Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

 

O futebol é injusto. Uma máxima gasta através do tempo e bem presente na cabeça de qualquer um que esteja apaixonado pelo “beautiful game”. Não se percebe, não se aceita. Mas é inevitável. Mas há injustiças…e há injustiças. As irremediáveis e aquelas que se eternizam no tempo sem que nada, ou ninguém, tome uma decisão. E se para umas coisas a UEFA é rápida a propor e aplicar mão pesada – que o diga o FC Porto – para outras, fazer ouvidos moucos aos gritos clamorosos de injustiça, é marca registada da casa. 

 

Lembro-me bem da mítica final da Champions League de 1999, a noite mágica em Barcelona que marcou a reviravolta nos descontos do Man Utd. Lembro-me particularmente do rosto de Paul Scholes e Roy Keane. Os esteios dos Red Devils durante todo o ano estavam na bancada, de fato e gravata, a ver os companheiros protagonizar uma das noites mais épicas da história deste desporto. Mas não estavam lesionados. Tinham sido admoestados quinze dias antes, no estádio Dell Alpi, onde o Manchester carimbou o apuramento para a grande final. Scholes viria a história devolver-lhe o direito a erguer a taça no relvado o ano transacto. Mas o genial Roy Keane nunca voltou a pisar um palco europeu. O motivo? Acumulação de amarelos nas eliminatórias prévias. Uma situação que se repete – e cada vez mais – nas grandes competições – e que deixou de fora de grandes noites a vários craques. Mas craque ou não craque, algo parece óbvio. A final de uma grande competição, seja a Champions League, Taça UEFA, Europeu, Mundial, …, é o momento alto na vida de um desportista. O culminar muitas vezes de uma longa e angustiosa carreira à espera desses 90 minutos. Privar um jogador, seja uma celebridade ou um simples operário, de estar presente nessa noite, apenas pelo argumento do acumular de cartões nos jogos prévios, é de uma temível injustiça. 

 

Da mesma forma que se limpam os cartões ao passar de uma fase para a outra, a UEFA – e FIFA e todas as demais organizações – necessitam perceber que a final é uma fase à parte. A ultima. A decisiva. O momento mágico. E se estamos a falar de cartões injustos – e aí estamos a entrar na subjectividade – a situação é ainda mais grave. A expulsão no jogo da passada terça feira de David Fletcher, foi, nas palavras do seu treinador, Sir Alex Ferguson, “um drama pessoal”. E é que Fletcher, que não é um craque mediático, tornou-se naquele operário útil a todo o treinador. E que merece muito mais estar em Roma que muitas das vedetas do plantel, que viram, tranquilamente, o jogo no banco. Evra e Rooney estavam igualmente ameaçados. Controlaram-se. Mas saíram antes. Apenas e só por esse maldito cartão que podia cair do céu. Fletcher não teve hipótese. Pode discutir-se o penalti a Cesc, não se pode discutir a injustiça de o deixar de fora da grande final. Ontem, voltamos a ver a mesma história. Entre o Chelsea e o Barcelona havia vários jogadores ameaçados de suspensão. O apuramento, in extremis, do clube catalão, deixou a nu mais uma vez esse calcanhar de Aquiles da legislação actual. Daniel Alves, que fez um dos seus piores jogos desde que chegou ao Barca, levou cedo o amarelo e soube que com ou sem milagre, em Roma estaria na bancada. Do outro lado, Eric Abidal, atrapalhado pela velocidade de Anelka, não teve outro remédio senão fazer falta. Resultado igual ao da véspera. Vermelho, expulsão e adeus glória.
 
Mais do que o aspecto técnico-táctico (Guardiola ficou sem os laterais titulares e terá de adaptar Puyol e jogar com Silvinho, enquanto que Ferguson perde um forte operário no centro do miolo) o que ressalva aqui é a injustiça recorrente. Todos os anos há jogadores que, por essa acumualção de amarelos perdem as grandes noites. Nomes que também marcaram a história pela sua ausencia. No final perde o espectáculo. No final perdemos todos. A começar e a acabar sempre no jogador. E dizer a um homem, que batalhou mil refregas, que um simples cartão, seja pelo motivo que for, o pode afastar da noite da sua vida, é de uma crueldade que não combina em nada com a magia que é a essencia do futebol.


Miguel Lourenço Pereira às 12:27 | link do post | comentar | ver comentários (9)

 

O futebol pode ser uma verdadeira roleta russa. Em Portugal começa a tomar – uma vez mais – a forma de uma ciência exacta. São 16 equipas ao principio e no final o titulo fica onde está, por muito tarde que chegue a taça a casa. A três jogos do final da época o FC Porto é campeão nacional. Ainda não…matematicamente. Faltam 3 pontos…em 9. E isso, se o Sporting não voltar a repetir a sina da última década…tropeçar nas noites chave. A Liga Portuguesa está em queda livre. Em prestígio, em qualidade, em interesse…e cada vez mais parece ser uma crónica de um campeão anunciado. 

A imprensa até esfregou as mãos. Chegados ao Natal, o tricampeão nacional andava pelo segundo lugar, a lamber as feridas de uma primeira volta desastrosa.O SL Benfica liderava a Liga, e segundo os ilustres opinion-makers, vencia e convencia a caminho do primeiro titulo da era Rui Costa...claro, isso foi até ao dobrar de ano. A partir daí os encarnados caíram pela tabela aos trambolhões e foram ultrapassados pelo titubeante rival de Alvalade, que nunca recuperou da humilhação contra o Bayern e da polémica da Taça da Liga. No primeiro lugar já estava o FC Porto e daí não voltaria mais a sair. A equipa portuense prepara-se para repetir um feito apenas logrado pelos leões dos Cinco Violinos e pela equipa azul e branca de António Oliveira, em 1998, liderada pelos golos de Mário Jardel.

Quatro campeonatos consecutivos é um feito em qualquer liga. Repetir a dose num espaço de quinze anos é assumir um dominio absoluto no panorama desportivo nacional. E tudo resultado de um projecto bem definido, há já mais de trinta anos. Um plano que tem funcionado e, como em equipa que ganah pouco se mexe, apenas ajustado ao longo do mandato presidencial de Jorge Nuno Pinto da Costa. Só nos paises latinos os Presidentes conseguem ter tanto ou mais protagonismo que os artistas, mas alguns conquistam-na a pulso. Pinto da Costa é dessa casta. Desde cedo percebeu que o FC Porto, para vingar em casa e brilhar fora, teria que saber que há que vender os aneis para nunca perder os dedos. E ao largo de tres décadas foram alguns dos melhores anéis que alguma vez passaram pelos relvados portugueses. E sempre se soube recuperar equipas aparentemente desfeitas. Este ano foi particular. Este ano custou mais ainda. E por isso o triunfo dos dragões sabe ainda melhor.

O arranque de época foi, no mínimo, desastroso. Perdida a Supertaça, à beira da eliminação da Champions e com duas derrotas consecutivas no Dragão (algo inédito), o FC Porto parecia estar a caminho da hecatombe. Da equipa autoritária do ano passado, nem rasto. A crítica apontava a saída de três anéis brilhantes: o desiquilibrador Bosingwa, o cérebro do meio-campo Paulo Assunção e o criativo Quaresma. Jogadores cujos suplentes (Sapunaru, Fernando, Rodriguez) não terminavam de convencer. E uma equipa cujas contratações (Benitez, Bollati, Hulk, Tomas Costa) pareciam ser ignoradas tranquilamente pelo treinador, que mantinha o musculo do meio campo do ano passado. Só que El Comandante já não era tão capitão e “Licha” Lopez tão letal.
 
No meio do tempora, um rosto de tranquilidade. Sempre pacífico, sempre calmo, Jesulado Ferreira ia lançando avisos a quem queria ouvir. Que a equipa era nova, que era preciso esperar, adaptar, reconstruir...enfim, o dia a dia do FC Porto das últimas décadas. Novos aneis para os velhos dedos. E no final, resulta que, uma vez mais, tinha razão. Fernando começou a limpar o meio campo. Hulk corria e deixava para trás quem quer que se atrevesse a persegui-lo. Os malditos Farias e Gonzalez mostravam-se letais e a chegada de Cissokho e a recuperação de Sapunaru, trouxe equilibrio a uma defesa antes sólida e onde agora, até Helton - há pouco titular da canarinha - era fortemente contestado. O onze instável tornou-se numa bússola certa de conhecer o seu próprio Norte. E tranquilamente chegaram os triunfos - mais fora de portas do que em casa, é certo - e até na maldita Champions se sonhou com repetir Gelsenkirchen. Muito para quem esperava tão pouco depois daquele frio Outono na Invicta. 

Não sou capaz de adivinhar se o FC Porto celebrará em casa o triunfo, diante do Nacional. Provavelmente voltará a passar o habitual esta época. Apesar de justo campeão, este FC Porto está a anos-luz do que pode e deveria ser. Essa análise fica para mais tarde, fica a promessa. Mas os falhos constantes diante dos seus adeptos carecem de explicação lógica. E o Nacional é a equipa revelação (se é que ainda se pode dizer isso) do ano. Mas estamos a falar de detalhes. A este FC Porto assenta-lhe melhor vencer o título fora de portas. Foi assim todo o ano, brilhar fora e sofrer em casa. Os fiéis adeptos merecem festejar este fim-de-semana e aproveitar o espírito festivo da Queima das Fitas. Detalhes, uma vez mais.
 
O título está entregue, nem é preciso vencer mais nenhum jogo para o lograr. A Final da Taça, outra matéria onde Jesualdo, esse timoneiro tranquilo, tem de aprovar, está ao virar da esquina. O ano que parecia maldito vai ser mais dourado que nunca. E nos corredores do Dragão já se sonha com o novo Penta. Cedo demais para sonhar tão alto? De momento continua a máxima bem viva….a próxima liga dificilmente será excepção…e esta crónica de uma morte anunciada pode continuar a ser repetida, ano após ano…a bola está do lado dos velhos novos campeões nacionais. Porque essa é a verdade do nosso futebol. O próximo campeão só depende do próprio campeão…os outros, são como abutres, à espera dos restos.

 



Miguel Lourenço Pereira às 01:37 | link do post | comentar

Já está disponivel online o meu segundo artigo semanal de colaboração com o weblog FutebolArtte. Um artigo dedicado á antecipação dos dois encontros da segunda mão da Meia Final da Taça UEFA.

 

"Já há muito que deixamos o gélido Inverno ucraniano e as praias desertas do Mar Báltico. O duelo entre rivais e irmãos vai dar origem a mais 180 minutos de alta tensão..."

 

Podem continuar a ler o artigo aqui...

 

 



Miguel Lourenço Pereira às 00:01 | link do post | comentar

Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

Durante 90 minutos fez-se história. E John Terry sorria, lá bem no fundo. Tinha contas a ajustar com a história. Mas o futebol é mais do que 90 minutos. É fé até ao final. No pior jogo de todo o ano, o Barcelona teve a estrelinha de campeão. Um remate colocado e impossível fez o empate. Injusto. Impensável. Inevitável. O Chelsea dominou de forma espantosa todo o encontro. Foi prejudicado num bom punhado de lances decisivos pela equipa de arbitragem. Mas falhou. Diante de Valdés falhou quase sempre. E esses erros pagam-se. O Barcelona, a mesma equipa que no sábado marcou 6 golos no Santiago Bernabeu, rematou apenas uma vez aos postes de Petr Cech. Uma vez em 94 minutos. E funcionou. Um remate histórico, daqueles que no futuro estarão em todas as compilações da história blaugrana. A final mais esperada da história, a final entre os dois grandes clubes do futebol europeu é real. Imerecida, mas real. E John Terry gritou. De raiva. Outra vez o destino pregou-lhe uma rasteira.

Desaparecido. Fora de jogo. Lionel Messi foi sombra e holograma. O argentino nunca entrou em campo. Apesar do subtil desvio para aquele tiro memorável do incansável Iniesta, a verdade é que o jogador estrela do Barça foi o exemplo claro de como actuou a sua equipa. Completamente apagada face ao espirito guerreiro do Chelsea. Com o Manchester United vai ser diferente. Os de Ferguson jogam sempre para ganhar e não são tacticamente tão disciplinados como a equipa de Hiddink. Mas face ao esquema geométrico do Chelsea, o Barcelona nunca soube reagir. Muita posse de bola nos primeiros três quartos do terreno de jogo. E depois, o vazio de ideias, a falta de penetrar naquela muralha defensiva onde Ricardo Carvalho faz falta, mas cada vez menos. E se Messi foi um fantasma, que dizer do verdadeiro maestro do Barcelona. Xavi estava atado a Ballack. O alemão foi implacável em mais um exercicio de esforço único. O maestre culé nunca tomou as rédeas do jogo. Viu-se um Xavi nervoso, irrequieto. Toda a equipa do Barcelona foi uma sombra do que temos visto. Acabou a imagem do glamour. Este jogo mostrou que a equipa da cidade Condal também é vulgar e ganha sem merecer. Ou seja, também tem esse estofo de campeão. E se de sorte se fazem os craques, Iniesta voltou a provar que é mais do que aquele suplente útil da era Rijkaard. Lutou como nenhum outro e acreditou até ao fim. Quando Etoo, Messi, Xavi e companhia tinham baixado os braços, Iniesta olhou para o banco e viu esperança no olhar de Pep Guardiola e arriscou. Se alguém merecia este empate, esse era o técnico catalão. No banco esteve enérgico, sabendo que as baixas que tinham não lhe davam muita manobra. Arriscou com Touré. Arriscou com um meio campo de combate. Saiu-lhe mal, Hiddink superou-o em todos os sentidos. Mas no final a eficácia decide eliminatórias. E o Barcelona foi, em Londres, 100% eficaz.

O Chelsea esteve perto de fazer histórica e provocar a primeira final repetida em dois anos consecutivos na história da Champions League. Depois da épica de Moscovo, parecia que em Roma iamos ter direito a sequela. Era o jogo que os adeptos londrinos mereciam. A equipa, curiosamente, desde que perdeu Mourinho tornou-se mais eficaz na Europa e menos regular em casa. Podia ter sido. Mas não foi. O Barcelona junta-se assim ao Manchester. Estão, no papel, as duas melhores equipas da Europa em Roma. O futebol dos ingleses é intocável e ontem o Arsenal provou bem do seu veneno. Mas o Barcelona também tem talento. Hoje descubriu-se o seu lado obscuro. Resta confirmar que face veremos na Cidade eterna. Sem os laterais titulares - disso falaremos em detalhe amanhã - o Barcelona vai estar mais frágil. Mas a ilusão dos catalães é única. Não interessa que seja um dos grandes derrotados da prova (só o SL Benfica tem mais finais perdidas). A sorte desta vez, parece estar do seu lado. O titulo já no bolso pode ajudar a relaxar. O Manchester estará em tensão até ao final. Mas, afinal, é assim que gosta de viver a equipa de Ferguson. E depois há aqueles que falarão do duelo Cristiano Ronaldo-Lionel Messi. Deste filme já ouvimos falar no ano passado, e ninguém viu o argentino em cena. Hoje também desapareceu. CR7 foi ontem o pêndulo dos campeões da Europa. O Man Utd é o favorito. Cristiano é o rei. Cabe ao Barcelona tomar o posto de desafiante. Veremos até que ponto há estofo de campeão lá para os lados de Can Barça...onde durante muitos anos se poderá ouvir aquele grito desesperado de Terry...

 



Miguel Lourenço Pereira às 22:13 | link do post | comentar | ver comentários (3)

 

Não comemorou nenhum dos golos de forma especial. Limitou-se a sorrir e a apontar-se a ele próprio, a reivindicar o momento. O momento que era dele, completamente. O míssil é imagem de marca e já não são poucos os guarda-redes que são obrigados a caminhar cabisbaixos rumo ao interior da baliza para pegar na bola a escaldar enquanto que o craque português corre pela linha de fundo a celebrar. CR7 é, provavelmente, o maior fenómeno de marketing do futebol actual. Mas é também o jogador com pior imagem no Mundo.
Num país onde se preza mais o jogo duro, mas leal, do que o espectáculo que parece caber mais depressa na NBA do que num relvado desse verde tão british, Cristiano Ronaldo é odiado por quase todos. Até pelos próprios adeptos, que nunca lhe perdoarão o namoro (por concretizar) com os vikingos de Madrid. Não é um jogador simpático, não desperta muitos sorrisos. Os colegas sentem a inveja de ver e não poder acompanhar. Os rivais não sabem como anular as suas provocações em campo. E a imprensa trata-o com o despeito daqueles que um dia se atreveram a criticar o Maradona, o Cruyff, o Cantona jogadores…pelos Maradona, Cruyff ou Cantona homens.
 
Mas, acima de tudo, até hoje, a grande justificação daqueles que se recusam a render à evidência é apenas uma: que Cristiano Ronaldo desaparece-se nos grandes momentos, nos segundos decisivos. Ontem ele sorriu. Tinha criado o primeiro golo, tinha apontado o segundo. A caminho do final do encontro corre como um velocista (não há cansaço nas pernas quando a glória está à espreita) e conclui o que iniciara, ainda no seu meio-campo. Golpe de morte ao Arsenal.
E uma vez mais, nos momentos decisivos, aí estava, CR7.

 

Houve poucos jogadores na história capazes de provocar tanto ódio e desprezo como Cristiano Ronaldo. O jogador madeirense tem dois defeitos gordos que lhe podem custar a imortalidade. Já se sabe que a história se faz de opiniões, muitas vezes alheias aos factos. Grandes jogadores passaram ao limbo por atrás de si ter uma corrente de detractores suficientemente fortes. Outros são consagrados entre os “deuses”, apenas porque geram sempre simpatia, por onde quer que passem. CR7 está – e estará sempre – no primeiro grupo. Está na sua personalidade. O seu egocentrismo não tem paralelo no desporto mundial actual. Em campo nota-se em cada cavalgada. Primeiro, segundo e terceiro melhor jogador do Mundo, disse um dia. Depois negou-o. Outro traço típico em Cristiano. Quer agradar e quer criar escola, e não hesita em voltar atrás sempre que a situação se torna critica. Trocou a paixão pelo Real Madrid pela fidelidade eterna ao Manchester…até quando? Assumiu o orgulho de capitanear Portugal mas a realidade é que desde que assumiu a braçadeira tem-se portado pouco como o símbolo de um grupo e muito como o símbolo dele próprio. Do CR7.
 
O carácter de Cristiano deixa muito a desejar e isso nota-se. Há jogadores que o vão disfarçando com cinismo. Mas que na calada criam problemas. Ele pertence ao segundo grupo, os que assumem que são eles contra o Mundo. Como Ibrahimovic – outro maldito ou como veteranos como Steffen Effenberg, Eric Cantona, Romário, Bernd Schuster ou Paul Gascoine, génios em campo, demónios fora dele – ele preocupa-se sempre primeiro consigo e só depois chega a equipa. Aqueles livres directos demoníacos são a sua grande paixão. Porque sabe que, naquele momento, ele está sozinho. É o centro das atenções. A barreira é um detalhe, o guarda-redes, um pormenor. Ele e o público expectante e a câmara de televisão. Sinal de um génio no relvado que fora dele não tem conseguido deixar uma marca duradoura. O mundo prefere o sorriso matreiro de Messi, um espertalhão que com esse sorriso de bairro de lata argentino, parece transparecer uma humildade que realmente também não tem. Ou esse ar casto de Kaká, que desenha a régua e esquadro passes de génio. Mediaticamente vende mais CR7. Moralmente sai sempre a perder. 

 

Voltemos ao que interessa. Ontem, em Londres, nesse palco de gladiadores, CR7 comandou a armada de Manchester do primeiro ao último segundo. Foi egoísta sempre que podia, procurou a glória em quase todos os lances. Mas comportou-se como o líder em campo. Ancorado no centro, distribuiu lances para as alas, provocando assim os três golos do Man Utd. Defendeu junto ao meio campo, especialmente após a expulsão de Flecther. E correu como nenhum outro. E marcou. E assistiu. E disse presente. Há cerca de quinze dias só o génio de Cristiano quebrou a bem montada linha defensiva do FC Porto no Dragão. E antes disso, depois do massacre de San Siro, foi ele quem deu a estocada mortal em José Mourinho. Em todas as grandes noites deste ano, Cristiano disse presente. Na final de Moscovo falhou o penalti decisivo, mas se o Man Utd lá chegou foi graças ao seu estupendo golpe de cabeça. E como não há jogadores infalíveis, é claro que houve desafios onde o craque português desapareceu. Mas quem viu o último Barca-Chelsea ainda hoje está á procura de Messi. Não o viu. Como não se tem visto Kaká por aí. Mas como desses ninguém se lembra, é CR7 que tem de brilhar todas as noites. É claro que, por Portugal, parece outro jogador. Já muito se falou no sistema de jogo e no posicionamento táctico. Mas também é verdade que um grande jogador não vive apenas e só de um planteamento táctico. Essa é uma espinha encravada. Mas, e uma vez mais, voltamos a Messi e a Kaká, esses dois craques que, pelas suas selecções ainda não lograram mais do que conseguiu CR7. E Portugal não é, desde já, o Brasil ou a Argentina. 

O Manchester United está, pela primeira vez na sua história, em duas finais da Champions League consecutivas. Nem a geração dos Busby Babes, nem a equipa de Cantona, nem a geração dos Ferguson Babes conseguiram este feito. E é verdade que nunca os Red Devils perderam uma final. Mas o que está claro é que foi Cristiano Ronaldo, pelo segundo ano consecutivo, a levar a sua equipa ás costas até à final. Pode lograr repetir o título ou até pode perder. Mas desde o Valência de 2000 que nenhuma equipa repetia presença na final da Champions League.
 
E isso é um feito, nos dias que correm. E é-o graças ao génio no terreno de jogo de um jogador tão maldito, mas que nos momentos decisivos…está aí!

 



Miguel Lourenço Pereira às 11:42 | link do post | comentar

Terça-feira, 5 de Maio de 2009

De espada em riste, os cavaleiros de Sir Alex Ferguson marcham furiosamente do Norte rumo á capital do Sul. Pretende repor a justiça no marcador, a mesma que lhes falhou na passada semana nesse anfiteatro dos sonhos mancunianos. Se a eficácia decide jogos, a sorte muitas vezes decide campeões. O Arsenal teve muita, muita sorte em Old Trafford. O Manchester United fez mais do que suficiente para levar para Londres uma vantagem confortável. Mas um só golo é pouca coisa, especialmente nestas alturas do campeonato. Que a linha avançado do United é temivel, isso já se sabe. Que a defesa do Arsenal não é aquele bloco sólido de há uns anos, também. Mas um golpe de sorte pode mudar tudo.

Cristiano Ronaldo e Wayne Rooney. Nas suas duas estrelas os adeptos do Manchester depositam a esperança de, pela primeira vez na sua hsitória, chegarem a duas finais consecutivas de uma Champions League. Parece mentira mas o maior clube ingles da actualidade - e quiça de sempre - nunca o logrou. O Liverpool e Nottingham conseguiram mesmo o feito de repetir triunfo. A Ferguson falta-lhe o sonho de igualar os maiores rivais britanicos e fazer aquilo que, desde 1990, nenhuma equipa logra. Renovar o ceptro de campeão europeu. Ainda faltam, pelo menos, 90 minutos. Talvez mais, nunca se sabe. Mas em Londres pode estar aí o primeiro e definitivo passo rumo á história. O United é mais equipa e tem mais individualidades que o Arsenal. Falta saber se continua a ser acompanhado pela sorte, aquela que o tem protegido, mesmo quando a eficácia falha. Contra o Inter massacrou, mas sofreu até ao fim. Com o FC Porto foi massacrado, mas passou com um golpe de génio. E agora? A primeira mão diz que os diabos vermelhos vão a Roma. A história diz para ter cuidado.

 

O Arsenal é o oposto, uma equipa de azares constantes, azares que os impediram sempre de ir mais longe nas grandes provas. Na única final da Champions onde estiveram, há três anos em Paris, o azar da expulsão (injusta) quebrou a equipa que podia ter feito frente ao Barcelona. Hoje Wenger precisa mais do que pura sorte. Precisa de que os seus "meninos" sejam um bloco forte no meio campo (onde não existiram na primeira mão) e que os seus avançados funcionem como uma metralhadora...letais. Almunia terá mais trabalho do que van de Sar, mas não tem margem de manobra. E Fabregas, que vive na sombra de Xavi na selecção campeã da Europa, tem aqui uma boa oportunidade para confirmar-se como um dos grandes internacionais. Só que CR7 está - finalmente - a voltar á sua boa forma. E quando está em alta e decide aparecer, é dificil travar a máquina de guerra de Manchester.

PS: Do Chelsea-Barcelona espera-se mais do mesmo do Camp Nou?

Não, o jogo será bastante diferente. O Barça tem de marcar e, se o conseguir, tem meia eliminatória no papo. O massacre de Madrid comprova o que já há muito se sabia, que da Catalunha vem a maior linha ofensiva da actualidade. Mas na primeira mão isso serviu de pouco contra a organização britânica. Só que agora o Chelsea não pode ter Lampard, Obi Mikel e Ballack como médios defensivos de cobertura. Anelka jugará ao lado de Malouda e Drogba. A linha ofensiva vai-se abrir sobre os flancos, o ponto frágil deste Barça. E os lances de bola parada serão decisivos. O Chelsea não poderá ser tão curto no terreno de jogo e o Barcelona terá de se aproveitar desses (poucos) espaços. Mais do que o jogo de Messi ou Etoo, este é o jogo de Xavi. O maestro descubrirá os espaços...depois é só fazer o que melhor sabem os avançados culés. O Barcelona continua a ser o favorito, mas se há equipa que sabe como prender os tentáculos blaugranas, é este Chelsea. Cuidado com as celebrações antecipadas...



Miguel Lourenço Pereira às 19:12 | link do post | comentar

Segunda-feira, 4 de Maio de 2009

La Masia.

Um nome que para a maioria dos adeptos do mundo da bola soa a raro. Mas não o deveria ser, especialmente depois de ter ecoado pelos quatro cantos do Mundo essa vitória histórica do FC Barcelona em pleno Santiago Bernabeu.

2-6, um resultado que já não se usa, um resultado que serviu para os arrogantes adeptos madrilenhos - que com uma equipa de segunda linha e apoiados pela imprensa mais facciosa da Europa tinham afirmado, a peito aberto, que trucidariam os de Pep Guardiola - se lembrarem de que para ganhar, no futebol, faz falta algo mais do que sorte. A sorte que eles foram tendo, jornada após jornada. Enquanto que o Barça deslumbrava, goleava, encantava...o Madrid começava os jogos a perder, recuperava de forma louca mas sempre com um futebol que até ao mais fanático adepto merengue parecia enjoar. O grande mérito - porque também o tiveram - foi não perder...desde o Camp Nou que a equipa de Juande Ramos - técnico que herdou os defeitos de Schuster a fazer planteis, mas, essencialmente, da equipa directiva - soube nunca perder o norte e foi-se colando a um delicioso Barça que, no entanto, se tinha de dividir entre três provas...e que ia deixando um ponto aqui e outro ali. De tal forma que na véspera do jogo que os adeptos do Real acreditavam ser o da reviravolta final na Liga havia quem se aventurava a que o super-Barça sufresse um sério correctivo no palco madrilheno.

Não vi o jogo. Vicissitudes da vida, fui avisado por sms. "2-6 ganhou o Barça. Que festival de futebol". O resultado não me surpreendeu mas alegrou-me. Foi a vitória do trabalho sobre a sorte. Do talento sobre a arrogância. De um projecto. Foi a consagração definitiva de La Masia.

 

La Masia é o nome do centro de formação do Barcelona. O local onde, durante os anos, desde o reinado de Johan Cruyff, se foram formando alguns dos melhores jogadores do Mundo. Recrutados desde novos, primeiro na grande Catalunha, e depois pelo resto de Espanha e logo, pelo Mundo, La Masia tornou-se numa escola por excelência do bom futebol. Como já foi a de Amesterdam e como sonho ser Alcochete. No Santiago Bernabeu triunfou o Barcelona da cantera. Desde o treinador - o mais puro projecto desenhado e moldado por esses relvados com vista sobre Barcelona - até aos autores de praticamente todos os golos, foi a afirmação definitiva do projecto futebolistico barcelonista perante o ideal de Madrid, que vive do trabalho de dois canteranos - Casillas, que tudo defende e que até impediu que o resultado fosse ainda maior e um Raul que se recusa a morrer, na mediania efectiva que sempre o caracterizou - mas que continua a tentar conseguir pelo dinheiro o que não logra alcançar pelo trabalho. Desde os anos 80 - da época da Quinta del Buitre - que de Madrid não sai uma verdadeira geração de talentos. Ao contrário do grande rival que tem sabido reciclar-se como poucos clubes. Exceptuando Thierry Henry - uma paixão antiga que demorou a concretizar-se - os grande artesões desta goleada histórica foram formados de olhar voltado para o Camp Nou.

Victor Valdés, Charles Puyol, Gerard Pique, Andres Iniesta, Xavi Hernandez e Lionel Messi. O coração de um clube treinado por um mestre da táctica, que alia os jogos psicológicos com uma humildade abrumadora. O gesto de Puyol, ao dar a volta ao marcador, foi tudo menos inocente. Aquele é o capitão desta geração, o lider deste grupo de guerreiros que dizimou o Madrid. Um clube que, a cada ano que passa, vai encolhendo. Depois de humilhado pelo Liverpool na Champions agora chegou a humilhação na Liga, em casa e contra o maior rival. Pior não podia ser. Gerard Pique marcou o último e tocou apaixonadamente no simbolo do lcube do coração. Depois de um periodo de formação em Manchester, onde ganhou tudo, Pique voltou para suceder a Puyol. Ali estavam eles, o presente e passado e o futuro do Barcelona. Pelo meio andou Xavi, com os seus passes mortais, Iniesta com as suas corridas diabólicas...e Leo, esse jovem raquitico argentino que foi crescendo a pulso na Masia até chegar por direito próprio ao Camp Nou. Desiquilibrou o encontro quando se lhe pedia e podia ter marcado ainda mais dois ou três golos ao guardião do Real. No final ficou-se pelos dois, os mesmos de Thierry Henry, esse mal-amado no ano passado e que finalmente voltou a ser ele próprio. Na primeira parte foi um dinâmo imparável. Na segunda ajudou a orquestrar o baile de futebol azulgrana.

Mais do que a vitória por 2-6...mais do que a confirmada reconquista da Liga Espanhola. O Barcelona conseguiu provar que ter um projecto bem definido é o primeiro passo rumo á glória. A equipa de Guardiola pode conseguir triunfar em todas as competições em que participa este ano. Quarta-feira joga em Londres a passagem a Roma. Em Valencia disputará a final da Taça do Rei contra outro histórico, o Athletic Bilbao. Quanto á Liga, já há poucos que se atrevam a contestar a supremacia blaugrana e quem sabe, o melhor da noite do Bernabeu não seja o final de uma Liga...mas sim o principio de uma nova era.



Miguel Lourenço Pereira às 13:19 | link do post | comentar

É provavelmente a profissão mais ingrata do meio futebolístico. Longe do calor dos relvados, semana após semana. Sem possibilidade de acompanhar, passo a passo, a evolução dos seus jogadores, o seleccionador de futebol é essa ave rara que levanta suspeitas onde quer que passe. Nunca ninguém confia verdadeiramente no seu seleccionador. É uma espécie de prenda envenenada. Mourinho sabe-o bem. Rejeitou a oferta da F.A. e no caso português fala sempre num futuro longínquo…longe das tentações. Pudera. Ser seleccionador implica jogar com as emoções de um país inteiro, mais do que com um clube. Há pouco falamos do facto do futebol hoje ser o palco de batalha do passado. Sob essa perspectiva as guerras entre as nações passarão para os relvados e os seleccionadores são os novos generais. E quem não gostaria de ter um Napoleão a treinar as suas tropas?

 
Carlos Queiroz tem uma tarefa ingrata. É hoje, provavelmente, o homem mais injustiçado do futebol português. Mas esse era um risco que sabia que ia correr ao deixar a tranquilidade de Old Trafford pela instabilidade crónica do futebol nacional. O seu consulado assenta em duas premissas complexas que podem ser suficientes para destruir as suas ambições. Dois pontos chaves, para os dez milhões de adeptos da selecção, para a critica “especializada” e para os seus próprios jogadores. Em primeiro lugar é um general sem vitórias, um homem sem títulos. Uma carreira demasiado em low profile que não empolga ninguém. E é também o sucessor do período de maior sucesso da história do futebol nacional. Muitos dos defeitos da actual equipa das quinas vem com o selo de culpa do anterior dono do posto, que saiu airoso quando mais lhe convinha. Mas a verdade é nua e crua. A última década foi dourada para a selecção, e salvo o Mundial de 2002 e estes Quartos de Final de mau sabor de boca, a selecção esteve sempre entre as quatro melhores, da Europa e Mundo. Tanto faz se essa foi a época da geração de ouro. Gerações constroem-se e reconstroem-se. É assim que se fazem as grandes equipas.
 
Queiroz foi o pai desta geração que agora acabou. Em 1989 ele era o rosto do sucesso que dava esperança ao futebol português. Saiu da Federação em confronto directo com os podres instituídos e jurou não voltar. Voltou, mas os podres ainda aí estão. E o que é pior, agora não há margem para recomeçar do zero. Porque acreditem ou não, Portugal terá de recomeçar do zero. Pode contar com Cristiano Ronaldo – para muitos era até melhor nem contar com o avançado do Man Utd, e as ultimas exibições dão-lhe toda a razão – mas o que é preciso fazer com a selecção é também o espelho do que é preciso fazer com o futebol português: voltar à estaca zero.
A aposta dos clubes em estrangeiros (de segunda e terceira linha) destruiu muito do trabalho dos anos 70 e 80 na cantera nacional. Hoje é raro ver equipas com jogadores formados na casa a titulares indiscutíveis. Os mais novos não encontram espaços nos grandes e acabam por nunca chegar ao nível a que podiam. Ou emigram demasiado cedo e perdem-se por aí ou transformam-se em vedetas mesmo antes do tempo. O polémico penalti de Pereirinha, a atitude de Miguel Veloso ou Quaresma são apenas exemplos de jogadores que sem provas dadas já vivem com o rei na barriga. Atitude muito diferente aquela geração de Riade e Lisboa que cimentou a afirmação internacional de Portugal. Essa falta de referências – Cristiano Ronaldo não é nem será nunca uma referência positiva por muito talento que tenha – mina desde logo o espírito de balneário para os mais novos. Mas o problema vem antes. Onde descobri-los? As equipas de formação foram abandonadas durante o consulado Scolari e agora é preciso voltar a começar de novo. Mas isso leva tempo, demasiado tempo. E é precisamente isso que Queirós não tem. A fase de apuramento para o Mundial está bastante mais complicado do que teoricamente se esperava. Mas na falta de opções credíveis em posições chave, o seleccionador pouco mais pode fazer. O povo não perdoa e os jogadores – especialmente o capitão – também não já que não ir à Africa do Sul supõe um retrocesso na imagem de conquista que fomos dando nos últimos anos. E para ir ao Mundial é preciso vencer e ter sorte. Mas o que Portugal precisa agora, se calhar, é de perder e pensar. Talvez o apuramento mantenha velhos hábitos. Talvez, e só desta vez, a derrota sirva para algo positivo. Se ao seleccionador o deixarem fazer o trabalho para que veio – mais do que levar a selecção ao Mundial, Queiroz está para recomeçar o que deixou para trás há 20 anos – pode haver ainda alguma esperança de que algo mude.
 
Que a selecção joga mal, é indesmentível. Mas também o é a falta de qualidade da oferta. Experimentar é natural em quem chega do nada, por muito que digam o contrário. Para jogarem os mesmos, não valia a pena mudar uma vírgula. Experimentar a jogos a doer é complicado, mas neste momento não há alternativa. E muitas mais são precisas. No lote de seleccionáveis é difícil encontrar jogadores que podem ser fixos nas suas posições. Os “veteranos” não possuem substitutos à altura e insistir num sistema táctico que não beneficia em nada o jogo da selecção. A falta do ponta de lança é crónica – e sem solução à vista – mas jogar sem um avançado não é viável. A crise na baliza não resolvida de vez, o lateral esquerdo continua a ser uma incógnita (Bosingwa poderá passar para lá como aconteceu com o Chelsea no Camp Nou) e Pepe não é um médio defensivo fiável a 100% (provou-o todo o ano em Espanha com faltas desnecessárias e comprometedoras). Deco e Maniche não possuem alternativa digna (Raul Meireles e João Moutinho são esforçados…e pouco mais). E Cristiano Ronaldo ameaça tornar-se num problema, e não na desejada solução.
 
São demasiadas coisas ao mesmo tempo para um homem só.
Problemas que os anteriores seleccionadores, que herdaram a equipa montada por Queiroz em Riade, nunca tiveram. Salvo um caso pontual (o ponta de lança sempre foi o mais significativo), Portugal sempre teve um bom leque de alternativas para a equipa das quinas. A ironia suprema é que o seleccionador está nesta situação exactamente porque durante quinze anos os seus antecessores deixaram de lado a sua filosofia que tão bons resultados deu a Portugal. Resta saber se há tempo para recuperar esta equipa ou se voltaremos a estar condenados a ver as grandes provas pela televisão á espera de um novo grupo de valentes capazes de dizer presente nas horas mais importantes.


Miguel Lourenço Pereira às 00:39 | link do post | comentar

Domingo, 3 de Maio de 2009

Enquanto em Portugal se fala na possibilidade de mais um histórico - Belenenses ou Vitória de Setúbal - descer de divisão, seguindo assim uma tendencia que há anos vem marcando o nosso futebol, na Grécia o choque apoderou-se da magnifica ilha de Creta. Depois de quase quarenta anos o clube mitico da ilha, o OFI Creta, voltou a cair na II Divisão. Um feito surpreendente já que a equipa de Heraklion - uma das cidades da bela ilha, uma das bases da civilização ocidental - afirmou-se nas últimas décadas como a alternativa real ao dominio esmagador das equipas da capital, o trio de Atenas.

 

Toda a Creta está em estado de choque. A derrota no passado domingo contra o Panaitinaikhos (curiosamente o clube que também detém a familia Vardinogiannis, que também comprou a equipa cretense no inicio dos anos 80) consumou a descida de divisão. A verdade é que nos últimos anos o clube grego tinha vindo a perder influencia, e em alguma que outra temporada nunca fugiu da zona da linha de água. Mas sempre acabava por salvar-se. Até hoje. A equipa que equipa de negro deixou toda a ilha de luto e as grandes dividas acumuladas pela direcção põe em risco a própria subsistencia futura de um clube histórico mas que conta com poucos titulos na bagagem. A verdade é que o OFI Creta nunca venceu uma Liga Grega - nas últimas décadas só o Aris e PAOK Salónica interrompeu o dominio avassalador de AEK Athenas, Olimpiaykos e Panaitinaikhos - e conta no historial apenas com uma vitória na Taça, em 1987, orientados pelo mitico Eugene Gerrard, o homem que esteve 15 anos (de 1985 até 2000) ao leme do clube, um recorde em todo o futebol helénico. A partir desse consulado a sua presença nas competições europeias (em 1993 foi eliminado pelo Boavista na Taça UEFA) e o seu bom futebol tornaram-se numa constante do futebol grego.  

 

Viajar até Creta era antes um pesadelo para os clubes gregos. Muitos dos campeonatos dos últimos anos decidiam-se pelos confrontos em Heraklion. No entanto este ano tudo foi diferente. Inofensivo fora de casa e facilmente controlado no seu estádio, o OFI mostrou até que ponto uma má gestão desportiva pode destruir um projecto sólido de muitos anos de trabalho. Num país cercado por mil e uma ilhas, o futebol sempre foi dominado pelos clubes do continente. Em Creta o OFI era o simbolo dessa resistencia. Um simbolo que se apagou e que, seguindo os ideais da velha mitologia grega, vai obrigar os cretenses a baixar aos Infernos de Hades para recuperar a fogo perdido e assim poder caminhar de novo, rumo ao Olimpo.



Miguel Lourenço Pereira às 13:56 | link do post | comentar

Com a forte crise que vive o país, o futebol, antigamente o suporte moral da nação, é hoje também um dos sectores onde mais se nota a perde de competitividade dos produtos made in Portugal.

Clubes, jogadores, dirigentes, árbitros e o próprio público deixam uma pobre imagem do nosso futebol para o exterior e os resultados das prestações das nossas equipas é de tal forma pobre – continuando a viver ás custas dos brilharetes do FC Porto – que a liga portuguesa já foi ultrapassada em importância por campeonatos claramente inferiores como são o russo, ucraniano, holandês e turco. Hoje o futebol português pertence à segunda metade da tabela, cada vez mais longe dos líderes do pelotão. Um problema que é muito mais do que um simples reflexo da crise económica nacional, que, como podemos comprovar, foi determinante à hora de estabelecer as diferentes geografias do nosso campeonato ao longo dos anos.
 
Se nos tivéssemos de preparar para um cenário de futuro, hoje em dia, sem nenhuma alteração substancial à forma como é organizado o futebol português, pouco mudaria. Os grandes centros urbanos a sul e a norte continuariam a produzir os clubes de primeira linha – Lisboa e Porto – com algum que outro histórico a ocupar lugares de honra, mais pelo aspecto moral e institucional do que propriamente por poderio financeiro. E a dura verdade é que hoje em dia não existe, em Portugal, um projecto digno desse nome capaz de pegar numa instituição e consolidá-la entre os maiores do nosso mundo da bola, com legitimas aspirações europeias. A verdade é que não é necessário ter muito dinheiro para singrar no futebol, sempre e quando se tenha muita cabeça. O Villareal é um desses exemplos claros. Um clube de uma localidade muito mais pequena que muitas cidades portugueses, surgiu do nada, sem história nem instalações capazes de albergar um campeão. Uma politica pensada ao milímetro, desde a formação até ao investimento controlado, permitiu ao clube de Castellon criar uma equipa capaz de lutar pelo acesso à Champions League ano sim, ano não, onde tem obtido óptimas prestações. Sem uma grande base social de apoio e sem esse historial que outros clubes se orgulham de possuir, é um caso claro de gestão inteligente que dá os seus frutos. Em Portugal não existe nenhum projecto do género e não há, no horizonte, sinais de que isso venha a acontecer.
 
A ditadura dos três grandes parece eterna e a resposta é simples. A diferença de orçamento é tal e a influencia nas organizações é tão grande, que até com sucessivas gestões mal sucedidas e políticas desastrosas, é raro chegar ao final de cada época e não ver FC Porto, Sporting e SL Benfica nos lugares de topo. Aqui e ali uma equipa faz o brilharete de subir umas posições, mas a verdade é que o peso parece ser demasiado grande, e no ano seguinte volta ao seu local do origem…ou pior ainda. Esta situação insustentável é a base da falta de qualidade do futebol português. O domínio de um FC Porto medíocre, a impotência de um Sporting, sem capacidade financeira para dar um empurrão ao saudável politica assente nas camadas jovens, e os constantes devaneios da direcção benfiquista, que cada ano começa da estaca zero um novo projecto que não chega a lugar nenhum, são o próprio mecanismo de bloqueio do futebol português. O poder financeiro permite-lhes “roubar” qualquer jogador que destaque num clube inferior, viciando imediatamente as regras do jogo. Nem que seja para o fazer rodar anos a fim, até acabar por dispensa-lo. São tantos os casos que nem vale a pena especificar.
Por outro lado não existe uma autêntica classe média no futebol português. Todos jogam, a principio do ano, para não descer, e depois, logo se vê. Mesmo clubes com atitude mais virada para a afirmação definitiva (SC Braga, Nacional da Madeira, Vitória de Guimarães, Marítimo) são uma incógnita a cada início de temporada. O vai e vem de jogadores, a constante importação de desconhecidos sem provas dadas e o desaproveitamento do talento nacional, provoca essa constante incerteza. A prova dada está nas competições europeias onde, salvo o SC Braga deste ano, todas as equipas que representam Portugal acabam, inevitavelmente, por ser eliminadas por conjuntos claramente inferiores em historial e potencial, mas com outra atitude.
 
A Madeira assume-se uma vez mais como um caso claro de gestão desportiva de sucesso. Dois clubes a competir pelas competições europeias num espaço tão pequeno, é um feito. O Nacional destaca-se pela capacidade em encontrar pérolas desconhecidas, mas mesmo assim ainda contrata demasiado para o lucro final que tem. O Marítimo tem os seus altos e baixos, mas consegue manter-se a um nível elevado graças a um forte espírito competitivo, presente desde os anos 90. O Minho é o outro pólo de resistência com o SC Braga e Vitória de Guimarães a tentar assumir-se como alternativa aos grandes. A boa época dos vimaranenses na época transacta deixou boas sensações. É afinal um clube com uma enorme massa associativa mas que acaba de vir da II Liga. A venda de alguns dos jogadores chaves foi chave para a enorme perda de competitividade. Quanto ao SC Braga verificou-se a situação inversa. Contratou bem, manteve a estrutura e está na luta pela UEFA. Com a potencial venda de alguns dos seus craques, suspeita-se de que o cenário para o próximo ano não seja o melhor.
 
Fora esta realidade (FC Porto, Benfica e Sporting, Marítimo-Nacional e Braga-Vitória), o futebol português não existe. É uma constante luta a contra-relogio para sobreviver, para não cair no poço. Uma luta que envolve históricos (Belenenses, Vitória Setúbal, Académica, Leixões) e projectos que assentam nessa filosofia geográfica que premeia clubes com capacidade de arrancar sustento para sobreviver (Paços Ferreira, Naval 1 Maio, Estrela Amadora, Rio Ave e Trofense). Sempre que um destes clubes baixa, sobe outro exactamente com as mesmas características, independentemente da localização geográfica. O que hoje é o Trofense e o Estrela, ontem foi o Alverca e Moreirense. Mudam os nomes, ficam os vícios.
 
O futebol português é portanto um futebol viciado. Não precisamos de baixar ao submundo das arbitragens. Basta avaliar as gestões desportivas das instituições, a fraca ambição dos clubes e a baixíssima qualidade apresentada em cada desafio. É portanto um futuro negro aquele que espera o futebol nacional que para recuperar a aura de grandeza de um passado cada vez mais distante, mais do que pensar na questão económica tem de se concentrar numa clara mudança de mentalidade. Como o resto do país entenda-se!


Miguel Lourenço Pereira às 00:52 | link do post | comentar

Sábado, 2 de Maio de 2009

Desde os anos dourados dos clubes da margem sul até á ascensão e queda dos clubes do vale do Ave e Sousa, o futebol português viveu uma constante mutação geográfica. Que FC Porto, SL Benfica e Sporting tenham sido os únicos clubes a participar em todas as edições dos campeonatos de futebol é a prova viva de que, apesar da chamada ditadura dos grandes, houve constante evolução no que diz respeito aos palcos do futebol nacional. E como pudemos ver, essa evolução é resultado também das mutações socio-económicas que viveu Portugal. Dos anos dourados dos estaleiros de Almada e da Margem Sul, donde saíram craques como Chalana ou Futre até ao aparecimento dos pequenos clubes da zona Norte passaram quase vinte anos. E rapidamente tudo voltou a mudar com a queda abrupta do país numa forte crise económica que afectou essencialmente esses tecidos urbanos, hoje a viver em forte degradação social e económica e sem soluções à vista. Instituições históricas fecharam as portas e clubes miticos militam nas mais obscuras divisões.

 

O futebol português do presente é, efectivamente, o espelho deste nosso país.

Projectos-piloto, baseados no investimento deste ou daquele nome, resultaram em progressivos falhanços. O Campomaiorense da familia Nabeiro, que durante alguns anos logrou trazer de novo a festa do futebol ao Alentejo, terminou abruptamente. Quase todas as capitais de distrito vivem hoje sem um clube nas principais divisões do futebol nacional. Basta fazer as contas. Que dizer do destino actual de clubes como o Vianense, Chaves, Académico de Viseu,  Vila Real, Lusitano de Evora. Farense, Benfica de Castelo Branco ou  Sporting da Covilhã?

O Portugal interior desapareceu da vida social do país e também do futebol. Os campeonatos da II e III Divisões sobrevivem com clubes com uma forte base de apoio local, mas incapazes de conseguir captivar patrocinios de forma a preparar uma subida de divisão bem orquestrada. Duas excepções: o Olhanense, que sob o comando de Jorge Costa se prepara para devolver o futebol de primeira ao Algarve num projecto pensado com rigor e o Santa Clara, que pode fazer o mesmo com os Açores, depois de já ter passado uma temporada na I Divisão. Casos raros num meio onde povoam clubes a quem lhes parece faltar sempre algo e que, quando chegam ao escalão maior, notam enormemente a diferença competitiva.

 

O fenómeno presente do futebol português é hoje e uma vez mais, espelho do país que temos. Um país de suburbios com toda a acção centrada de novo em Lisboa, cada vez mais macrocéfala e com um Porto a tentar resistir, pelo menos a nivel desportivoica. Só assim se explica que clubes como o Estoril e Alverca, há uns anos, e Estrela da Amadora, na grande Lisboa, e Trofense, Rio AveVarzim no grande Porto, tenham sido e sejam hoje presença regular no campeonato principal. Se o Porto vive o seu próprio drama - reflexo igualmente da pobreza moral e humana que vive a massa social da cidade e de que aqui falamos em detalhe - é importante analisar também que a maioria dos projectos pensados para a I Divisão da zona Norte falharam por completo. Gondomar, Maia, Moreirense, Felgueiras ou esse clube de Vila Nova de Gaia que nunca chegou a aparecer realmente (Dragões Sandinenses e Vilanovense foram os que mais sonharam) foram projectos-piloto com o objectivo de tornar o Grande Porto no mesmo que foi Lisboa nos anos 50 e 60. Sem sucesso, hoje a cidade vive do seu campeão e do surpreendente Leixões. O Minho perdeu quase todos os seus participantes - o Gil Vicente ainda luta honradamente na Liga Vitalis, mas os restantes clubes desapareceram do mapa - e o mesmo passou com a margem Sul, onde só o Vitoria de Setubal vai sobrevivendo, a custo. 

 

Estamos portanto num Portugal onde os principais eixos do nosso futebol passado - Lisboa, Porto, Margem Sul de Lisboa e Minho-Ave - estão em grave crise.

Salvo os grandes clubes e um ou outro caso excepcional de hábil gestão, o futebol nacional vive espalhado em pequenas entidades, sem ambições e capacidades de potencializar todo o seu poder de influência na sua zona geográfica.

A Naval 1 de Maio é um caso claro. Estádio constantemente vazio, equipa de nivel médio baixo mas uma enorme capacidade de sobrevivência. É um clube de uma cidade que cresceu muito nos últimos anos mas que carece da base de apoio social que garante a subsistência a longo prazo e que permite, por exemplo, que à Academica de Coimbra não lhe passe o mesmo que acontece com União de Leiria - que apesar das infra-estruturas foi sempre um dos clubes com menos massa associativa da primeira divisão -  e Beira-Mar. Dois clubes com estádios feitos a pensar no Euro 2004 mas que vivem entre dividas, má gestão desportiva e económica e sem capacidade de mobilizar a sua zona de influência. O sucesso de Trofense, Estrela da Amadora e afins não deriva dos apoiantes locais, a maioria deles sócios de clubes grandes, mas sim da capacidade económica que possuem hoje em dia os suburbios e que fazem com que sejam projectos mais rentáveis que os desaparecidos Tirsense, Famalicao, Montijo ou Alverca.

 

A Madeira afirma-se portanto como esse oásis, muito graças a um forte apoio do Governo Regional, hábil em perceber a importância do futebol num país de ilusões. Ao contrário dos Açores, que salvo a dinâmica do Santa Clara, nunca existiu verdadeiramente no nosso futebol, na Madeira há um longo historial e o sucesso europeu de Maritimo e Nacional é reflexo de politicas de vários anos. Sem essa ajuda - como acontece com o União da Madeira - seriam provavelmente clubes de segunda linha, até porque a base de apoio local é restricta. Mas é essa capacidade que lhes permite lutar por postos altos na classificação, por cima de clubes que, pela sua história e localização, deviam ambicionar a mais. O Minho que sobrevive com este Braga europeu e o Vitória em regeneração afunda-se cada vez mais e o vale do Ave e Sousa subsiste graças ao poder financeiro da capital do móvel (Paços de Ferreira) e da zona costeira (Rio Ave), mas sempre com a corda na garganta.

 

Resta olhar para as zonas desaparecidas. Hoje Portugal parece não querer existir para lá da A1.

Esse eixo rodoviário é também o eixo da economia e da sociedade portuguesa. O futebol teria certamente poder para alterar a situação mas tal como aconteceu em Inglaterra com o desaparecimento dos colossos históricos do norte industrial (Nottingham Forrest, Leeds Utd, Sheffield Wednesday) ou com as desérticas capitais de provincia espanholas (Burgos, Santiago, Real Sociedad, Oviedo, Salamanca ou Albacete) a sociedade e a economia de cada Estado dita, hoje, mais do que nunca, a presença na alta roda do futebol profissional. Não surpreende portanto que entre os grandes da Champions League joguem equipas de três das maiores cidades europeias. Hoje estamos limitados por essa mentalidade e postura, face à correlação de forças que coordena o nosso país...e amanhã, que passará?

 

Continua...



Miguel Lourenço Pereira às 00:31 | link do post | comentar

O veterano Helenio Herrera sempre afirmou que o sucesso de uma equipa campeã assenta em dois pilares base: um óptimo guarda-redes e um avançado letal. A partir daí tudo é táctica pura e dura. O verdadeiro desiquilibrio surge apenas com essas dois individuos solitários. E não há, em campo, jogador tão só como o guarda-redes.

 

O público é sempre injusto. Um golo nunca é um bom golo. É sempre um lance não defendido. Uma grande defesa é sempre uma defesa esperada. E um penalti parado, puro sorte. Os próprios pensadores do futebol condenaram o guarda-redes ao ostracismo. Fala-se de 4-4-2 e não de 1-4-4-2. Dá que pensar.

 

Ao olhar para o desenrolar da história do futebol é fácil perceber que a máxima de Herrera é válida. A Itália de 82 sobreviveu muito culpa do veterano Zoff e do letal Rossi. Aliás, o futebol italiano sempre foi uma das escolas máximas de guarda-redes. Mas há-as para todos os gostos. Os excentricos sul-americanos, os frios guardiões do Leste da Europa, os baixos mas elásticos latinos e os gigantes nórdicos. Uma coisa é certa, um grande guarda-redes é o primeiro pilar para a segurança de uma equipa. E com tanta táctica misturada pelo meio, o mais importante é subir ao terreno de jogo com a sensação de tranquilidade de que, passe o que passe, temos as costas protegidas. E não são todos, aqueles capazes de o transmitir. 

Quando José Mourinho assinou pelo Chelsea já sabia que o clube de Abramovich tinha um contracto com a jovem promessa do futebol checo. Vinha do Rennes e tinha brilhado num Europeu de sub-21. Mas a maioria do público nem sabia bem pronunciar o seu nome. Com o treinador portugues o Chelsea tornou-se em Peter Cech e mais dez. A segurança defensiva do gigante guardião era o primeiro pilar nas vitórias semanais da equipa londrina. Defesas espectaculares e eficazes, demonstravam desde o primeiro instante que a aposta tinha sido ganha. Venceu vários prémios individuais, tornou-se num dos elementos mais queridos da equipa e foi dos poucos nomes consensuais do projecto luso-britanico que durante dois anos dominou a Old Albion.

 

Depois veio aquele choque brutal, aquele momento de terror. Por instantes a vida esteve em risco. Cech perdeu a consciencia, saiu aplaudido do relvado e quando voltou, meses mais tarde, já não era o mesmo. A segurança que ele próprio transmitia foi incapaz de transmitir a si próprio. O capacete na cabeça era, para todos os efeitos, a marca constante desse lance e o recordatório aos seus colegas: eu também sou humano.

É inevitável associar a sua baixa de rendimento - e da defesa do Chelsea - a esse incidente. O guardião que antes era conhecido pela imbatilidade passou a ser conhecido por cometer erros infantis - um deles custou mesmo a passagem da R. Checa aos quartos do último Europeu. As mutações na defesa sólida do Chelsea, resultado da saída do treinador que o lançou não ajudaram, e mais do que a solução, Peter Cech passou a ser visto como parte do problema.

 

Esta semana os londrinos mostraram ao Barcelona que para vencer também é preciso saber defender. E neutralizaram o arsenal ofensivo dos catalães. Cech disse presente e manteve a sua baliza inviolável. Mas a cada movimentação, a cada saída a punhos, é ainda complicado perceber quem é o homem que leva o número 1 nas costas: se o guerreiro que parou tudo e permitiu a Stanford Bridge voltar a gritar ao som de "We are the Champions" ou se o cavaleiro ferido, incapaz de garantir a segurança dos seus peões. Só o tempo o dirá mas tudo indica que a recuperação vai no bom caminho.

 

Mas mais do que boa forma fisica e espirito competitivo, hoje Peter Cech só precisa de uma coisa: voltar a ser capaz de deixar nos seus colegas aquela sensação ao sair do túnel: "tranquilo, tenho as costas protegidas!"



Miguel Lourenço Pereira às 00:01 | link do post | comentar

Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

Portugal ameaça tornar-se claramente numa ave rara no espectro do futebol europeu. Obviamente, não pelos melhores motivos. Há muito tempo que deixamos de ter verdadeiro motivo de orgulho do nosso futebol. As constantes suspeita de corrupção, as subidas e descidas administrativas, as sanções, os arquivamentos e toda a burocracia que mina o que se faz dentro das quatro linhas conseguiu destruir a pouca credibilidade que ainda tínhamos lá fora. Para dentro de portas as guerras entre clubes tapam a poeira e a falta de ideias e projectos capazes de fazer do nosso futebol algo respeitado no meio europeu.

 
Talvez a situação mais preocupante deste actual futebol português, a que mais choca aos olhos daqueles que ainda vem o futebol como algo sério, é a questão dos patrocínios. Os patrocínios aos chamados três grandes, para ser mais concreto.
É absolutamente impensável imaginar que o Real Madrid e Barcelona, ou Inter, AC Milan e Juventus para não falar dos grandes de Inglaterra, arranquem para o inicio de uma temporada desportiva exibindo o mesmo patrocínio nas camisolas. É mais, uma empresa aposta num clube quando o subvenciona e aposta forte, faz do seu projecto seu. Apostar nos únicos três reais candidatos (ou dois, ou quatro) a vencer o principal troféu é, já de si, sinal da falta de qualidade dessa própria competição. Porque, e deixemos as coisas bem claras, um cenário que não existe, nem sequer no terceiro mundo. Procurem vídeos no You Tube de jogos na Roménia, Bulgária, Chipre ou Israel e encontrem equipas com o mesmo patrocínio nas camisolas. Só por cá era possível viver-se uma situação de tamanha cumplicidade entre uma que outra instituição económica e as maiores instituições desportivas.
 
O patrocínio em Portugal chegou no final dos anos 70 princípios dos 80 com a Revigrés nas camisolas do FC Porto. Uma novidade que fez escola. O clube portuense manteve o seu patrocínio até ao seu período de glória europeia, tendo mesmo disputado uma época com um patrocinador (PT) para as provas nacionais e outro (Revigrés) nos jogos europeus. Acabou-se a nostalgia e ficou o (pouco) dinheiro de um nome com mais impacto a nível nacional. Os restantes grandes cedo copiaram o modelo azul e branco e tarde ou cedo chegamos aos patrocínios nas camisolas, nas costas, nos calções, nas meias, nas bancadas…o naming ainda é relativamente uma novidade, mas lá chegaremos a larga escala. Até aí, nada a dizer. Os clubes precisam de se sustentar economicamente e não há clube grande europeu que não tenha um importante contrato publicitário. Mas o que se passa em Portugal roça a vergonha pura e a impunidade moral e a falta de contestação das próprias massas adeptas é igualmente espelho deste povo para o qual nada nunca está verdadeiramente mal.
 
Imaginemos que amanha o Real Madrid sai ao campo com o mesmo patrocínio que o seu grande rival. O coro de assobios no Bernabeu seria de tal forma ensurdecedor que a direcção rapidamente teria de tomar uma decisão. Mas nunca o precisarão de fazer, porque quando existe uma cultura desportiva de competitividade, procura-se sempre elementos diferenciais. Por algum motivo os clubes tem as suas cores, o seu estádio, o seu bom nome a defender. No momento em que um patrocínio entra na camisola de um clube, passa a fazer para dessa mística, mesmo que só lá esteja para pagar os cheques no fim de cada mês. O que se passa actualmente com a TMN a dar cor ás camisolas dos três grandes é sintomático do país que temos. Em primeiro lugar da falta de iniciativa de empresas para apostar numa das poucas plataformas rentáveis que ainda tem Portugal: o futebol. Em segundo, a falta de moralidade e espírito de competitividade das próprias instituições, que se perdem nesta uniformização estética e moral. E claro, das próprias instituições que deviam ser as primeiras a estar atentas a este monopólio como o que tem a PT e o BES no futebol nacional.
A saída do banco do mundo dos patrocinios abriu uma porta para combater esta situação. Na passada semana o Sporting antecipou-se e anunciou um novo patrocinio com a Unicer - detentora das marcas SuperBock e Vitalis, que, curiosamente, já patrocina a II Liga (o que é, também um caso vergonhoso de promiscuidade empresarial com instituições desportivas) para a parte de trºas das camisolas e para os equipamentos das diferentes secções. Esta semana foi o FC Porto a seguir-lhe os passos. Mais uma vez, no próximo ano, num jogo de andebol FC Porto-Sporting, ambas as equipas jogarão com a marca Vitalis no peito. E o nome de Bruno Alves e de João Moutinho será acompanhado, centimetros acima, pela designação "SuperBock".
 
Imaginem agora isso suceder com Del Piero, Ibrahimovic ou Kaká. Não conseguem pois não? Isto é o futebol português. E não é preciso dizer mais nada...


Miguel Lourenço Pereira às 20:31 | link do post | comentar

A excelente campanha da Fiorentina esta época, que lhe abre a possibilidade de para o ano regressar à Champions League, tem uma simples explicação: Stevan Jovetic.

O jovem médio montenegrino é a mais recente descoberta do maravilhoso futebol dos Balcas que no passado já nos apresentou génios como Bockic, Savicevic, Prosinecki, Suker, Mijatovic ou Modric. Neste récem-inaugurado país, Jovetic é mais do que uma estrela. É um símbolo de esperança.
 
Quando o jovem Jovetic nasceu, a 2 de Novembro de 1989, ainda existia a Jugoslávia. O jovem nascido numa pequena localidade montenegrina, Titograd, não se lembra dos anos difíceis da Guerra dos Balcãs e criou-se sonhando jogar com a selecção da Sérvia, sem ainda saber que o seu pequeno país teria direito a existir. Foi portanto natural que, depois da formação no clube local, o Mladost, em 2003 o jovem se transferisse para o Partizan de Belgrado, um dos grandes clubes da história do futebol jugoslavo. Em Belgrado foi tratado como uma jovem promessas desde muito cedo, fazendo parte de uma geração de múltiplos talentos onde também andavam Llajic e Tosic, hoje no Manchester United. Durante cinco anos foi ganhando traquejo, tendo-se estreado na equipa principal do Partizan com apenas 16 anos num jogo do campeonato contra o Vozdovac. Um ano depois já era o maestro da equipa e apontou um inesquecível hat-trick na sua estreia na Taça UEFA. Era óbvio que apesar da jovem idade, não iria ficar muito tempo por Belgrado.
 
Apesar do interesse do Real Madrid e Manchester United, o jovem Jovetic arriscou e aceitou em 2008 a proposta da Fiorentina que lhe prometia um lugar de destaque numa equipa jovem e ambiciosa. Ao seu lado teria o italiano Montolivo, o brasileiro Felipe Melo e o também sérvio Kuzmanovic e à sua frente o Gillardino e o búlgaro Valeri Bojinov. Ou seja, uma série de jovens promessas unidas com um só objectivo: devolver aos Viola os postos europeus. Ao mesmo tempo o anúncio oficial da formação do Montenegro fez com que o jovem que tinha passado todos os escalões de formação na Sérvia, se estreasse com a camisola do seu país no primeiro jogo internacional oficial montenegrino. Ao longo da época Jovetic pautou o jogo da Fiore e apesar de ter marcado menos golos do que se espera pelo seu historial, foi o rei das assistências no Artemio Franchi. Para o ano estará na Champions League a mostrar todo o seu talento e poucos duvidas que tarde ou cedo dará o salto para um dos grandes do futebol europeu. Estava escrito nas estrelas.

 



Miguel Lourenço Pereira às 00:56 | link do post | comentar

O futebol é o fenómeno de massas por excelência do século XX e já neste século confirmou todo o seu potencial económico-social.

 

Hoje em dia os jogos disputados entre as selecções são o equivalente ás guerras nacionalistas do passado. As rivalidades antigas, abafadas nos corredores de Bruxelas, Washington, Brasilia ou Teerão, ganham forma quando as equipas entram em campo. Os duelos Brasil-Argentina, França-Inglaterra, Holanda-Alemanha e claro, Portugal-Espanha são acima de tudo o reflexo do vivido no passado noutras arenas, bem mais sangrentas. Dentro dos países sucede o mesmo, com os torneios de futebol (que nome tão acertado) a reflectirem essas rivalidades históricas, regionais, locais...o Homem igual a si próprio portanto.

 

No território nacional o futebol sempre foi - desde a sua implementação - o desporto mais popular por excelência. Já antes dos celebres 3 F´s (Fado, Futebol e Fátima), o desporto-rei tinha conquistado o povo e a alta burguesia, espalhando-se rapidamente pelos quatro cantos do país, ilhas e provincias ultramarinas (ou império colonial, fica ao gosto do freguês). E se está claro que os grandes centro urbanos foram, desde sempre, os grandes dinamizadores do futebol português, a verdade é que a geografia do nosso futebol mudou muito desde as suas origens até ao dia de hoje. Mudanças que reflectem a evolução social do país e que também servem para deixar a nu as carências de uma nação sem rumo e sem orgulho próprio.

 

Lisboa, já se sabe, sempre foi - ou quis ser - o centro de tudo. O futebol não foi nenhuma excepção. E se a formação dos seus três emblemas máximos - SL Benfica, Sporting e Belenenses - até foi um processo tardio, em comparação com outros clubes do país, a verdade é que o futebol teve aí uma rápida penetração. Desde o principio dos campeonatos até hoje, Lisboa teve sempre a sua presença fortemente assegurada. Por sua vez o Porto viveu altos e baixos, resultado da afirmação da própria Invicta. O FC Porto sempre foi o baluarte da cidade, mesmo nos tempos de vacas magras, mas o surgimento de uma forte segunda linha tardou em confirmar-se, acontecendo precisamente quando a cidade começava a emergir, cada vez mais, como o eixo productivo do país.

 

Se em retrospectiva analisar-mos  os periodos chave do futebol português podemos também perceber as mutações da sua geografia.

 

Desde o periodo do pós-II Guerra Mundial e até à Revolução de Abril, o eixo geográfico do futebol nacional estava localizado em Lisboa. As boas relações dos clubes da capital com as suas filiais de além-mar permitiam-lhes sempre captar os jogadores que mais depressa despontavam (Peyroteo, Vicente, Matateu, José Aguas, Coluna, Eusebio são apenas exemplos mediáticos de uma prática comum). Não espanta, portanto, o dominio avassalador dos três clubes da capital nesse periodo. De igual forma, a forte concentração populacional na margem sul permitia a afirmação de pequenos clubes locais que se transformaram em viveiros de craques. A CUF, Barreirense, Montijo, Seixal, Vitória de Setubal - e na zona norte o Oriental e o Atlético - eram presenças mais ou menos regulares no campeonato nacional, fazendo com que a maioria dos desafios fossem disputados na área da grande Lisboa. Por esses dias as ilhas eram um ausente constante e o Algarve tinha, aqui e ali, um representante (o Olhanense) enquanto que o Alentejo vivia da rivalidade dos dois clubes de Évora, o Juventude e o Lusitâno. A zona centro - onde se concentrava muita da indústria da época - era igualmente outro eixo de forte dinamismo, do Marinhense à Sanjoanense, do Beira-Mar ao Torreense sem esquecer a mitica Académica de Coimbra. No interior havia a presença mais ou menos certa do Académico de Viseu, Benfica de Castelo Branco ou Sporting da Covilhã. A zona Norte não tinha, nem de longe, o peso de hoje. Da Invicta apenas o FC Porto era presença regular, com Leixões, Boavista e Salgueiros ocasionalmente promovidos á I Divisão. O Minho vivia das lutas entre Braga, Guimarães e Vianense enquanto que o Chaves e Vila Real disputavam a primazia da zona transmontana. É importante ressalvar que então, até bastante tarde, os participantes no campeonato passavam antes por uma poule distrital que garantia essa homogeneidade na liga nacional.

 

Com a revolução de Abril a geografia de Portugal e do nosso futebol mudou por completo. Lisboa perdeu o eixo de influência que detinha e as nacionalizações e sucessivos encerramentos de muitas das empresas da grande Lisboa provocou o desaparecimento de históricos clubes. A CUF tornou-se primeiro em Quimigal antes de acabar, o Atlético, Barreirense e Montijo aguentaram alguns anos, antes de cair nas distritais.

 

Surgiu então um novo fenómeno: o Norte têxtil.

O eixo da produção economica tinha-se transferido para o império têxtil que na zona do vale do Ave, Vouga e Sousa começava a ganhar força. Os anos 80 e principios dos anos 90 foram os de clubes como o Famalicão, Tirsense, Penafiel ou Gil Vicente, a par da afirmação do Rio Ave, Varzim e consolidação definitiva do Vitória de Guimarães. O Porto superava Lisboa em clubes, com o FC Porto, Boavista e Salgueiros como habituais, e Leixões e Espinho como convidados surpresa. Um periodo que dividiu claramente o futebol nacional em Norte e Sul.

O Algarve recuperou protagonismo (é a era dourado do Farense e Portimonense) mas o Alentejo e as Beiras desapareceram do mapa. De Trás os Montes ficou apenas o Desportivo de Chaves enquanto que a zona centro foi igualmente afectada na sua parte sul (fim do Torreense e Marinhense na alta roda, e ganhou na zona norte: Beira-Mar, Oliveirense, Feirense). Outro fenómeno foi a progressiva afirmação do futebol madeirense: Maritimo e União da Madeira primeiro, e logo o Nacional, subiram à alta roda.

 

Estavamos a desenhar um novo país onde as diferenças sociais se acentuavam de ano para ano. A desertificação do interior encontrava eco no nosso futebol e o final das colónias potenciava o aparecimento de um novo tipo de jogador, menos atlético e mais fino no trato de bola. Estavam aí também as bases da geração de ouro de 89 e 91 e da afirmação definitiva do FC Porto como potência número um, em troca com o consulado Benfica-Sporting, os grandes prejudicados por esta metamorfose.

 

Continua...



Miguel Lourenço Pereira às 00:29 | link do post | comentar

.O Autor

Miguel Lourenço Pereira

Fundamental.
EnfoKada
Novembro 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


FUTEBOL MAGAZINE. revista de futebol online


Futebol Magazine


Traductor


Ultimas Actualizações

Toni Kroos, el Maestro In...

Portugal, começar de novo...

O circo português

Porta de entrada a outro ...

Os génios malditos alemãe...

Be right back

2014, um Mundial de parad...

Brasil vs Alemanha, o fim...

Di Stefano, o jogador mai...

Portugal, as causas da hu...

Últimos Comentários
Thank you for some other informative web site. Whe...
Só espero que os Merengues consigam levar a melhor...
O Universo do Desporto é um projeto com quase cinc...
ManostaxxGerador Automatico de ideias para topicos...
ManostaxxSaiba onde estão os seus filhos, esposo/a...
Posts mais comentados
69 comentários
64 comentários
47 comentários
Arquivo
.Do Autor
Cinema
.Blogs Portugueses
4-4-2
A Outra Visão
Açores e o Futebol
Duplo Pivot
Foot in My Heart
Futebol Finance
Futebol Portugal
Lateral Esquerdo
Leoninamente
Minuto Zero
Negócios do Futebol
Pitons em Riste
Porta 19
Portistas de Bancada
Reflexão Portista
TreinadorFutebol
.Blogs Internacionais
Os mais destacados blogs internacionais de futebol
.Imprensa Desportiva
Edições Online Imprensa
Aviso

Podem participar nesta tertúlia futebolistíca enviando os vossos comentários e sugestões à direcção de correio electrónico: Miguel.Lourenco.Pereira@gmail.com


Bem Vindos a Em Jogo...


Nota



O Em Jogo informa os leitores que as fotos publicadas não são da autoria do weblog sendo que os seus respectivos direitos pertencem aos seus legítimos autores.



Siga o Em Jogo através do:

Follow Em_Jogo on Twitter


Em Jogo

Crea tu insignia

Bem vindo!

Categorias

todas as tags

subscrever feeds
blogs SAPO