Já se encontra disponível a crónica semanal publicada no weblog FutebolArtte, desta feita relativamente à saída de Luciano Spaletti do banco do AS Roma e a sua substituição por Claudio Ranieri.
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É uma das maiores promessas do futebol belga. Mas este fim de semana manchou definitivamente a sua imagem de menino bonito das Ardenas. Uma entrada a matar sem qualquer interesse de jogar a bola ditou a sentença a Marcin Wasilewski. Um ano afastado dos relvados. Como castigo a federação belga estipulou que o agressor, Axel Witsel, esteja sob suspensão até 23 de Novembro. Mas que direitos terá Witsel de jogar enquanto que o seu colega de profissão recupera um largo ano para poder voltar a subir aos relvados?

Foi um dos momentos mais horripilantes e sujos da nova época que só agora está a arrancar. Num quente duelo entre Anderlecth e Standard de Liege, os dois máximos candidatos ao titulo belga, um momento marcou toda a jornada. O jovem promissor Witsel, elegido aos 18 anos como o melhor futebolista belga, tem uma entrada completamente fora de tempo à perna de Marcin Wasilewski, médio do clube de Bruxelas. Nas imagens percebe-se claramente desde o primeiro instante que a bola está fora desta equação. Há uma perna, a de Witsel, que se levanta bem acima do que seria normal e que atinge brutalmente a do colega de profissão. O que se segue é uma horrivel imagem de dor e sofrimento de Wasilewski ao ver a perna completamente deslocada e os tumultos que rodeiam o agressor. Witsel acabou expulso, recebeu ameaças de morte e ontem teve de ter a escolta de 20 agentes policias para chegar à sede da Federação Belga onde conheceu o seu castigo. 10 jogos, ou seja, o periodo que vai até 23 de Novembro deste ano. Quanto a competições europeias, caberá à FIFA e UEFA decidirem, mas o provável é que também não dispute os quatro primeiros encontros da Champions League onde o conjunto de estreia. Uma equipa onde ele é a grande estrela, mas onde muitos já se deram conta de que longe da maturidade que se previa que teria, Witsel deslumbrou-se com a sua explosão precoce. A displicência como se atira ao lance é a prova. Do outro lado está um jogador de 29 que terá de ser operado, acompanhado e que até ao próximo ano não voltará aos relvados. Perdeu um ano da sua carreira. Porque tem então Witsel apenas três meses de castigo?
Desde sempre as lesões graves provocaram o repúdio do meio futebolistico, especialmente se são resultados de uma acção deliberada. Como aqui sucede. Não há um choque involuntário, uma disputa acesa da bola, nada que desculpe Witsel. E no entanto a sua suspensão é inferior a de muitos outros casos que não implicaram um afastamento tão grande do outro jogador em causa. Basta ver a sanção a Pepe, também de 10 jogos, que num acto de pura loucura agrediu um jogador do Getafe, que no entanto no fim de semana seguinte estava a actuar pela sua equipa. Lembramo-nos igualmente da entrada de Pogatetz sobre Rodrigo Possebom, na sua estreia pelo Manchester United, do golpe a Henrik Larsen por um defesa do Olympique de Lyon em plena Champions League e que o afastou dos relvados vários meses, da lesão ao promissor Juninho por Michel Salgado. Ou da lesão do arsenalista Eduardo em 2008 que o impediu de ir ao Europeu pela Croácia. Tudo isto espelham casos de extrema violência que resultaram num largo periodo de actividade do agredido. E todos os agressores tiveram suspensões minimas para o mal que causaram.

Sou um admirador confesso do talento inato de Axel Witsel. Apesar da baixa de forma recente - espelho claro do seu desconforto com a falta de desafios fora do pequeno campeonato belga - é uma das bandeiras da nova e talentosa geração do futebol das Ardenas. Mas sou igualmente admirador do fair play. E não podemos ter campanhas, mensagens e tudo o mais que se invente a publicitar o fair play e depois apresentar uma tão cruel dualidade de critérios. Wasilewski terá a oportunidade de ver, a partir de 23 de Novembro, Witsel jogar. Sem poder quase mover-se com normalidade. Não seria justo que, num caso de uma lesão grave e intencionada, o jogador causante fosse suspenso exactamente o mesmo periodo que demore o regresso do rival à competição? Não é também isso verdade desportiva? Para que servem estas datas sem sentido de um, dois, três meses? Merece Witsel jogar este ano e Wasilewski não.
Se por doping se podem suspender jogadores por um ano, porque não fazer o mesmo quando lesionam colegas de profissão, desrespeitando todas as regras não escritas do cavalheirismo que deu origem ao beautiful game?
O encontro já estava decidido há muito. Depois de um lance confuso o árbitro aponta para o ponto de penalti. O estádio está em suspeno. O penalti não conta para nada. Ou conta? Um homem avança por entre a multidão. Pega na bola, posiciona-se. Dispara. Golo. Delirio nas bancadas, um grito que há muito queriam que voltasse a ecoar nos céus de Kiev. Na noite do regresso Andrei Shevchenko soube voltar atrás no tempo.

Para muitos um dos melhores avançados da última década.
O ucraniano Andrei Shevchenko é hoje um fantasma daquele endiabrado jovem de 22 anos que surgiu no enésimo Dinamo de Kiev orientado por Valery Lobanovksy. Era uma estrela das camadas jovens e há muito que a Europa o conhecia quando despontou finalmente ao lado do também jovem e talentoso Serguei Rebrov. Em dois anos o timido avançado tornou-se no icone do futebol de leste. Na Ucrânia vencer titulos com o clube que mais trofeu conseguiu na história do futebol soviético não era novidade. Mas brilhar na Europa como logrou aquele onze era outra história. Desde os dias de Belanov, Blokhin e companhia que não se ouvia falar de uma equipa tão acutilante e perfeita como a que montou o técnico ucraniano em 1998. Fizeram uma Champions League inesquecivel caindo aos pés do Bayern de Munchen numas meias-finais disputadíssimas. Falharam a final mas entraram para a história.
Pouco tempo depois o sagaz Berlusconi conseguiu aquilo por que meia Europa suspirava. O seu AC Milan estava longe do fulgor do inicio da década e Il Cavalieri queria um novo projecto repleto de magia e sedução. E quem melhor que Sheva para o dirigir. Com o ucraniano na frente ao lado do veterano alemão Olivier Bieroffh o ataque milanês voltou a ganhar a efectividade perdida. Os 25 milhões de euros que custou foram rentabilizados no primeiro ano tornando o avançado no primeiro estrangeiro a sagrar-se melhor marcador da prova no ano de estreia. Em 32 jogos na Serie A o ucraniano apontou 24 tentos. Um feito que repetiria 4 anos depois, em 2003/2004 o ano em que o clube milanês voltou aos titulos nacionais. No ano anterior já a equipa tinha feito história em Manchester. Numa disputa final contra a Juventus, os milaneses lograram conquistar a sua 5 Champions League. O jogo acabou empatado e na série de penalties coube a Shevchenko apontar o remate decisivo. Fazendo valer-se da sua frieza não falhou e fez história. Hoje em dia é o quarto maior goleador da história da Champions League, tornando-se no único atleta ucraniano em erguer o máximo trofeu de clubes do Velho Continente.

Shevchenko rapidamente se tornou numa figura unânime no Calcio e em Milão. Com Kaká atrás de si formou uma dupla diabólica apoiada no trabalho a meio campo de Pirlo, Gattuso, Ambrosini, Seedorf, Rui Costa ou Redondo. O técnico Carlo Ancelloti - curiosamente o que não o quis no seu novo projecto - sacou dele o melhor e permitiu jogar sempre descaído nos flancos onde podia utilizar melhor a sua velocidade letal. Dessa forma, explorando os espaços ganhos pelos colegas, Shevchenko tornou-se no pesadelo das defesas contrárias. Em 2004, contrariando a regra que entrega o trofeu ao vencedor de uma grande competição de clubes ou de selecções, bateu Deco na luta pelo Ballon D´Or. Um triunfo para compensar o génio do ucraniano depois de no ano transacto ter perdido para o jogador da Juve Pavel Nedved. No ano seguinte, 2005/2006, a história mostrou pela primeira vez a sua face mais amarga. De novo na final da Champions, Shevchenko foi encarregue de apontar o penalti decisivo contra o Liverpool. Falhou e os ingleses levaram o titulo para casa. Nesse mesmo ano o avançado logrou o feito de levar pela primeira vez a Ucrânia a uma grande prova internacional. Apurados para os quartos de final, depois de eliminar em penaltis a Suiça, os ucranianos foram destroçados pela squadra azzura.
Nesse mesmo Verão Shevchenko não resistiu à chamada de Roman Abramovich e deixou Milão por Londres para se juntar ao Chelsea. Desde o inicio mostrou pouco entendimento com José Mourinho que rapidamente o relegou para o banco. Começou aí a ruptura de técnico e presidente mas nem com a saída do português fez com quem o avançado ucraniano voltasse ao seu melhor nivel. Depois de dois anos apagadíssimos, o Milan voltou a conseguir os seus serviços, por um breve empréstimo, mas no S. Siro já não havia rasto do letal Sheva de anos antes. Chegado o final do ano sem lugar em Londres ou Milão o dianteiro preferiu um tranquilo regresso a casa. O Chelsea não colocou entraves e hoje o mitico número 7 volta a ser a bandeira de uma equipa rejuvenescida com o génio de Milievsky e Alyev e que aspira voltar aos grandes palcos europeus. Agora com o filho pródigo de volta aos comandos da nave.

