Já está disponivel a crónica de futebol internacional semanal publicada no weblog Futebol Arte. O tema em destaque da semana é a posição de jogadores e presidentes no sempre intenso defeso, onde muitas vezes os egos pessoais se sobrepõem a tudo e todos.
Podem continuar a ler o artigo clicando sobre o primeiro parágrafo.
Fez eco em Portugal e um pouco por toda a Europa o que já há tanto se falava em surdina, ou nem isso. O avançado brasileiro Liedson manifesta disponibilidade para defender as cores de Portugal numa carta á Federação Portuguesa de Futebol e abre assim de novo um debate que já foi remoído várias vezes mas que só chegou em duas delas ás últimas consequências.

Os mais realistas sabem que no mundo de hoje raros são as nações que não actuam com jogadores naturalizados. A Espanha campeã da Europa teve em Marcos Senna um elemento fulcral no centro do terreno. A Alemanha e Itália começam, a pouco e pouco, a quebrar o tabu, enquanto que a França ou Holanda há muito que se aproveitam das viagens pelo Mundo dos seus navegadores. Em Portugal, depois da era de ouro dos jogadores vindos das colónias, viveu-se um período túrbio até que chegou a Geração de Ouro e tapou as debilidades de um país com altas ambições mas sem uma base sólida para se manter no topo. Carlos Queiroz, quando assumiu o posto, sabia que estava em marcha um projecto de renovação complexo e que ia deixar a nu as reais debilidades do nosso futebol. Ausência de opções válidas em posições chave, falta de substitutos á altura quando os titulares falham e uma extra-dependência de um jogador que brilha mais quando o exército que o rodeia é de alto nível. Tudo isso sabia o seleccionador e não é por acaso que desde o último ano que têm saído rumores sobre jogadores brasileiros sondados pela federação. Os gémeos Da Silva, o guardião Júlio César...e agora Liedson.
De todos o avançado do Sporting é o único que verdadeiramente tem alguma ligação com o futebol português. Tal como Deco e Pepe - os únicos casos em que se deu o último passo - o avançado joga há vários anos - seis temporadas - em Portugal e sempre criou uma forte empatia com o público. Agora que também está prestes a tornar-se luso-brasileiro, Liedson tem todo o direito de presumir poder seguir o caminho dos dois antecessores, com a agravante da gravissima crise portuguesa para os golos, uma crise que se alastra há vários anos. Um problema que o dianteiro de 31 anos parece ser a solução mais óbvia mas que levanta de novo as mesmas questões: quer realmente Portugal continuar a importar para a selecção nacional jogadores brasileiros, com ou sem presença regular na nossa liga?
A questão sobre o futuro da selecção portuguesa é complexa mas o que está claro é que Portugal não tem, hoje em dia, um futebol de base sólido para suster uma renovação completa. O nivel competitivo da liga baixou enormemente e os titulares de hoje jogam uns furos abaixo do que os seus antecessores. Nem Raul Meireles é Maniche, nem João Moutinho pode substituir Deco nem Pepe adaptado chega ao nível de Costinha, Paulo Sousa, Paulo Bento ou Vidigal. E esse é um fenómeno que se poderia aprofundar noutras posições chave do onze nacional. Essa incapacidade de manter um nivel elevado espelha-se na campanha para o próximo Mundial, onde não se pode culpar apenas Queiroz. O seleccionador cometeu os seus erros mas a realidade é que em muitos dos casos viu-se privado de outras opções para defrontar rivais que apesar de teoricamente acessiveis no papel se revelaram na prática endiabrados. Algo que se já se vira, por exemplo, no apuramento para o último Europeu. Mas a memória é curta. Principalmente no nosso futebol. E agora que já não há colonias para fornecer Peyroteo, Matateu, Águas, Coluna, Eusébio ou Jordão e como a preparação para uma futura geração de talentos de base precisará de mais uma década, que fazer? Apostar por nacionalizar brasileiros ou apostar numa politica de recrutar portugueses ou descedentes directos nos quatro cantos do Mundo?

Enquanto se fala em lançar Liedson para a titularidade na selecção A, as equipas de sub-21 e sub-19 começam a explorar outra solução que, a meu ver, me parece mais lógica e com maiores frutos a médio prazo. Portugal é um país de emigrantes, sempre o fomos e nas últimas décadas o fenómeno acentuou-se. Mas também somos um país de acolhida. Seja por exportação ou importação, o gene português, o sentimento português vive para além do limite geográfico reconhecido por tudo e todos. Amaury Bischof, Daniel Fernandes ou Stanislas Oliveira são apenas exemplos de descedentes de portugueses que, apesar de não terem nascido em Portugal, transportam o pais no sangue e coração. Jogadores que sentem a bandeira e o hino e que estão tão habilitados para defender as cores nacionais como Moutinho, Simão e companhia. E em França, Alemanha, Suiça, Estados Unidos, Espanha ou Inglaterra vivem milhares de portugueses e os seus descendentes, muitos deles praticantes do beautiful game. A Federação Portuguesa de Futebol deveria - como parece, timidamente, estar a fazer - por em marcha um projecto de reconhecimento desse talento português fora das fronteiras. Basta lembrar-nos que a Turquia está, hoje em dia, a fazer o mesmo com muitos dos jovens nascidos na Suiça ou Alemanha. Por exemplo, Gelson Fernandes, médio da selecção suiça, poderia ter jogador por Portugal. Mas nunca foi contactado pela FPF. Ao contrário do seu primo, Manuel Fernandes, internacional português há vários anos.
Da mesma forma há comunidades em Portugal, seja por ligações históricas seja por fenómenos recentes, que podem trazer muito á selecção. Desde Nani ou Bosingwa, nascidos fora do país mas que desde novos vivem em território nacional mas sem esquecer nas comunidades ucranianas ou russas, que se começam a instalar com as familias e que, com eles, podem trazer outro perfume ao nosso jogo. Voltamos ao exemplo alemão, que fez actuar na selecção campeã da Europa de sub21 oito jogadores filhos de emigrantes, do germano-espanhol Gonzalez Castro ao germano-turco Mezut Ozil. Aqueles que aceitam a entrada de Deco, Pepe ou Liedson devem preparar-se para que, no futuro, a selecção possa jogar com um Manuel Yakovenko, François Martins ou Daniel Bradley, apenas para dar exemplos ficticios mas que representam comunidades onde o português é uma realidade. Da mesma forma que Portugal mostrou o Mundo ao próprio Mundo, agora o futebol português deve evitar ao máximo prender-se ao rectângulo nacional ou ás soluções fáceis. Deve reforçar-se para o futuro, apostando primeiro nos luso-descendentes que vivem por esse planeta fora e nos jovens de outras culturas nascidos ou criados em território nacional.

Aceitar imigrantes é uma solução que não deveria ser fechada a 100%, está claro, principalmente com o panorama internacional que vivemos, onde as fronteiras estão cada vez mais difuminadas. Mas devemos ter consciência de que não é com opções como esta que se conquista o futuro. Deco foi uma óptima aquisição mas agora precisa de sucessor e não foi preparado ninguém para herdar o seu papel no terrenod de jogo. O mesmo passará com Pepe e com o avançado leonino. Liedson pode muito bem vir a ser internacional por Portugal (como o foram Deco ou Pepe com toda a normalidade), mas não será essa a solução dos problemas do nosso futebol. Recuperar a identidade mundial portuguesa sim, pode ser um passo importante para garantir o futuro muito antes do que se esperaria.
Desde 1999 que uma equipa brasileira que chegava à final da da Copa dos Libertadores perdia, sempre e quando não ganhava a primeira mão. Dez anos cumpridos e a maldição continua viva e o favorito Cruzeiro caiu aos pés do histórico Estudiantes de la Plata. A equipa argentina terminou uma travessia no deserto que durou 39 anos.
A segunda juventude de Juan Sebastian Veron e o estilo determinado de um eixo médio extremamente pressionante com Braña, Pérez, Benitez e Gastón Fernandez foram determinantes no desenrolar do encontro. O estilo matador inconfundível de Mauro Boselli fez o resto. Depois da na primeira mão o jogo ter terminado num azedo 0-0, tudo ficou por decidir no Mineirão. Os adeptos locais festejavam já a possibilidade de igualar o São Paulo em trofeus continentais, mas a equipa orientada por Adilson Batista nunca se encontrou. Os mineiros até se adiantaram no marcador, depois de uma primeira parte muito morna para um jogo decisivo. A primeira parte foi predominantemente dos visitantes com os brasileiros a apostar demasia nos lançamentos longos, num estilo de jogo contra-natura já que durante a prova o Cruzeiro sempre demonstrou estar mais cómodo com a bola nos pés. No regresso do intervalo Henrique, poderoso médio de contenção, rasgou a monotonia com um pontapé ensurdecedor que Andújar não conseguiu travar. O ruido estrondoso nas bancadas antecipava a festa mas os argentinos mostraram toda a eficácia que os levou passo a passo até ao jogo final. Verón tomou conta do meio campo e anulou por completo o estourado Ramires. Num toque magistral, o antigo médio da Lázio e Man Utd descubriu no meio do nada Cellay que com um cruzamento tenso encontrou Gaston Fernandez. O médio desviou para as redes de Fábio e empatou o jogo.

O golo motivou ainda mais o Estu que lançou-se com todas as armas para a área rival. O Cruzeiro - visivelmente cansado e mal preparado- aguentou apenas quinze minutos antes que Veron, sempre ele, servisse de bandeja ao goleador Boselli que não hesitou em cabecear para o fundo das redes azuis. Estava consumada a reviravolta e o resultado poderia ter sido ainda ampliado já que foram sempre os argentinos os que procuraram a baliza rival nos vinte minutos restantes. Thiago Ribeiro, rápido extremo local que entrou para o lugar do apagadíssimo Wellington, ainda rematou à barra a cinco minutos do fim, mas foi um ligeiro suspiro sem continuação. No jogo de comemoração das bodas de ouro da prova a Argentina provou a sua superioridade face aos colectivos brasileiros, que no entanto têm dominado a última década da prova. Isso sim, sempre e quando conseguem escapar à maldição.
Não há nada mais imprevisível que um artista.
Pedir a um que explica a sua obra é o mesmo que procurar as origens do Universo. Muitos deles nem se dão conta do que criaram até ao momento da contemplação final. Mas como génios em corpo humano que são, também têm o seu lado obscuro, que por vezes teima em saltar à luz do dia. Presos a esquemas tácticos, esquemas de jogo, marcações implacáveis, deixam-se levar e vão perdendo, a pouco e pouco, os tons de magia com que pintam as suas melhores obras. No ano passado aterram no Calcio dois jogadores feitos da mesma matéria mas com procedência diferente e ambos encontram o mesmo problema. Agora terão direito a uma segunda oportunidade, mas antes são obrigados a jurar e perjurar que voltarão a ser o que eram. Mas pode um artista prometer isso?

Uma imagem marcante da pré-temporada. Ronaldinho, um dos melhores jogadores da década, numa conferência de imprensa, com aquele seu sorriso maroto e italiano desgarrado, a explicar à imprensa que o seu polémico presidente o obrigou a jurar. A jurar diante de toda a equipa que voltaria a ser o R10, o heroi do Camp Nou, o profeta do jogo bonito. A jurar que os destelos de magia com que calou o Bernabeu, Stade de France, Stanford Bridge ou qualquer outro terreno diabólico que pisou, também iriam surgir no imponente Giuseppe Meazza. E Ronaldinho, preso à letra pequena dos contratos que falam em algo de fidelidade, jurou. Diante de todos aqueles que durante o ano passado viram como uma estrela mundial se transformava num fantasma de si próprio. Diante do técnico, compatriota, que já anunciou que quer fazer dele o lider do novo projecto chamado AC Milan. Jurou e perjurou que voltaria a ser divino. Mas jurou sem saber se o pode cumprir. Jurou que abandonaria a noite, os vicios escondidos do heroi com pés de barro, a preguiça nos exercicios e a comida à mais nas noitadas. Jurou que iria correr e desmarcar-se no coração das mais implacáveis defesas do futebol europeu. E que do nada daria tudo. E que dos assobios ouviria aplausos. Jurou que o AC Milan e Ronaldinho iriam fazer história.
Não cumpriu pelo simples acto de que não pode jurar o injurável. Da mesma forma que um ponta de lança não pode prometer 30 golos numa época, que um técnico não pode prometer titulos, de boa fé, também Dinho não pode prometer a voltar ser Dinho. Será outra coisa, mas provavelmente não mais do que uma reciclagem do passado. O mesmo esguio que rasgava defesas com aquele toque de bola colado ao pé, já ficou na galeria mágica do futebol e de lá não voltará a sair. Berlusconi sabe-o, Leonardo sabe-o, os tiffosis sabem-no...esperemos que Ronaldinho também o saiba.

Na mesma cidade, mas do outro lado, outra jura de amor eterno e compromisso absoluto. Outra jura de um artista endiabrado que já foi apelidado de Harry Potter mas que parece vitima de um tenebroso feitiço que o tem amarrado à inércia absoluta. Mourinho prometeu-lhe outra oportunidade - contra tudo e contra todos - e Ricardo Quaresma agradece. E jura. Também ele jura trabalho, integração, espirito de sacrificio. E magia. As mágicas trivelas, os sprints endiabrados do mustang. Jura chegar ao nivel onde preveram que estaria, mas onde realmente nunca esteve. Ao contrário de Ronaldinho, que chegou ao zénite e depois caiu, rápido de mais, o problema de Quaresma é que nunca logrou chegar aonde diziam que iria. No Barcelona prometeu mundos e fundos e não cumpriu. No FC Porto foi importante mas quando havia jogos "a sério", tanto nas provas europeias como com a camisola da selecção, minguava em campo. Em Milão viram-no como o profeta do jogo bonito, mas saiu pela porta pequena e em Londres pouco tempo passou fora da equipa de reservas. E curiosamente sempre porque os técnicos não viam nele alguém com caracter para este nivel. Um jogador com uma técnica soberba mas sem espirito competitivo e com um gravíssimo problema, muitas vezes sem cura: ele próprio.
Ricardo Quaresma é um fantasma de jogador. Não mexe com uma equipa, não se integra em nenhum sistema. Vagabundeia pelo terreno de jogo e aparece e desaparece como por magia. Quando quer. Não se lhe pode esperar nada mais que um golpe de génio. Mas apenas isso, seco, isolado. Fútil. Aos génios não se lhes pode pedir que sejam previsiveis, se não dificilmente seriam geniais. Mas pede-se-lhes constância, provas continuas do seu valor. Muitos são obrigados a provar que são os melhores até à exaustão. E se tropeça uma vez, o génio cai em desgraça. Quaresma, ao contrário de Ronaldinho, tropeça demasiadas vezes. E não sabe levantar-se. E quando está de pé, já ninguém acredita que daqui a pouco não volte a cair. E isso é o pior que pode acontecer a um jogador, deixar de gerar ilusão nos que querem acreditar. Ao contrário do seu amigo, Cristiano Ronaldo, que cumpria em Manchester cada vez que esperavam algo mágico dele (e daí a sua animosidade em Portugal porque pela selecção cumpre muito pouco), não se pode pedir promessas a alguém que nunca cumpriu. Por isso, jurar que irá fazer o que na realidade nunca fez, é enganar os poucos que ainda podem acreditar.
No final do ano o provável é que nem um nem outro deixem a marca que tanto apregoam que podem vir a deixar, nas suas equipas, no campeonato, no futebol. Ambos terão sido ultrapassados no tempo e espaço. Ronaldinho por outro novo prodigio, que suba a velocidade de cruzeiro as escadas do futebol espectáculo, provavelmente o jovem Pato. E Quaresma terá mais uma série de enganadores, como ele foi desde os primeiros sprints, capazes de dar dois toques de génio, um centro divino e largos minutos de pura agonia futebolistica.
No meio de tudo isto fica a certeza. Promessas no futebol são tão futeis como as da politica. O problema é que ainda há aqueles que precisam de continuar a acreditar. E o jogo continua...
Sempre me fascinou o universo dos olheiros.
Quem são esses magos com poderes especiais para poder antever, muitas vezes com anos de avanço, que aquele miudo em concreto vai levantar estádios, vender milhões e fazer história? Muitas vezes esquecemo-nos que são eles os responsáveis por muitas das lágrimas e alegrias dos adeptos.

Não conheci na vida um homem que soubesse tanto de futebol como o senhor Hernâni. Nunca lhe soube o apelido mas sempre o admirei porque conseguia falar de futebol com uma naturalidade assustadora, como se lhe fosse mais natural que o próprio sangue. Muitas vezes me contou a história de como descobriu o Rui Barros, então um desconhecido. Não era olheiro profissional mas o seu talento era conhecido no Porto e a direcção azul e branca convidava-o a ir ver jogadores, de vez em quando, e dar o seu parecer. Uma vez foi ver um jogo de juniores para observar um avançado de quem diziam maravilhas. No final do jogo quando os dirigentes azuis e brancos lhe perguntaram pelo jovem ele respondeu, sem papas na lingua "Tem pose mas não vale nada, mas na outra equipa vi ali um baixinho que vai ser fenomenal, se fosse vocês comprava-o já antes que o apanhem". A isso, estupefactos, responderam os dirigentes portistas "Mas esse é nosso, chama-se Rui Barros, está aqui emprestado". E foi assim que o "ratinho atómico" voou para as Antas. Uma noite, lembro-me bem, numa dessas habituais tertúlias futebolistica com que este amigo do meu pai da época de ver os jogos do FC Porto do "Zé do Boné" na arquibancada das Antas nos brindava, aos meus irmãos e a mim, perguntei-lhe o que achava de um tal Ricardo Quaresma, então a despontar nos juniores do Sporting. O senhor Hernâni (para mim sempre foi senhor) sorriu, como sempre, e disse-me tranquilamente "Tem talento, é rápido mas há ali qualquer coisa...agora vi lá jogar um miudo muito bom, pena é ser franzino, senão tinhamos ali homem". Esse outro, como devem calcular, chamava-se Cristiano Ronaldo. Aquele homem soube prever o fenómeno CR com anos de antecipação. Sempre me perguntei como.
Hoje em dia os clubes respeitam cada vez mais os olheiros mas eles continuam a ser um mistério. Arsene Wenger recebe diariamente relatórios, dvds, recomendações da sua equipa de olheiros, espalhada pelos quatro cantos do Mundo. Só assim é capaz de se antecipar aos rivais. Mas apesar da fama do Arsenal, não há hoje um grande clube que não tenha a sua imensa equipa de observadores. E não há estádio que não tenha uma sala só com relatórios e videos de todas as promessas possiveis e imaginárias a jogar hoje em dia. E sempre escapará um menino de rua, um jovem de um clube obscuro. Quando se lê em revistas, jornais ou blogs sobre este ou aquele jogador como uma jovem promessa, essa informação já nem chega em terceira mão. Há muito que os grandes sabem quem é Douglas Costa, Diego Buonanotte ou Henri Saivet, muito antes deles próprios terem noção de que já foram "descobertos":

Num meio onde há protagonistas para todas as cores e feitios, o olheiro ainda não encontrou o seu lugar ao sol. Há poucos nomes próprios que a história relembra. Ao contrário de dirigentes, directores técnicos, técnicos, jogadores e até roupeiros, o olheiro é um ser que actua oculto, na sombra. Que está lá mas não sabemos. O Manchester United tinha sempre fama de enviar um olheiro oficial para os jogos e um oculto. O primeiro anunciava que ia ver o jogador X ou Y e lá marcava presença, junto dos "rivais" de outros clubes. O oculto estava no coração da bancada e sentia o pulsar do jogo daí. Foi assim que, por exemplo, em 1962 um tal de Bob Bishop, descubriu um jovem franzino chamado George Best. Só lhe deu tempo de mandar um telegrama a Matt Busby com a frase "I found a genious!" Outros são técnicos que nas horas vagas se divertem a passear pelos relvados mais obscuros, como Francis Cornejo, o treinador argentino que um dia viu jogar um pequeno endiabrado de 8 anos e o levou aos Argentinos Juniores treinar. Chamava-se Maradona. E por cada estrela que nos faz sonhar, há atrás um homem que soube ler o futuro e perceber que dentro dele havia magia e caracter suficientes para ser alguém.
Os mais românticos do desporto-rei sabem que o olheiro é um desses seres mágicos sem o qual o espectáculo não sobrevivia. Porque, por cada Cristiano Ronaldo que custe 96 milhões de euros, neste preciso instante estão milhares de homens a ver jogar, nos quatro cantos do Mundo aquele que será o próximo a vender milhares de camisolas no seu primeiro dia. Como o senhor Hernâni. Já dizia o mestre Bill Shankly, quando um dia levou a mulher a comemorar os anos de casado a um jogo de reservas do clube da pequena localidade onde vivia, "aqui é onde se faz o futuro"!
Quando o internacional dinamarquês Sand se aproximou da linha de meio campo daquele Dinamarca-Nigéria, dificilmente imaginava que o primeiro toque que iria dar na bola resultaria em golo. Mas isso é algo a que se está sujeito, quando em campo está um homem como Michael Laudrup, um autêntico Sartre do futebol, pensador até ao mais eximio detalhe. Aquele gesto técnico, imortalizado por todos os angulos televisivos, expôs ao mundo o último gesto de genialidade do dinamarquês. E consagrou o estilo de passe no espaço face ao poético passe no pé que durante anos foi a imagem de marca dos grandes génios. Duas escolas em eterno conflito, dois rostos da mesma moeda.

No futebol de rua, essa pura expressão do jogo mais belo, não existe a ideia de jogar no espaço. Os craques de rua passam para o pé, habitualmente para o colega mais dotado, que depois de uma série de fintas e dribles marca, ou dá a marcar, consagrando-se como o verdadeiro dono da bola. É nesse ritual que ainda vivem a maioria dos campeonatos de futebol sul-americanos ou africanos. Aí a noção do espaço é distinta. Há tanto campo livre que jogar para o espaço parece um profundo exercicio de desperdicio. As equipas sul-americanas espalham os jogadores pelo terreno de jogo abrindo assim brechas imensas entre as linhas. É por elas que passam os virtuosos, que recebem a bola na chuteira e arrancam com os seus toques de pura magia. É assim que nascem os Messi, Aguero ou Robinho da mesma forma que no passado surgiram Di Stefano, Pelé, Maradona... Num onze tão repartido no terreno o conceito do jogador criativo torna-se fulcral e a disciplina táctica uma superficialidade. Delinear o jogo ao largo do rectângulo de jogo obriga a cortar o génio individual. E aí, nesses campeonatos onde a magia de rua se transporta para o relvado, isso seria um crime.
Na Europa é distinto, sempre o foi.
Depois do primeiro kick and rush, e do 2-3-5 ou do WM até ao conceito de Futebol Total, o espaço sempre foi o elemento fulcral na definição do modelo de jogo. As equipas tinham primeiro de saber ocupar os espaços, bascular a bola entre os distintos sectores sem perder a união das linhas. O avançado teve de aprender a vir atrás buscar jogo, o defesa aprendeu a subir e a apoiar o meio-campo. Tacticamente superiores, os jogadores europeus nunca tiveram essa liberdade e esses espaços abertos. Corriam o risco de imediatamente ser bloqueados por um defesa implacável que sabia bem que uma zona vazia era uma zona de máximo perigo. O jogo tornou-se compacto e em vez de espraiar o campo, a acção concentrou-se num losango no centro do terreno de jogo onde defesa, meio campo e ataque se concentravam numa trégua sem fim. No meio deste tabuleiro de xadrez a 100 por hora, nasceram os génios capazes de, numa questão de segundos, desmontar os puzzles mais complexos. Os passes rápidos, a rasgar de Cruyff, Platini, Laudrup eram o espelho perfeito desta analogia do jogador que tinha de pensar mais depressa do que o próprio jogo, sabendo que se iria mover o menos possível.
Quando chegavam à Europa os talentos africanos ou sul-americanos encontravam defesas de betão, centrocampistas implacáveis e avançados furiosos. Não se conseguiam mover, presos em teias de aranha. Tentavam correr mas não tinham para onde nem como. E a bola nunca parecia chegar até eles. Queixavam-se, resmungavam e nunca percebiam que na Europa a bola nunca chega ao pé do jogador. Este tem de aprender a posicionar-se, a deslocar-se, a procurar antecipar os movimentos dos colegas e rivais. Durante décadas alguns dos mais virtuosos sul-americanos falharam na Europa muito por culpa desta ditadura táctica. Sócrates e Zico, por exemplo, nunca lograram no Calcio chegar ao mesmo nivel que tinham quando estavam no Brasil ou com a camisola do escrete, onde eram eles quem ditavam o ritmo do baile. Pelé nunca se aventurou na Europa e Maradona teve problemas em Espanha, onde cada arrancada era ceifada na origem. Em Itália aprendeu a dosificar a explosão e europeizou-se a ponto de pensar o jogo desde o coração do jogo, deixando para os jogos com a Argentina as verdadeiras explosões de raiva e talento.

Hoje em dia os mais puros talentos sul-americanos são expostos a terapias de choque à cultura do passe no espaço. Muitos falham e voltam para casa, desalentados. Outros adaptam-se, "europeizam-se" e encontram o seu lugar na Europa. É o caso de Deco, que quando chegou a Portugal tinha todo o traço de futebolista de rua brasileiro e hoje em dia é um exemplo claro de como pensar o jogo e usar e abusar dos espaços no terreno de jogo. Mas como Deco também Kaká ou Rivaldo aprenderam que o poder do bloco só pode ser superado por alguém capaz de antecipar a acção antes de ela realmente ter tido lugar. Rebeldes há-os e haverá sempre. Ronaldinho era um profeta da rebeldia, capaz de desafiar qualquer lógica, com a sua finta de bola colada no pé, mas também ele hoje se vê preso no emaranhado táctico do Calcio e entende que sem aquela manha de rua todo o seu jogo se vê neutralizado à própria dinâmica do colectivo.
E claro, há Leo Messi, que encanta com os seus zigue-zagues no coração do ataque do Barça. Os detractores de Cristiano Ronaldo acusam-no de apenas jogar no espaço - onde é eximio porque utiliza o seu fisico para anular as distâncias - e apontam a ilusão do argentino em arrancar com a bola e pedir sempre que a deixem bem presa na chuteira como a verdadeira magia do jogo. Por um lado, esse é o comportamento habitual de quem procura a originalidade e a diferença, face ao estandardizado. Ou seja, Cristiano Ronaldo é o primeiro embaixador do estilo dominante, do passe no espaço, do jogo basculado e veloz, fisico e intenso. Todo o contrário do pequeno argentino. Mas claro, quando se está numa equipa pioneira em dominar o espaço, em comprimir os blocos defensivo e ofensivo, e quando se joga ao lado de pensadores natos como Xavi ou Iniesta, é fácil arrancar o espartilho e arrancar até fintar tudo e todos e meter a bola com aquela facilidade tão matreira e enganadora. Tal e qual quando estava na rua...
Num país de um Deus e multiplos profetas herdeiros, o futebol argentino vive um periodo de glória. Ano após ano as equipas de formação dos principais clubes - a maioria concentrada em Buenos Aires - lança para os tigres uma nova estrela. São poucos os que realmente sobrevivvem mas entre eles há sempre um que deslumbra tudo e todos. O Lanus conseguiu encontrar uma dessas pérolas rarar e por aí já sabem que daqui a pouco vão deixar de seguir no relvado Eduardo "El Toto" Salvio.

O jovem dianteiro do Lanus FC é uma dessas promessas que tem tudo para consagrar-se internacionalmente. No meio intelectual argentino há quem se lembra do estilo de Ardilles. Para os amantes do futebol contemporâneo, Sálvio é o único jogador que se assemelha, em picardia e estilo de jogo, a Sergio Aguero que no Atlético de Madrid começou a provar que é realmente um dos futebolistas a ter em conta para o futuro. O genro de Maradona ainda está a começar a carreira mas já tem um rival de peso e a chegada de Salvio à Europa é questão de tempo...e dinheiro.
Salvio estreou-se pela equipa principal do Lanus há precisamente um ano. Producto da formação, depois de uma breve passagem por clubes de bairro, o jovem tornou-se num dos elementos chave da equipa. Durante este periodo actuou em duas provas como titular do Lanus tendo apontado vários golos decisivos. Aos 18 anos (cumpre no próximo dia 13 os 19) é um dos nomes básicos da selecção argentina que deslumbrou no Torneio Olimpico de Toulon e, ao lado do amigo Diego Buonannotte, o expoente máximo da geração de 1990, exemplo da nova colheita do futebol das pampas. Rápido e altamente versátil, Salvio tornou-se no alvo da cobiça de todos os grandes europeus, tendo sido já apontado como reforço da Juventus, Sevilla ou Atlético de Madrid. Apesar de ser um avançado de origem pode descair facilmente para o flanco direito onde utiliza o drible para rasgar em rápidas e letais diagonais. Após a estreia no último torneio de Apertura, o jovem tornou-se num dos pilares do modesto clube que terminou o último Clausura em terceiro lugar, apenas atrás de Huracan e do campeão Veléz. Uma época de sonho para começar de um jovem que já se declarou ser fã número 1 de...Cristiano Ronaldo.

Ao lado de Lautaro Acosta - actualmente no Sevilla - e de Diego Valeri - pretendido pelo FC Porto - é o mais talentoso producto do mitico Lanus. Maradona já declarou publicamente que estará muito atento à sua evolução (como a de tantos outros, convém ressalvar) e as últimas exibições com a celeste já lhe garantiram credibilidade suficiente para fazer-se notar. Tem ainda uma imensa margem de progressão e o seu calcanhar de aquiles é ainda a sua eficácia goleadora, mas ninguém duvida que aqui está uma das futuras estrelas do futebol argentino.
O cavalheirismo no futebol já não existe desde o século XIX. O cavalheirismo no futebol morreu com os primeiros footballers, autênticos gentlemans que foram deixado os campos quando perceberam que as regras e leis que se desenhavam nos bastidores pouco tinham a ver com a sua ideia original. O cavalheirismo no futebol já não existe desde a I Guerra Mundial, quando os exércitos rivais, durante periodos de tréguas, disputavam jogos na terra de ninguém. O cavalheirismo no futebol já não existe desde as primeiras transferências, comissões, bilhetes de identidade e contratos forjados, ameaças e transações ilicitas. E todos no mundo do futebol o sabem. Hoje em dia brincar ás virgens ofendidas parece uma brincadeira de mau gosto. Mas também vende jornais.
Não há clube de futebol - dentro e fora das nossas rectangulares fronteiras - que não tenha os seus telhados de vidros. É inevitável, são muitos anos de negócios sujos, trafulhices, roubos de igreja, jogadores roubados à última hora e casos por aclarar. Enfim, faz parte do próprio futebol. Os adeptos sabem. Os dirigentes sabem. Os jogadores sabem. O lado sujo do mais belo dos desportos é uma realidade tão crua e nua como aquela que levou um dia Otto von Bismarck proferir a celebre frase sobre como fazer salsichas e politica. Uma realide que só serve, hoje em dia, para vender jornais que gostam sempre de polémica, especialmente quando não há nada mais para dizer e muitas páginas para encher. Só assim se entende o destaque - e o espanto - dado às declarações de Rui Costa e Pinto da Costa. O director desportivo encarnado acusou o FC Porto de ir atrás de jogadores, só porque o SL Benfica está interessado na sua contratação. O presidente azul e branco, com muitos mais anos de discussões verbais inconsequentes que a antiga estrela encarnada, respondeu secamente para defender o bom nome da sua dama. Pelo meio voam os nomes mais recentes da disputa, do colombiano Falcão (de quem já se falava na época passada que podia ir para...o Dragão), os uruguaios Rodriguez e Alvaro Pereira, o argentinos Schaffer e até mesmo o espanhol Reyes. Um problema certamente com a lingua de Cervantes com forte sotaque sul-americano já que pelo meio escapou-se ao dirigente encarnado todos os jogadores lusos que a equipa da Luz "roubava" aos seus principais rivais dos clubes das colónias ou das suas próprias colónias no norte do país.
É desonesto que Rui Costa - que parece ser uma pessoa séria - se lembre de acusar o FC Porto - que também não é propriamente uma santidade nestas coisas, já se sabe - de desviar jogadores do rival. Ou interferir nos negócios, que para ele é o mesmo, como se houvesse uma lei não escrita que defende que um jogador contactado por um clube é intocável. O país das maravilhas de Rui Costa deve ser interessante mas ainda não vem no mapa. O jovem director esquece-se de casos antigos, como o do próprio homem da estatua, roubado e desviado literalmente de Alvalade, no Verão quente de 1961. Sim, Eusébio, o próprio. E como ele, vários jogadores que chegaram de forma suspeita à Luz. Da mesma forma que chegaram ás Antas, Alvalade ou qualquer outro campo de futebol. Durante uma larga época dizia-se que marcar um golo ao Benfica significava um contrato, não apenas pela vontade do clube das águias em contratar os melhores (que também o fazia), mas também para fragilizar o próprio rival. Desses casos já nem vale a pena começar a contar quantos jogadores se perderam a bem da nação benfiquista. Um clube com um telhado de vidro tão grande como a própria Luz tem de pensar duas vezes quando entra nestas guerras dialécticas sem sentido. Se a equipa encarnada está tão satisfeita com o seu novo técnico e o plantel construido a seu pedido expresso, gastar saliva neste jogo sujo é a prova viva de que os alicerces na Luz não estão bem sólidos. E o que menos surpreendende é que o SL Benfica continua querer portar-se como uma virgem quando já perdeu a conta a quem abriu a porta do quarto. O falso moralismo das equipas que acreditam estar por cima do próprio meio, tão similar ao Real Madrid que também "roubou" o seu presidente de honra ao rival, também se diz um clube "caballero", mas que acaba por assinar os milionários contratos à socapa.

Nem o FC Porto nem outro clube precisa de defesa porque o que se passa hoje em dia no futebol é indefensável. É o lado sujo do jogo que ninguém quer ver nem quer falar mas que está aí. O adepto quer ver o seu craque e não se preocupa em saber como é que ele chegou e quanto foi feito para satisfazer os seus desejos. E se se alfineta o principal rival, bónus. Todos jogam sujo, todos passam ao lado das leis da moralidade, palavra que cada vez faz menos sentido num meio onde beijar o emblema e suar a camisola são conceitos abstractos que se ensinam aos meninos da mesma forma que os adultos falam de democracia e igualdade nos palcos dos comicios ou no plateus de televisão. No final de contas esta "guerra dialéctica" cumpre o seu propósito, não leva a nada. Prova que Rui Costa está ainda verde para um meio tão sujo - chegará o dia em que também ele se fará de pragmatismo, já verão - e que no Dragão continuam na sua postura de cães que ladram e caravas que passam. No final ficamos sem saber se Bismarck chegou a jogar foot-ball, mas podia ter sido um bom dirigente desportivo.
No despontar da geração You Tube começou a correr pelo mundo uma série de videos de um tal "Foquinha". A vedeta em questão celebrizara-se por um golpe de efeito que passava por levantar a bola, colocá-la na cabeça e começar a correr dando sucessivos toque, à moda das focas, até acabar por ser derrubado em falta. Os jogos do Cruzeiro, onde jogava o "jogador foca" passaram a ser alvo de cobiça e o jovem eleito imediatamente como uma das grandes promessas do futebol brasileiro. Quase quatro anos depois Kerlon, o nome desta personagem, chega ao Inter de José Mourinho e muitos perguntam-se: Porquê?
Kerlon é o exemplo perfeito do poder mediático do futebol e da velocidade em passar informação nos dias que correm. Ainda um adolescente de 17 anos surgiu no Brasileirão com o seu celebre drible e deixou todo o mundo de boca aberta. Repetiu a dose ao alinhar pelas camadas jovens da selecção brasileira e passou a ser o simbolo de uma geração de jovens vedetas que então começavam a despontar. A verdade é que o efeito prático do drible da foca era nulo. Contam-se pelos dedos das mão os lances que resultaram em golo desde que Kerlon aplicou o seu celebre truque de magia. Os adversários, surpreendidos ao inicio, passaram a parar o avançado bem longe da grande área e rapidamente esgotou-se o filão. Da mesma forma que apareceu do nada, Kerlon desapareceu por completo. Da imprensa, da selecção brasileira, da fama. Ultrapassado por várias promessas, essas sim tremendamente eficazes (como Keirisson, Pato, Coutinho, Nilmar...), o jovem acabou por cair no esquecimento e o Cruzeiro teve mesmo dificuldades em vendê-lo, há um ano, para o Chievo Verona de Itália, quando em 2006 o seu passe parecia estar pelas nuvens.
Curioso é que um jogador provido de tanta técnica e tão pouca eficácia, tivesse acabado no campeonato que mais penaliza a técnica individual como é a Serie A. E o inevitável tornou-se real. Uma série de lesões impediu ao prodigio brasileiro de actuar mais do que quatro jogos consecutivos sem qualquer efeito prático. Falou-se no regresso ao Brasil, pela porta pequena, mas o Inter de José Mourinho antecipou-se e garantiu a contratação do jovem (fala-se também que nas próximas semanas pode ser apresentado outro prodigio brasileiro, Coutinho), presumivelmente com a intenção de o fazer rodar noutro clube da Serie A. Quem conhece Mourinho sabe que este já aplicou no passado esta fórmula. No mercado de Inverno de 2004, quando tinha a garantia de que ainda faltavam uns bons meses para recuperar Derlei, o técnico português trouxe para o Dragão o jovem Carlos Alberto, que rapidamente se impôs no onze com o seu talento desbordante, capaz de rasgar a disciplina táctica da equipa num só lance de génio. Que o diga o Man Utd, que o diga o AS Monaco. Problemas disciplinares levaram o brasileiro a perder a oportunidade de uma vida mas certamente, ao olhar para Kerlon, percebe-se que o técnico procura alguém similar para o seu Inter, uma equipa repleta de ordem e eficácia mas sem um pingo de magia capaz de rasgar um desafio a qualquer momento.

O que surpreende é a escolha já que o celebre "Foquinha" nunca pareceu estar realmente à altura de outros compatriotas da mesma geração. Resta saber se o periodo de aprendizagem ao Calcio poderá fazer dele um jogador novo e trazer ao onze neruazzurri um toque de pura ilusão.
Já está online a crónica semanal sobre o estado do futebol internacional publicado no weblog Futebol Artte, dedicada desta feita aos pétrodolares do Manchester City, o único clube em Inglaterra que parece ter vontade de abanar o tranquilo periodo de transferências na Velha Albion. Podem ler o resto do artigo clicando no parágrafo de abertura.
Thiago Silva e Oguchi Onyewu.
São os dois rostos da renovada defesa do AC Milan, versão Leonardo e o romper com a tradicional linha defensiva made in Italy. Uma novidade num clube a viver uma complexa crise institucional. Nos primeiros treinos da época os adeptos quiseram marcar presença para demonstrar o descontentamento com a politica de compra e vendas do clube. Sem Kaká, sem Maldini e possivelmente sem Pirlo ou Pato, a equipa de S. Siro arranca para mais uma época longe da perspectiva de voltar aos grandes titulos. Na competição doméstica Inter e Juventus parecem estar um degrau encima e na Europa a formação milanesa, antes uma garantia de eficácia, é agora vista até com desprezo. A era dourada do Milan definitivamente parece ter acabado, que futuro os espera?
Com um novo e inexperiente técnico - o brasileiro Leonardo - sem as suas referências no terreno de jogo e com um historial de contratações falhadas por este ou aquele motivo, o AC Milan parece estar a entrar de novo em crise. Falhou as contratações de Dzeko e de Huntelaar. Parece não ter capacidade suficiente para conseguir Luis Fabiano e envolveu-se num episódio lamentável com o FC Porto pela contratação de Cissokho. Se juntar-mos a isso o fraco rendimento da grande aposta do ano passado, Ronaldinho, e o falhanço em trazer de novo a Milão o jovem Gourcouff e torna-se claro o motivo do descontentamento dos adeptos milaneses. Com uma equipa assustadoramente envelhecida, o Milan está numa encruzilhada. Pirlo, Gattuso e Dida, na etapa final de carreira, têm propostas e parecem esta dispostos a abandonar o clube onde militaram na última década. O jovem Pato não está preparado para assumir o testemunho de Kaká e o meio campo não tem uma única solução viável para construir jogo. A juntar isso Nesta e Kaladze estão em final de carreira acentuada e as jovens apostas milaneses parecem não funcionar. Trabalho árduo para Leonardo que tem de começar do zero e que já tem uma linha defesiva nova para o próximo ano.
Por um lado Thiago Silva, brasileiro que depois da polémica transferência conseguiu finalmente lugar entre os extra-comunitários. Por outro o norte-americano Onyewu, grande revelação da Taça das Confederações, que depois de uma passagem discreta por França e Inglaterra, mostrou todo o seu potencial no Standard Liege. Ambos são relativamente jovens (o americano conta com 27 anos e o brasileiro com 25) e ambos foram relativamente baratos. Hoje em dia o poderio financeiro do clube italiano é minimo e isso nota-se nas suas manobras de mercado. O anteriormente autoritário Milan tornou-se num negociador de bolsos rotos e o plantel da próxima temporada é o mais modesto dos últimos anos.
Onyewu tem aqui a prova de fogo da sua vida. O seu estilo fisico pode funcionar bem no Calcio mas precisa de apurar a sua disciplina táctica, apesar das boas indicações dadas ao serviço dos States. Quanto a Thiago , estamos diante de uma das maiores promessas do futebol brasileiro como provou a sua participação nos últimos Jogos Olimpicos. Central que pode actuar no lado esquerdo da defesa, é visto como o sucessor de Maldini. Curiosamente já passou por Portugal, mais concretamente pelo FC Porto que o trouxe do Brasil ainda muito novo mas que acabou por vendê-lo ao Dinamo de Moscovo sem ter disputado um único jogo e sob a desculpa de que tinha problemas fisicos e um principio de pneumonia. Depois de um mau periodo na Rússia o jovem voltou ao Fluminense, mostrou todo o seu valor e em Janeiro chegou a Milão. Problemas burocráticos (o Milan já tinha as vagas de extra-comunitários preenchidas) impediram-no de jogar até ao arranque da nova época onde se espera que seja o patrão do coração da defesa.
Uma defesa que Leonardo sabe que será a base da época milanista. Com poucos recursos no meio campo e ainda menos no ataque, o futuro do futebol do AC Milan passa claramente por uma eficácia a toda a prova e uma linha defensiva intransponível. Apesar das apostas em contratar e promover jogadores muito jovens (casos de Di Gennaro, Tabaré, Cardaccio ou Darmian) todos sabem que este será um ano de transição em Milanello. Resta saber que preço terá a equipa rossenera de pagar para voltar às noites de glória.
Seis anos depois Sir Alex Ferguson volta a arriscar. Quando do nada chegou um tal de Cristiano Ronaldo para substituir o mitico David Beckham, metade da imprensa mundial questionou seriamente o técnico escocês sobre se a sua hora não tinha chegado. O extremo português e a equipa que Ferguson montou à sua volta provou ao mundo que o técnico mais premiado em serviço estava certo. Agora que perdeu a sua estrela de eleição, Ferguson volta a arriscar. Gabriel Obertan é o novo enfant terrible!

Quem?
A mesma pergunta fez a imprensa inglesa quando Ferguson anunciou que o substituto de Becks era um jovem português do Sporting chamado Cristiano Ronaldo. A imprensa britânica gozou com o apelido, falou no então craque brasileiro do Real Madrid, e lembrou ao técnico que se havia uma estrela em Alvalade, essa era Quaresma e estava a caminho de Barcelona. Durante mais de um ano o escocês deu tempo ao português e ambos formaram uma sociedade temivel. Venceram tudo o que havia para ganhar. As birras do então CR7 e 96 milhões quebraram uma ligação histórica, apenas ao nivel da que o treinador manteve com Mark Hughes ou Eric Cantona. Na hora de procurar um substituto para a estrela, e quando já todos esperavam que os milhões recém-entrados nos cofres de Old Trafford servissem para pagar os serviços de uma estrela mundial ao nivel de Frank Ribery, o treinador volta a utilizar a mesma estratégia e contrata um desconhecido para o grande público mas que, tal como o português, há anos que está referenciado nos principais clubes como o extremo de maior futuro do futebol francês.
Gabriel Obertan é mais um producto da magnifica formação gaulesa. Nascido num dos bairros periféricos de Paris, começou como tantos outros a sua formação no pequeno Paris FC. Aos 14 anos começou a fazer-se notar e foi rapidamente repescado pelo PSG como sucedeu com outros craques gauleses prestes a "explodir". Passou no Parc de Princes dois anos, onde se tornou também presença regular em todas as equipas de formação dos bleu. Depois de passar por um periodo de formação no mitico centro de estágio de Clairefontaine os olheiros do Bordeaux não perderam tempo e levaram-no para a Gasconha. Aos 16 anos assinou o primeiro contrato com o Girondins e meses depois estreava-se pela equipa principal contra o Valenciennes. Na época 2006/2007 começou a actuar com mais regularidade mas no ano seguinte, com a chegada de Laurent Blanc e uma série de reforços para o meio campo ofensivo, passou mais tempo no banco que no relvado. O mesmo cenário começou a verificar-se já nesta época e apesar de ter ido conquistando um lugar importante entre as opções do futuro campeão da Ligue 1, o técnico decidiu que Obertan precisava de jogar com regularidade e emprestou-o ao FC Lorient. Aí disputou a segunda volta a muito bom nível tendo garantido lugar no plantel dos gascões para a próxima época. Até que chegou Ferguson.

A opção Obertan é claramente um risco mas Ferguson é assim, um homem que não gosta de soluções fáceis. Durante todo o seu longo mandato com o United nunca contratou uma grande estrela mundial. Sempre preferiu o fabrico próprio e já leva quase quatro gerações de jogadores desde que se sentou no banco. Ninguém espere que Obertan entre directamente como titular absoluto. Ferguson gosta de dar tempo ás suas apostas. Foi o que passou com os jovens que foi lançando aos leões durante 20 anos. Obertan tem 19 anos apenas e uma margem de progressão imensa. Para a responsabilidade imediato está Valencia, contratado ao Wigan, o coreano Park Ji Sung, o veterano Ryan Giggs ou o português Nani. Mas Obertan começará a ter minutos e tempo para explodir.
Tal como os jovens sérvios Tosic e Ljalic, contratados no passado defesa quando meia Europa dormia, o francês é uma aposta a longo prazo. O seu caracter rebelde e o seu estilo de jogo explosivo pelas alas (tal como Ronaldo o seu fisico e velocidade permite-lhe jogar igualmente no centro do ataque como falso avançado) enquadra-se bem no espirito deste United pós-CR7. Obertan pode nem vir a chegar a atingir ao mesmo nível que o internacional português. Mas quem conhece Ferguson sabe que este dificilmente perde uma aposta. E Obertan vai ser uma das cartadas especiais da época que já se avizinha.
Era suposto serem as comemorações históricas dos 50 anos mas a edição dourada da Copa dos Libertadores teve de tudo. Futebol, emoção, suspensões, a omnipresente ameaça da gripe…No final o futebol acaba por triunfar e o jogo decisivo disputa-se entre um representantes brasileiro e argentino. Simbólico já que são os países que somam mais títulos continentais e que nesta derradeira final a duas mãos disputam a primazia do futebol sul-americano. Cruzeiro e Estudiantes são os anfitriões de uma final que quer provar ao mundo que apesar de tudo o futebol sul-americano está verdadeiramente de parabéns.

É verdade que a maioria das pessoas presentes ontem no Santiago Bernabeu não tem por hábito ir aos jogos. Eram adolescentes, principalmente jovens raparigas em delirio, familias inteiras repletas de miudos pequenos e muitos portugueses dispostos a ver o seu idolo ao vivo. Também é verdade que a entrada era grátis, ao contrário dos 75 mil napolitanos que pagaram (e bem) para ver chegar Diego Armando Maradona. Mas eram mais de 80 mil vozes histéricas e Florentino Perez teve ontem mais uma demonstração de que o seu projecto, assente no espectáculo mediático mais propriamente do que no futebol no terreno, tem pernas para andar. Quanto ao antigo CR7, convertido em CR9 (apesar da curiosa ausência do C no nome da camisola, que o fez parecer muito a um anterior herdeiro do mesmo número), está cumprido o sonho e agora começam as obrigações. Ontem Ronaldo percebeu que terá bem mais de 80 mil razões para não falhar.

Depois de ter ganho tudo o que havia para ganhar no Manchester United, o extremo madeirense quer agora repetir dose no Real Madrid, clube onde espera consolidar-se como estrela maior do futebol mundial. O grupo de jogadores à sua volta parece, no papel, mais galáctico que o clube inglês onde ele era a grande estrela e apesar do discurso humilde e emocionado de Cristiano, que tanto batalhou para lograr esta transferência milionária, a carrera do jogador fala por si. O craque madeirense gosta de ser o centro das atenções e ontem estava no seu Paraíso particular. Mas a lua de mel nestas coisas não costuma durar muito, especialmente se atrás estão 96 milhões de euros a pesar sob a sua cabeça. O glamour e espectáculo mediático em que o Real Madrid se especializou vem também com a pesada factura de não falhar, sob nenhum pretexto, em nenhum momento. Conquistar as bancadas do Bernabeu não é complicado. Manter a paixão é o mais dificil. Hoje em dia é impossível não acreditar que não há um merengue que não acredite que com esta contratação milionária (e as outras chegadas) é possivel bater o todo poderoso Barcelona. Mas quando a bola começar a rolar na relva os resultados terão de ser imediatos. Não há margem de manobra nem espaço para acidentes de percurso.
Num registo futebolistico claramente distintos ao que está habituado, Cristiano Ronaldo terá de perceber que os espaços não serão os mesmos, que os árbitros não actuarão da mesma forma e que a própria equipa que o rodeia não vai ser um carrousel a funcionar à sua volta, mas uma série de nomes à procura do melhor lugar ao sol. Apesar de todo o marketing e mediatismo que o esperam, o verdadeiro problema da nova aventura de Cristiano estará no seu papel de "Profeta" anunciado como salvador de uma pátria destroçada por escândalos institucionais, mau futebol e um rival que joga como os anjos. Guardiola agradece o presente de Perez. Hoje em dia o mundo do futebol esqueceu-se de que a equipa que ganhou tudo o que havia para ganhar, a equipa que jogou o melhor futebol em largos anos, é o Barcelona e não o Real Madrid onde as estrelas contratadas e anunciadas ainda nem tiveram a oportunidade de ter a bola nos pés. A pressão estará toda do lado dos merengues que, ainda por mais, em ano onde a Champions League se celebra em pleno Bernabeu, terão de lutar até ao último instante para vencer...ou tudo, ou nada.

Ronaldo está no clube ideal. Um clube que vive de egos individuais e que aposta numa mensagem agressiva de superioridade moral face a todos. Com um presidente conhecido popularmente como "Ser Superior", com uma imprensa altamente devota, com o apoio de milhões de adeptos, não só em Espanha mas em mercados emergentes como Ásia ou América Latina, o Real Madrid, ao contrário do que era o Manchester United, gosta de vender a sua superioridade e a grandeza dos seus membros. Quando são jogadores merengues, a imprensa e os adeptos levam os seus idolos aos pincaros. Quando não o são, tratam-nos abaixo de lixo. Corresponder ás suas ilusões é ganhar um lugar na história, desiludi-los é destruir uma carreira. Antes de aterrar em Madrid a imprensa espanhola tratava Cristiano Ronaldo como um jovem português, pretencioso, arrogante e sem respeito pelos colegas e rivais. Bom, mas nada de especial. A partir de ontem, onde alguns canais generalistas transmitiram em directo a cerimónia de apresentação do actual Ballon D´Or, ele passa a ser de novo, o Melhor Jogador do Mundo, já por encima do esquadrão do Barcelona que o derrotou em Roma e com quem disputará nos próximos anos a primazia do futebol espanhol.
Face a este cenário o capitão da selecção portuguesa sabe que não tem a minima margem de manobra. Se conseguir tudo aquilo a que se propõe, ganhará o seu lugar no panteão dos históricos. Mas para tal, antes de celebrações, é preciso trabalhar e jogar. Porque apesar de tudo o que traz no bolso, agora CR9 começa desde o zero. E parte com atraso para a armada blaugrana. Teremos todo o ano para ver se o seu mitico sprint é suficiente para ultrapassar o campeão da europa e o trio mágico Messi-Xavi-Iniesta.
Desde a sua chegada a Stanford Bridge que a Roman Abramovich faltam cumprir três sonhos. Ver a sua equipa jogar um futebol atractivo, triunfar na Champions League e fazer tudo isto com jogadores russos no onze titular. Se a era Mourinho deu ao polémico milionário os primeiros titulos domésticos, a verdade é que vencer na Europa e de forma elegante é uma obsessão no Chelsea. A entrada de Carlo Ancelloti, técnico que no AC Milan priveligiou o futebol de toque, é a primeira etapa para cumprir o sonho do patrão. Contar com um jogador do tamanho de Yuri Zhirkov ajuda a cumprir a segunda. Falta a Champions em Maio...quem sabe.

Desde que explodiu no passado Euro 2008 que o Mundo nunca mais se esqueceu de Zhirkov. O habilidoso extremo foi utilizado na selecção russa como defesa lateral e fê-lo de tal forma que acabou por ser eleito para o 11 ideal da prova. Extremo avançado de origem, Hiddink apostou nele para criar desiquilibrios no ataque, contrapondo no lado esquerdo o poder de fogo e a técnica de Andrei Arshavin, o mago do ataque russo que descaía invariavelmente pelo lado direito. A táctica saiu-lhe bem e no magnifico jogo contra a Holanda o médio convertido em defesa destroçou por completo a táctica de Marco van Basten. Poucos acreditavam que Zhirkov continuasse no campeonato russo mas a falta de uma oferta sólida e a forte saúde financeira que vivem os clubes na Rússia permitiu ao CSKA Moskva mantê-lo no plantel, um ano mais. Zhirkov era um simbolo do clube do qual Abramovich é também adepto, e tinha feito parte da equipa que surpreendentemente arrebatara anos antes ao Sporting a Taça UEFA em pleno estádio de Alvalade. Agora tinha-se tornado no extremo esquerdo mais procurado na Europa, especialmente pela sua polivalência em jogar como defesa ou médio ofensivo.

O Chelsea mostrou sempre interesse em contar com Zhirkov.
O sonho de um "Chelski" não abandonou Abramovich depois dos episódios falhados de Alexei Smertin e Andrey Shevchenko. Apesar de se falar em ofertas milionárias de Barcelona, Manchester United e Bayern Munchen, sempre se soube que o destino mais provável do russo era Stanford Bridge. E Zhirkov assenta, com o seu estilo rápido e leta, como uma luva no esquema de Ancelloti. Face à iminente saída de Ashley Cole, pode fazer com Bosingwa uma parceria diabólica nas laterais. Caso o britânico fique para mais uma época, Zhirkov é a opção mais lógica para actuar no lado extremo do ataque, apoiando o ponta de lança de serviço. Um lugar que nunca teve um verdadeiro dono no Chelsea depois das experiências de Duff, Robben, Cole e Malouda. O médio russo passa desapercebido no meio deste vendaval de transferências milionárias já que 20 milhões de euros conseguem, parecer, hoje pouca coisa. Mas é muito provavelmente uma das contratações mais acertadas da época e prova viva de que a Premier, apesar de ferida pelos milhões da liga espanhola, está bem viva e pronta para mais um ano de puro espectáculo.

