estava na hora de lograr nova colheita. Em Portugal tinha surpreendido uma equipa repleta de jovens promessas. Lograram um terceiro posto no Europeu de sub-21 e lançaram as bases da equipa que, no ano seguinte, voltaria a surpreender na Holanda. Enquanto os seniores começavam, lentamente, a recuperar o orgulho perdido, os mais novos aprendiam a desfrutar de novo com o desporto-rei. Os nomes pareciam complicados e eram, para a esmagadora maioria, totalmente desconhecidos. Mas a velha raposa estava lá, a controlar tudo e todos. E a montar o esquema do futuro...
Hoje em dia é impossível ignorar a maioria desses desconhecidos. A média de idades da selecção da Sérvia é baixissima, se olharmos para as outras selecções já apuradas para o Mundial. Com um belo futebol, eficaz e tremendamente técnico, os sérvios podem fazer peito e comparar-se às grandes potências. Talvez lhes falte o traquejo das grandes provas. A história já nos provou que pequenas grandes selecções, como a Danish Dynamite dos anos 80 ou o exército bulgaro da década de 90 falharam sempre nos momentos chave por esse motivo. Resta saber se os jovens sérvios de Belgrado e arredores aprenderam a licção. Formados, na esmagadora maioria, na escola do Partizan de Belgrado, os membros da nova seiva sérvia são hoje em dia referência absoluta para qualquer olheiro que se preze. E muitos deles já deram o salto.
Esta nova Sérvia de Antic é a Sérvia do génio de Kuzmanovic, que de Firenze partiu para Stuttgart, onde tem brilhado ao mais alto nível. É a Sérvia do gigante Zigic, mal amado em Valencia mas tremendamente eficaz diante das redes. Ou do central Subotic, a grande promessa do Dortmund. Para não falar do gigante Vidic, seu colega no eixo central da defesa. Ou do letal Obradovic, o lateral esquerdo do Partizan cobiçado por meio Mundo. E também de Ivanovic, o polivalente central do Chelsea. De Jankovic, o cérebro de Genoa. De Lazovic, o letal avançado do PSV. De Stankovic, o veterano de serviço. De Sulejamni, a promessa do Ajax. Dos jovens Krasic, Tosic, Ljalic e companhia. E nesta Sérvia, nesta imensa Sérvia, até há espaço para entregar as redes ao polémico Stoijkovic. Sem jogar, continua a ser o eixo da defesa e a provar que disciplinarmente pode ser um terror para Paulo Bento. Mas que tecnicamente está à altura dos grandes desafios.
Actuando preferencialmente num 4-4-2 que se transforma rapidamente num 4-2-3-1, o conjunto sérvio é hoje em dia, um adversário temivel. Uma selecção que no sorteio de Dezembro todos irão querer evitar. Apesar de contar com um fortissimo onze titular, o grande trunfo de Antic é o largo banco que dispõe. E o tempo. A esmagadora maioria dos seus jogadores é jovem, muito jovem. Começa agora um ciclo que pode ser de glória para o antigo gigante renascido com novo nome e disposto a dar início a um novo império futebolistico.
Era a final mais ansiada. Depois de três semanas de prova as duas grandes favoritas encontram-se frente a frente. O calendário estava preparado para um confronto entre a mais forte selecção africana e a renovada canarinha. Gana ou Brasil? Daqui sai o futuro do futebol mundial...
Numa das provas mais apaixonantes da última década, o Mundial de sub-20 fecha hoje as portas com um jogo de gala.
De um lado uma renovada selecção brasileira, uma equipa que entrou de forma titubeanta e a gerar muitas dúvidas depois da débil performance na prova Sul Americana no passado mês de Março. Uma equipa que ganhou a pulso o seu estatuto de favorita para o jogo de hoje. Um brilhante desempenho no sector defensivo, marcado pela enorme solidez das apostas pessoais do seleccionador Rogério Lourenço. O guardião Rafael tem sido um bom seguro de vida para o escrete mas é Douglas, Rafael Todi, Diogo e companhia quem têm garantido uma baliza quase imaculada. Mas apesar da eficácia defensiva, o esteio do escrete canarinho tem sido, sem margem para dúvida, o trabalho de Giuliano. O jovem médio centro é o responsável pela transição ofensiva do jogo do Brasil e nas horas de apuro a equipa junta-se à sua volta para desbloquear o jogo. Na meia-final contra a Costa Rica, na dura eliminatória contra a Alemanha, foi sempre Giuliano quem deu a cara. São os seus passes milimétricos que soltam a velocidade de Alex Teixeira, uma das revelações da prova, e Wellington Júnior. São os principais municiadores do ataque. Um ataque com nome próprio. A fama precedia-o, mas Alan Kardec pôde finalmente comprovar a fama de matador. Herdeiro natural, para muitos, de Mário Jardel, o jovem avançado do Vasco da Gama é um dos nomes próprios da competição. E hoje enfrenta um rival temível.

Se o Brasil tem Kardec, então o Gana pode responder com uma dupla fulminante.
Ransford Osei impacta pelo seu estilo de jogo, tremendamente fisico e letal. Ao seu lado o goleador da prova, a grande sensação Dominic Adiyiah. Dele disse Stellas Tetteh, o seleccionador ganês, que é o futuro do futebol. A julgar apenas pela sua participação no Egipto o técnico é bem capaz de ter razão. Uma técnica apurada e uma raça que só os jogadores do Continente Negro conseguem transmitir aliam-se de forma tremenda neste dianteiro que procura levar para casa o trofeu de Homem Golo do Mundial. Terá tarefa complicada do outro lado. A defesa brasileira está bem avisada e recupera o suspenso Douglas para vigiar de perto o touro ganês.
A equipa africana arrancou como a máxima favorita entre os conjuntos africanos. E foi provando, a pouco e pouco, que o estatuto era real. O trabalho incansável de Samuel Inkoow pelo carril direito, e o cérebro da dupla Quansah - o homem da meia-final contra a surpreendente Hungria - e Ayew, foram fazendo a diferença. Numa das selecções mais interessantes da actualidade, um lugar no onze titular vale ouro. Por isso nomes como Opare, Mensah ou Salifu, que julgavam todos que seriam titulares, têm breves minutos nas pernas. O Gana é favorito e sabe-o. E terá de jogar com esse peso nas costas.
São duas formas inteligentes e apaixonantes de entender o jogo.
Gana é o futebol mágico de África por excelência. Alia a velocidade e a raça e prova que hoje em dia qualquer selecção jovem africana tem uma forte disciplina táctica. O Brasil pode não ser tão espectacular como em outras ocasiões, mas é tremendamente eficaz. Douglas Costa, a grande promessa, não sai do banco porque destoa nesse meio campo de eficácia pura. Um embate entre Ayew e Giuliano, entre Adiyah e Douglas, entre Kardec e Inkoom é prato suficiente para garantir um menu de primeira. Vença quem vença, foi o futebol que verdadeiramente saiu a ganhar!
A cinco minutos do final da falsa batalha de Montevideo, o portista (emprestado ao Huracan) Mauro Bollati aproveitou um erro defensivo charrua e apontou o golo da vitória histórica da albiceleste. No final do jogo voltamos a ver o lado humano do ex-Dios argentino. Mais do que humano, o lado mais pobre de um homem que não consegue viver com a pressão. E em Dezembro haverá 31 equipas a torcer por defrontar Dieguito e companhia!

"Que la chupen, que la sigan chupando!"...palavras ao nível do talento técnico do actual seleccionador argentino. Minutos antes do arranque do jogo mais de metade da Argentina tinha transformado o seu amor incondicional por um desprezo visceral ao seu Deus pessoal. Durante 20 anos vendeu-se a imagem de Diego Armando Maradona como um super-homem, o herói entre os heróis. Catalogado como o melhor jogador da história, alvo de uma seita religiosa com altar incluída, Maradona era, para os argentinos, um autêntico Dios. E o povo pediu a sua nomeação para seleccionador. Uma equipa nacional sem alma nem espirito, sem rumo nem direcção, onde Lionel Messi se tornava ainda mais num pigmeu. Onde a raça de Tevez era inexistente. Onde as jovens promessas desapareciam e os veteranos voltavam a ganhar protagonismo. Essa foi a selecção que Diego Armando Maradona recebeu há um ano. E finalizado o seu primeiro periodo como técnico, com um polémico apuramento para a África do Sul, é inevitável perceber que a Argentina caminha perigosamente para o precipicio.

80 jogadores convocados num ano. Inúmeros onzes, tácticas inventadas no joelho, combinações únicas de jogadores. Recurso a veteranos com alguns Mundiais nas pernas e uma eterna indecisão técnica á hora de montar um estilo de jogo coerente, eram as principais acusações da imprensa e do publico em geral ao Deus tornado Humano. Aceitando ser seleccionador, Maradona abandonou o seu Olimpo particular - algo que Pelé, por exemplo, nunca quis fazer - e decidiu viver entre os mortais. Não o soube. Nunca o soube!
Não o soube como seleccionador de um dos países com maior tradição futebolistica do Mundo. Não o soube como figura publica e como idolo de mais do que um povo. De toda uma geração de amantes do bom futebol. No terreno de jogo Dieguito foi um extra-terrestre. Provavelmente não foi o melhor futebolista de sempre, mas pode perfeitamente candidatar-se ao titulo sem vergonha. Fez coisas abismais, decidiu jogos, provas e vidas com um golpe de génio constante que só os erros da sua vida privada impediram de o ir mais longe. Como jogador foi divino. Como técnico é deplorável. E o que fez no final do jogo de Montevideo espelha ainda mais o total descontrolo que vai pela sua mente. Maradona não aguentou a pressão de uma eliminação que esteve sempre presente, mas que era facilmente evitável. As constantes indecisões do seleccionador, o mau jogo dos seus craques e a falta de arrojo em campo pregaram mais do que um susto aos argentinos. E só dois golpes de sorte em dois jogos decisivos inclinaram a balança a seu favor. A forma como Diego Maradona se expressou no final do jogo e que repetiu mais tarde, na conferência de imprensa, espelha bem o (pouco) nivel do técnico. Incapaz de falar sobre futebol. Incapaz de orientar uma equipa de futebol, Maradona desprestigiou ontem o futebol. Mais uma vez.

A falta de nível do seleccionador é antiga e vem dos seus tempos de jogador em Can Barça primeiro e mais tarde em Napoles. Não é nova. A falta de talento como técnico também não é novidade porque a sua breve experiência no Boca Juniores já o deixava antever. A junção das duas desonra o belo futebol argentino. Felizmente a albiceleste estará na África do Sul, onde merecem estar todas as grandes selecções. Mas desta feita é mais devido ao demérito de Ecuador, Venezuela, Peru, Colombia e Bolivia do que aos feitos logrados pela celeste. E com este seleccionador, incapaz de montar um colectivo, incapaz de colocar alguém diante de si, a Argentina perde antes de entrar em campo. Em Buenos Aires muito se escreve sobre o fraco nível de Messi e companhia, mas há também cronistas que se atrevem a explorar a dura realidade. O genial jogador não consegue deixar de ser o centro das atenções. Ao contrário dos treinadores que gostam de proteger os jogadores, Maradona gosta de fazer dos seus homens o seu escudo. Mas a máscara cai e todas as 31 selecções apuradas para a África do Sul olharão com bons olhos que a bola Argentina toque nos seus grupos. Se a situação se mantiver inalterável até Junho, se a dupla Billardo-Maradona continuar a gerir a armada argentina, é bastante provável que os adeptos da celeste assistam a um desempenho histórico. E não pelos melhores motivos.
Muitos têm ainda fresca na memoria a precoce eliminação no Japão da Celeste. Faltam nove meses para o Mundial e a repetição desse cenário parece mais provável do que nunca. E enquanto isso Diego Armando Maradona diverte-se com o seu momento de glória. Sem rumo, sem eira nem beira. E a continuar assim, veremos no final quem vai seguir "chupandola", Dieguito!
Continuamos a nossa viagem pelas nações dos Balcâs centrando-nos agora na grande surpresa da fase de qualificação. Ou talvez não...

Uma Nação À Espera do Seu Momento
Quem não se recorda das tenebrosas imagens de Sarajevo debaixo de um cerrado bombardeamento?
Imagens que marcaram a história de uma década e que deixaram a nu a faceta mais sombria e letal da Guerra dos Balcâs. Foi há quinze anos mas na capital as feridas ainda não sararam por completo. O nome de Bósnia-Herzegovina ainda é estranho para muitos fora de portas. O mediatismo dos vizinhos supera a pacifica republica que procurar recuperar o tempo perdido. E que trabalha para finalmente fazer ver ao Mundo que os sobreviventes de Sarajevo continuam ali, à procura de uma oportunidade para fazer ouvir a sua voz. E o futebol pode ser bem esse motor, uma vez mais. Um motor capaz de fazer o Mundo lembrar-se que a grande Bósnia é hoje uma nação bem distinta, longe das divisões sangrentas de há mais de uma década.

Se desportivamente os bósnios nunca foram o eixo mais forte da antiga Jugoslávia, a verdade é que a situação tem-se vindo progressivamente a alterar. O nascimento da nova nação, em 1993, lançou as bases de uma nova selecção nacional. A Bósnia como país começou a disputar encontros antes sequer de haver uma liga doméstica organizada. Valia tudo para conseguir o reconhecimento internacional. Quinze anos depois a liga bósnia é real mas continua a pertencer ao mais pequeno escalão do futebol europeu. Quanto à selecção, está agora a viver a sua era dourada fruto de largos anos de trabalho na formação que lançou para a ribalta nomes que hoje em dia são referências obrigatórias de um novo estilo de jogo nos Balcâs.
A campanha da Bósnia-Herzegovina foi surpreendente do principio ao fim. Num grupo onde se encontrava a actual campeã da Europa, a toda poderosa Espanha, e ainda a semi-finalista do último Europeu, a Turquia, parecia claro que o destino dos bósnios era lutar contra a decaída Bélgica pelo terceiro honroso posto. Longe disso os bósnios foram letais do principio ao fim. A estrutura montada pelo seleccionador Miroslav Blazevic, o homem responsável pelo milagre croata de 1998, acentou à volta das novas promessas do futebol local. Com uma linha ofensiva devastadora composta por Edin Dzeko e Vedad Ibisevic, dois dos dianteiros mais letais do futebol alemão, os golos estavam garantidos. No meio campo a estrela é o incontornável Misimovic, que sucede no posto ao grande herói local, Elvir Baljic, a grande estrela histórica da pequena nação. Aos 27 anos é o natural capitão de uma geração de hábeis guerreiros e a sua parceria no Wolfbsurg com Dzeko foi significativa para o histórico titulo do pequeno clube da VW na época passada. Ao seu lado jogam invarivelmente Muratovic, veterano operário cerebral, e Rahimic. E claro, há ainda a figura de Milan Pjanic, um jovem que finalmente deu o salto no Olympique de Lyon e se confirma como um dos médios mais sensacionais do futebol europeu. Liderar a sua Bósnia é o último desafio de um criativo que joga de olhos fechados.

O conjunto bósnio não deslumbra futebolisticamente como o eterno rival sérvio, mas a equipa montada por Blazevic é extremamente organizada e funciona muito bem no contra-ataque. O facto de contar com dois avançados moveis que se entendem à perfeição transforma qualquer lance ofensivo num quebra-cabeças. A prova são os 23 golos apontados em novo jogos. Numa campanha irrepreensivel, onde só a derrota na Turquia e em Espanha manchou o registo imaculado, a Bósnia confirmou o que já tinha ameaçado em 2004. Agora estão a dois jogos de cumprir o sonho de finalmente poder dizer presente numa prova histórica.
Depois de ter sido uma das agradáveis surpresas do final dos anos 90 o futebol esloveno entrou em quebra. Dez anos depois da sua única participação numa grande prova, a Eslovénia volta à carga para cumprir um sonho antigo...

Reinvindicar os heróis de 2002
Sob a liderança de Zlatko Zahovic os eslovenos surpreenderam em 1999 o mundo do futebol. A jovem nação herdeira do império jugoslavo imitava os feitos de croatas e sérvios (então ainda com o velho nome) e marcava presença num Europeu de futebol. Longe de serem o bobo da festa, como muitos tinham antecipado, os eslovenos foram uma equipa atrevida e rápida, capaz de deixar espanhois, sérvios e noruegueses com as mãos à volta da cabeça. Só uma épica última jornada os afastou do sonho de passar à fase seguinte. Ficou a promessa por cumprir de voltar. Dois anos depois repetiram o feito e lograram o apuramento para o seu primeiro Mundial. Uma notável fase de qualificação deixava antever uma equipa capaz de ir longe. Mas apesar do grupo ser acessível, a performance eslovena deixou muito a desejar. Três jogos e três derrotas, às mãos de Espanha, Paraguai e África do Sul. Um regresso a casa sem pena e sem glória.
Os seis anos seguintes foram vividos como dolorosos insucessos. A geração do mago que então brilhava no FC Porto foi desaparecendo sem encontrar sucessores à altura. De promessa do futebol europeu a Eslovénia voltou aos últimos postos nas qualificações para os grandes torneios desportivos. E muitos acreditavam que voltar a um grande palco era impossível. Hoje à noite o velho sonho renasce!

A Eslovénia depende de si própria para logar um lugar no play-off de Novembro. E com uma improvável sequência de resultados pode mesmo conseguir o apuramento directo para a África do Sul. Em Ljubliana sonha-se alto com esta nova vaga de jovens que deu outro rosto a uma equipa abandonada e relegada para o terceiro plano do futebol europeu. Sob a batuta de Matjaz Kek, a equipa apresentou ao longo da fase de qualificação bons momentos de futebol. Num grupo altamente equilibrado, onde ponteficavam à partida a favorita República Checa e a Polónia, coube à Eslováquia - lider do grupo - e aos eslovenos dar a surpresa. Com nove jogos os eslovenos conseguiram acumular 17 pontos, mais dois que a Republica Checa que persegue o último posto de apuramento ao play-off. Um empate dos eslovenos não seria suficiente se os checos vencessem o jogo com a Irlanda do Norte. Mas uma vitória, aliada a uma derrota (ou empate) da Eslováquia na Polónia podem mesmo dar-lhe a liderança. Tudo está nas mãos da equipa liderada por Robert Koren, o veterano capitão a actuar no West Bromwich Albion.
Ao contrário da geração de 2002, não há nenhuma individualidade que destoe no onze esloveno. É o conjunto e a eficácia defensiva que mais têm dado alegrias aos adeptos verdes. Handanovic é um guardião seguro e o quarteto ofensivo composto por Brecko, Jokic, Suler e Ilic dificil de bater. Só sofreram 4 golos em 9 jogos. No centro do terreno o capitão Koren organiza e Kirm, Zlogar, Radosalvejic e o nacionalista Pecnik têm a função de criar as oportunidades para a dupla Novakovic e Birsa. Os dois avançados contam com concorrência pesada em Dedic e Ljubijankic, a actuar no futebol alemão, lar para muitos foragidos da antiga Jugoslávia. Apesar de estarem afastados à largos anos dos grandes palcos, na Eslovénia não se operou uma verdadeira renovação geracional e há ainda muitos veteranos nas escolhas do seleccionador que tem tido dificuldades em chamar jovens promissores à equipa principal.

Passe o que passe esta noite, os eslovenos sabem que voltaram a mostrar ao mundo do futebol o seu melhor rosto. Dependem apenas de si para disputar o decisivo play-off. Mas também acreditam no renascimento polaco e numa série de resultados que lhes pode poupar 180 minutos de cortar a respiração. E voltar assim a um Mundial!
Quem tenha alguma idade (ou óptima memória) recorda-se perfeitamente que há vinte anos atrás havia poucas selecções que tivessem vontade de se medir à Jugoslávia. O "Brasil europeu" chamavam-lhe, e a verdade é que a selecção jugoslava era uma verdadeira potência futebolistica, capaz até de lançar as bases da última equipa de leste a vencer uma Taça dos Campeões Europeus. Hoje esse gigante de leste já não existe no mapa politico mas deixou vários herdeiros. Quatro deles estão prestes a entrar nas contas mágicas do próximo Mundial...viajamos até aos Balcâs!

12 anos depois, o sonho desfaz-se?
De grande candidata a sofredora no último momento.
Quem diria que a toda poderosa Croácia, responsável pelo afastamento da Inglaterra do Euro 2008, cairía aos pés dos Pross dois anos depois para trocar o sonho do Mundial pelo sofrimento de última hora? A Croácia espera amanha um milagre. Surreal, mas possível. Afinal estamos a falar de futebol. Esse milagre implica um tropeção da Ucrânia em Andorra, última classificada do grupo que a Inglaterra dominou até viajar a Kiev. O tropeção confundiu as contas croatas que agora têm de ganhar e rezar. Talvez mais o segundo que o primeiro. Uma etapa negra numa campanha brilhante de Slaven Bilic como seleccionador. Ele que foi um dos heróis da geração de 1998, orientada então por Blazevic. Esses guerreiros, a maioria ainda filhos da antiga Jugoslávia, montaram um conjunto espantoso onde o futebol arte era o credo. Depois de um Euro 96 surpreendente, a equipa provou no Mundial de França que havia mais do que a Sérvia na antiga potência balcânica. Apesar de falhar o Euro 2000, os croatas tornaram-se presença regular nas grandes provas. Estiveram no Mundial de 2002, no Euro 2004 no Mundial da Alemanha onde foram decepcionantes e dois anos depois mostraram o seu melhor nível na Áustria e Suiça. Até que a fúria turca os afastou da esperada meia-final.

Bilic manteve o conjunto que tantas alegrias tinha dado aos croatas. Uma equipa acente no futebol de toque, no jogo colectivo e na eficácia ofensiva. Mas as coisas não correram tão bem desta feita. A lesão de Lukas Modric, o seu delfim, não ajudou nos momentos decisivos a ver o melhor lado dos croatas, destroçados por uma Inglaterra sedenta de vingança. Os problemas fisicos de Eduardo, Kovac e Krancjar também foram dificeis de superar e a incapacidade de vencer os dois jogos com a Ucrânia (0-0 e 2-2) ditaram a sua posição a um jogo do final. Muitos ironizam sobre se a Inglaterra perdeu de propósito diante dos ucranianos, como um ajuste de contas demasiado cinematográfico. Mas a verdade é que a incapacidade croata de garantir resultados nucleares em momentos decisivos, revelou-se fatal. A equipa não ganhou nenhum dos dois jogos diante dos directos rivais, algo impensável no inicio da fase de qualificação. A baliza de Step Pletikosa esteve mais vunerável que nunca e a linha defensiva com Corluka, Kovac, Krizanic e Pranjic sofreu mais do habitual. E se Olic e Klasnic nunca se mostraram letais na área, a falta de opções a meio campo foram determinantes para o pobre jogo exibido durante grande parte da campanha de qualificação.

Amanhã os croatas sonharão durante 90 minutos mas sabem que o destino pode mesmo cometer a proeza de os afastar do primeiro Mundial em 12 anos. Um feito que parecia impossível, face à regularidade do conjunto balcânico. Mas apesar da óptima campanha da Ucrânia, à primeira vista parece claro que a não-presença croata na África do Sul deve-se a ela própria. Uma dor que 4 milhões de adeptos esperam não ter de suportar durante quatro longos anos...
O Real Madrid tem razão para estar preocupado. Furioso até. A equipa mostrou o seu rosto mais pobre contra o Sevilla. E continua sem encontrar o seu estilo de jogo. As sete vitórias conseguidas devem muito ao trabalho de Cristiano Ronaldo. O madeirense agravou a sua lesão, mas foi decisivo no jogo chave da selecção portuguesa. Messi, esse, anda desaparecido pelas pampas...mais uma vez!

Durante os últimos anos a grande critica apontada a Cristiano Ronaldo passava pela sua falta de compromisso com a selecção nacional. Em contraposição as grandes estrelas do futebol mundial. E de outros gigantes do passado, com o fantasma de Figo sempre presente. E havia razão por trás das criticas. O capitão da selecção nacional nunca exibiu com a camisola das quinas o mesmo nivel apresentado no Manchester United. Nem no Euro 2004, nem no Mundial de 2006 (ainda ao lado de Figo) nem como estrela única da constelação em 2008. Poucos golos, assistências e espectáculo. Mais, notava-se claramente que o crack não conseguia liderar as hostes. Só que, ao contrário de Figo, a verdade é que Cristiano Ronaldo herdava uma geração mais de acordo com o que passou há 20 anos com Paulo Futre. Uma equipa destroçada, sem espirito de colectivo e sem grandes opções para posições chave. Até surgiu uma nova geração que permitiu que o descalabro desportivo da carreira do extremo do Montijo não se tenha notado em demasia.
Cristiano nem marcou na Luz. Mas assistiu Simão Sabrosa para o golo inaugural.
Mostrou um compromisso total que não se viu, por exemplo, em Luis Figo quando renunciou á selecção após o Euro 2004 para voltar, oportunamente, para o Mundial da Alemanha. O extremo sabia que não estava em condições. Queiroz também. E mesmo assim arriscaram. Podia ter dado para um pouco mais. Podia ter dado para menos. Foi o que se conseguiu, sabendo desde já que a Suécia tinha caído e que o jogo com Malta era um mero trâmite. Foram 25 minutos onde o último Ballon D´Or esteve claramente em campo como corpo presente. Mas mesmo assim notava-se a sua importância. E a sua presença. Com um golpe de rins partiu a defesa hungara e permitiu a Simão voltar a ser aplaudido na Luz. E depois saiu, de missão cumprida. Portugal desapareceu durante uma larga hora, orfã do seu lider. E em Madrid amaldiçoavam Carlos Queiroz. Velhas contas ajustam-se assim. O agora CR9 ficará de fora um mês, mas o mais lamentável é mesmo a atitude arrogante do clube merengue que impede o capitão de assistir ao jogo com Malta em Guimarães e a falta de autoritarismo da liderança da FPF que não deveria ter libertado o atleta. Tipico!

Do outro lado do Atlântico a Argentina também jogava com a corda ao pescoço.
Uma vez mais. Sob um imenso dilúvio e contra uma das equipas mais fracas da fase de qualificação. Maradona lançou parte da sua artilharia pesada, entre a qual se contava Messi. O herdeiro de Cristiano Ronaldo para os troféus de final de época actuou do primeiro ao último segundo. E passou completamente ao lado do jogo. Como de todos os outros jogos da albiceleste nesta fase de qualificação. O extremo do Barcelona tem sido dos jogadores menos em forma do conjunto catalão neste arranque de época e pela selecção nacional ainda não atingiu o mesmo nível de jogo exibido na Catalunha. Com a súbtil diferença de que, ao contrário do rival luso, Messi conta com uma geração repleta de estrelas ao seu lado. O apagamento de Messi vem de há muito e actual 10 teima em não aparecer.
Talvez por isso os argentinos procurem desesperadamente novos santos da sua devoção enquanto que em Portugal se começa a fazer contas para saber se as três semanas de lesão do CR9 são suficientes para o ter pronto para o duelo final antes da viagem á África do Sul. Onde Messi ainda não sabe se vai estar...
O jogo de palavras era inevitável e nenhum orgão de comunicação social o evitou. Depois de falhar três penaltys no mesmo jogo contra a Colombia na Copa América de 1999 Martin Palermo ficou afastado da albiceleste. Até que no sábado o vilão se fez herói e o palerma tornou-se em santo.

O jogo decisivo de quarta-feira ditará o destino de duas das maiores potências futebolisticas mundiais. Quatro mundiais em conjunto e muitas, muitas estrelas frente a frente. Mas uma terá um destaque especial. 93 minutos em branco. E um golpe letal que pode ter defenido o futuro da Argentina. A selecção de Maradona continua o seu particular naufrágio. O seleccionador que chamou 80 jogadores ao largo de um ano voltou a mostrar o seu total desconhecimento táctico e apesar do eixo ofensivo apresentado abdicar das estrelas em prole dos jogadores em melhor forma, depois de Higuain abrir a contagem surgiu o pior Maradona. Trocando o avançado por um central - Demichelis - o Dios argentino entregou o jogo ao Peru. Um fraquíssimo Peru diga-se de passagem, mas suficiente para assustar os argentinos. O golo de Vargas aos 89 minutos parecia ditar o final do sonho argentino. Até que no instante final, debaixo de um imenso dilúvio, um remate cruzado encontra o pé de Palermo. E o antigo palerma tornou-se no santo de devoção de um ex-Dios enlouquecido que mergulha no charco do Monumental como se tivesse ganho um Mundial. Quase!

Palermo tem já 36 anos.
Fez história ao serviço do Boca Juniores tornando-se no maior goleador da história do clube. Começou a carreira no Estudiantes em 1992 e cinco anos depois transferiu-se para o grande xeneize. A pedido de Maradona, então a viver os seus últimos dias de jogador no clube do coração. A partir daí começou a carburar a sua veia goleadora chegando rapidamente á selecção. Os dois tentos apontados contra o Real Madrid deram a Taça Intercontinental de 2000 ao clube argentino e fizeram-no entrar na história. Por essa época já tinha sido banido da selecção e depois da mitica noite de Tóquio transferiu-se para Espanha. No Villareal primeiro e Bétis depois falhou o salto. Marcou poucos golos e nunca se mostrou cómodo no terreno de jogo. Em 2004 voltou ao Boca Juniores. Contava já com 31 anos e parecia que ia dar início a uma reforma dourada. Longe disso, Palermo tornou-se de novo na referência ofensiva do Boca e formou com Riquelme e Delgado um tridente ofensivo letal. A 4 de Outubro já tinha feito história com um dos golos de cabeça mais longos da história, a 39 metros de distânica da baliza. Um presságio do milagre do Monumental quiça.

A Argentina joga contra o Uruguai o seu futuro. Diego Armando Maradona tem uma linha ofensiva invejável. Higuain, Aguero, Di Maria, Messi...e Palermo. O veterano passou de descartável a homem de confiança do seleccionador. Certo é que estará os 90 minutos em campo no meio da defesa charrua. Não vá o diabo tecê-las e Dios precisar de outro milagre.
É curiosa a ideia de que só agora começa a assumir-se que Portugal depende de outros para conseguir o tal bilhete para a África do Sul. Nunca um largo voo de avião foi tão requisitado. Mas entre os lugares disponíveis à pouco espaço para o pessimismo português. Afinal os lusos foram iguais ao seu próprio passado e desde o primeiro segundo do primeiro jogo deram a entender que iam sempre depender do fado maldito...

Antes de cada grande prova internacional há sempre uma série de vencedores anunciados. Basta folhear os jornais. Em Espanha, la Roja é sempre a maior favorita em cada edição de cada prova, seja o Mundial de Futebol seja o Torneio de Caricas de Alcabideche. Estão aí para ganhar e não se admite nenhum outro resultado. Uma arrogânica que os fez sair com o rabo entre as pernas de cada uma das provas disputadas nos últimos 44 anos. Até que em Viena a picardia de um Niño bem mais maturo que um exército de veteranos fez a diferença. E Madrid finalmente pôde fazer das palavras actos. Atravessando os Pirineus temos sempre o mesmo discurso. Franceses, italianos, alemães, ingleses e até holandeses transbordam sempre optimismo. Sempre vontade de vencer, de juntar o seu nome à larga lista de estrelas passadas e presentes. Raramente se pode satisfazer tanta gente ao mesmo tempo, mas eles sabem que não serão presos por tentar. Há nestas provas uma inefável vontade de celebrar a coragem. Essas selecções podem atravessar crises geracionais, problemas de indole táctica ou egos pessoais maiores que o colectivo. Tudo serve para perder. Menos o não querer ganhar.
Portugal está do outro lado da balança. Só. Orgulhosamente só? Sim.
Durante dois anos ouviu-se a imprensa "especializada" dizer que o jogo inaugural com a Dinamarca foi um grande jogo, o melhor da selecção em muitos anos. Mas perdeu-se. 2-3 em solo nacional, solo inviolável há largos anos, desde a conjura dos deuses gregos aliás. Diz-se que se jogou bem mas jogar bem não é trocar a bola no meio campo com soltura. É não adormecer nos momentos decisivos. É não errar marcações. É não falhar golos atrás de golos. Isso não é jogar bem. É ser ineficaz e inofensivo. Essa é a história da qualificação portuguesa. Uma selecção inofensiva do principio ao fim. A Hungria é hoje apenas mais um adversário que chega à Luz com a certeza de que com Portugal não há certezas absolutas. Há selecções que chegam ao Wembley, ao Olympiastadion ou ao Bernabeu com medo entre as pernas. Podem ganhar, mas tremem antes do apito inicial. Por cá ninguém treme, todos se riem, se divertem e no final alguns levam um bónus para casa. Somos um povo hospitaleiro, que mais se pode dizer. E inofensivo, está claro.

Neste canto sem personalidade da Peninsula nunca houve coragem de assumir desafios.
No "nosso" europeu faltou-nos a coragem para derrotar a Grécia. Havia futebol de sobra mas não havia esse plus interior em cada jogador para lograr o impossível. Em cada um dos jogos desta eliminatória ficou sempre essa sensação. Os empates nórdicos, as embaraçosas exibições, tudo isso foi espelho de uma equipa que não sabe transmitir confiança e coragem em campo e fora dele. Ninguém acreditaria hoje se alguém em Portugal disse-se que iamos ganhar o Mundial 2010. Porque o olhar não mente por muito que Carlos Queiroz tente enganar o mais inocente dos espectadores. O técnico português é como o inferno, repleto de boas intenções. E com a probabilidade de queimar muito boa gente. Estamos perante um cenário onde provavelmente a Suécia vencerá a Dinamarca - é melhor selecção - e Portugal terá de voltar às lágrimas do vitimismo que tanto nos sabe bem. Sem jogadores, sem treinador, sem federação...sem coisa nenhuma num desporto que no final se resume a 90 minutos onde há uma bola redonda e há 11 contra 11. Os albaneses acreditaram que podiam empatar em Braga. Portugal não acredita sequer que a Suécia perderá contra os vizinhos. Estamos conversados.
Portugal precisa mais do que duas vitórias em cinco dias. Isso é o de menos. Isso é o básico não o impossível ou sequer o complicado. Portugal transforma os trâmites mais básicos em tarefas hérculeas. Se ganhamos, são heróis. Se perdemos, era tramada a coisa. Enfim, inofensivos.
Durante alguns anos foi-se vendendo a ideia de que as camadas jovens do FC Porto estavam a gerar uma verdadeira nova geração de ouro para rivalizar com Alcochete que acabava de soltar para a ribalta Hugo Viana, Ricardo Quaresma e Cristiano Ronaldo. Eram vários candidatos a estrelas do futuro mas a realidade provou ser mais crua e em lugar de uma segunda geração de ouro acabamos por ter uma geração perdida.

Basta olhar para convocatória de António Simões e da nova selecção de sub-23. Estão lá todos. Com um idade superior à dos sub-21 mas sem nunca terem dado verdadeiramente o salto, eles espelham a problemática da formação nacional nos últimos anos. No FC Porto e na selecção das Quinas. Com 23 anos são hoje promessas falhadas. Ainda vão a tempo de provar o engano mas a situação parece complicada. Surgiram em 2005 da formação azul e branca. Tinham crescido juntos na Constituição e na formação da selecção nacional. Os nomes próprios são hoje, sobejamente conhecidos. O guardião Bruno Vale, tratado como o sucessor directo de Vitor Baía, chamado por Scolari para a selecção nacional antes de tempo. Paulo Machado era o médio de contenção, herdeiro directo da escola de Rodolfo, André e Paulinho Santos. Um portento de força e com bom sentido de colocação. Ao lado tinha Nuno André Coelho, jovem recrutado ao Sporting da Covilhã com um futuro promissor que foi-se integrando na formação junior azul e branca. A extremo direito surgia Vieirinha, o primeiro extremo puro a sair da formação portista desde Sérgio Conceição e Jaime Magalhães, que (tentava) imitiava o drible e sprint cultivado na escola sportinguista. No lado esquerdo estava Hélder Barbosa. Baixo mas com bom sentido de posicionamento, descaía para o lado esquerdo mas era realmente um armador de jogo. Bom nos lances estudados, tinha um pontapé temivel. E por fim Bruno Gama, o jovem prodígio contratado aos 16 anos ao Sporting de Braga que rapidamente chegou à equipa A, sofrendo depois o destino comum aos cinco. Durante dois anos foram jogando entre os juniores e empréstimos pontuais. A pouco e pouco iam saindo da Invicta rumo a outras paragens, comer "o pão que o diabo amassou", uma velha prática no clube das Antas. Só um deles voltou!
Num clube mais interessado em explorar o novo mercado argentino, os jovens não tinham lugar. Depois de constantes empréstimos a clubes de menor dimensão nacional (Académica, Setúbal, Rio Ave, Estrela Amadora...) ou do estrangeiro foram rescindindo o contrato com os actuais campeões nacionais. Sem nunca terem tido tempo de mostrar o seu valor. Sem oportunidades de crescer, alguns chegaram a actuar pela equipa principal. Outros nem isso lograram. E na selecção de sub-21, que lideravam orgulhasamente, as coisas corriam piores. Sob o comando de Agostinho e de Couceiro, Portugal realizou as piores exibições e os mais fracos resultados da sua história. No Europeu organizado em terras lusas foi mesmo humilhantemente eliminado à primeira. A equipa que incluía ainda vários nomes dessa geração perdida fora do Dragão (uns com um destino melhor que outros como Zé Castro, Manuel Fernandes e Hugo Almeida) destroçou o legado de vitórias da formação portuguesa e contribuiu ainda mais para a desconfiança geral. Ninguém estava disposto a apostar por jovens em Portugal, muito menos se na selecção mostravam sérias debilidades. Se as gerações anteriores tinham conquistado o seu lugar a pulso e com resultados, esta estava em sérios apuros. A pouco e pouco o sonho do salto foi-se esfumando.

Paulo Machado emigrou para França como tantos portugueses antes dele. Depois de três excelentes anos no St. Ettiene, este ano foi uma das pérolas mais cobiçadas do mercado. Agora é chave no Toulouse, clube com aspirações europeias. Queiroz ainda não conta com ele. Enquanto isso Bruno Vale, o único que chegou à selecção A, fartou-se dos sucessivos empréstimos que nunca deram continuidade ao seu futuro brilhante. É agora o suplente do Belenenses. Por outro lado Vieirinha, o promissor extremo, actua no modesto PAOK grego, ao lado de Sérgio Conceição e sob as ordens de Fernando Santos. Nunca deu o salto de maturidade esperado. O jovem Bruno Gama foi durante algum tempo o patrão do Sado, mas as fracas épocas do Setúbal não o ajudaram a desenvolver-se. Agora volta a Vila do Conde, a casa, e é um dos responsáveis do bom arranque do Rio Ave. E Hélder Barbosa está na Vitória de Setúbal, depois de ter percorrido meio país, sem nunca ter feito realmente uso do seu imenso talento que levou José Mourinho a utiliza-lo alguns minutos durante o seu consulado. O único atleta que conseguiu voltar ao FC Porto é Nuno André Coelho. Depois de vários empréstimos o central, que também pode actuar a médio defensivo, é agora a quarta opção para Jesualdo Ferreira e ainda não teve tempo de mostrar o seu valor. Mas continua à espera.
A estes nomes podem juntar-se tantos outros que espelham o vazio da formação portuguesa na segunda metade da década que está prestes a findar. Promessas como Manuel da Costa, João Moreira ou Semedo. Como Tiago Targino, Flavio Meireles, Sereno e Pelé, da escola do Vitória de Guimarães. De Moreira, incapaz de agarrar na Luz a titularidade. De Vasco Fernandes, que anda por Vigo, de Ricardo Vaz Tê, que continua pelo Bolton inglês ou de Yannick Djaló e Carlos Saleiro, avançados por confirmar em Alvalade. Muitos deles estão agora a ser reciclados pela sub-23.
O seleccionador Carlos Queiroz procura recuperar o tempo perdido e dar uma oportunidade a quem não teve espaço para explodir. O problema é que um jogador precisa de condições para crescer, não é magia pura. Numa liga pouco competitiva, em clubes que jogam à defesa ou eternamente condenados ao banco por um técnico menos visionário é fácil transformar uma geração ganhadora numa geração falhada. Esta ainda não falhou, ainda não acabou. Tem tempo. Está perdida, de momento. Mas há que acreditar que em vinte jogadores, há certamente uns quantos que ainda têm uma palavra a dizer no futebol português.

