A maioria da imprensa internacional deu como surpreendente a vitória do Egipto diante da Itália. Se por um lado a equipa italiana jogou bem no segundo tempo - sem claridade nenhuma mas com grande alma - a verdade é que há um desconhecimento absoluto fora do continente africano das potencialidades do Egipto. A selecção das pirâmides tem a sua quota parte da culpa - afinal desde 1990 que não marca presença num Mundial de Futebol - mas hoje em dia os egipcios são a mais completa selecção do continente que daqui a um ano receberá o seu mundial. E em África, até que se prove o contrário, mandam os faraós.
Já tinham avisado no jogo contra o Brasil, colocando por três vezes (três) a bola dentro das redes de um desamparado Julio César. Culpou-se a defesa brasileira de todos os erros mas quem esteve verdadeiramente mal nesse encontro foi a defesa egipica. Concedeu muitos espaços, mostrou fragilidades nos lances de bola parada e acabou traída pela sorte (com ajuda da televisão) no último instante. Mas deixou o aviso. O mesmo que nas últimas edições da CAN, da qual a última foi um festival de antologia que levou o Cairo à loucura. A presença do Egipto na África do Sul tem em África o mesmo impacto que a vitória espanhola na Europa. Uma equipa com bom toque de bola, eficácia diante da baliza e capaz de sacar o melhor de uma das suas gerações mais emblemáticas. No entanto, à diferença dos espanhois, os egipcios vivem o ostracismo do marketing e da falta de exportação dos seus talentos. No Egipto paga-se bem o que impede muitas vezes que os seus melhores jogadores abandonem os grandes clubes locais - onde se inclui o Al Ahly que com Manuel José venceu tudo o que havia para vencer - para aventurar-se na Europa, como sucede com os jogadores magrebinos ou da África negra. Daí que para a maioria dos adeptos nomes como os de Homos, autor de um golo de belo efeito, Aboutrika, Said, Zidan, que se lesionou durante o encontro, e Essam El Hadary. O veterano guarda-redes é um mito nacional e ontem provou-o bem com uma exibição genial do primeiro ao último segundo parando tudo o que havia para parar. E isto que os mais populares Mido e Zaki, a actuar na Europa, não viajaram com a sua equipa, o primeiro por opção técnica (tem um passado de indisciplinado) e o segundo por lesão.
Honestamente é preciso referir que a selecção do Egipto tem pontos debeis. A defesa pode ser permeável em lances estudados e o ataque por vezes é pouco eficaz, especialmente quando actua a segunda linha. Como foi o caso de ontem. Mas é um conjunto organizado como poucos no continente africano. A sua ausência do Mundial (neste momento não lidera o grupo de qualificação) seria uma grande perda já que a jogar "em casa", os faraós poderiam demonstrar o seu melhor jogo.
Depois do Brasil ter provado o veneno egipcio, ontem foi a vez da Itália. A equipa de Marcello Lippi joga de forma agonizante. Com os Estados Unidos reagiu a tempo e dominou por completo o segundo tempo, mas desde muito cedo jogava contra 10. Ontem foi melhor na última meia hora, mas trapalhona em todas as investidas à baliza egipcia. Lippi continua a apostar no mesmo conjunto que lhe deu o titulo Mundial há três anos mas a já então veterana equipa é hoje um conjunto demasiado envelhecido para este ritmo (nota-se demasiado o ar cansado de Gattuso, Pirlo, Cannavaro, Toni, Zambrotta...). E as novas incorporações ao onze (Montolivo, Pepe, Rossi) não estão a ser capazes de fazer a diferença. Apesar do fracasso do Euro, a equipa de Lippi não deu ainda provas de ter aprendido a licção e hoje dificilmente poderá ser catalogada como candidata a revalidar o trofeu. Terá, para já, de bater por mais de dois golos um eficaz Brasil para jogar as meias-finais desta prova. E depois um ano para aprender os erros e apresentar na África do Sul um rosto totalmente distinto. Enquanto isso os egipcios celebram. Estão a um pequeno passo de fazer história e já sonham com outros voos. Mas para isso é preciso qualificarem-se primeiro.
Já está disponível online a análise á edição 2008/2009 da Liga Sagres publicada no weblog Futebolês por convite expresso do seu autor, Ricardo Costa.
Podem ler o resto do artigo clicando no primeiro parágrafo do texto a continuação.
No meio da polémica de Cissokho e da apresentação de Jorge Jesus, o FC Porto, como não quer a coisa, anunciou que o novo guarda-redes internacional, Beto, será azul e branco. Não se conhecem os valores exactos nem a percentagem de aquisição – o que já começa a ser um mau hábito no Dragão – mas sabe-se que o contrato tem uma duração de quatro anos. Uma noticia que já se adivinhava (os primeiros rumores sobre a transferência do guarda-redes do Leixões vêm desde o final do ano passado) mas que levanta um sério problema na planificação do plantel portista para a próxima temporada. Sendo claro que a competição interna é algo saudável, é preciso também entender que há apenas um lugar no terreno de jogo que deve estar garantido, do primeiro ao último jogo do ano. A baliza. Arrancar o ano com quatro guardiões de nível elevado levanta duas questões que podem espelhar bem o tipo de postura que a equipa técnica portista vai apresentar no próximo ano.

A primeira opção seria a de fazer rodar – tal como aconteceu no passado com Bruno Vale, por exemplo – o jovem Ventura, unanimemente considerado como a maior promessa a sair das escolas de formação do clube desde Vítor Baía. Abdicar da possibilidade do jovem crescer em casa e enviá-lo para um clube de pequena dimensão pode significar mais minutos, mas também um atraso na sua evolução. A segunda seria procurar um clube capaz de pagar por Helton, um óptimo guarda-redes mas que é bastante inconstante, o que o internacional brasileiro vale. Depois de ter sido preterido por Dunga e do garrafal erro no Vicente Calderon, o valor do passe de Helton baixou bastante em relação ao início da época passada. Mas não deixa de ser um selecionável do escrete com óptimo mercado e com muitos anos pela frente. Se Nuno é um segundo guarda-redes sólido – como o provou na época passada – e deverá continuar a fazer parte dos planos de Jesualdo, resta saber que galos estarão a disputar o poleiro do Dragão na próxima época.

O FC Porto tinha várias lacunas no plantel como foi demonstrado ao longo do ano. O ataque, o centro da defesa, as alas…nenhum dos problemas azuis e brancos esteve na baliza. Apesar da mudança de Helton e Nuno nas semanas mais conturbadas da época transacta, a segurança defensiva dos dragões foi sempre uma constante. Helton esteve bem, se esquecermos os erros em Madrid no jogo da Champions League, enquanto que Nuno também respondeu sempre a bom nível quando chamado. Se o segundo sabe claramente que o seu lugar é de apoio ao titular, estando a entrar nos últimos anos da sua longa e prolifera carreira, já o primeiro ambiciona regressar à baliza do escrete, onde perdeu a corrida da titularidade para Júlio César, tendo deixado inclusive de fazer parte do grupo de convocados. A um ano de um Mundial é fundamental para Helton jogar e faze-lo num clube de nível demonstrado, ou seja, um clube capaz de dar garantias de estar ao mais alto nível. O FC Porto pode fazê-lo. E haverá no mercado poucos clubes com essa montra. Os rumores que o ligavam ao Barcelona (que finalmente renovará com Valdés) são um espelho do mercado que o guardião tem, mas também do nível de clubes que Helton procura se deixar a Invicta. Ser suplente de Beto não entrará certamente nos seus planos e a equipa técnica do Porto tem de ser sensível na gestão desta relação, até porque têm bem presente o problema do SL Benfica que, de um ano para o outro, fez da sua baliza um autêntico inferno para qualquer um dos guardiões de alto nível que tinha no seu plantel.
Já está disponíve online o artigo de colaboração semanal no weblog Futebol Artte dedicado ao futebol internacional. Esta semana o tema em destaque é a Taça de Confederações na África do Sul e os problemas organizativos do país africano e as possiveis consequências no desenrolar do Mundial no próximo Verão.
Aqui fica disponivel o primeiro paragrafo. Ao clicar no texto podem ler o artigo completo.
O futebol é mágico. E surpreendente. Dentro e fora das quatro linhas.
Só assim se pode explicar a notável reviravolta naquela que muitos "especialistas" já tinham considerado como a transferência do defeso. O lateral esquerdo Aly Cissokho afinal já não irá vestir a camisola do AC Milan. O clube italiano cancelou o negócio que tinha acertado com o FC Porto num valor à volta dos 15 milhões de euros devido ao estado de saúde físico de Cissokho. Aos dentes, mais precisamente.
Qualquer desportista sabe da importância que os dentes têm no combate a lesões musculares e osseas. Uma má dentição - ou incorrecta - podem levar a que um jogador apresente muitas vezes posturas erróneas o que, em última análise, poderá favorecer que esse mesmo elemento esteja muito mais predisposto a lesões de teor muscular e a desvios osseos. O FC Porto já anunciou que conhecia o caso e que o está a tratar, mas em Milão não se brinca em serviço. O clube milanês - que tem em Milanello provavelmente o mais completo centro de estudos médicos ligado ao mundo do futebol - examinou o defesa francês e chegou à conclusão que Cissokho não garantia a saúde ferro exigida para suportar o duro futebol italiano. Galliani ainda propôs a Pinto da Costa um periodo de empréstimo de seis meses com opção de compra pelo mesmo valor da transferência, mas o Porto negou-se, pedindo um elevado valor, segundo o vice-presidente milanês para o jogador ser emprestado. O vexame já era suficiente.

Esta noticia corre por toda a Europa e o ponto comum centra-se no departamento médico azul e branco. Em Itália e Espanha levanta-se a questão de como um jogador, contratado há seis meses pelo FC Porto ao Vitória de Setúbal, tenha superado todos os testes médicos para meio ano depois o departamento médico do AC Milan tenha rejeitado - pela primeira vez em vários anos - um elemento para o seu plantel por problemas fisicos. A história lembra ainda o que sucedeu há vários anos em Madrid, quando Jonathan Woodgate foi aprovado nos exames médicos do Bernabeu, para depois ter sofrido várias lesões. Mais tarde descubriu-se que o central tinha vários problemas fisicos menores que foram ignorados e que custaram caro ao Madrid. Clube que, acertou, dois anos depois, ao abdicar de Gabriel Milito, central do Zaragoza com quem tinha contracto, porque os médicos merengues diziam que era um jogador propenso a lesões musculares, também pela estructura dentária e ossea. Em Barcelona não fizeram caso e contrataram o jogador. No final da primeira época lesionou-se e hoje, depois de um ano parado, soube-se que continuará assim por vários meses, tendo mesmo a carreira em risco.
O FC Porto tenta desculpar-se, indicando que há meses que Cissokho estava em tratamento de recuperação para solucionar o problema de "mordida assimétrica". Aliás, há vários jogadores azuis e brancos na mesma situação que jogam com aparelhos dentários para evitar problemas. A equipa médica do FC Porto considera que esse tipo de problemas não é suficiente para não contratar um jogador. Mas em Itália os clubes são mais profissionais e entendem que um jogador que vive do fisico e que pode render pior por um pequeno detalhe, mesmo corrigido, tem de ser contratado nas condições ideais. E rejeitaram entrar na conversa dos dragões. Além do mais, para juntar ao caso médico, há ainda a questão da natureza do negócio. Desde que foi anunciada a curiosa transferência que em Itália se começou a investigar o porquê de um jogador com preço de compra à volta dos 600 mil euros pode valorizar-se em seis meses até chegar aos 15 milhões. Mais ainda porque não se conhece, a dia de hoje, o quanto pagou o FC Porto pelos restantes trinta por cento do passe do atleta.
A questão financeira pesou, naturalmente, na decisão milanesa que poderia ter avançado para a contratação de Cissokho e proceder com a sua recuperação em Milanello. Afinal o jogador, com 21 anos, ainda não demonstrou ter quaisquer problemas fisicos. Mas uma coisa é vender um jogador por números exorbitados em relação ao seu real valor e outra é vendê-lo sabendo que o jogador tem problemas fisicos detectávies por exames exaustivos. O FC Porto não se limitou a tentar vender um jogador por muito mais do que vale. Vendeu-o sem estar nas perfeitas condições fisicas - por muito que seja um problema solucionável com o tempo - e isso o AC Milan não perdoa.

A imagem azul e branca fica tristemente manchada por este episódio. Por um lado os muitos pretendentes do jogador pensarão agora duas vezes antes de tentar fazer-se com os seus serviços. E claro, os números de uma futura transferência, serão bastante diferentes dos que estavam na mesa. O clube fica com um jogador que passa a ser conhecido por toda a Europa pelos problemas dentários, perdendo assim tristemente a reputação de jovem promessa. Terá um ano para a recuperar de azul e branco vestido porque uma coisa é contratar um jogador por 600 mil contos e tratar um problema fisico. Outra é pagar a fortuna exigida pelos dragões sob o risco de no dia seguinte o jogador romper por um problema tão aparantemente insignificante.
Por outro o FC Porto - que é uma das instituições desportivas mais respeitadas no futebol europeu actual - fica com fama de mau vendedor. E no mundo de hoje, onde o dinheiro compra e vende tudo, há algo extremamente precioso que é o prestigio. Com este "caso Cissokho" o prestigio do FC Porto dificilmente será voltará a ser o mesmo. Uma autêntica dentada no orgulho do Dragão.
Entrou de rompante, como se esperava. Afinal, ele é "a Paula Rego" do futebol nacional. Um génio incompreendido que, ao 21 ano como técnico profissional, chega finalmente a um grande. Sem estar ligado a nenhuma geração ou corrente de técnicos, Jorge Jesus gosta de ser ele próprio. Gabou-se de ser o primeiro homem a explorar o 3-4-3 no futebol português à imagem e semelhança do Dream Team de Cruyff, com quem, aliás, estagiou em Barcelona. É conhecido e reconhecido por ser um homem que se mexe bem no banco, capaz de corrigir a táctica com dois ou três pormenores. Um técnico que ganha jogos no banco e não se fica pelas bonitas palavras das palestras. Porque de bonitas palavras, nada.
Jorge Jesus é o técnico do povo. Um homem que se assume completamente normal, do "povão" como eternizou José Esteves (com b), que chega ao culminar da sua carreira. Treinar o "clube do povo". O clube dos "6 milhões". E alguns mais até dirão os mais arrojados. Depois de um ano onde os benfiquistas tiveram de sofrer com um homem que se expressava com eloquência (esforçando-se mesmo por falar português, algo inédito em Espanha) mas que desconhecia totalmente que o Benfica era a paixão de qualquer tertulia de café e que não assumir logo querer ser campeão era de cobardes, os encarnados já podem sorrir. Jorge Jesus promete tudo. Promete o titulo. Promete fazer história. Colocar aquele que foi considerado o melhor plantel benfiquista da década a jogar "a dobrar...e se calhar é pouco". Palavras eloquentes num homem que não tem, claramente, dons de gente.

O estilo de Jesus choca com a sensibilidade portuguesa. Não anda em rodeios como os clássicos treinadores lusos (vêm-me à cabeça, inevitavelmente, Fernando Santos) mas também não tem sentido do ridiculo. Comporta-se como se fosse o treinador mais reputado de um campeonato onde o quarto posto com o SC Braga foi o melhor resultado da sua carreira. Depois de passar por Felgueiras (onde inventou o famoso 3-4-3 que o levou a descer de divisão), Vitória de Setubal, Belenenses e Braga, entre outros, o técnico chega para fazer história. Num clube com 67 treinadores na sua história, apenas três portugueses (Mario Wilson, Fernando Cabrita e Toni) foram campeões. "Sei que serei o 18 campeão do Benfica!" O presidente Luis Filipe Vieira sorriu. Encontrou o homem capaz de empolgar o ambicioso adepto da águia, ferido no orgulho por vários anos de seca.
Jorge Jesus é um técnico que tem uma interessante cultura táctica, mas que nunca ultrapassou verdadeiramente o peso de disputar competições até ao fim...e vencer. Sem qualquer trofeu na sua carreira (excepto a Taça Intertoto, resultado da boa prestação do Braga nesta época) Jesus gosta de jogar em 4-3-3 num estilo de jogo bastante ofensivo, onde o equilibrio de jogo está essencialmente no tridente do meio campo. O treinador utilizou a sua ultima variação no Belenenses, com sucesso significativo, e chegou ao Braga onde definiu esse 4-3-3 aproveitando-se da qualidade do plantel bracarense que lhe oferecia garantias em todos as posições chave. Na Luz o técnico encontrará um plantel bastante mais equilibrado do que tem sido habitual. As contratações anunciadas incluem duas promessas brasileiras - Patric e Ramires - e ainda um defesa esquerdo argentino - Schaffer. Fala-se do desejo do treinador em levar consigo o guarda-redes Eduardo o que levanta o problema excedentário de uma posição onde as águias já têm dois internacionais portugueses. No Benfica Jesus promete jogar tal e qual habituou os seus admiradores. Um modelo de jogo que benificiará um meio campo composto por Ruben Amorim-Ramires-Aimar e um eixo ofensivo onde Reyes e Di Maria aplicarão a velocidade mas onde falta o avançado movel tão ao gosto do técnico.
Resta ver que traz o mercado ao sapatinho daquele que quer ser o "Mourinho da Luz", o homem capaz de bater o pé ao Dragão e voltar a devolver a àguia ás vitórias. Se frases marcassem golos, Jesus começava a época a golear. Mas o técnico terá de demonstrar em campo cada uma das palavras proferida na conferência de apresentação. Pode ser que uma ou outra acabem por ficar atravessadas, como uma espinha irritante. Dessas que transformam herois em vilões no braseiro da Luz.
Sem dar muito nas vistas, assim como não quer a coisa, o dia desportivo fica marcado por um anúncio muito menos mediático que o do novo técnico do SL Benfica. Mas marcante para uma era do futebol português. Aos 34 anos de idade, abandona os relvados, a mais sábia e matreira raposa do futebol português. Um homem que logrou o feito de sagrar-se campeão como capitão de equipa por dois clubes distintos. Duas etapas na vida de Pedro Emanuel que fizeram dele um dos jogadores de referência na história do futebol nacional.

Nascido a 11 de Fevereiro de 1974 em Angola, então ainda território nacional, Pedro Emanuel viveu na pele o drama dos retornados à pátria, apesar das traições da memória imberbe. A familia mudou-se para o Porto onde cresceu e onde deu os primeiros pontapés na bola. O caracter, arisco e matreiro, sempre fizeram dele um jogador especial, desde os anos de formação. Com 19 anos estreou-se como profissional no modesto Marco FC e daí passou para o sul de Douro, para a Ovarense, voltando depois a norte para jogar pelo Penafiel, clube onde se começou a fazer notar. De tal forma que Valentim Loureiro repescou-o para o seu Boavista em 1995, equipa que então começava a ganhar respeito dentro e fora do território nacional. Ao lado de Litos, o jovem central tornou-se na pedra nuclear da defesa que disputou taco a taco o titulo com o FC Porto em 1999. A amarga derrota em Faro apenas serviu para adiar o sonho. Dois anos depois cumpria-se o destino e o já capitão ergueu orgulhosamente o trofeu diante dos adeptos da Pantera. Era o primeiro titulo do clube do Bessa e do então central de 27 anos, no ponto máximo da sua carreira. Ou talvez não.

Ao chegar ao FC Porto, rapidamente José Mourinho percebeu que precisava de um forte eixo defensivo. Sabendo que ia perder Jorge Andrade, e apesar da confiança em Jorge Costa e Ricardo Carvalho, era necessária uma alternativa de luxo. Num golpe de arrojo os dragões roubaram ao rival o capitão e em 2003 o central foi apresentado como azul e branco. Seria a segunda grande história de amor de Pedro. Com o final de carreira do velho capitão e a venda milionária de Carvalho ao Chelsea, o central de Luanda tornou-se chave no FC Porto. O momento de glória definitiva chegou em 2004, quando face à ausência de Vitor Baía, ergueu bem alto a Taça Intercontinental em Tóquio. Depois de Portugal e da Europa, o matreiro mas sempre humilde Pedro Emanuel era agora rei do Mundo.
Desde esse dia em diante tornou-se elemento chave no balneário azul e branco. Ajudou a fazer a transição geracional, tornando-se na referência chave com as saidas de Jorge Costa e Vitor Baía. Voz de comando no balneário, capitão de equipa em campo, uma gravissima lesão afastou-o dos relvados durante uma larga época.

Aos 33 anos começa a perceber que o corpo não lhe ia perdoar tantos anos de entradas duras, golpes secos e corridas extenuantes. Ao longo da última temporada foi rendido definitivamente no onze pelo jovem Rolando. Em campo o papel de lider também já tinha herdeiro, Bruno Alves. O velho capitão podia estar tranquilo. E apesar de muitos alertarem para a falta de uma forte voz de comando portuguesa no balneário, especialmente face à saída iminente de Bruno Alves, a verdade é que desde há dois anos para cá que Pedro Emanuel sabia que a sua última hora em campo estava a chegar. E sem grandes festejos, alaridos ou capas exclusivas, o jogador anunciou o principio de uma nova era. Ao leme dos sub-17 portistas, recém-campeões nacionais começa uma carreira de técnico. A julgar pelas palavras de Mourinho, que sempre disse que era a sua voz de comando personificada no terreno de jogo, pode estar aqui a génese de um dos mais interessantes técnicos portugueses do futuro. Brilhante e simples, como sempre foi em campo.
Garantir o futuro é o primeiro passo rumo à vitória.
Em Portugal, país formador por excelência de variadíssimos talentos de nivel mundial - basta colocar, por exemplo, que duas das quatro maiores transferências da histórias falam português - essa mentalidade não se enraizou definitivamente. Portugal prefere exportar ao minimo sinal de talento e paga o preço. Enquanto que em ligas de igual ou inferior potencial como França, Alemanha, Ucrânia ou Holanda, a exportação dos maiores talentos atrasa-se ao máximo, de forma a obter o maior rendimento possível de uma jovem promessa que também necessita deste periodo de maturidade, em Portugal dá-se o exemplo contrário.
Jovem que destaque à primeira em é imediatamente referenciado na Europa - o talento nacional é mais reconhecido lá fora que cá dentro, lamentavelmente - e vendido à primeira oferta que chega à mesa. Vive-se a politica do vender agora antes que dê perjuizo. Assim vive o nosso futebol, ano após ano, a deixar sair, não só os grandes craques mas também jovens promessas que não têm tempo de se afirmar, importando em troca jogador de terceiro e quarto nível do Brasil.
Esta situação explica também os valores baixissimos recebidos pelos clubes nacionais por vendas de jovens jogadores na última década como foram Hugo Viana, Simão Sabrosa, Ricardo Quaresma, Nani, Cristiano Ronaldo, Hugo Leal, Helder Postiga, Tiago, entre outros. Problemas estruturais do nosso futebol impedem ver mais além. Não bastava exportar cedo e barato a formação nacional também tem um grave problema: importa pouco e mal. São raros os casos de descobertas de olheiros nacionais no estrangeiro que maturem nas camadas jovens e cheguem à equipa principal. O Sporting conta agora com um jovem nigeriano, Rabiu Ibrahim, o Benfica com um guineense de futuro Lassana Camará...e o FC Porto, passa a contar com uma das maiores promessas do fascinante futebol turco.

Engin Bekdmir é o mais jovem capitão das selecções de formação do futebol turco.
Uma dessas promessas que não passa despercibida aos olheiros que deambulam por essas competições. O jovem médio ofensivo, um verdadeiro criativo na dimensão clássica do termo, é o craque dos sub-17 turcos mas já actuou pela equipa de sub19 várias vezes. Esteve no último Europeu na Alemanha onde foi uma das figuras nucleares da sua equipa. Curiosamente é ele próprio um filho da diáspora turca do norte da Europa. Nasceu na Bélgica e tem passaporte comunitário (essencial nos dias que correm) em Beverloo em 1992. Depois de oito anos na pequena localidade belga mudou-se para a Holanda já que o PSV Eindhoven descubriu-o numa prova de jovens talentos e não hesitou em avançar para a contratação. Durante quase uma década serviu as cores dos holandeses tendo sido mesmo escrito na lista da Champions League da época transacta, apesar de não ter efectuado qualquer jogo. Um sinal de confiança de um jovem que já era a estrela do futebol juvenil holandês, também ele um viveiro de craques.
A contratação deve-se ao trabalho de Patrick Greveraars, treinador das camadas jovens que Co Adriaanse referenciou e que acabou por chegar um ano depois trazendo consigo a ideia de estruturar todo o futebol dos dragões desde a mais tenra idade. O técnico é igualmente adjunto das reservas e desde que chegou o FC Porto melhorou muitissimo nos últimos quatro anos a sua formação - sagrando-se campeão de Juvenis e Juniores este ano - e o seu nome no mercado internacional permite agora ao FC Porto ter um forte capital de atração para jovens promessas europeias...e não só. O jovem esteve duas semanas à experiência e não foi preciso mais para rubricar um contracto que, de principio, o levará à equipa júnior. Mas o jovem que foi cobiçado por clubes de meia Europa, incluindo Manchester City, Bayern Munchen e Galatasaray, tem um futuro brilhante à sua frente. É a oportunidade de ouro para o tetracampeão nacional provar que está a fazer os trabalhos de casa e a preparar uma equipa de primeiro nível para o futuro.
Os mais nostálgicos ainda se lembrarão dos dias em que quase todos os logotipos de clubes italianos e as suas respectivas alcunhas eram baseadas em nomes de animais. Muitos emblemas foram mudando ao longo das décadas e muitas dessas designações ficaram guardadas na memória. Para o ano uma delas vai certamente voltar a estar na moda. O astuto José Mourinho aprendeu a licção de um ano repleto de sacrificios e de estabilização de uma ideia: construir um conjunto de grande magnitude à escala europeia. A peninsula da bota parece pequena para a ambição da cobra que renasce.

Sem o espalhafato do Real Madrid, tão tipico daquelas bandas, e sem o desespero do rival de Milão, o defeso do Inter ameaça tornar-se na antitese do futebol italiano actual, altamente desacredito e sem equilibrio algum. O AC Milan deita as mãos à cabeça pela perda de Kaká (e cuidado porque Pirlo e Pato têm ofertas), os grandes de Roma têm os craques em risco e a Juventus ainda não assimilou bem a mudança geracional. E o campeão, tranquilo, espera. Qual serpente letal vai fechando os buracos imensos que o plantel da época passada deixava a nu e começa a montar um projecto realmente equilibrado capaz de espelhar a filosofia do seu técnico.
Oficialmente os nomes confirmados são apenas dois, mas há vários negócios que caminham por bom porto e espelham bem esta mudança de atitude. O clube que mais dinheiro gastou em transferências durante anos, o clube que chegou a contratar nomes como Bergkamp, Zamorano, Ronaldo, Recoba e tantos outros que sairam de S. Siro de mãos vazios, mudou radicalmente a postura. O ano passado investiu em reforços de segunda linha porque foram poucos os grandes craques pedidos pelo novo treinador que arriscaram viajar ao Calcio. Este ano os nomes pretendidos pelo técnico português não são tão sonantes, mas podem revelar-se letais. Da mesma forma que montou o seu Chelsea com alguns jogadores de grande talento mas sem grande nome no mercado (assim chegaram Cech, Robben, Cole, Drogba), também agora o setubalense tem em mente elementos cerebrais capazes de transformar o seu 4-3-3 num equilibrado 4-2-3-1, bem mais prático para as suas ambições europeias. Com as saídas de Figo, Julio Cruz e Crespo confirmadas, e as sonantes dispensas de Rivas, Vieira, Quaresma e Burdisso, era preciso voltar a dar cor ao plantel nerazurri. As entradas confirmadas de Diego Milito e Thiago Motta, ambos vindos do Genoa, trazem mais acutilância ofensiva (Milito foi um dos goleadores do ano e será o complemente ideal de Zlatan Ibrahimovic) e equilibrio no meio campo. As mais que prováveis incorporações dos portugueses Ricardo Carvalho e Deco trazem dois nomes habituados ao estilo do técnico e que lhe darão segurança e experiência em duas posições nucleares: o centro da defesa, um verdadeiro calvário no ano transacto, e na transição ofensiva, onde Mourinho não dispõe de nenhum jogador. Por outro lado o anunciado negócio com o PSG que aceitaria trocar Mohamed Sakho por Patrick Vieira, significa desprender-se de uma velha glória em fim de carreira por um dos defesas mais promissores do futebol europeu. E isso é montar uma equipa de futuro.
No entanto o Inter continua a ter um défice de carisma resultado também do cinzentismo da actual Serie A. Apesar de Maicon ser um craque na sua posição a verdade é que, só Zlatan Ibrahimovic tem capacidade de atrair público ao estádio. A permanência do sueco é algo fundamental para o plano do técnico português. Ele é a estrela à volta da qual Mourinho quer montar todo o seu projecto. O jogador âncora capaz de contagiar público e colegas, o homem que resolve os jogos mais complicados com um toque de magia. Perder esse elemento significa dar dois passos atrás, por muito grande que seja o encaixe, porque a verdade é que Zlatan, junto com Messi, Cristiano Ronaldo, Xavi e Ribery, é hoje um dos cinco jogadores mais desiquilibrantes do mundo. Será a mais complexa tarefa de Mourinho em todo o defeso. Lográ-lo é meio passo para montar uma equipa realmente distinta à da época transacta. O reforço da defesa é nuclear mas a manter-se Maicon e confirmando-se Ricardo Carvalho, Sakho e o jovem Santon, estamos diante de um quarteto de respeito. O meio campo com Muntari e Motta na parte muscular e Deco na criação de jogo é também um plus comparado ao utilizado na época transacta e com Ibrahimovic, Milito, Mancini ou Balloteli na frente, os milaneses mostram a sua face mais devastadora. A época está quase aí e a cobra está à espreita para dar a estocada definitiva.
A elite da juventude do futebol europeu junta-se a partir de hoje na Suécia para resgatar a coroa do dominio holandês. Depois de duas edições ganhas pelo conjunto da laranja mecânica este ano há pelo menos uma certeza: o cenário não se irá repetir.
Os campeões não lograram classificar-se e abrem assim passo a uma nova geração de campeões. Candidatos não faltam. Literalmente dos quatro cantos da Europa chegam as armadas de juventude repletas de jovens promessas e estrelas já consagradas que na busca pela imortalidade degladiar-se-ão para conseguir um lugar na final da prova. A Suécia alberga a competição e é também uma das favoritas. Apesar de ser um colectivo sem grandes estrelas, o onze sueco tem todas as caracteristicas do futebol nórdico. Futebol tacticamente correcto, bom posicionamento em campo e jovens de grande capacidade fisica e algum nível técnico. Lidera-os o jovem Marcus Berg, avançado que actua ainda na modesta liga holandesa mas que está mais do que referenciado e pode dar mesmo o salto esta pré-temporada. Os olheiros dos grandes da Europa estão atentos.

Os mais fortes candidatos à conquista do ceptro são latinos. Depois da hegemonia do futebol do norte e centro da Europa nas últimas edições, as novas gerações de talentos de Espanha e Itália estão dispostos a voltar à senda de triunfos.
A equipa espanhola quer repetir o sucesso da equipa A no passado Europeu. Conta com um onze repleto de estrelas já consagradas nos principais clubes da liga milionária. O técnico Lopez Caro tem à sua disposição Bojan, Raul Garcia, Asenjo, Capel e Granero prontos a repetir os feitos de 1986 e 1998. É uma equipa jovem que acenta no estilo de jogo de toque tão habitual do futebol espanhol. Com dois bons laterais ofensivos (Torres e Azpilicueta), um guarda-redes de alto nível (Asenjo) e uma linha ofensiva letal a Espanha tem claros argumentos para levar de vencida os principais rivais do grupo e ambicionar a chegar ao mais alto do pódio.
No grupo A o favoritismo está nas mãos de italianos. Os azzurrini têm um grupo complicado mas o técnico Pierluigi Casiraghi, uma velha glória, tem à sua disposição um dos conjuntos mais fortes dos últimos anos. Andreolli, Criscito, Pisano e Marzoratti no eixo defensivo, Marchisio, Dessena e Poli no meio campo e Giovinco, Paloschi e Ballotelli no ataque (com Cerci e Acquafresca como suplentes de luxo) provam que, se de individualidades falassemos, os italianos partiam com clara vantagem. Fieis ao seu estilo de jogo, os italianos esperam que o espirito letal dos dianteiros façam o serviço, mas não descuram o eixo defensivo onde se mostraram extremamente eficazes na fase de qualificação. Depois de cinco triunfos a selecção italiana quer fazer história e no encontro inaugural contra a Sérvia pode dar arranque a uma prova inesquecivel.
Como eventuais surpresas estarão sempre os onze da Alemanha, Inglaterra e Sérvia.
Os germânicos voltam à alta roda do futebol europeu em bom nível depois de várias edições onde estiveram muito além do habitual. A equipa de Hrost Hrubesch, responsável da eliminação da favorita França - a outra grande ausente do certame - tem um onze repleto de jovens estrelas da Bundesliga desejosas de dar o salto. O avançado Mark Marin, os médios Sami Khedira, Mesut Ozil e Gonzalo Castro e os defesas Matts Hummels, Daniel Schwaab e Andreas Beck são as principais figuras de uma equipa capitaneada pelo promissor guardião Michael Neuer. Apesar de não contar com triunfos nesta categoria, os alemães são rivais temiveis e os primeiros a por à prova a armada espanhola. Por sua vez os ingleses também logram voltar à ribalta depois de vários anos de baixo rendimento. A equipa do jovem Theo Wallcott (e também de Gabriel Agbonlahor, Fazier Campbell, Fabrice Muamba, James Millner, Kieran Gibbs, Michael Mancienne, Micah Richards, Joe Hart...) espera surprender e devolver à selecção da rosa um trofeu que não logra desde o longinquo ano de 1984. Por fim há a equipa Sérvia repleta de jovens promessas mas que tem sempre certa dificuldade em funcionar como colectivo. Os Sulejmani, Tomic, Tadic, Tosic, Obradovic e companhia são referências entre as jovens promessas da Europa mas para vencer a este nível é preciso algo mais.

Finlândia e Bielorrussia foram as surpresas agradáveis da fase de qualificação mas ninguém esperam que tenham capacidade de bater as grandes potências europeias. Os primeiros tem um estilo de jogo claramente nórdico e acentam todo a condução de jogo no futebol de Tim Sparv, enquanto que os bielorrussos são cada vez mais uma formação a ter em conta no futebol de leste e Sergey Krivets é um nome a sublinhar a marcador vermelho. Que o diga a Turquia.
A prova arranca hoje com um Inglaterra-Finlândia em Halmstad e prolonga-se até ao próximo dia 29, data em que Estocolmo recebe a final e coroará o novo rei do futebol de formação europeu.
Ano após ano o futebol nacional vive e revive o mesmo cenário de transe analítico de final de temporada na Segunda Circular. Depois de mais um ano sem títulos de renome - e já lá vão quatro num eixo e uns longos sete no outro - toca a reavaliar, estructurar e recomeçar do zero. Sem resultados aparentes. Este ano chega aliás com bónus eleitoral num país que, já por si, estará farto de ir a votos. Em nenhum caso a crise institucional aclara e ajuda a solucionar o problema desportivo. As sucessivas sucessões e guerras de reis sem trono e tronos sem reis são um fenómeno cada vez mais habitual, ausente a norte do Douro, onde a longa ditadura de quase três décadas de Pinto da Costa, ajuda a esconder os podres da casa e a ressaltar as conquistas no terreno de jogo. Para Benfica e Sporting isso é um sonho longinquo e já se sabe, quando se começa já a época de corda no pescoço, torna-se complicado nçao acabar bem enforcado.
Se está claro que o nivel de uma prova depende da qualidade competitiva dos seus principais elementos, então aí está a explicação mais lógica para o baixo nível do futebol português e a constante facilidade na renovação do ceptro de campeão por um FC Porto muitos furos abaixo do possível. Benfica e Sporting são hoje, cada vez mais, fantasmas do que já lograram no passado. Longe de apresentar projectos sólidos e estaveis, capazes de bater o pé aos agora tetracampeões nacionais, os dois grandes da capital disparam sucessivos tiros nos pés, ano após ano, hipotecando muitas vezes antes do próprio inicio da temporada todas as suas hipoteses. Uma falta de clarividência que chega a ser assustadora se observarmos bem que ambas as instituições têm mantido a mesma linha directiva (no caso do Benfica já são cinco anos de presidência e no caso leonino uma continuidade que vem dos dias de José Roquette) nos últimos anos e mesmo assim sem reais resultados. Águias e leões entram em campo a medo, incapazes de demonstrar bom futebol, muitas vezes a sonhar que o máximo a lograr é um segundo posto. Atitudes negativas que puseram em causa vitórias que pareciam claras e hipotecaram naturais opções ao título nacional como sucedeu há três anos e mesmo durante grande parte da época transacta, as duas provas onde o nível do FC Porto baixou a niveis assustadores. Em ambos os casos os dragões mostraram nos momentos decisivos esse pedigree de campeão que anda escondido a maior parte do ano mas que ainda subsiste. Um nivel que os dois colossos da Segunda Circular parecem ter perdido, comportando-se cada vez como anões.
Este ano ainda não terminou (ou arrancou como preferirem já) e enquanto o FC Porto se diverte a desmantelar mais uma equipa com negócios mais ou menos obscuros, já Sporting e Benfica começam a deitar por terra as suas reais opções. Ambos a braços com eleições directivas, ambos a braços com problemas desportivos, os dois clubes falham de novo no mercado, nas formas e na dinamica desportiva. Os sportinguistas deram uma esmagadora maioria a mais um presidente que continua a politica desportiva minimalista que transformou um clube que foi campeão dois anos em três no inicio da década numa instituição que já quase dá como por assumido que o segundo posto - e a classificação para a Champions League - são o prémio mais elevado a lograr. Se nas provas nacionais do Sporting só se vê serviços minimos, na Europa a prestação do ano passado foi hilariante, chegando mesmo a colocar o real valor da equipa que tinha arrancado o ano com tantas ilusões. Incapazes de resolver problemas de balneário sem criar crises institucionais, com um técnico limitado tacticamente e que é constantemente deixado só ante o perigo, o Sporting arranca mais um ano baseando apenas nos jovens que vai formando e em meia dúzia de elementos a custo zero que pouco ou nada trazem ao colectivo. Uma absoluta falta de ambição desportiva que se nota a léguas. Em Alvalade há pouca esperança de que a coisa mude.
Por outro lado, o Benfica vive os seus habituais defesos. Muitas capas de jornais vendidas, muitos jogadores contratados e no final, o resultado de sempre. Na época passado o novo director desportivo, cheio de boas intenções, Rui Costa, montou o melhor plantel encarnado da última década. Mas entregou-o a um técnico sem resultados evidentes e com uma notória falta de conhecimento da realidade do futebol português. Achou que os serviços minimos funcionavam e até Dezembro, com ajuda de Porto e Sporting, até teve razão. Mas quando se exigiu mais viu-se que naquela cama os pés ficavam de fora. O plantel bem estructurado caiu num onze mal planeado deixando de fora vários elementos que poderiam ser tacticamente relevantes na estructura encarnada. O resultado foi mais um terceiro posto, uma péssima participação europeia e um ano mais de orgulho ferido para aquele que ainda é (mas por quanto tempo?) o conjunto nacional com mais titulos. Agora que o presidente voltou a querer todo o protagonismo, preparando-se para mudar tudo de novo (novo técnico, novos guarda-redes, defesas, médios, avançados, ....) parece que a equipa tão bem montada já não vale de nada. Que o Benfica ande no mercado atrás de um guarda-redes quando tem dois internacionais portugueses no plantel, é a viva prova de que a confiança é uma palavra inexistente na Luz. Que o plantel se prepare para avançar para o mercado sem ter ainda um técnico com contracto assinado, é também sinal de que LF Vieira continua, um ano mais, a provar que é daqueles presidentes que não conseguem deixar de lado o lugar de treinador frustrado. E se apostar em Jorge Jesus pode ser a solução para consumo interno, há muito que os adeptos benfiquistas perderam a ilusão de ver jogar uma equipa como a que a logrou ao título de 1993/1994, apenas um dos dois conseguidos nos últimos...quinze anos!

Olhando bem para o panorama é mais do que preocupante observar que os dois clubes históricos da capital possuem em 18 anos apenas 4 titulos de campeão em total (dois para cada) contra a vitória solitária do Boavista e as 13 conquistas azuis e brancas. O FC Porto tem sido uma sombra de si própria desde que Jesualdo Ferreira tomou o leme do Dragão mas mesmo assim vive um periodo dourado de conquistas internas. Mais do que mérito azul e branco - que o houve, especialmente na época 2007/2008 - estamos claramente diante de uma nova época num futebol que fala a uma só voz e onde todos os outros clubes teimam em não se fazer ouvir. Que os problemas estructurais dos crónicos clubes de classe média os impeçam de subir, é algo a que estamos habituados. Que os habituais candidatos ao titulo se comecem a portar, cada vez mais, como se estivessem em pleno transe, é para por em causa a real competitividade de uma prova que começa a parecer-se cada vez mais aos campeonatos de terceira linha da Europa, quando há menos de uma década se assumia como uma das ligas emergentes do futebol internacional. Curiosamente numa época onde para ser-se campeão era preciso um pouco mais do que nos oferece o actual detentor do trofeu...o mesmo de sempre!
Há momentos em que um clube tem a possibilidade de dar um passo em frente ou dois atrás. Momentos onde o passado choca com o futuro e deixa na mesa todos os sinais para evitar o que pode voltar a suceder. São encruzilhadas que nos ensinam que há verdades absolutas no futebol e que há, pura e simplesmente equipas que não aprendem com os erros. Hoje o FC Porto mostrou, uma vez mais, ser uma delas.
A equipa azul e branca aceitou uma oferta de 15 milhões de euros do AC Milan em troca dos serviços do lateral esquerdo Aly Cissokho.
O mesmo que há um ano jogava na segunda divisão francesa, onde nenhum olheiro gaulês o soube descubrir. O mesmo que jogou a primeira volta da época transacta no Vitória de Setúbal onde brilhou a bom nivel convencendo os azuis e brancos que era o homem ideal para suprir a vaga de defesa esquerdo, aberta desde os dias de Nuno Valente, já lá iam cinco anos. Esse mesmo que era agora pretendido por Lyon e que soava como futuro internacional, que impressionou em Old Trafford depois da desilusão do Calderon. Um jogador muito jovem e com um largo futuro pela frente. E um jogador que actua numa posição chave, onde o clube portista - e o futebol português em geral - tem crónicas dificuldades em encontrar eleemntos de nivel recorrendo demasiadas vezes a adaptações sem sentido. Ora esse mesmo elemento, chave na conquista do titulo azul e branco, vai para o ano suceder ao gigante Paolo Maldini em Milão. Uma promoção impressionante mas é preciso ver que chegar e vencer não é o mesmo no Dragão que no S. Siro. E que o que os italianos lograram foi demonstrar, uma vez mais, a incapacidade dos dragões em aprender dos seus próprios erros.
Dos 15 milhões anunciados o clube azul e branco apenas receberá 9 milhões.
Como tem sido prática comum com Pinto da Costa a equipa azul e branca já não compra jogadores. Compra percentagens. Um erro crasso que já o levou a problemáticas negociações para conseguir a totalidade do passe de alguns jogadores chave. Uma realidade triste que predomina em Portugal graças ao trabalho de agentes e empresas de agentes que controlam o mercado e ditam as regras. Os milhões recebidos, ano após ano pelo FC Porto em transferências nem serviram para melhorar o plantel nem para abater o passivo. Esfumam-se na atmosfera. O Porto está altamente individado e não consegue manter um plantel de alto nível europeu. E ao desprender-se assim, por uns meros 9 milhões (mais incentivos futuros) de um jogador nuclear, é arrancar a época com um tiro no pé. A equipa já garantiu o concurso de dois laterais (Miguel Lopes e Alvaro Pereira, esse último resultado das habituais trifulcas com os benfiquistas que Pinto da Costa tanto aprecia) e por isso os dirigentes não se alarmam. Mas esquecem-se de que o primeiro é uma jovem promessa e o segundo desconhece completamente o futebol nacional e pode muito bem ser mais um numa lista onde se foram multiplicando os falhanços, ano após ano (houve de tudo naquele flanco menos um jogador de nivel desde que o internacional português partiu para o Everton).
Se a politica de vender jogadores consagrados - como sucederá com Bruno Alves e eventualmente com Lisandro Lopez ou Lucho Gonzalez - é algo natural para um clube num campeonato que vai de mal a pior, já abdicar por uns tostões de um promissor elemento numa posição chave, é um erro crasso. Esse dinheiro que entra no Dragão desaparecerá provavelmente em mais uns quantos argentinos que nem servirão para aquecer o lugar. E voltará o drama das adaptações, dos problemas a montar o onze e nessa altura, especialmente se Cissokho estiver nas reservas milanesas em periodo de adaptação, a direcção perceberá que esperar um ano mais seria o ideal para garantir a estabilidade e nivel do plantel. Mas há muitos anos que no Dragão se cometem sempre os mesmos erros e se o plantel portista já partia para esta nova época altamente desiquilibrado, as anunciadas transferências de Cissokho, Bruno Alves e Lisandro põem a nu a incapacidade portista de manter um plantel de nivel elevado ano após ano. E isso é pura e simplesmente resultado de não se aprender com os erros do passado.

Esta é uma prova cada vez mais incómoda e a quem poucos dão real importância. Criada pela FIFA para servir de ante-camara para o Campeonato do Mundo – que arrancará a 11 de Junho do próximo ano – a Taça das Confederações já mudou de formato, de periodicidade e de distribuição de participantes. Sem nunca chegar a convencer. As grandes selecções marcam presença mas a contra-gosto. Os pequenos países aproveitam para aparecer debaixo dos holofotes, nem que seja por uns breves minutos, e o país organizador demonstra todo o esplendor do evento que tem preparado. Este ano a festa é especial. Nem os grandes estão interessados em viajar à África do Sul com um ano de antecedência nem o país africano está ainda em condições de se mostrar um digno anfitrião. No final poucos se lembrarão desta Taça das Confederações. Uma vez mais…


Com a reformulação do Europeu de sub-21, o Torneio de Toulon foi perdendo alguma importância mediática mas continua a ser uma prova de referência para analisar o futuro do futebol mundial. Não é por acaso que há quase mais olheiros que público nas bancadas. E os que seguirama edição deste ano ficaram com o caderno de apontamentos recheados de nomes sul-americanos. O Chile dominou categoricamente a prova e a Argentina foi uma agradável surpresa. Para combater o império sul-americano a ex-campeã da Europa de sub21 que não defendirá o titulo, a Holanda, e a equipa da casa, França.
Portugal ficou pelo caminho á abrir mas pode defender-se de ter sido eliminado pelos dois conjuntos finalistas.

A vitória do Chile sobre a seleção francesa foi o corolário de uma excelente campanha que, curiosamente, começou com uma dificil vitória sobre Portugal. No primeiro encontro o Chile não se encontrou completamente mas benificiou de um grave erro defensivo luso. Na final a equipa orientada brilhantemente por Ivo Basay foi sempre superior ao conunto de Erick Mombaerts. O golo madrugador de Martinez - o melhor marcador da prova e a grande revelação do torneio - decidiu o encontro que os chilenos controlaram a seu belo prazer. A equipa coordenada na defesa por Christopher Toselli mostrou ter mantido a frieza exibida no encontro da fase de grupos onde derrotou os gauleses também por 1-0. Depois do sofrimento nas meias-finais (derrotou nos penaltis a Holanda) a consagração definitiva. E com bom futebol pelo meio.

Já a França não convenceu. Com um plantel de luxo para a edição deste ano (na equipa gaulesa alinhavam promessas como Sakho, Sissoko, Obertan, N´Gog ou Sankhare) os galos tiveram dificuldades em passar sobre Portugal e Qatar e nunca bateu os conjuntos sul-americanos. Eliminou a Argentina por penaltis, após um desafio brilhante do jogador mais espectacular em prova, Diego Buonanotte, e sucumbiu duas vezes diante dos chilenos. A Holanda - ausente do Europeu da Suécia surpreendentemente - esteve uns furos muito abaixo do que habituou nos últimos anos. Sem um jogador chave (Sarpong foi dos que mais destacou) a laranja foi pouco mecânica tendo saído do torneio apenas com um triunfo (1-0 diante dos EAU). Já os argentinos foram os mais espectaculares abrindo o torneio com um categórico 4-0 á Holanda mas acabaram traídos pelo azar dos penaltis depois de terem sido sempre melhores que o onze francês na meia-final. A equipa orientada por Sergio Batista provou ter uma nova geração de alto nivel na forja. Para além de Buonanotte houve ainda tempo para o público deliciar-se com o bom jogo de Perroti, Trecarichi, Pacheco, Nervo e Banega, jogador actualmente no Atlético de Madrid.

Quanto a Portugal, ficou como dissemos o consolo de ter sido derrotado pela minima pelos dois finalistas, e a alegria de lograr a goleada da prova. Num torneio onde as equipas árabes (Egipto, Qatar e EAU estiveram muito abaixo do nivel exigido para este tipo de provas) o conjunto portugês ficou-se pela mediania. Contra o vencedor do torneio a equipa de Rui Caçador foi sóbria mas acabou por cair no eterno pecado nacional da falta de espirito competitivo. O erro defensivo no último minuto anunciou o tipo de prova que iria fazer Portugal. Um conjunto repleto de jovens promessas mas sem espirito competitivo (a maioria joga em clubes de pequena e média dimensão ao contrário dos jogadores das restantes selecções). Contra a França a selecção nacional lutou bem mas mostrou claras deficiências na construção de jogo. A goleada da prova - 6-0 - surgiu no último encontro e serviu para mostrar que Portugal merece estar nestas provas mas que para ir mais longe necessita de muito mais. Resta a esperança de que o regresso na edição dominada pelos sul-americanos seja um prenúncio de um regresso aos triunfos, algo que os lusos não saboreia há vários anos nas categorias de formação.

A balança desiquilibrou-se. Uma vez mais.
Já não é o peso das pesetas que volta a colocar a Liga Espanhola num local de destaque. Hoje, salvo a invencivel libra, o euro domina o espectro europeu e é em euros que se falam nos 96 milhões de Cristiano Ronaldo (a imprensa britânica reduz o caso a umas meras 80 milhões de libras) ou nos 56 milhões de Kaká. O que se trata aqui é de discutir a hegemonia da Premier League ou o ocaso final da Serie A. O futebol espanhol - consagrado no passado Europeu a nivel de selecções e em Roma a nivel de clubes - volta a assumir um protagonismo perdido ao longo da década para os relvados britânicos. As contratações do brasileiro e do português pelo Real Madrid são mais do que reforços nucleares para o clube madridista. De um só golpe, Espanha rouba os simbolos das duas ligas rivais e junta-os ao outro arpão do tridente, o argentino Leo Messi, e ao seu grupo de jogadores nacionais de elite (Xavi, Iniesta, Villa, Casillas) voltando a transformar o seu campeonato na Liga das Estrelas.

Desde o principio dos anos 2000 que se começou a verificar o ocaso progressivo da Liga espanhola. O falhanço do primeiro projecto galáctico, a rápida ascensão e queda do Barça de Ronaldinho e o desaparecer do Valencia com a saída de Benitez transformou o futebol espanhol na segunda potência europeia, por detrás da consolidada Premier League.
Em Inglaterra o trabalho de casa estava feito e ao cumprir 10 anos de existência a prova era um exemplo de gestão. Contractos publicitários colectivos que evitavam números dispares nos clubes facilitavam uma prova extremamente igualada. Clubes históricos, instituições sólidas financeiramente e adeptos loucos ajudaram a fazer da Premier o campeonato número um por excelência. A entrada de vários magnatas russos, islandeses, americanos e agora árabes injectou constantemente dinheiro nos clubes que foram vendo como as suas finanças se depaupuravam progressivamente. A cada ano que passava a Premier perdia uma ou outra estrela para Espanha (sairam Beckham, Van Nistelrooy, Owen, Henry e agora Ronaldo) mas mantia o glamour lançando jovens estrelas, contratando os melhores técnicos e mantendo a emoção até ao fim. A supremacia da Premier estava evidente na Champions League. Ao largo dos últimos anos por várias vezes três equipas inglesas lograram o acesso à final e há dois anos duas formações inglesas disputaram em Moscovo o troféu europeu.

Em Itália, liga por excelência da década de 90, a queda em desgraça da Serie A já vem de há muito. Na altura, a venda de Zidane, espelhou esse desiquilibrio constante do futebol italiano que deixou de ter impacto mundial, apesar das vitórias na Champions do AC Milan. Sem jogadores estrelas, sem jogos com bancadas cheias ou grandes audiências, o futebol italiano tornou-se no patinho feio do futebol europeu e só nomes com glamour como Kaká eram capazes de fazer a diferença. A perda do médio brasileiro para o futebol espanhol - e a iminente perda de Zlatan Ibrahimovic para o Barcelona ou Manchester United - pode agudizar ainda mais a crise e deitar por rastos qualquer hipótese de recuperação mediática.
Por outro lado o futebol espanhol sempre soube mostrar um glamour especial. Contratava grandes estrelas internacionais - principalmente do mercado sul-americano - vendia o marketing dos seus dois grandes emblemas e vivia muito acima das possibilidades. Hoje La Liga está quase em falência técnica e há vários clubes que têm graves dificuldades em pagar os salários em atraso aos seus jogadores. Isso sucedeu, por exemplo, com o Valência, um histórico que está à venda mas que não consegue fazer frente a um passivo milionário. O próprio Barcelona conseguiu tapar vários problemas económicos e de gestão com a brilhante temporada do passado ano. E o Real Madrid, que agora alegremente gasta milhões conseguidos em mais uma série de empréstimos, é um dos clubes com a dívida mais elevada da Europa. E já não há terrenos desportivos para vender como sucedeu há dez anos quando Perez chegou pela primeira vez ao clube.

No entanto o público em geral desconhece esta realidade. Compra os jornais, vê os nomes e faz as contas. Se exceptuarmos a armada britânica (Gerrard, Lampard, Rooney), o espanhol Fernando Torres, o francês Frank Ribery, o sueco Ibrahimovic ou ainda jogadores mediáticos como Buffon, Totti ou Toni, praticamente todos os grandes craques mundiais jogam em Espanha. A armada catalã de Guardiola tem no próximo ano um rival de peso. Mas também no Atlético, Villareal, Valencia ou Sevilla jogam elementos de primeiro nível. O campeonato é altamente desiquilibrado, é certo. Mas emocionante. Os dois primeiros distanciam-se cada vez mais, há uma classe média de cinco equipas (Sevilla, Villareal, Valencia, Atlético Madrid, Deportivo) e depois um imenso vazio a lutar por sobreviver. Mas mesmo assim respira-se incerteza e emoção em cada encontro. O nivel do futebol inglês é superior e nesse aspecto, bem como na vertente espectáculo, nada pode superar o futebol que se vive em terras de sua Majestade. Mas se os nomes vendem, efectivamente, as estrelas parecem-se ter refugidado em Espanha para disputar a próxima temporada.

