Quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

se inventou o jogo. Aí se prepara o futuro. Depois de Sepp Blatter e Michel Platini defenderem há muito que era necessário voltar a estruturar a definição dos planteis das equipas, a Premier decidiu aprovar uma nova regra que obriga cada clube a actuar com oito jogadores formados nas ilhas britânicas. Escapam a questão da nacionalidade e armam-se perante a forte crise que, tarde ou cedo, os atingirá. Mas, essencialmente, dão um passo chave para combater a assimetria que hoje em dia torna o futebol num jogo cada vez mais de elites.

É óbvio que o despoletar da reunião de ontem da Premier League é mais a questão financeira dos clubes do que a moral de futuro. Por um lado é inevitável olhar com regozijo para as medidas tomadas (seguir-se-ão as contas do clubes de forma a impedir a participação de clubes com dividas) que poderão ser o golpe de efeito que a Premier precisa. Um campeonato que se tem vindo a endividar (como praticamente todos, é verdade) e que tem de sanear as contas agora para não destroçar o futuro e seguir o caminho de velhas glórias como Leeds, Nottingham, Norwich, Newcastle e afins, hoje a militar nos escalões inferiores pelo descontrolo total de contas. Por aí se realizou o encontro e por aí os jornais exploraram a questão noticiosa. Mas quiçá, o mais importante seja mesmo a decisão menos mediática e mais eficaz. A decisão que pode revolucionar o futuro do futebol inglês.

 

O bom momento da selecção inglesa não esconde o grande problema da formação britânica. Nem as boas prestações das selecções juvenis. Há mais estrangeiros que nativos a actuar na Premier League, apesar da limitação que a própria FA sempre manteve a que fossem estrangeiros com um minimo de internacionalizações pelo seu país. E isso sempre foi a principal razão apontada à falta de novos craques ingleses. Os clubes, diziam, preferiam apostar num estrangeiro consagrado (de cracks mundiais a jogadores de nivel medio) que formar um jovem da casa. E hoje é fácil analisar os planteis dos grandes e não encontrar muitos homens da casa. Mas a questão da nacionalidade é melindrosa (e legalmente questionável pela UE) o que leva à criação do conceito de formação local. Sendo assim, a partir da próxima época, cada clube poderá inscrever um máximo de 25 jogadores (o Liverpool tem, por exemplo, 60 jogadores entre equipa principal, empréstimos e reservas) dos quais 8 têm de ter menos de 21 anos e ter 3 anos a actuar ou a formar-se em equipas inglesas e galesas. Ou seja, Cesc Fabregas, que chegou aos 16 anos ao Arsenal, seria um destes elementos apesar de ser espanhol. Estaria ao mesmo nível que Macheda, Kakuta, Denilson, Nemeth ou qualquer jovem promessa mundial formada nos grandes clubes.

E aí está o quid da questão. Além de garantir o futuro do futebol inglês (a medida vai obrigar essencialmente os clubes de pequena e média dimensão a apostar na formação local seguindo o exemplo do West Ham Utd ou Fulham, por exemplo) não impede que os grandes clubes continuem a captar no resto do Mundo as maiores promessas do futebol mundial, sempre e quando tenham bebido a formação futebolistica nas ilhas. A medida assim evita baixar a qualidade e fechar o futebol inglês ao futuro - seja nacional ou internacional - mas garante que esse número de vagas (um terço) impeça que os clubes gastem fortunas em jogadores estrangeiros de nível médio que hoje são uma constante na esmagadora maioria dos planteis. A ideia é tornar a Premier uma liga ainda mais de elite. Elite mundial e elite no futuro da formação que  nem as ameaças recentes aos grandes poderá travar. Chelsea, Liverpool, Man Utd ou Arsenal continuarão a lançar estrelas dos quatro cantos do Mundo mas o resto da Premier (e alguns destes clubes claro) garantirão também o futuro dos Pross.

Uma decisão que antecipa o que a UEFA e FIFA querem ver aplicados a nível mundial e que pode reequilibrar a balança depois do suícidio futebolistico e desportivo que foi a lei Bosman. Portugal, sempre atrasado nestas questões, só tem de seguir as pautas da Premier. Afinal temos a segunda liga europeia com mais jogadores estrangeiros (sem qualidade, diga-se de passagem) e um dos projectos de formação mais complexos e problemáticos da actualidade. Adoptar uma medida similar agora significaria relançar a juventude portuguesa e preparar o futuro da selecção, subir o nível médio dos clubes nacionais e afastar dos relvados portugueses a esmagadora maioria de jogadores estrangeiros que, em muitos casos, não tem qualidade para actuar nem na segunda divisão de uma qualquer liga europeia. Caso contrário, é ir de mal a pior...



Miguel Lourenço Pereira às 21:58 | link do post | comentar | ver comentários (2)

O FC Porto apresentou duas faces em Londres e ficou mais uma vez provado que o melhor ataque nem sempre passa por utilizar muitos avançados. Jesualdo apostou num 4-3-3 que durante largos períodos da primeira parte chegou a parecer-se com um 4-5-1. E assim soube controlar a avalanche ofensiva do Chelsea. Quando quis jogar de igual para igual perdeu o controlo do jogo. E viu a sorte mudar de banda. Um jogo onde se percebe as diferenças de duas equipas através do seu pivot. Entre Fernando e Essien esteve toda a diferença.

Jesualdo Ferreira não conseguiu terminar a malapata dos dragões. Mas, tal como sucedeu em Old Trafford, esteve muito perto. E como sempre, são os pequenos detalhes entre uma equipa consolidada e um projecto em constante renovação, que fizeram a diferença. Se a muitos surpreendeu ver FalcaoVarela no banco, a verdade é que a grande surpresa chamou-se mesmo Guarin. O médio colombiano há muito que não era opção, mas Jesualdo quis dar-lhe a batuta do meio campo e a verdade é que o jovem centro-campista não defraudou. O problema azul e branco não esteve no miolo, mas sim nas alas. Rodriguez e Mariano eram (infelizmente) iguais a si próprios e entregavam todo o flanco aos potentíssimos laterais do Chelsea (até um Ivanovic adaptado fez o que quis pela direita) que criavam constante desiquilibrios ao sector defensivo. Com esta aposta Jesualdo apregoava a contenção, o controlo e o contra-golpe com a ajuda das cavalgadas de Hulk. E assim foi durante 45 minutos, sofridos ao inicio, controlados posteriormente. Foi na segunda parte que o Chelsea desiquilibrou a balança, com um golpe que inclui mestria e sorte de Anelka. O golo virou o jogo. O FC Porto foi à procura do prejuízo e mudou o esquema abruptamente. E perdeu o (pouco) controlo do jogo que detinha. Falcao esteve sempre só na área e Varela, apesar de romper mais que Mariano, não tinha a mesma disciplina táctica. O Chelsea tomou as rédeas do jogo e podia ter ampliado a vantagem. Mostrou-se superior em toda a linha e Helton salvou uma derrota de maior dimensões. 

No entanto, é preciso olhar com realismo para a exibição azul e branco.

O FC Porto não tem estaleca para ombrear com o Chelsea, claramente um dos grandes favoritos a vencer a Champions deste ano. Faltam-lhe jogadores realmente desiquilibradores no meio-campo e um ritmo de jogo mais intenso. A luta dos dragões é outra, mas mesmo assim o conjunto portista mostrou-se a um óptimo nível. Longe das (tristes) goleadas sofridas contra o Arsenal e Liverpool, o Porto foi disciplinado tacticamente e nunca desistiu de chegar ao empate. Alvaro Pereira é cada vez mais uma certeza e Helton parece renascido para os grandes momentos. E se Raul Meireles continua igual a si próprio (ou seja, incapaz de tomar a batuta da equipa) e o veloz Hulk segue sem marcar na Champions, a verdade é que é Fernando o elemento fulcral na estratégia de Jesualdo Ferreira. Só que, até aí, se percebe as diferenças do conjunto portista com o gigante londrino. Fernando foi o melhor em campo dos campeões nacionais. Pautou o jogo defensivamente de forma notável, com recuperações magistrais e alguns lançamentos em profundidade letais. Mas acabou eclipsado por Michael Essien e no final perdeu a cabeça (e a possibilidade de jogar contra o Atlético de Madrid, o jogo decisivo do apuramento, no Dragão).

 

A grande (e decisiva) diferença entre o jogo limpo e correcto de Fernando e a forma imponente de Essien está na construção ofensiva. O ganês jogou como o pivot mais recuado de um meio campo com Lampard e Ballack mas nunca se limitou a tarefas ofensivas como o pivot portista. Todo o jogo do Chelsea passa pelos pés de Essien. É ele quem comanda a batuta da defesa. É ele que distribui as primeiras bolas. É ele que lança os dardos venenosos para as alas. E muitas vezes é ele quem ensaia o remate. Um jogador completo que enche o campo não só com o pulmão (Fernando também correu bastante), mas com a inteligência de saber posicionar-se como poucos. Em Essien o técnico Carlo Ancelloti tem o pendulo certo para equilibrar uma equipa com uma linha ofensiva devastadora (e ontem faltaram Drogba, Deco, Cole, ...) e um sector defensivo extremamente sóldio. Enquanto isso Jesualdo Ferreira utiliza Fernando essencialmente num exercício de contenção (como já o fazia com Paulo Assunção) deixando apenas a GuarinRaul Meireles a criação de jogo (eles que também são, essencialmente, elementos de cariz defensivo). Aí esteve a fraqueza (ou a limitação) azul e branca.

Muitas vezes são os golos que fazem a diferença e ontem Anelka provou-o. O FC Porto podia ter saído com um empate de Stanford Bridge mas o caudal ofensivo dos azuis e brancos nunca teve a mesma dose de susto que o dos londrinos. Mas os jogos ganham-se realmente no meio campo, e apesar do tridente portista ter-se mostrado uns bons furos acima do habitual, continua a ser gritante a diferença entre os dragões e os grandes da Europa. Porque quando se está habituado a jogar a alto nível constantemente sabe-se que não há um só jogador em campo que se limite a uma postura unicamente de contenção. Especialmente quando esse jogador tem a função primordial de dar equilibrio aos outros dez.



Miguel Lourenço Pereira às 08:21 | link do post | comentar

Terça-feira, 15 de Setembro de 2009

Quando o Manchester United subiu ao relvado de Roma no passado mês de Maio enfrentava a melhor equipa do continente e uma velha maldição. Desde 1990 que uma equipa não logra repetir a conquista da Champions League e os Red Devils foram apenas a 19 equipa a confirmar a maldição. Este ano há 31 conjuntos à espera de que o Barcelona continue a malapata...

 

Muitos avançam que esta é a Champions League mais disputada da história. E provavelmente têm razão. Há muitas equipas históricas que regressam com a sua melhor versão (Real Madrid, Juventus, Inter, Bayern Munchen), os grandes da temporada passada (Barcelona, Man Utd, Chelsea, Liverpool) continuam fortíssimos e há sempre espaço para as surpresas (Lyon, Wolfsburg, Bordeaux, Sevilla, AZ Alkmaar, FC Porto) que desbaratam as mais previsiveis opiniões. No ano que marca igualmente o regresso a um formato mais próximo da versão original da prova (em 32 equipas 18 são campeãs nacionais)  há vários estreantes que podem surpreender enquanto se confirma a boa forma de várias ligas europeias menores como o Chipre (segunda presença consecutiva), Israel, Hungria e Bélgica.

 

Este ano é também de estreia para a grande final que será disputada pela primeira vez num sábado em Madrid no Santiago Bernabeu. Um fim de semana dedicado ao futebol, segundo Michel Platini, que Florentino Perez quer ver como o coroar do seu projecto mas que em Barcelona sonham ser a definitiva afirmação do Pep Team. A liga inglesa parece mais débil este ano face à espanhola mas a eficácia de Chelsea e Man Utd é algo a ter em conta. José Mourinho regressa como uma equipa mais à sua medida e o futebol português volta a contar apenas com um representante, o FC Porto envolvido num dos grupos mais complicados com o Apoel, Atlético de Madrid e o conjunto de Carlo Ancelloti.

 

Aproveitando o arranque da prova que se prolongará até ao próximo dia 22 de Maio, aqui fica uma pequena análise e a previsão dos apurados nos oito grupos que compõem a edição deste ano da prova por excelência do futebol europeu.

 

Grupo A

Este ano a Juventus parece recuperar a chama que apresentava no ínicio da década. A transição (in)tranquila de Claudio Ranieri deu lugar a um sólido conjunto orientado por Ciro Ferrara, antigo campeão europeu às ordens de Lippi. Com Diego como alavanca de uma equipa magistralmente equilibrada, a Vechia Signora arranca como a favorita de um grupo que recupera também outro clássico. O Bayern Munchen arrancou com o pé esquerdo na Bundesliga mas tem vindo a reencontrar-se graças à dupla Robben-Ribery. Será um osso duro de roer e apresenta-se como a equipa alemã mais em forma. De França chega o Girondins Bordeaux. A equipa de Blanc falhou por pouco o apuramento na época passada e este ano é um candidato sério a surpresa do ano. Apurar-se num grupo complicado parece ser o primeiro desafio para Gourcouff e companhia enquanto que ao Maccabi Haiffa resta esperar que a desgastante viagem a Israel sirva como ponto a favor nesta estreia israelita na prova.

 

Previsão: Juventus, Girondins Bordeaux

 

Grupo B

O vice-campeão europeu não está tão forte (Cristiano Ronaldo e Tevez foram fulcrais na campanha passada) mas continua a ser um dos máximos favoritos ao titulo. Um bom arranque na Premier é um cartão de visita inconsequente para uma equipa temida por tudo e todos. Já o Wolfsburg passou o último mês a destroçar a opinião daqueles que viam a equipa alemã como fortissima candidata a surpresa do ano. Um péssimo arranque na prova doméstica retira favoritismo ao conjunto que disputará com o CSKA Moscow e o Bessiktas o apuramento para a próxima fase.

 

Previsão: Manchester United, Wolfsburg

 

Grupo C

Três antigos campeões europeus em horas baixas e uma estreia absoluta. O Zurich vem a esta festa apenas para participar porque as contas resumem-se provavelmente aos confrontos directos entre AC Milan, Real Madrid e Olympique Marseille. O conjunto espanhol parte em clara vantagem por ter montado uma verdadeira esquadra de estrelas deixando provavelmente a milaneses (que não conseguem levantar a cabeça em casa) e marselheses (o mais débil dos conjuntos franceses em prova) a luta pelo segundo posto.

 

Previsão: Real Madrid, AC Milan

 

Grupo D

O FC Porto tem fama de arrancar mal a prestação europeia e começar em Stanford Bridge não ajuda. O Chelsea é - a par de Barcelona, Man Utd e Real Madrid - o grande favorito a levantar o troféu e deverá vencer o grupo tranquilamente. Aos dragões e colchoneros ficará reservada a luta pelo segundo lugar. O conjunto português tem mais experiência e o ano passado eliminou os madrileños, mas sem vencer nenhum encontro. O Atlético de Madrid vive outra crise instuticional mas o poder ofensivo de Forlan e Aguero pode revelar-se decisivo. O Apoel procurará emitar os feitos do Anorthosis mas o grupo parece complexo demais para o conjunto cipriota.

 

Previsão: Chelsea, FC Porto

 

Grupo E

Um arranque tremido do Liverpool não apaga o facto de Rafa Benitez ser um perito em provas a eliminar. O conjunto inglês é sempre mais favorito na Champions do que na Premier e este ano arranque com um grupo acessível mas traiçoeiro. O Lyon parece ter recuperado da depressão do ano passado e a Fiorentina já provou ser um osso muito duro de roer. Os hungaros do Debrecen farão de tudo para provar a subida de nível do futebol magiar mas deverão limitar a lutar pelo terceiro posto, que continua a dar acesso à Europe League.

 

Previsão: Olympique Lyon, Liverpool

 

Grupo F

Juntar Etoo e Guardiola ou Mourinho e Ibrahimovic parece irónico demais para ser real. Mas Barcelona e Inter repartem as atenções no grupo mais complicado de toda a fase de grupos. Os catalães são favoritos mas os italianos parecem estar no bom caminho para voltar às grandes noites europeias e o duelo será até ao final. Pelo meio duas deslocações temiveis ao leste. O Dinamo de Kiev, de Aliev, Milevsky e Shevhchenko já mostrou no ano passado na Taça UEFA que pode ser competitivo e o Rubin Kazan é um desconhecido mas viajar para lá de Moscovo será tarefa titântica para qualquer conjunto.

 

Previsão: Barcelona, Inter

 

Grupo G

Se o F é o grupo mais complicado o G é certamente o mais acessível dos oito. Sevilla lidera uma armada de equipas de nivel médio europeu que lutarão até ao fim para conseguir os milhões do apuramento. Dos alemães do Sttutgart aos escoceses do Glasgow Rangers sem esquecer os romenos do Unirea (ainda está viva a memória do Cluj), a falta de um favorito claro deixa tudo em aberto. E com os grandes a suspirar por sacar daqui o seu rival na fase seguinte.

 

Previsão: Sevilla, Sttutgart

 

Grupo H

Para os amantes do beautiful game o grupo mais estético dos oito em disputa. O belo futebol do Arsenal de Arsene Wenger encontra rivais à altura nos campeões belga e holandês. O Standard Liege de Lazlo Boloni apresenta a nova geração do futebol belga enquanto que o AZ Alkmaar tenta sobreviver à era pós-van Gaal sem perder o perfume do seu futebol. Pelo meio o pragmatismo do Olympiaikos pode complicar as contas a qualquer um.

 

Previsão: Arsenal, AZ Alkmaar 



Miguel Lourenço Pereira às 16:14 | link do post | comentar

Com o arranque da Champions League arranca igualmente a UEFA Fantasy League, uma iniciativa da organização para promover a competição entre os fãs da prova. O formato implica a criação de uma equipa ficticia com um orçamento limite. A partir daí o jogador deverá compor a sua equipa europeia, com jogadores de todos os clubes presentes em prova. Tudo isto num total de 15 elementos.

 

Ao mesmo tempo a possibilidade de criar ligas privadas abre caminho à saudável disputa sobre quem seria o treinador de bancada ideal. O Em Jogo junta-se a esta iniciativa graças aos simpáticos convites dos blogs Finta e Remate e Zé do Boné. Nestas ligas poderão encontrar a equipa com o nome deste weblog capitaneada inevitavelmente pelo barcelonista Xavi.

 

Podem criar a partir daqui a vossa equipa e aderir às ligas atrás mencionadas, ou criar o vosso próprio campeonato.

 

Juntem-se ao desafio e boa temporada.


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Miguel Lourenço Pereira às 15:23 | link do post | comentar

A partir de hoje arranca mais uma temporada europeia a sério. Passados os trâmites das eliminatórias e pré-eliminatórias, onde lá se foi separando o trigo do joio, o futebol europeu arranca para a nova Champions. Uma prova refrescada e rejuvenescida e tudo graças ao novo modelo aplicado por Michel Platini. Ao presidente da UEFA um sincero obrigado.

 

18 campeões estarão em campo, um recorde desde que a prova número um do futebol europeu se alargou a 32 equipas. Mais da metade dos rivais no terreno de jogo ostentarão o titulo de campeão nacional, a base sob a qual se desenvolveu a Taça dos Campeões Europeus durante largas décadas. No fundo a redistribuição das equipas na fase de grupos e a criação de um play-off de apuramento que separa os campeões nacionais dos terceiros e quartos classificados das restantes ligas, é um passo na direcção certa do que deve ser uma prova europeia. Aberta a tudo e a todos. Uma prova que seja o oposto da mirabolante ideia da Superliga europeia defendida pelas clubes grandes. Uma prova onde há lugar para o Apoel, Debrecen, Zurich e companhia. Uma prova justa e cada vez mais interessante.

 

Aos suspeitos do costume juntam-se muitas caras novas, também resultado da interessante época que se viveu no ano passado na Europa. Dos 18 campeões nacionais há um pouco de tudo. Desde os inevitáveis Barcelona, Dynamo Kiev, Manchester United, FC Porto ou Inter às surpresas Wolfsburg, Bordeaux, Rubin Kazan ou Olympiakos. E o novo ranking da UEFA abriu as portas a Unirea, Standard Liege, Rangers, BessiktasAZ Alkmaar. A estes juntam-se ainda os campeões da pré-eliminatória (Apoel, Debrecen, Zurich, Macabbi Haiffa)  num cenário repleto de estreias e potenciais surpresas. É claro que Inglaterra, Espanha e Itália continuam a enviar 4 equipas (estão todas presentes) e que há vários continentes com mais do que um representante, o que não é o caso de Portugal face à prematura eliminação do Sporting. Mas o panorama é claro e o sorteio espelha-o bem. O futebol europeu está mais justo e é possível imaginar AZ, Standard, Rangers, Rubin,Wolfsburg ou Bordeaux a disputar um lugar nos oitavos-de-final.

 

Os criticos falam em desiquilibrios entre os grandes e os pequenos mas esquecem-se de que só deste modo é possível aos mais pequenos crescerem e afirmarem-se no espectro europeu. As vitórias de Steaua ou Estrela Vermelha no passado só sucederam porque não havia um esquema pré-definido que eliminasse os campeões de paises tão humildes na cena europeia. Pode ser que o Real Madrid acabe por golear o Debreceni ou o Apoel caía em Londres de forma estrepitosa. Mas o ano passado lançou o alerta e o futuro está aí para quem o quiser ver.

 

O futebol europeu só tem a ganhar com uma Champions League para todos. Divulgar-se-ão novos craques, novos conjuntos, novos recantos deste continente e a festa deixará de ser um exclusivo daqueles que já têm tudo e teimam em nunca dar nada...



Miguel Lourenço Pereira às 02:01 | link do post | comentar

Segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

Ter o Sporting de Braga lider de uma prova que se ameaça tornar cada vez mais bipolar e, ainda por cima, a romper as regras establecidas do futebol português jogando pela manhã é uma dupla lufada de ar fresco. Por um lado confirma-se que há equipas sólidas fora do espectro dos grandes e dispostas a dar luta pelos primeiros postos. E em segundo lugar – e talvez algo mais relevante – porque se começa a perceber que o futebol pode ser um evento familiar e não uma after-hour party para uns quantos privilegiados.

É uma tradição clássica nas ilhas britânicas e já encontrou alguma adaptação ao resto da Europa. Em Portugal não é novidade desde que houve jogos da Liga Vitalis a disputar-se antes da hora do almoço mas na primeira divisão é uma bela estreia. Disputar às 11h00 da manha um encontro de futebol é um elogio ao bom senso. Aproveitando o bom tempo veraneio, é um convite às famílias desfrutarem de um evento que deveria ser de todos. Os horários impostos pela televisão fizeram da liga portuguesa uma das mais fragmentadas da Europa (pode haver jogos de quinta a terça feira, enquanto que em Espanha e Itália, por exemplo, só se joga ao fim de semana) e sempre tarde e a más horas. Acabou-se há muito o historial de jogos dos grandes a meio da tarde sob um sol tranquilo por troca com os encontros na fria ou chuvosa noite que se arrasta quase até ao final do dia. Devolver essa ilusão familiar aos adeptos e programar encontros para uma hora tão tranquila é uma decisão de se aplaudir de pé. Um primeiro passo positivo que não deve ficar por aqui e que deveria significar o início da normalização da exploração mediática do futebol português por muito que se queixe o próprio Domingos Paciência.
 
Menos dias com jogos, melhores horários, preços mais acessíveis e receitas distribuídas de forma justa. Acabar com os horários criminais, com as bancadas vazias e com os dias a meio da semana com jogos a altas horas da noite é um dos elementos chaves para a revitalização do futebol português.
 

No terreno de jogo a dança é diferente. Apesar das goleadas de FC Porto e Benfica (ambos com chapa quatro) indicarem que a liga portuguesa se assemelha ao que poderá ser este ano o cenário das grandes ligas europeias (Real Madrid vs Barcelona, Inter vs Juventus, Manchester United vs Chelsea) de uma bipolarização extrema, a verdade é que o líder mora mais a norte. Aliás, no espectro nacional mais a norte não podia ser. Braga é o representante português mais perto do Minho e olha para baixo e vê o país a seus pés. Futebolisticamente falando claro. Domingos Paciência foi arrasado pela crítica com o arranque desastroso na Europe League mas poucos esqueceram-se de que a novela Jesus fez com que o arranque da pré-temporada não fosse o ideal. Com um plantel sólido que se soltou dos pesos mortos (surpreendeu o caso Possebom mas até aí o Braga mostrou uma independência inusitada) e que conseguiu óptimas más valias. É um plantel equilibrado em todos os sectores, com um patrão rejuvenescido em Hugo Viana e uma linha ofensiva que promete. Mas o que impressiona mais ao ver este primeiro Braga do ano, que conta por jogos disputados as vitórias conquistadas, está a atitude. Não precisa de deslumbrar futebolisticamente para ser eficaz. Ao contrário, por exemplo, do conjunto arsenalista de Cajuda que era mágico no terreno de jogo e logo falhava nos momentos decisivos, este Braga é pragmático e eficaz. Começou a perder e mais do que isso, perdeu o seu grande maestro. Mas soube reagir, dar a volta no campo de um rival pela luta europeia. E provou ter estaleca. E para lutar por títulos é preciso ser-se essencialmente letal do que propriamente mágico. 

O baixíssimo nível de alguns conjuntos da liga deixa a nu aquilo que suspeitávamos. O campeonato português continua a estar muito nivelado por baixo e há equipas como o Setúbal, Belenenses, Leixões, Paços de Ferreira, Académica ou mesmo os recém-promovidos Leiria e Olhanense que irão passar o ano com o coração nas mãos. É praticamente metade da liga. Enquanto a imprensa se dedica a explorar o super-Benfica, o apagado Sporting ou o titubeante FC Porto, é fulcral que o Braga continua a ser o rosto da sobriedade ideal para encarar o ano. E que Nacional, Marítimo e Vitória encontrem rapidamente o seu caminho. Só isso pode trazer uma real competitividade a uma liga que precisa de vida urgentemente. 

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Miguel Lourenço Pereira às 12:35 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

Com a batida dramática e trágica de um tango, a Argentina caminha desastrosamente para um abismo que se começa a tornar dificil de contornar. Já não dependem matematicamente de si próprios e uma derrota em Montevideo, no último jogo, pode até significar a eliminação automática. No meio de tudo isto um falso Deus desespera o ânimo dos homens e, qual teimoso capitão, continua a navegar rumo ao abismo...

 

Já Nietszche falava sobre a importância do Homem em inventar os seus deuses e semi-deuses, essa necessidade constante de criar entidades superiores, mágicas capazes de triunfar quando todos os outros falham. O cultivo dos Deuses e heróis é tão antigo como o próprio Homem e o futebol, como manifestação cultural por excelência da última centúria, foi pródiga em criar os seus Super-Homens. Mas de todos eles, só um recebeu constantemente o estatuto divino, com direito a Igreja própria e fieis devotos. Um Deus humano, com direito a descida aos infernos da maldita cocaína, que sempre pareceu cómodo no seu papel de divindade pós-moderna, nessa mão marota e nesse olhar traquina e desafiador que levou um povo à loucura. Diego Armando Maradona é Deus para os argentinos. Um Deus poderoso, temivel e invencível. Um Deus que surge quando todas as luzes se apagam, um mito, um ser eterno e imortal. E não há nada pior do que destruir uma ilusão de milhões. Maradona - como qualquer um dos heróis futebolisticos, e não só - é mais Humano do que qualquer um de nós. E aos argentinos coube-lhes descobri-lo da pior forma.

 

No momento em que aceitou baixar do altar sagrado para descer à túrbia terra que Maradona se arriscou a sofrer na pele o sofrimento que está impedido aos divinos mas que é o pão nosso de cada dia no mundo dos pobres mortais. Aceitar tomar o controlo da selecção celeste foi um desafio para um homem, que não Deus, que sempre gostou de opinar sobre o trabalho alheio mas sem nunca ter dado provas - fora de campo está claro - da eficácia dos seus mandamentos. Ao dar-lhe o comando da selecção a federação argentina (com graves problemas nas mãos face a uma liga totalmente endividade e em grave crise desportiva) quis resolver todos os problemas com um golpe de efeito. Afinal, não era o primeiro ser futebolistico dos relvados que sobe também ao panteão dos herois dos bancos. Mas não foi, o tango desafinou e a dança fez-se de pés trocados. E a Argentina entrou em depressão.

O problema não é apenas a derrota de ontem diante do Paraguai (que confirmou com classe o apuramento para o Mundial, atrás do Brasil). Nem a humilhação imposta pelo escrete canarinho em Rosário onde nunca houve verdadeiramente a esperada batalha. O problema vai mais além. Apesar de estar em quinto posto na classificação (o lugar que leva ao play-off com uma das equipas da fase de qualificação América do Norte) a equipa está diante de todas as possibilidades. Joga com o Peru (que se arrasta na classificação) e com o Uruguai, que segue imediatamente atrás na classificação. Uma derrota em Montevideo pode ser suficiente para afastar a equipa do Mundial, mesmo vencendo os peruanos. Um duplo triunfo significa o apuramento, seja de forma directa (se o Ecuador não vencer os dois jogos) ou a ida ao play-off. Como sucedeu há quinze anos, quando Maradona voltou para pegar na equipa - em campo - e os argentinos eliminaram a Austrália.

 

Diego Armando Maradona tem um problema mais grave ainda. Ele próprio.

Não mostrou, até hoje, nenhuma aptência como técnico. E muito menos como seleccionador. Não tem um esquema de jogo nem um sistema táctico coerente. Mistura jogadores consagrados com veteranos e jovens promessas numa amalgama sem ordem nem sentido. As lesões podem não ajudar mas é impensável que, de um jogo para o outro, o técnico altere por completo um sector, como sucede regularmente com a defesa e o ataque, onde o sistema táctico prende o talento de Messi de uma forma incompreensível num treinador que foi o primeiro defensor da liberdade táctica da ao argentino no Barcelona. Ao lado de Messi alternam-se Aguero, Tevez e até Lisandro, mas nenhum deles parece coabitar bem com o pequeno astro de Rosário. Mas nem é aí onde está o grave problema. É na defesa - apesar de Maradona fazer questão de referir que as derrotas são sempre obra do acaso e sorte do rival - onde o técnico altera o guardiao (entre Andujar e Romero) e toda a linha defensiva que vive dos já quase reformados Zanetti e Heinze, ou dos desconhecidos centrais do Velez ou Huracan, jogadores sem provas dadas e alguns deles com meia dúzia de encontros como profissionais.

O jogo da Argentina é uma confusão em cada instante. A lição táctica de Dunga deixou a nu as debilidades do conjunto e a derrota diante do Paraguai só acentuou ainda mais a problemática de apostar num treinador que não reage face às adversidades. Apesar de montar mal o onze, Maradona tem um grave problema no banco: é incapaz de mexer na equipa. Dessa forma, se as primeiras partes do conjunto celeste são penosas, as segundas são um drama. Um Mundial sem Argentina não é a mesma coisa, mas os "ches" estão agora a pagar na mesma moeda a exaltação de um falso Deus que os leva até ao precipicio.

 

Hoje em dia a figura divina de Diego minga a cada derrota que passa e de entidade divina começa a parecer-se a um falso profeta. O antigo número 10 tem dois jogos para evitar uma eliminação histórica, mas mesmo que consiga o apuramento, hoje em dia é fácil perceber que a Argentina é uma presa fácil. A albiceleste pode conseguir o passaporte para o Mundial, mas com Dieguito à frente do leme dificilmente abrirão as águas do mar Vermelho. O mais provável é acabarem afogados nas ondas, por adorar a deuses de barro...



Miguel Lourenço Pereira às 00:02 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quinta-feira, 10 de Setembro de 2009

dois anos atrás o orgulho dos ingleses, ferido de morte, arrastava-se pelas ruas que abriam as saídas de Wembley. Um correctivo da ousada Croácia provocou a eliminação inglesa na fase de qualificação para o Euro 2008. Dois anos depois a raiva dos Pross fez-se sentir e deixou no ar que Fabio Capello montou um conjunto capaz de lutar pelo titulo.

 

Os ingleses têm duas espinhas bem atravessadas. Uma chama-se Portugal e a outra Croácia. Os lusos foram responsáveis pela eliminação britânica no Euro 2000, 2004 e no Mundial de 2006. Uma ausência na África do Sul será sempre boa notícia. Mas a ferida mais recente tinha nome de país balcânico e ontem os adeptos dos Pross desfrutaram com a cura. Uma vitória expressiva, inequivoca e clara por 5-1 que confirmou o que já há muito se vinha avançando. Com oito triunfos em oito encontros a Inglaterra carimbou pela porta grande o passaporte para o próximo Mundial. E é hoje, a par da Espanha - também ela brilhantemente qualificada desde ontem - a máxima favorita europeia a vingar na África do Sul. Mas o que é que mudou tanto em dois anos para que os inofensivos ingleses se transfomassem numa equipa calculista, eficaz e a transbordar de raiva?

 

Fabio Capello é, claramente, o rosto da mudança.

O técnico italiano herdou uma selecção repleta de talentos no miolo do terreno mas com posições chave com falhas importantes. E pior, uma equipa descrente e sem motivação depois de sucessivas eliminações precoces quando sempre aspiravam a algo mais. Desde que a FA aceitou nomear Sven Goren Erikson que o debate do seleccionador estrangeiro perdeu força. Especialmente após o desastre de Steven McClaren, tido como dos poucos britânicos com pulso para a selecção. Capello foi bem recebido e rapidamente colocou mãos à obra. Detectou as falhas, montou um esquema táctico que varia entre o 4-4-2 e o 4-1-3-2, aproveitando a belissima geração de médios box-to-box disponível. Se os criticos diziam que era impossível fazer Lampard e Gerrard coincidir no terreno de jogo, o técnico italiano não se provou que estavam enganados mas também juntou à festa o brilhante Gareth Barry. Com esse trio de luxo no eixo do terreno abriu espaço à velocidade nas alas de Lennon e Young (com Beckham, Downing, Milner, ...) e à mobilidade ofensiva de Wayne Rooney, totalmente renascido. Heskey, Aghbonlahor, Defoe (e ainda com Owen a sonhar com um regresso) completavam o poderoso arsenal ofensivo dos Pross. A eficácia ofensiva estava garantida mas o principal problema estava na defesa. Na sempre inconstante defesa.

 

Perito em montar equipa de trás para a frente (como o provou em Milan e Madrid), o técnico percebeu que à parte do problema na baliza (onde Green e Foster são as principais opções) que coloca à Inglaterra um degrau atrás da Espanha (que nesse apartado conta com quatro guarda-redes de primeiro nivel)  era preciso criar um quarteto sólido. Os golos sofridos com a Croácia e Rússia na última fase de qualificação e a constante permeabilidade defensiva do conjunto nas últimas provas de primeiro nível deixavam muitas dúvidas por preencher. As oito vitórias logradas e os pouquissimos tentos sofridos provam que a opção de Cappello funcionou. Cole pela esquerda e Johnson pela direita estão em belissima forma e incorporam-se bem no ataque enquanto que Ferdinand, Terry, Upson, Richards oferecem todas as garantias no eixo. Longe de inspirar-se nas individualidades, Capello montou um conjunto sólido em cada sector, perfeitamente articulado e que sabe a que joga. Eficaz a defender, tremendo no pressing e temivel no ataque, a selecção da rosa exibiu este ano a sua melhor cara. Falta-lhe a rotação dos grandes jogos para chegar ao nivel competitivo de Brasil e Espanha (e provavelmente Itália, Holanda e Alemanha, os outros grandes favoritos a esta altura do campeonato), mas o trabalho desenvolvido pelo seleccionador começou já a dar os seus frutos.

 

E não se espante o mundo se os feitos de 1966 deixem de ser apenas uma recordação amarga do único triunfo internacional do país que inventou o futebol. A brilhante geração dos Pross está com sede de provar o que vale e está pronta a desafiar os titãs que hoje dominam o jogo que eles inventaram...


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Miguel Lourenço Pereira às 09:42 | link do post | comentar

Quarta-feira, 9 de Setembro de 2009

Já está online a crónica semanal publicada no Futebol Artte dedicada à ronda de qualificação para o próximo Mundial de Futebol e a delicada situação de alguns favoritos. Como sempre podem continuar a ler o artigo clicando no primeiro parágrafo.

 

"Hoje Portugal pode dizer, matematicamente, adeus ao próximo Mundial. Razões para a desastrosa campanha da selecção já foram analisadas mil e uma vez e não vale a pena chorar sob leite derramado. Portugal é um caso à parte, o único favorito que não depende de si. Os outros – e que outros – ainda correm. Por fora, mas correm. E a partir de hoje o mapa começa a ficar bem mais claro."
 


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Miguel Lourenço Pereira às 16:41 | link do post | comentar

No dia em que a Hungria defronta a selecção portuguesa ainda com leves esperanças de voltar a uma grande competição - o que não sucede desde os anos 80 - todos os olhos dos magiares estarão postos em Balazs Dzsudzsák.

 

É hoje em dia uma das mais cintiliantes estrelas da liga holandesa. Ao serviço do PSV confirmou-se definitivamente como médio de excepção e a sua equipa nacional precisa dele mais do que nunca. Dois anos depois de estrear-se como internacional, num jogo contra a Grécia, o jovem médio é hoje um jogador incontornável do futebol magiar. E tudo começou há seis anos atrás quando o jovem era a estrela local do Nyirulogs. O Debreceni, que começava então a sua ascensão no futebol hungaro, contratou-o com apenas 17 anos e emprestou-o na primeira época ao Letaverts onde começou a chamar à atenção chegando às selecções jovens hungaras. De regresso ao Debreceni afirmou-se como peça chave na conquista dos três titulos do conjunto magiar. Apontou 16 golos em três temporadas onde se revelou titular absoluto e fez também a sua estreia nas provas europeias, sem o sucesso dos seus colegas que agora estarão na próxima edição da Champions League.

 

Foi o sonho de dar o salto que o levou em 2007 a mudar-se para a Holanda. Sabia-se que em Itália e Inglaterra estavam loucos pelo jovem mas nenhum clube lhe oferecia as condições do conjunto de Eindhoven. Depois de um ano de adaptação, a época passada o médio explodiu definitivamente cotando-se como o melhor jogador da época do PSV ao lado da jovem promessa Ola Toivonen. Em 32 jogos apontou 12 golos e conseguiu 5 assistências. O seu estilo de jogo veloz e dinâmico serviram de chama para que o conjunto não caisse ainda mais na tabela classificativa, acabando a temporada em 4 lugar. Muito pouco para as ambições do hungaro que no defeso teve propostas de Inglaterra (falou-se em Liverpool e Aston Villa), mas que acabou por preferir ficar pela Holanda e no arranque da nova época foi a estrela do inesquecivel duelo com o Ajax que terminou com um 4-3 favorável ao PSV. Com dois golos do hungaro está claro.

 

Tido como um dos médios esquerdos mais promissores do futebol mundial, Dzsudzsák é uma referência incontornável numa nova geração de jovens talentos como Nemeth, Gera, ou  Bodnar e um dos futebolistas europeus que vale a pena seguir. A começar hoje no duplo confronto com as hostes portuguesas. 



Miguel Lourenço Pereira às 04:45 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Terça-feira, 8 de Setembro de 2009

No espaço de uma semana o futebol europeu despertou para uma realidade há muito presente e denunciada mas que passou sempre em claro. Chelsea, Manchester United e Manchester City estão na mira dos organismos federativos e do grande público mas o que é que realmente está por detrás de toda esta celeuma à volta da contratação de jovens prodigios?

 

Dois cenários, três jovens promessas a estrelas de amanhã. Seis clubes em disputa e um embróglio telenovelesco que ameaça não ficar por aqui. Mas, até aqui, nada de novo. Gael Kakuta, Paul Pogba e Jeremy Hélan são três dos nomes de maior futuro do futebol gaulês, hoje em dia a melhor escola de formação europeia. Nomes desconhecidos para o grande público mas que os olheiros atentos vêm seguindo desde os 14 anos e que pertencem à base de dados de qualquer clube grande que se preze. Claro que nenhum deles é maior de idade, o seu valor é ainda hipotético e baseado no potencial apresentado. Mas para Chelsea e para os dois clubes de Manchester isso foi suficiente. Como aliás, no passado, fizeram estes mesmos clubes...e quase todos os outros clubes europeus de renome.

 

Michel Platini anunciou há muito que ia empreender uma cruzada contra o que chamou de "escravatura juvenil". Ou seja, a chamada de grandes clubes à porta de jovens promessas acenando com milhares e um destino de luxo. Desses, muitos se vão perdendo pelo caminho e poucos são os que, realmente, conseguem dar o salto. Por cada Federico Macheda lançado por Sir Alex Ferguson no ano passado, há dez jovens contratados ainda como adolescentes que não passam a prova. Um fenomeno que se repete de clube para clube e que tem uma forte ligação ao próprio espectro cultural. Nos países ibéricos começa-se com a contratação de jovens sul-americanos.  Em França e Inglaterra exploram-se os mercados africanos e do centro da Europa. O que importa é não perder a próxima pérola. Que o diga o Barcelona que pescou Messi com 14 anos, pagando-lhe um tratamento médico fundamental para normalizar o seu crescimento. Com esse pretexto levou-o de Rosario a Barcelona com o beneplácito dos pais. E aí está a celeuma.

 

Os clubes formadores, habitualmente pequenas instituições ou clubes de nível médio, queixam-se de que os grandes tubarões aliciam as familias para garantir uma transferência ilegal. Segundo eles, em vez de contratar o jovem directamente ao clube, os clubes abordam as familias. Como estes são menores e não possuem contratos profissionais, é mais fácil transportar literalmente toda a familia - oferecendo casa e trabalho - para conseguir a autorização do que entrar em negociações com os clubes. E se a familia não acompanhar o menor na sua aventura o negócio nem é possível. Foi assim que o promissor  Kakuta chegou a Londres e que o Manchester abordou Macheda - então uma promessa de 15 anos da Lazio - e agora tentou fazer com Pogba, a grande estrela de futuro do Le Havre. O mesmo caso foi denunciado pelo Rennes, relativamente a uma abordagem do City a Helan. Uma estratégia usada no passado pelo Liverpool, Arsenal, Barcelona, Real Madrid, AC Milan, Juventus, Inter...uma estratégia que até já envolveu jogadores do Sporting (aliciados pelo Chelsea) e FC Porto. Uma estratégia que, dizem os puristas, desvirtua o futebol.

 

Se por um lado é preciso evitar ao máximo a injustiça dos desiquilibrios financeiros do futebol de hoje, por outro é preciso analisar caso a caso. A questão legal da maioridade não deve ser moral. Muitos cracks explodem antes de cumprir os 18 anos e possuem um potencial claro anos antes. Impedir a progressão da carreira de um jogador apenas utilizando a maioridade como base é uma perigosa falácia. Os grandes clubes têm as suas próprias escolas de formação mas o futebol globalizado é uma inevitabilidade e hoje em dia é impensável visitar os mais prestigiados centros de estágio do Mundo e não ver jovens de todas as nações. E isso é um elemento extremamente positivo para o desenvolvimento do jogo. Impedir Chelsea, United, Arsenal, Barcelona, Inter ou Ajax de contratarem jovens com menos de 18 anos é uma limitação injusta. Punir um clube por faze-lo da forma escandalosa como foi anunciada, é criar um incêncio onde nem há verdadeiramente fumo. Como o é a situação inversa. Os clubes que mais apostam na formação - na esmagadora maioria dos casos por falta de recursos - não podem ser constantemente prejudicados pelo dinheiro dos grandes e os sonhos dos jovens cracks.

 

Para isso foi criado um sistema de compensação de formação que deve ser regularizado a todos os niveis para garantir que, seja o caso que for, um clube que aposte na formação de um atleta por um periodo minimo de um deve sempre receber uma quantia considerável pela sua transferência e a afirmação. Isso é a justiça do futebol. O resto são moralismos politicamente correctos que só servem para travar o inevitável. 



Miguel Lourenço Pereira às 14:54 | link do post | comentar

Segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

Lembro-me em pequeno de que ver Europeus e Mundiais de Futebol significava torcer por uma equipa em especial porque Portugal nunca por lá andava. Lembro-me da festa que foi a presença no Euro 1996 em Inglaterra, a primeira etapa bem sucedida da "geração de ouro". Os de memória curta têm na cabeça os últimos 10 anos onde Portugal não falhou uma única prova. Eu sou de outro tempo. Sei que o Mundo não acaba. Mas, mais do que isso, para mim este é um caso claro. Portugal não merece estar na África do Sul.

 

Sofro como qualquer português com as desditas da selecção. Sentir a bandeira e o hino num desporto que é capaz de unir uma nação como nenhum outro torna esta questão ainda mais complexa. Há os que defendem que a sua equipa tem de ganhar sempre, nem que seja com um golo ilegal no último segundo. Para esses Portugal tem, obrigatoriamente, de ir à África do Sul e repetir as gestas gloriosas do passado. No entanto, olhando para trás. é olhar para uma campanha absolutamente miserável. Os sinais já vinham desde o apuramento para o último Europeu - um fracasso em toda a linha - e por isso culpar exclusivamente a equipa técnica é exagerar num problema, já o dissemos aqui, muito mais grave e de dificil solução. Mas depois de ano e meio Portugal continua a ser um fantasma, uma falsa-equipa, uma selecção inexistente. Um oásis. Os mais atentos já repararam que outras nações históricas - e colocar Portugal na mesma lista é arriscar um pouco - como Argentina, França e México estão com sérios problemas em qualificar-se. É sempre assim nas vésperas de uma grande prova. Alguém fica em casa, há sempre convidados surpresa. Em 2000 nós fomos esse convidado surpresa. E ficamos para a festa até agora.

 

No Mundial é suposto estarem as 32 melhores selecções do Mundo. Apesar do enganador ranking FIFA, Portugal não apresenta, hoje em dia, condições para estar nesse lote. Não tem um técnico capaz. Queiroz desiludiu tudo e todos, primeiro por ser incapaz de mudar o que já estava mal na selecção. E depois criando, ele próprio, problemas na estrutura táctica, no alinhamento de jogadores que claramente não possuem nivel de internacionais e de centralizar todo o jogo da selecção no seu menino-bonito. Cristiano Ronaldo é outro grande responsável desta situação. A um jogador não se pode pedir que leve um país às costas, mas o facto é que CR7 sempre guardou para a selecção os seus piores momentos. Durante os últimos três anos foi, a par de Messi e Xavi, o melhor jogador do Mundo. Nunca se mostrou a esse nivel com a camisola das quinas. Já jogou em várias posições, rematou, falhou, pouco marcou, muito reclamou e pouco mais. Dá a entender que é pior estar ele fora do Mundial do que a selecção que o representa. E isso é incomportável na imagem de um capitão de equipa. Ou se calhar a culpa é mesmo de quem acreditava que ele era realmente bom.

 

Mas se o técnico não tem nível e a estrela em realidade não a é, o grosso do problema está realmente na falta de uma verdadeira selecção. Portugal viveu várias gerações de talentos, com melhores ou piores resultados. A geração de 70 era boa e no entanto a selecção falhou todas as provas. O mesmo passou com a equipa dos Violinos ou de Futre e companhia. Desta feita não há valor que se salve. Deco, Ricardo Carvalho ou Simão estão longe dos seus melhores anos enquanto que Tiago, Raul Meireles, Duda, Bruno Alves ou Eduardo mostram esforço mas seriam claramente segundas (ou terceiras) opções noutros tempos. Hoje são, quase forçosamente, titulares porque alternativas não existem. Pepe e Liedson juntaram-se a Deco para tapar os remendos que há largos anos se notam. Desde 2004 que não se consegue realizar a tão ansiada renovação. Maniche ainda anda pelas convocatórias e Portugal continua sem guarda-redes, defesas esquerdos, médios defensivos, avançados ou creativos para apresentar. Apesar do nome, hoje não se pode dizer que seja melhor selecção que qualquer uma das suas rivais. Infelizmente, é um facto. Portugal está já numa segunda linha, a caminho da terceira, do que dos anos de elite que se viveram durante a década. O canto do cisne pode ser bem a próxima quarta-feira. Portugal até se poderá classificar (num série mirabolante de coincidências que até implicam outros grupos) mas a exibir o pouco futebol que tem demonstrado, o play-off podia ser uma eliminatória agridoce. Para muitos um cenário impensável, a verdade é que era algo que já se adivinhava. E continuará a suceder se não houver uma mudança radical no futebol português, nas instituições, na mentalidade, na própria estrutura técnica. 

 

Durante os anos 80 a França viveu a sua era dourada sob o signo de Platini e companhia. Em 1988 falhou o apuramento para o Europeu na Alemanha. Dois anos depois falhou a presença no Mundial de Itália. Esteve no Euro92 mas voltou a falhar o Mundial dos Estados Unidos. A partir daí houve uma alteração radical do futebol francês. E renasceu como uma fénix das cinzas conquistando tudo o que havia para ganhar.

Em lugar de choramingar e procurar culpados, Portugal tem de assumir que é da máxima justiça a sua não qualificação. E que este é o momento de ouro para pensar bem no futuro. Quer Portugal continuar a ser a selecção de Queiroz e o futebol de Madail, Pinto da Costa, Luis Filipe Vieira ou Bettencourt. De Cristiano Ronaldo? De Liedson, Pepe Deco? Ou quer ambicionar a algo mais? Somos um país pequeno mas não um pequeno país e se hoje em dia o futebol é a melhor forma de afirmação de uma nação nada melhor que começar por aí a lavagem que Portugal precisa para não seguir outros exemplos. Como o da Bélgica, que brilhou na mesma década que a França e não fez nada quando falhou o apuramento para o Euro88. E desde então até hoje existe quase apenas nas enciclopédias de clássicos enquanto que a equipa actual é humilhada sem apelo nem agravo pela Espanha. Portugal tem aí as duas opções de futuro:é só escolher! 



Miguel Lourenço Pereira às 11:43 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sábado, 5 de Setembro de 2009

Olhando para a lista de vencedores do Scudetto italiano durante os anos 80 há sempre um nome especial que salta à vista. Na época 1984-1985 o titulo não foi ganho pelo gigantes de Milão ou Turim, Génova ou Roma. O vencedor foi o hoje quase desaparecido Hellas Verona. Uma equipa modesta, sem grande historial, e que provou que os modestos podem também sonhar. Especialmente se a arbitragem não está sob controlo. Pela primeira e única vez em Itália houve um campeão sem suspeitas.

O modelo italano defende que os árbitros sejam nomeados. Sempre o foi. Uma comissão especial elige o árbitro adequado para cada encontro e os seus assistentes. Um árbitro não tinha limitações relativamente a um clube. Podia arbitrar um número indeterminado de jogos da mesma equipa sempre e quando a comissão o achasse indicado para o trabalho.

Em 1980 explodiu uma das mais graves crises do futebol italiano. Apostas ilegais, resultados combinados, árbitros comprados por dirigentes desportivos, um verdadeiro cocktail molotov que provocou a descida de divisão de AS Lazio e AC Milan, a punição de vários jogadores, árbitros e dirigentes e uma mancha que parecia não querer desaparecer. O Tottonero foi um cravo espetado no coração do Calcio e por isso mesmo a federação italiana decidiu que era preciso lavar a imagem da competição. Para o arranque da época 1984/1985 decidiu-se que os árbitros seriam sorteados a cada jornada sem haver limitações nem decisões de gabinete. E ninguém esperava o que iria a suceder.

 

Desde o arranque da temporada que o pequeno clube da cidade de Romeu e Julieta se mostrou como claro candidato ao titulo. Orientado pelo mitico Osvaldo Bagnoli a equipa gialoblu vivia sem grandes estrelas mas com um fortíssimo colectivo. A raça de Briegel, o talento de Fanna e Di Gennaro e o espirito de Preben Elkjaer-Larssen eram as armas secretas dos veroneses. Um golaço do dinamarquês (sem uma bota) no duelo contra a Juventus lançou a equipa para o titulo e depois de chegar ao primeiro posto nunca mais o deixou vencendo sucessivamente os rivais directos de forma a lograr o ceptro antes da última jornada. Atrás de si ficou o igualmente surpreendente Torino, há muitos anos arredado da luta pelo titulo, e depois Inter, Sampdoria, Udinese e Fiorentina. De Roma - de Falcão -, Juventus (campeão europeia esse ano) nem rastro.

 

Foi então que começou a circular o rumor de que qualquer campeonato anterior estava, por defeito, viciado, já que o dominio de quatro equipas que há anos estavam fora dos titulos enquanto que os grandes favoritos, sem ajudas arbitrais, rapidamente se afundaram na classificação pareciam indicar que havia algo de muito podre no reino italiano. Surgiu de imediato uma plataforma de apoio à decisão da Federação e o triunfo do Hellas Verona foi celebrado em toda a Itália. Era um clube modesto e simpático e representava uma vitória limpa no meio de tanta sujidade.

No entanto, contra todas as expectativas, em pleno Verão de 1985 a Federação Italiana anunciou o regresso ao velho modelo das nomeações. A decisão foi rapidamente contestada por tudo e todos mas o certo é que nos anos seguintes a arbitragem voltou a estar no ponto de mira. O Verona nunca mais voltou a lograr um lugar no pódio, as pequenas equipas voltaram para os lugares médios da classificação e os tubarões, já com AC Milan de novo no grupo, regressaram ás vitórias. O próprio irromper do Napoli, em 1987 com um endiabrado Maradona, foi rapidamente trucidado, no que então se disse ser uma manobra conjunta da máfia e da federação italiana. Em 2006, com a explosão do Moggigate que levou a Juventus para a segunda divisão e provocou a perda de 15 pontos a AS Lazio e AC Milan, descubriu-se que já nos anos 80 os encontros eram previamente combinados e que a maioria dos campeonatos tinha um vencedor pouco honesto. 

Para os italianos a corrupção é um fenomeno presente na sociedade a todos os niveis e o futebol é apenas mais um. Os adeptos já se habituaram a ver decisões mais do que polémicas, titulos contestados e árbitros que passam à história pelos piores motivos. Mas aquele mágico ano de 1984/1985 fez ver os habitantes do país da bota que a verdade desportiva também pode existir e que no final há uma hipótese de quem ganhe seja mesmo a melhor equipa. Como aquele inesquecivel Hellas Verona...


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Miguel Lourenço Pereira às 14:27 | link do post | comentar

Sexta-feira, 4 de Setembro de 2009

poucos jogos que levantem tanta paixão e emoção, que provoquem tanta polémica mesmo antes da bola sequer ter rolado. Há jogos que resumem a essência mágica do desporto-rei, duelos que se eternizam no tempo e espaço onde nunca há realmente um vencedor e um vencido. Há duelos assim como da próxima madrugada de sábado. Há poucos jogos como um Argentina vs Brasil...

 

Em jogos oficiais num Mundial apenas se cruzaram a eliminar uma vez, depois das experiências na segunda fase de grupos que tiveram na batalha de Rosário em 1978 (0-) e do tal jogo de 1982 onde o escrete vulgarizou os campeões do Mundo e Maradona acabou expulso. Por esse Mundial de Itália  venceram os diabos argentinos, vitimas do mau planteamento táctico de Sebastian Lazzaroni e de umas miticas garrafas de água envenenadas que os próprios jogadores argentinos davam aos brasileiros para matar a sede naquela tarde quente de Junho. Em jogos oficiais de qualificação foram mais de oitenta jogos disputados, com um empate técnico: cada país conta com 33 triunfos. É um duelo inevitável de países vizinhos, de fronteiras que o tempo moldou contra o desejo dos homens. De duas culturas herdeiras dos dois lados da Peninsula Ibérica e que se cruzaram de forma distinta. Os argentinos muito mais sérios que os espanhois, os brasileiros a verdadeira antitese do portugues. O sangue de emigrantes europeus e africanos, o passado de tribos em vias de desaparecer, os confrontos, as ditaduras e a eterna vontade de vencer sempre fizeram deste um jogo verdadeiramente especial. Não tem para os brasileiros o mesmo sentido trágico que jogar com o Uruguai, mas é um derby muito mais apetecivel. Para os argentinos é a possibilidade de mostrar que a América do Sul é muito mais que o brilhante escrete canarinho. Duas visões, dois esquemas, dois tipos bem distintos de jogo e um só objectivo.

 

Houve derbys inesquecíveis nesta luta pelo dominio do futebol num continente apaixonado até ao tutanto pelo jogo que trouxeram de Inglaterra os marinheiros e navegantes, os empresários e os mercantes. Os duelos de Sócrates contra Maradona, as disputas entre Rivelino e Kempes, Ratin e Gerson, Batistuta e Ronaldo. Cada jogo é como se começasse do zero, não há historial, não há favoritos, não há boa ou má forma. Como qualquer derby. A Argentina está na corda bamba. O Brasil está tranquilo. A equipa das pampas tem um treinador que, até ao momento, ainda não o mostrou ser. Um onze repleto de operários e tecnicistas onde pontifica o astro Leonel Messi que pela equipa celeste ainda fez menos que Cristiano Ronaldo por Portugal. Chegou a hora. Do outro lado da fronteira o exército de Dunga está bem adestrado e a vitória na Taça das Confederações prova-o. Há muita saiva nova, muitos nomes de luxo e algumas exclusões surpreendentes. Há ordem e um notório progresso no escrete mas a qualificação quase assegurada deixa um ligeiro ponto de interrogação. Nestes jogos ninguém quer perder e em casa de derrota os argentinos vêm o quarto e último posto de qualificação directa em perigo. O Paraguai é o senhor que se segue e está em óptima forma. Diego Armando Maradona sabe bem que corre perigo e já começou com os mind games. Mas nesta coisa de derbys valem pouco.

 

Será um confronto titânico que até pode tornar-se num jogo mediocre, mais violent que espectacular, mais táctico que explosivo. As duas melhores selecções mundiais não europeias repetem um duelo que no Velho Continente - talvez pela hegemonia ser uma coisa quase temporal - nunca se verifica. Um Itália-Alemanha, França-Inglaterra ou Holanda-Portugal nunca terão o mesmo impacto desta luta de vida ou de morte, deste duelo supremo. Ganhe quem ganhe, nunca vencerá de verdade. Poderá rir-se, mas só até à desforra. Há muitos que acreditam que haverá o dia em que este encontro será a final de um Mundial. Nunca sucedeu e tantas vezes esteve para acontecer. Pode ser que num palco inédito possa repetir-se a sério o que na realidade nunca é a feijões.



Miguel Lourenço Pereira às 15:22 | link do post | comentar

Quinta-feira, 3 de Setembro de 2009

Depois de uma larga década a apostar no 4-3-3 (pelo meio houve uma leve tentação de explorar o então tão popular 3-5-2) eis que o futebol nacional vê a sua selecção regressar ao 4-4-2 em losango. Um esquema táctico dos mais populares e utilizados no mundo mas que, apesar da sua eficácia, explora pouco as já deficientes potencialidades dos seleccionáveis portugueses.

Num país marcado pelo nascimento de alguns dos melhores extremos da história utilizar uma táctica que elimina o extremo puro de qualquer desenho no terreno de jogo parece ser um puro contra-senso. Mais ainda se juntamos o notório déficit de avançados que tem historialmente Portugal que nem nos dias de Cadete, Sá Pinto, Paulo Alves e Domingos conseguia ter um verdadeiro matador na frente de ataque da equipa das Quinas. Os muitos golos de Pauleta foram enganando as estatisticas mas não a realidade e naturalizar Liedson tornou-se tão inevitável como foi naturalizar Deco como substituto do maestro Rui Costa que já caminhava tranquilamente para a retirada dourada. Hoje continua a não haver substituto português para Rui Costa (nem para Deco) e o ataque continua a depender de jogadores com um nivel muito inferior ao que se exige a uma selecção que quer ser campeã do Mundo. Ou já não?

 

Carlos Queiroz chegou com muitas ideias bonitas e projectos de futuro mas a dura realidade pregou-lhe uma rasteira. Uma selecção desfeita, um balneário repleto de egos maiores que os cabides e um sistema de jogo inexistente que já no último Europeu tinha denunciado os pés de barro lusitanos com que se embarcou para a Suiça. Falou-se muito nas naturalizações (um já está mas a lista do seleccionador é bem mais longa) como única solução para o problema, esquecendo-se de que o grave é que os três grandes nacionais vivam de jogadores estrangeiros, que as camadas jovens estejam numa grave crise e que qualquer jogador que desponte seja imediatamente elevado à condição de estrela, perdendo consequentemente a cabeça...e o futuro. Depois de martelar jogo atrás jogo num 4-3-3 sem sentido, explorando a mesma dinâmica da era Scolari, o técnico aproveitou um desses amigáveis complicados com o Liechenstein para experimentar o 4-4-2 que tanto gostava no Manchester United. Agora prepara-se para repetir a dose em Copenhague (e quem sabe contra a Hungria) pensando que é a solução para todos os males. Não é.

 

Os problemas posicionais dos jogadores portugueses são notórios. Resultado de uma falta de rotinas e entrosamento, a culpa é também das constantes adaptações e re-adaptações forçadas. Pepe não tem rotinas de médio-defensivo mas continua a ser titular absoluto. Na lateral esquerda já se viu que Duda não serve, muito menos quando se exige concentração absoluta à defesa. E no meio campo há uma autêntica salgalhada que só piora na confusão do eixo ofensivo onde ninguém parece saber muito bem qual é o seu lugar. Com o losango Queiroz quer por ordem em campo. Pepe defende e junta-se aos centrais se necessário. Raul MeirelesTiago (ou Miguel VelosoJoão Moutinho) equilibram o meio campo e garantem a posse de bola. A Deco cabe colar-se ao ataque e lançar os dardos venenosos. E Cristiano Ronaldo e Simão Sabrosa têm por missão fazer o que Portugal sabe pior: marcar. 

Ironia das ironias, Queiroz quer explorar a táctica que mais avançados coloca em campo (ou falsos avançados) e actuar com dois extremos soltos. Ou seja, sem disciplina e ordem táctica. Se o equilibrio a meio campo tem a sua lógica - sempre e quando Tiago e Meireles estejam em noites esclarecidas - já o ataque perde totalmente a acutilância que o jogo sob a as alas permite. A Queiroz falta-lhe agora, o mesmo de sempre: coragem.

O técnico provocou a acelerada naturalização de Liedson e agora planeia colocá-lo no banco. Recuperou Nuno Gomes e não tem intenções em utilizá-lo. Tem Nani, Cristiano e Simão e não sabe que fazer com eles. Quando as caracteristicas de uma equipa são limitadas, o pior que há a fazer é inventar. Este losango é uma invenção pura porque não há um João Vieira Pinto capaz de desiquilibrar no ataque como falso avançado nem um real matador para aproveitar as poucas oportunidades que terá a equipa das quinas. As possibilidades que lhe oferece o grupo de convocados indica claramente que o técnico deveria assumir um 4-2-3-1 sem complexos, com um meio campo sólido (Pepe-Raul Meireles/Tiago/Moutinho, na falta de um médio defensivo de raiz forte) e com Deco solto atrás de Liedson contando com Ronaldo e Simão nas alas.

 

Qualquer variação táctica é desaproveitar o pouco que ainda há e voltar a colocar a teoria à frente da prática. E a crença é tão pouca que até o presidente da Federação já avisou que provavelmente vai dar mais dinheiro aos jogadores se vencerem os dois jogos. Como se fosse preciso sacar do cheque para ver a camisola das quinas ganhar...


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Miguel Lourenço Pereira às 11:15 | link do post | comentar | ver comentários (4)

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