Segunda-feira, 1 de Junho de 2009
Este FC Porto tem um grave, gravíssimo problema. Vive na mediocridade. E parece, a cada ano que passa, cada vez mais contagiado pelo espírito que rodeia o futebol português. Ontem a final da Taça de Portugal testemunhou mais um desses momentos onde fica claro que um clube que vai a Old Trafford ou ao Vicente Calderon impor o seu futebol não pode depois funcionar, contra uma equipa que não é claramente do seu campeonato, da forma tão lamentavelmente medíocre como a que exibiu no Jamor. O espírito resultadista e inconsequente deste Porto é preocupante, até porque é uma realidade que vai ganhando forma de ano para ano. Os títulos sucedem-se e pela primeira vez em quatro anos a equipa conquistou a ansiada dobradinha. Mas o bom futebol vai desaparecendo dos relvados ficando uma versão em piloto automático, incapaz de mostrar bom futebol e sem pingo de eficácia. Muito pouco para quem se assume como tanto.

Ao ver os festejos eufóricos pós conquista da Liga e Taça, até parece que o FC Porto não está acostumado a ganhar. Está, e muito. Domina o futebol português com uma superioridade gritante e não encontra rival interno que lhe possa fazer sombra. E aí começa o problema. Nos anos em que, para ganhar, era necessário suar em campo, este FC Porto era mais acutilante, cerebral e também, mais espectacular. À medida que os anos passam e os rivais vão desaparecendo (desde os dois grandes de Lisboa a Boavista e Vitória) também o FC Porto, acomodado por este falso domínio, vai baixando de nível. O nível suficiente para vencer tudo, mas insuficiente para fazer história. Este ano vimos, uma vez mais, uma equipa bem pior do que muitas que não lograram tantos troféus. Jesualdo Ferreira lá tem o seu mérito em vencer com um plantel francamente mediano para a história e importância do clube mas ontem a sua tremenda satisfação em vencer uma final da Taça de Portugal com um resultado e uma exibição tão magros, espelha bem o nível de exigência da entidade.

O jogo no Jamor foi mais do mesmo. Um dragão sem chama nem espírito, com um golo madrugador, muitas (demasiadas) oportunidades desperdiçadas, um jogo pastelento a meio campo e uma defesa que aqui e ali treme. Quando não devia. Sem criticar a equipa de Paços De Ferreira, que muito mérito teve em chegar tão longe numa prova cada vez mais descaracterizada, do tetracampeão nacional esperava-se, como mínimo, uma exibição arrasadora. Tivemos serviços mínimos. Lisandro marcou, Raul assistiu, Fernando limpou, Nuno parou, Hulk falhou. Nomes incapazes de despertar uma real paixão, jogo incapaz de levantar estádios. Títulos que se acumulam nas vitrinas. Um grave problema entre as mãos.
A imprensa subvencionada lá dirá que é a primeira Taça em três anos, que a época é longa e os jogadores estão cansados. Verdade. E insuficiente. Enquanto que no país vizinho o Barcelona não tem rivais reais, por muito que tentem, em Portugal o Porto não tem rivais, nem reais nem imaginários. E não há quem tenha um projecto sério para o tentar. Os azuis e brancos, outrora o clube anti-sistema, rebelde e guerreiro, tornaram-se no clube do sistema, acomodado, sem ambição e conhecedor da realidade donde se move e do que é necessário para vencer. Um dia podem pregar-lhe um susto e pode ser que aí desperte. Como aconteceu com o Lyon em França. Até lá, a renovação de Jesualdo, as piadas de Pinto da Costa e os contratos dos jogadores são fait-divers interessantes para a imprensa. Para os amantes do bom futebol este FC Porto continua a ser uma contínua dor de cabeça, um cruel espelho do nosso futebol real. Quando o campeão se porta assim, que esperar dos outros?
Depois de dois anos de falso domínio do Real Madrid, o Barcelona voltou a demonstrar a sua superioridade na liga espanhola e arrecadou o ceptro aos rivais. E com um glorioso 2-6 em pleno Santiago Bernabeu. A equipa é praticamente a mesma dos dias de glória de Rijkaard mas a diferença está no banco. Pep Guardiola foi a figura da temporada. Mais do que os seus artistas, o técnico catalão estreou-se em grande. Criou um 4-3-3 demoníaco, capaz de se transformar em 3-4-3 graças à velocidade de Daniel Alves e logrou bater todos os recordes de La Liga. A notável segunda volta do Real Madrid de Juande Ramos adiou o máximo de tempo possível o titulo blaugrana até ao encontro na capital onde se percebeu que os últimos dois anos tinham sido mais demérito do Barça do que propriamente mérito do débil plantel clube madrileno.

O Barcelona até arrancou mal mas rapidamente começou uma série demoníaca que parecia prever uma vitória fácil O trio ofensivo Messi, Henry e Etoo destroçou as defesas de mais de meia liga, e Xavi assumia-se como o patrão de um meio campo de sonho com Iniesta, Keita, Touré e o jovem Busquets. Mesmo o calcanhar de Aquiles catalão, a defesa, contava com notáveis intérpretes de Alves a Pique, passando pelos inevitáveis Valdês e Puyol. A entrada de Juande Ramos para o lugar de Schuster e o duplo tropeção do clube catalão em Fevereiro deu novo ânimo à liga, até porque o clube da cidade condal continuava em alta na Taça e na Champions League, enquanto que ao Real Madrid lhe sobrava a liga para lamber feridas. O sprint final dos catalães foi demoníaco e a reconquista do ceptro mais do que merecida pela equipa que melhor futebol praticou em todo o ano futebolístico, a par do Manchester United.
No segundo posto esteve sempre o Real Madrid. O campeão em título começou bem a época, começou a tropeçar cedo e chegou ao Nou Camp sem treinador e sem esperança. Uma segunda volta de épica deu ilusão de novo aos adeptos madridistas mas o plantel era curto demais para bater o pé ao Barcelona. Higuain acabou por ser a única nota de destaque numa equipa repleta de veteranos e jogadores de nível médio. Para o ano, já com Florentino Perez na presidência (o clube perdeu um presidente e um director técnico ao longo do ano que acabaram nos tribunais) promete-se um novo rosto do velho gigante.
Na sempre dura luta pela Champions sorriram Sevilla e Atlético de Madrid. O clube sevilhano esteve sempre em alta e apesar da desilusão europeia, foi das equipas mais competentes em campo ao longo da época. Os golos de Kanoute e Fabiano e o trabalho de Navas, Capel e Renato foram decisivos para manter em alta o clube andaluz. Já o Atlético de Madrid parece ter-se finalmente estabilizado na zona europeia. Aguirre começou a época periclitante e acabou por ser despedido, apesar do feito de apurar-se para os oitavos de final da Champions. No seu lugar Abel aproveitou-se dos golos de Forlan, mais uma grande época, e do espírito irrequieto de Aguero, Maxi Rodriguez e Simão Sabrosa para orquestrar uma equipa eminentemente ofensiva. O quarto posto é o prémio para a ousadia do eterno segundo da capital espanhola.
Na Europa estarão também Villareal, autor de mais uma notável época para um clube com orçamento tão limitado, e Valência, que sofreu uma grave crise financeira que levou a que durante vários meses os jogadores não tivessem recebido os respectivos salários. Um sinal do que se vive em Espanha, o país onde os clubes estão mais endividados e onde se vive mais acima das suas possibilidades. O outrora grande Deportivo de la Coruña e o surpreendente Málaga foram os grandes ausentes das provas europeias depois de uma excelente temporada. Já o Athletic Bilbao garantiu o regresso à Europa por ter chegado ao final da Taça do Rei mas a época no San Mames foi de novo de sofrimento até ao fim. Já Almeria e Valladolid tiveram temporadas tranquilas, com óptimos arranques que depois logo foram perdendo gás.
Na desesperada luta pela salvação o primeiro a cair foi o decano Recreativo de Huelva, clube que há apenas dois anos brilhou ao lutar pelos primeiros postos e que agora volta a cair de divisão. Destino similar teve o Numancia, recém-promovido, e o Betis, um histórico orientado onde militam Ricardo e Nelson, mas que não conseguiu superar os rivais directos. Salvos in-extremis o Sporting de Gijon, Getafe e Ossasuna, que passaram a maior parte da época nos postos de descida, e ainda o histórico Espanyol que protagonizou a recuperação do ano. A meio da época seguia em último e praticamente condenado e acabou por ser uma das surpresas da segunda volta, junto com o Maiorca, estabilizando-se nos postos do meio da tabela.

Apesar da publicidade no país vizinho sobre a “melhor liga do mundo”, a época 2008/2009 espelha bem a queda de qualidade do futebol nos terrenos espanhóis. A fortíssima crise financeira que se começa a abater sobre os clubes deixa já moça em alguns históricos e só a fortíssima cantera espanhola poderá adiar a inevitável falência de mais de metade dos clubes da liga dominada este ano pelo Pep Team catalão.