



A imprensa até esfregou as mãos. Chegados ao Natal, o tricampeão nacional andava pelo segundo lugar, a lamber as feridas de uma primeira volta desastrosa.O SL Benfica liderava a Liga, e segundo os ilustres opinion-makers, vencia e convencia a caminho do primeiro titulo da era Rui Costa...claro, isso foi até ao dobrar de ano. A partir daí os encarnados caíram pela tabela aos trambolhões e foram ultrapassados pelo titubeante rival de Alvalade, que nunca recuperou da humilhação contra o Bayern e da polémica da Taça da Liga. No primeiro lugar já estava o FC Porto e daí não voltaria mais a sair. A equipa portuense prepara-se para repetir um feito apenas logrado pelos leões dos Cinco Violinos e pela equipa azul e branca de António Oliveira, em 1998, liderada pelos golos de Mário Jardel.
Quatro campeonatos consecutivos é um feito em qualquer liga. Repetir a dose num espaço de quinze anos é assumir um dominio absoluto no panorama desportivo nacional. E tudo resultado de um projecto bem definido, há já mais de trinta anos. Um plano que tem funcionado e, como em equipa que ganah pouco se mexe, apenas ajustado ao longo do mandato presidencial de Jorge Nuno Pinto da Costa. Só nos paises latinos os Presidentes conseguem ter tanto ou mais protagonismo que os artistas, mas alguns conquistam-na a pulso. Pinto da Costa é dessa casta. Desde cedo percebeu que o FC Porto, para vingar em casa e brilhar fora, teria que saber que há que vender os aneis para nunca perder os dedos. E ao largo de tres décadas foram alguns dos melhores anéis que alguma vez passaram pelos relvados portugueses. E sempre se soube recuperar equipas aparentemente desfeitas. Este ano foi particular. Este ano custou mais ainda. E por isso o triunfo dos dragões sabe ainda melhor.


Já está disponivel online o meu segundo artigo semanal de colaboração com o weblog FutebolArtte. Um artigo dedicado á antecipação dos dois encontros da segunda mão da Meia Final da Taça UEFA.
"Já há muito que deixamos o gélido Inverno ucraniano e as praias desertas do Mar Báltico. O duelo entre rivais e irmãos vai dar origem a mais 180 minutos de alta tensão..."
Podem continuar a ler o artigo aqui...
Durante 90 minutos fez-se história. E John Terry sorria, lá bem no fundo. Tinha contas a ajustar com a história. Mas o futebol é mais do que 90 minutos. É fé até ao final. No pior jogo de todo o ano, o Barcelona teve a estrelinha de campeão. Um remate colocado e impossível fez o empate. Injusto. Impensável. Inevitável. O Chelsea dominou de forma espantosa todo o encontro. Foi prejudicado num bom punhado de lances decisivos pela equipa de arbitragem. Mas falhou. Diante de Valdés falhou quase sempre. E esses erros pagam-se. O Barcelona, a mesma equipa que no sábado marcou 6 golos no Santiago Bernabeu, rematou apenas uma vez aos postes de Petr Cech. Uma vez em 94 minutos. E funcionou. Um remate histórico, daqueles que no futuro estarão em todas as compilações da história blaugrana. A final mais esperada da história, a final entre os dois grandes clubes do futebol europeu é real. Imerecida, mas real. E John Terry gritou. De raiva. Outra vez o destino pregou-lhe uma rasteira.

Desaparecido. Fora de jogo. Lionel Messi foi sombra e holograma. O argentino nunca entrou em campo. Apesar do subtil desvio para aquele tiro memorável do incansável Iniesta, a verdade é que o jogador estrela do Barça foi o exemplo claro de como actuou a sua equipa. Completamente apagada face ao espirito guerreiro do Chelsea. Com o Manchester United vai ser diferente. Os de Ferguson jogam sempre para ganhar e não são tacticamente tão disciplinados como a equipa de Hiddink. Mas face ao esquema geométrico do Chelsea, o Barcelona nunca soube reagir. Muita posse de bola nos primeiros três quartos do terreno de jogo. E depois, o vazio de ideias, a falta de penetrar naquela muralha defensiva onde Ricardo Carvalho faz falta, mas cada vez menos. E se Messi foi um fantasma, que dizer do verdadeiro maestro do Barcelona. Xavi estava atado a Ballack. O alemão foi implacável em mais um exercicio de esforço único. O maestre culé nunca tomou as rédeas do jogo. Viu-se um Xavi nervoso, irrequieto. Toda a equipa do Barcelona foi uma sombra do que temos visto. Acabou a imagem do glamour. Este jogo mostrou que a equipa da cidade Condal também é vulgar e ganha sem merecer. Ou seja, também tem esse estofo de campeão. E se de sorte se fazem os craques, Iniesta voltou a provar que é mais do que aquele suplente útil da era Rijkaard. Lutou como nenhum outro e acreditou até ao fim. Quando Etoo, Messi, Xavi e companhia tinham baixado os braços, Iniesta olhou para o banco e viu esperança no olhar de Pep Guardiola e arriscou. Se alguém merecia este empate, esse era o técnico catalão. No banco esteve enérgico, sabendo que as baixas que tinham não lhe davam muita manobra. Arriscou com Touré. Arriscou com um meio campo de combate. Saiu-lhe mal, Hiddink superou-o em todos os sentidos. Mas no final a eficácia decide eliminatórias. E o Barcelona foi, em Londres, 100% eficaz.

O Chelsea esteve perto de fazer histórica e provocar a primeira final repetida em dois anos consecutivos na história da Champions League. Depois da épica de Moscovo, parecia que em Roma iamos ter direito a sequela. Era o jogo que os adeptos londrinos mereciam. A equipa, curiosamente, desde que perdeu Mourinho tornou-se mais eficaz na Europa e menos regular em casa. Podia ter sido. Mas não foi. O Barcelona junta-se assim ao Manchester. Estão, no papel, as duas melhores equipas da Europa em Roma. O futebol dos ingleses é intocável e ontem o Arsenal provou bem do seu veneno. Mas o Barcelona também tem talento. Hoje descubriu-se o seu lado obscuro. Resta confirmar que face veremos na Cidade eterna. Sem os laterais titulares - disso falaremos em detalhe amanhã - o Barcelona vai estar mais frágil. Mas a ilusão dos catalães é única. Não interessa que seja um dos grandes derrotados da prova (só o SL Benfica tem mais finais perdidas). A sorte desta vez, parece estar do seu lado. O titulo já no bolso pode ajudar a relaxar. O Manchester estará em tensão até ao final. Mas, afinal, é assim que gosta de viver a equipa de Ferguson. E depois há aqueles que falarão do duelo Cristiano Ronaldo-Lionel Messi. Deste filme já ouvimos falar no ano passado, e ninguém viu o argentino em cena. Hoje também desapareceu. CR7 foi ontem o pêndulo dos campeões da Europa. O Man Utd é o favorito. Cristiano é o rei. Cabe ao Barcelona tomar o posto de desafiante. Veremos até que ponto há estofo de campeão lá para os lados de Can Barça...onde durante muitos anos se poderá ouvir aquele grito desesperado de Terry...



De espada em riste, os cavaleiros de Sir Alex Ferguson marcham furiosamente do Norte rumo á capital do Sul. Pretende repor a justiça no marcador, a mesma que lhes falhou na passada semana nesse anfiteatro dos sonhos mancunianos. Se a eficácia decide jogos, a sorte muitas vezes decide campeões. O Arsenal teve muita, muita sorte em Old Trafford. O Manchester United fez mais do que suficiente para levar para Londres uma vantagem confortável. Mas um só golo é pouca coisa, especialmente nestas alturas do campeonato. Que a linha avançado do United é temivel, isso já se sabe. Que a defesa do Arsenal não é aquele bloco sólido de há uns anos, também. Mas um golpe de sorte pode mudar tudo.

Cristiano Ronaldo e Wayne Rooney. Nas suas duas estrelas os adeptos do Manchester depositam a esperança de, pela primeira vez na sua hsitória, chegarem a duas finais consecutivas de uma Champions League. Parece mentira mas o maior clube ingles da actualidade - e quiça de sempre - nunca o logrou. O Liverpool e Nottingham conseguiram mesmo o feito de repetir triunfo. A Ferguson falta-lhe o sonho de igualar os maiores rivais britanicos e fazer aquilo que, desde 1990, nenhuma equipa logra. Renovar o ceptro de campeão europeu. Ainda faltam, pelo menos, 90 minutos. Talvez mais, nunca se sabe. Mas em Londres pode estar aí o primeiro e definitivo passo rumo á história. O United é mais equipa e tem mais individualidades que o Arsenal. Falta saber se continua a ser acompanhado pela sorte, aquela que o tem protegido, mesmo quando a eficácia falha. Contra o Inter massacrou, mas sofreu até ao fim. Com o FC Porto foi massacrado, mas passou com um golpe de génio. E agora? A primeira mão diz que os diabos vermelhos vão a Roma. A história diz para ter cuidado.
O Arsenal é o oposto, uma equipa de azares constantes, azares que os impediram sempre de ir mais longe nas grandes provas. Na única final da Champions onde estiveram, há três anos em Paris, o azar da expulsão (injusta) quebrou a equipa que podia ter feito frente ao Barcelona. Hoje Wenger precisa mais do que pura sorte. Precisa de que os seus "meninos" sejam um bloco forte no meio campo (onde não existiram na primeira mão) e que os seus avançados funcionem como uma metralhadora...letais. Almunia terá mais trabalho do que van de Sar, mas não tem margem de manobra. E Fabregas, que vive na sombra de Xavi na selecção campeã da Europa, tem aqui uma boa oportunidade para confirmar-se como um dos grandes internacionais. Só que CR7 está - finalmente - a voltar á sua boa forma. E quando está em alta e decide aparecer, é dificil travar a máquina de guerra de Manchester.

PS: Do Chelsea-Barcelona espera-se mais do mesmo do Camp Nou?
Não, o jogo será bastante diferente. O Barça tem de marcar e, se o conseguir, tem meia eliminatória no papo. O massacre de Madrid comprova o que já há muito se sabia, que da Catalunha vem a maior linha ofensiva da actualidade. Mas na primeira mão isso serviu de pouco contra a organização britânica. Só que agora o Chelsea não pode ter Lampard, Obi Mikel e Ballack como médios defensivos de cobertura. Anelka jugará ao lado de Malouda e Drogba. A linha ofensiva vai-se abrir sobre os flancos, o ponto frágil deste Barça. E os lances de bola parada serão decisivos. O Chelsea não poderá ser tão curto no terreno de jogo e o Barcelona terá de se aproveitar desses (poucos) espaços. Mais do que o jogo de Messi ou Etoo, este é o jogo de Xavi. O maestro descubrirá os espaços...depois é só fazer o que melhor sabem os avançados culés. O Barcelona continua a ser o favorito, mas se há equipa que sabe como prender os tentáculos blaugranas, é este Chelsea. Cuidado com as celebrações antecipadas...
La Masia.
Um nome que para a maioria dos adeptos do mundo da bola soa a raro. Mas não o deveria ser, especialmente depois de ter ecoado pelos quatro cantos do Mundo essa vitória histórica do FC Barcelona em pleno Santiago Bernabeu.
2-6, um resultado que já não se usa, um resultado que serviu para os arrogantes adeptos madrilenhos - que com uma equipa de segunda linha e apoiados pela imprensa mais facciosa da Europa tinham afirmado, a peito aberto, que trucidariam os de Pep Guardiola - se lembrarem de que para ganhar, no futebol, faz falta algo mais do que sorte. A sorte que eles foram tendo, jornada após jornada. Enquanto que o Barça deslumbrava, goleava, encantava...o Madrid começava os jogos a perder, recuperava de forma louca mas sempre com um futebol que até ao mais fanático adepto merengue parecia enjoar. O grande mérito - porque também o tiveram - foi não perder...desde o Camp Nou que a equipa de Juande Ramos - técnico que herdou os defeitos de Schuster a fazer planteis, mas, essencialmente, da equipa directiva - soube nunca perder o norte e foi-se colando a um delicioso Barça que, no entanto, se tinha de dividir entre três provas...e que ia deixando um ponto aqui e outro ali. De tal forma que na véspera do jogo que os adeptos do Real acreditavam ser o da reviravolta final na Liga havia quem se aventurava a que o super-Barça sufresse um sério correctivo no palco madrilheno.

Não vi o jogo. Vicissitudes da vida, fui avisado por sms. "2-6 ganhou o Barça. Que festival de futebol". O resultado não me surpreendeu mas alegrou-me. Foi a vitória do trabalho sobre a sorte. Do talento sobre a arrogância. De um projecto. Foi a consagração definitiva de La Masia.
La Masia é o nome do centro de formação do Barcelona. O local onde, durante os anos, desde o reinado de Johan Cruyff, se foram formando alguns dos melhores jogadores do Mundo. Recrutados desde novos, primeiro na grande Catalunha, e depois pelo resto de Espanha e logo, pelo Mundo, La Masia tornou-se numa escola por excelência do bom futebol. Como já foi a de Amesterdam e como sonho ser Alcochete. No Santiago Bernabeu triunfou o Barcelona da cantera. Desde o treinador - o mais puro projecto desenhado e moldado por esses relvados com vista sobre Barcelona - até aos autores de praticamente todos os golos, foi a afirmação definitiva do projecto futebolistico barcelonista perante o ideal de Madrid, que vive do trabalho de dois canteranos - Casillas, que tudo defende e que até impediu que o resultado fosse ainda maior e um Raul que se recusa a morrer, na mediania efectiva que sempre o caracterizou - mas que continua a tentar conseguir pelo dinheiro o que não logra alcançar pelo trabalho. Desde os anos 80 - da época da Quinta del Buitre - que de Madrid não sai uma verdadeira geração de talentos. Ao contrário do grande rival que tem sabido reciclar-se como poucos clubes. Exceptuando Thierry Henry - uma paixão antiga que demorou a concretizar-se - os grande artesões desta goleada histórica foram formados de olhar voltado para o Camp Nou.

Victor Valdés, Charles Puyol, Gerard Pique, Andres Iniesta, Xavi Hernandez e Lionel Messi. O coração de um clube treinado por um mestre da táctica, que alia os jogos psicológicos com uma humildade abrumadora. O gesto de Puyol, ao dar a volta ao marcador, foi tudo menos inocente. Aquele é o capitão desta geração, o lider deste grupo de guerreiros que dizimou o Madrid. Um clube que, a cada ano que passa, vai encolhendo. Depois de humilhado pelo Liverpool na Champions agora chegou a humilhação na Liga, em casa e contra o maior rival. Pior não podia ser. Gerard Pique marcou o último e tocou apaixonadamente no simbolo do lcube do coração. Depois de um periodo de formação em Manchester, onde ganhou tudo, Pique voltou para suceder a Puyol. Ali estavam eles, o presente e passado e o futuro do Barcelona. Pelo meio andou Xavi, com os seus passes mortais, Iniesta com as suas corridas diabólicas...e Leo, esse jovem raquitico argentino que foi crescendo a pulso na Masia até chegar por direito próprio ao Camp Nou. Desiquilibrou o encontro quando se lhe pedia e podia ter marcado ainda mais dois ou três golos ao guardião do Real. No final ficou-se pelos dois, os mesmos de Thierry Henry, esse mal-amado no ano passado e que finalmente voltou a ser ele próprio. Na primeira parte foi um dinâmo imparável. Na segunda ajudou a orquestrar o baile de futebol azulgrana.

Mais do que a vitória por 2-6...mais do que a confirmada reconquista da Liga Espanhola. O Barcelona conseguiu provar que ter um projecto bem definido é o primeiro passo rumo á glória. A equipa de Guardiola pode conseguir triunfar em todas as competições em que participa este ano. Quarta-feira joga em Londres a passagem a Roma. Em Valencia disputará a final da Taça do Rei contra outro histórico, o Athletic Bilbao. Quanto á Liga, já há poucos que se atrevam a contestar a supremacia blaugrana e quem sabe, o melhor da noite do Bernabeu não seja o final de uma Liga...mas sim o principio de uma nova era.
É provavelmente a profissão mais ingrata do meio futebolístico. Longe do calor dos relvados, semana após semana. Sem possibilidade de acompanhar, passo a passo, a evolução dos seus jogadores, o seleccionador de futebol é essa ave rara que levanta suspeitas onde quer que passe. Nunca ninguém confia verdadeiramente no seu seleccionador. É uma espécie de prenda envenenada. Mourinho sabe-o bem. Rejeitou a oferta da F.A. e no caso português fala sempre num futuro longínquo…longe das tentações. Pudera. Ser seleccionador implica jogar com as emoções de um país inteiro, mais do que com um clube. Há pouco falamos do facto do futebol hoje ser o palco de batalha do passado. Sob essa perspectiva as guerras entre as nações passarão para os relvados e os seleccionadores são os novos generais. E quem não gostaria de ter um Napoleão a treinar as suas tropas?

Enquanto em Portugal se fala na possibilidade de mais um histórico - Belenenses ou Vitória de Setúbal - descer de divisão, seguindo assim uma tendencia que há anos vem marcando o nosso futebol, na Grécia o choque apoderou-se da magnifica ilha de Creta. Depois de quase quarenta anos o clube mitico da ilha, o OFI Creta, voltou a cair na II Divisão. Um feito surpreendente já que a equipa de Heraklion - uma das cidades da bela ilha, uma das bases da civilização ocidental - afirmou-se nas últimas décadas como a alternativa real ao dominio esmagador das equipas da capital, o trio de Atenas.
Toda a Creta está em estado de choque. A derrota no passado domingo contra o Panaitinaikhos (curiosamente o clube que também detém a familia Vardinogiannis, que também comprou a equipa cretense no inicio dos anos 80) consumou a descida de divisão. A verdade é que nos últimos anos o clube grego tinha vindo a perder influencia, e em alguma que outra temporada nunca fugiu da zona da linha de água. Mas sempre acabava por salvar-se. Até hoje. A equipa que equipa de negro deixou toda a ilha de luto e as grandes dividas acumuladas pela direcção põe em risco a própria subsistencia futura de um clube histórico mas que conta com poucos titulos na bagagem. A verdade é que o OFI Creta nunca venceu uma Liga Grega - nas últimas décadas só o Aris e PAOK Salónica interrompeu o dominio avassalador de AEK Athenas, Olimpiaykos e Panaitinaikhos - e conta no historial apenas com uma vitória na Taça, em 1987, orientados pelo mitico Eugene Gerrard, o homem que esteve 15 anos (de 1985 até 2000) ao leme do clube, um recorde em todo o futebol helénico. A partir desse consulado a sua presença nas competições europeias (em 1993 foi eliminado pelo Boavista na Taça UEFA) e o seu bom futebol tornaram-se numa constante do futebol grego.
Viajar até Creta era antes um pesadelo para os clubes gregos. Muitos dos campeonatos dos últimos anos decidiam-se pelos confrontos em Heraklion. No entanto este ano tudo foi diferente. Inofensivo fora de casa e facilmente controlado no seu estádio, o OFI mostrou até que ponto uma má gestão desportiva pode destruir um projecto sólido de muitos anos de trabalho. Num país cercado por mil e uma ilhas, o futebol sempre foi dominado pelos clubes do continente. Em Creta o OFI era o simbolo dessa resistencia. Um simbolo que se apagou e que, seguindo os ideais da velha mitologia grega, vai obrigar os cretenses a baixar aos Infernos de Hades para recuperar a fogo perdido e assim poder caminhar de novo, rumo ao Olimpo.

Com a forte crise que vive o país, o futebol, antigamente o suporte moral da nação, é hoje também um dos sectores onde mais se nota a perde de competitividade dos produtos made in Portugal.

Desde os anos dourados dos clubes da margem sul até á ascensão e queda dos clubes do vale do Ave e Sousa, o futebol português viveu uma constante mutação geográfica. Que FC Porto, SL Benfica e Sporting tenham sido os únicos clubes a participar em todas as edições dos campeonatos de futebol é a prova viva de que, apesar da chamada ditadura dos grandes, houve constante evolução no que diz respeito aos palcos do futebol nacional. E como pudemos ver, essa evolução é resultado também das mutações socio-económicas que viveu Portugal. Dos anos dourados dos estaleiros de Almada e da Margem Sul, donde saíram craques como Chalana ou Futre até ao aparecimento dos pequenos clubes da zona Norte passaram quase vinte anos. E rapidamente tudo voltou a mudar com a queda abrupta do país numa forte crise económica que afectou essencialmente esses tecidos urbanos, hoje a viver em forte degradação social e económica e sem soluções à vista. Instituições históricas fecharam as portas e clubes miticos militam nas mais obscuras divisões.
O futebol português do presente é, efectivamente, o espelho deste nosso país.
Projectos-piloto, baseados no investimento deste ou daquele nome, resultaram em progressivos falhanços. O Campomaiorense da familia Nabeiro, que durante alguns anos logrou trazer de novo a festa do futebol ao Alentejo, terminou abruptamente. Quase todas as capitais de distrito vivem hoje sem um clube nas principais divisões do futebol nacional. Basta fazer as contas. Que dizer do destino actual de clubes como o Vianense, Chaves, Académico de Viseu, Vila Real, Lusitano de Evora. Farense, Benfica de Castelo Branco ou Sporting da Covilhã?
O Portugal interior desapareceu da vida social do país e também do futebol. Os campeonatos da II e III Divisões sobrevivem com clubes com uma forte base de apoio local, mas incapazes de conseguir captivar patrocinios de forma a preparar uma subida de divisão bem orquestrada. Duas excepções: o Olhanense, que sob o comando de Jorge Costa se prepara para devolver o futebol de primeira ao Algarve num projecto pensado com rigor e o Santa Clara, que pode fazer o mesmo com os Açores, depois de já ter passado uma temporada na I Divisão. Casos raros num meio onde povoam clubes a quem lhes parece faltar sempre algo e que, quando chegam ao escalão maior, notam enormemente a diferença competitiva.
O fenómeno presente do futebol português é hoje e uma vez mais, espelho do país que temos. Um país de suburbios com toda a acção centrada de novo em Lisboa, cada vez mais macrocéfala e com um Porto a tentar resistir, pelo menos a nivel desportivoica. Só assim se explica que clubes como o Estoril e Alverca, há uns anos, e Estrela da Amadora, na grande Lisboa, e Trofense, Rio Ave e Varzim no grande Porto, tenham sido e sejam hoje presença regular no campeonato principal. Se o Porto vive o seu próprio drama - reflexo igualmente da pobreza moral e humana que vive a massa social da cidade e de que aqui falamos em detalhe - é importante analisar também que a maioria dos projectos pensados para a I Divisão da zona Norte falharam por completo. Gondomar, Maia, Moreirense, Felgueiras ou esse clube de Vila Nova de Gaia que nunca chegou a aparecer realmente (Dragões Sandinenses e Vilanovense foram os que mais sonharam) foram projectos-piloto com o objectivo de tornar o Grande Porto no mesmo que foi Lisboa nos anos 50 e 60. Sem sucesso, hoje a cidade vive do seu campeão e do surpreendente Leixões. O Minho perdeu quase todos os seus participantes - o Gil Vicente ainda luta honradamente na Liga Vitalis, mas os restantes clubes desapareceram do mapa - e o mesmo passou com a margem Sul, onde só o Vitoria de Setubal vai sobrevivendo, a custo.
Estamos portanto num Portugal onde os principais eixos do nosso futebol passado - Lisboa, Porto, Margem Sul de Lisboa e Minho-Ave - estão em grave crise.
Salvo os grandes clubes e um ou outro caso excepcional de hábil gestão, o futebol nacional vive espalhado em pequenas entidades, sem ambições e capacidades de potencializar todo o seu poder de influência na sua zona geográfica.
A Naval 1 de Maio é um caso claro. Estádio constantemente vazio, equipa de nivel médio baixo mas uma enorme capacidade de sobrevivência. É um clube de uma cidade que cresceu muito nos últimos anos mas que carece da base de apoio social que garante a subsistência a longo prazo e que permite, por exemplo, que à Academica de Coimbra não lhe passe o mesmo que acontece com União de Leiria - que apesar das infra-estruturas foi sempre um dos clubes com menos massa associativa da primeira divisão - e Beira-Mar. Dois clubes com estádios feitos a pensar no Euro 2004 mas que vivem entre dividas, má gestão desportiva e económica e sem capacidade de mobilizar a sua zona de influência. O sucesso de Trofense, Estrela da Amadora e afins não deriva dos apoiantes locais, a maioria deles sócios de clubes grandes, mas sim da capacidade económica que possuem hoje em dia os suburbios e que fazem com que sejam projectos mais rentáveis que os desaparecidos Tirsense, Famalicao, Montijo ou Alverca.
A Madeira afirma-se portanto como esse oásis, muito graças a um forte apoio do Governo Regional, hábil em perceber a importância do futebol num país de ilusões. Ao contrário dos Açores, que salvo a dinâmica do Santa Clara, nunca existiu verdadeiramente no nosso futebol, na Madeira há um longo historial e o sucesso europeu de Maritimo e Nacional é reflexo de politicas de vários anos. Sem essa ajuda - como acontece com o União da Madeira - seriam provavelmente clubes de segunda linha, até porque a base de apoio local é restricta. Mas é essa capacidade que lhes permite lutar por postos altos na classificação, por cima de clubes que, pela sua história e localização, deviam ambicionar a mais. O Minho que sobrevive com este Braga europeu e o Vitória em regeneração afunda-se cada vez mais e o vale do Ave e Sousa subsiste graças ao poder financeiro da capital do móvel (Paços de Ferreira) e da zona costeira (Rio Ave), mas sempre com a corda na garganta.
Resta olhar para as zonas desaparecidas. Hoje Portugal parece não querer existir para lá da A1.
Esse eixo rodoviário é também o eixo da economia e da sociedade portuguesa. O futebol teria certamente poder para alterar a situação mas tal como aconteceu em Inglaterra com o desaparecimento dos colossos históricos do norte industrial (Nottingham Forrest, Leeds Utd, Sheffield Wednesday) ou com as desérticas capitais de provincia espanholas (Burgos, Santiago, Real Sociedad, Oviedo, Salamanca ou Albacete) a sociedade e a economia de cada Estado dita, hoje, mais do que nunca, a presença na alta roda do futebol profissional. Não surpreende portanto que entre os grandes da Champions League joguem equipas de três das maiores cidades europeias. Hoje estamos limitados por essa mentalidade e postura, face à correlação de forças que coordena o nosso país...e amanhã, que passará?
Continua...
O veterano Helenio Herrera sempre afirmou que o sucesso de uma equipa campeã assenta em dois pilares base: um óptimo guarda-redes e um avançado letal. A partir daí tudo é táctica pura e dura. O verdadeiro desiquilibrio surge apenas com essas dois individuos solitários. E não há, em campo, jogador tão só como o guarda-redes.
O público é sempre injusto. Um golo nunca é um bom golo. É sempre um lance não defendido. Uma grande defesa é sempre uma defesa esperada. E um penalti parado, puro sorte. Os próprios pensadores do futebol condenaram o guarda-redes ao ostracismo. Fala-se de 4-4-2 e não de 1-4-4-2. Dá que pensar.
Ao olhar para o desenrolar da história do futebol é fácil perceber que a máxima de Herrera é válida. A Itália de 82 sobreviveu muito culpa do veterano Zoff e do letal Rossi. Aliás, o futebol italiano sempre foi uma das escolas máximas de guarda-redes. Mas há-as para todos os gostos. Os excentricos sul-americanos, os frios guardiões do Leste da Europa, os baixos mas elásticos latinos e os gigantes nórdicos. Uma coisa é certa, um grande guarda-redes é o primeiro pilar para a segurança de uma equipa. E com tanta táctica misturada pelo meio, o mais importante é subir ao terreno de jogo com a sensação de tranquilidade de que, passe o que passe, temos as costas protegidas. E não são todos, aqueles capazes de o transmitir.

Quando José Mourinho assinou pelo Chelsea já sabia que o clube de Abramovich tinha um contracto com a jovem promessa do futebol checo. Vinha do Rennes e tinha brilhado num Europeu de sub-21. Mas a maioria do público nem sabia bem pronunciar o seu nome. Com o treinador portugues o Chelsea tornou-se em Peter Cech e mais dez. A segurança defensiva do gigante guardião era o primeiro pilar nas vitórias semanais da equipa londrina. Defesas espectaculares e eficazes, demonstravam desde o primeiro instante que a aposta tinha sido ganha. Venceu vários prémios individuais, tornou-se num dos elementos mais queridos da equipa e foi dos poucos nomes consensuais do projecto luso-britanico que durante dois anos dominou a Old Albion.
Depois veio aquele choque brutal, aquele momento de terror. Por instantes a vida esteve em risco. Cech perdeu a consciencia, saiu aplaudido do relvado e quando voltou, meses mais tarde, já não era o mesmo. A segurança que ele próprio transmitia foi incapaz de transmitir a si próprio. O capacete na cabeça era, para todos os efeitos, a marca constante desse lance e o recordatório aos seus colegas: eu também sou humano.
É inevitável associar a sua baixa de rendimento - e da defesa do Chelsea - a esse incidente. O guardião que antes era conhecido pela imbatilidade passou a ser conhecido por cometer erros infantis - um deles custou mesmo a passagem da R. Checa aos quartos do último Europeu. As mutações na defesa sólida do Chelsea, resultado da saída do treinador que o lançou não ajudaram, e mais do que a solução, Peter Cech passou a ser visto como parte do problema.
Esta semana os londrinos mostraram ao Barcelona que para vencer também é preciso saber defender. E neutralizaram o arsenal ofensivo dos catalães. Cech disse presente e manteve a sua baliza inviolável. Mas a cada movimentação, a cada saída a punhos, é ainda complicado perceber quem é o homem que leva o número 1 nas costas: se o guerreiro que parou tudo e permitiu a Stanford Bridge voltar a gritar ao som de "We are the Champions" ou se o cavaleiro ferido, incapaz de garantir a segurança dos seus peões. Só o tempo o dirá mas tudo indica que a recuperação vai no bom caminho.
Mas mais do que boa forma fisica e espirito competitivo, hoje Peter Cech só precisa de uma coisa: voltar a ser capaz de deixar nos seus colegas aquela sensação ao sair do túnel: "tranquilo, tenho as costas protegidas!"
Portugal ameaça tornar-se claramente numa ave rara no espectro do futebol europeu. Obviamente, não pelos melhores motivos. Há muito tempo que deixamos de ter verdadeiro motivo de orgulho do nosso futebol. As constantes suspeita de corrupção, as subidas e descidas administrativas, as sanções, os arquivamentos e toda a burocracia que mina o que se faz dentro das quatro linhas conseguiu destruir a pouca credibilidade que ainda tínhamos lá fora. Para dentro de portas as guerras entre clubes tapam a poeira e a falta de ideias e projectos capazes de fazer do nosso futebol algo respeitado no meio europeu.

A excelente campanha da Fiorentina esta época, que lhe abre a possibilidade de para o ano regressar à Champions League, tem uma simples explicação: Stevan Jovetic.


O futebol é o fenómeno de massas por excelência do século XX e já neste século confirmou todo o seu potencial económico-social.
Hoje em dia os jogos disputados entre as selecções são o equivalente ás guerras nacionalistas do passado. As rivalidades antigas, abafadas nos corredores de Bruxelas, Washington, Brasilia ou Teerão, ganham forma quando as equipas entram em campo. Os duelos Brasil-Argentina, França-Inglaterra, Holanda-Alemanha e claro, Portugal-Espanha são acima de tudo o reflexo do vivido no passado noutras arenas, bem mais sangrentas. Dentro dos países sucede o mesmo, com os torneios de futebol (que nome tão acertado) a reflectirem essas rivalidades históricas, regionais, locais...o Homem igual a si próprio portanto.
No território nacional o futebol sempre foi - desde a sua implementação - o desporto mais popular por excelência. Já antes dos celebres 3 F´s (Fado, Futebol e Fátima), o desporto-rei tinha conquistado o povo e a alta burguesia, espalhando-se rapidamente pelos quatro cantos do país, ilhas e provincias ultramarinas (ou império colonial, fica ao gosto do freguês). E se está claro que os grandes centro urbanos foram, desde sempre, os grandes dinamizadores do futebol português, a verdade é que a geografia do nosso futebol mudou muito desde as suas origens até ao dia de hoje. Mudanças que reflectem a evolução social do país e que também servem para deixar a nu as carências de uma nação sem rumo e sem orgulho próprio.
Lisboa, já se sabe, sempre foi - ou quis ser - o centro de tudo. O futebol não foi nenhuma excepção. E se a formação dos seus três emblemas máximos - SL Benfica, Sporting e Belenenses - até foi um processo tardio, em comparação com outros clubes do país, a verdade é que o futebol teve aí uma rápida penetração. Desde o principio dos campeonatos até hoje, Lisboa teve sempre a sua presença fortemente assegurada. Por sua vez o Porto viveu altos e baixos, resultado da afirmação da própria Invicta. O FC Porto sempre foi o baluarte da cidade, mesmo nos tempos de vacas magras, mas o surgimento de uma forte segunda linha tardou em confirmar-se, acontecendo precisamente quando a cidade começava a emergir, cada vez mais, como o eixo productivo do país.
Se em retrospectiva analisar-mos os periodos chave do futebol português podemos também perceber as mutações da sua geografia.
Desde o periodo do pós-II Guerra Mundial e até à Revolução de Abril, o eixo geográfico do futebol nacional estava localizado em Lisboa. As boas relações dos clubes da capital com as suas filiais de além-mar permitiam-lhes sempre captar os jogadores que mais depressa despontavam (Peyroteo, Vicente, Matateu, José Aguas, Coluna, Eusebio são apenas exemplos mediáticos de uma prática comum). Não espanta, portanto, o dominio avassalador dos três clubes da capital nesse periodo. De igual forma, a forte concentração populacional na margem sul permitia a afirmação de pequenos clubes locais que se transformaram em viveiros de craques. A CUF, Barreirense, Montijo, Seixal, Vitória de Setubal - e na zona norte o Oriental e o Atlético - eram presenças mais ou menos regulares no campeonato nacional, fazendo com que a maioria dos desafios fossem disputados na área da grande Lisboa. Por esses dias as ilhas eram um ausente constante e o Algarve tinha, aqui e ali, um representante (o Olhanense) enquanto que o Alentejo vivia da rivalidade dos dois clubes de Évora, o Juventude e o Lusitâno. A zona centro - onde se concentrava muita da indústria da época - era igualmente outro eixo de forte dinamismo, do Marinhense à Sanjoanense, do Beira-Mar ao Torreense sem esquecer a mitica Académica de Coimbra. No interior havia a presença mais ou menos certa do Académico de Viseu, Benfica de Castelo Branco ou Sporting da Covilhã. A zona Norte não tinha, nem de longe, o peso de hoje. Da Invicta apenas o FC Porto era presença regular, com Leixões, Boavista e Salgueiros ocasionalmente promovidos á I Divisão. O Minho vivia das lutas entre Braga, Guimarães e Vianense enquanto que o Chaves e Vila Real disputavam a primazia da zona transmontana. É importante ressalvar que então, até bastante tarde, os participantes no campeonato passavam antes por uma poule distrital que garantia essa homogeneidade na liga nacional.
Com a revolução de Abril a geografia de Portugal e do nosso futebol mudou por completo. Lisboa perdeu o eixo de influência que detinha e as nacionalizações e sucessivos encerramentos de muitas das empresas da grande Lisboa provocou o desaparecimento de históricos clubes. A CUF tornou-se primeiro em Quimigal antes de acabar, o Atlético, Barreirense e Montijo aguentaram alguns anos, antes de cair nas distritais.
Surgiu então um novo fenómeno: o Norte têxtil.
O eixo da produção economica tinha-se transferido para o império têxtil que na zona do vale do Ave, Vouga e Sousa começava a ganhar força. Os anos 80 e principios dos anos 90 foram os de clubes como o Famalicão, Tirsense, Penafiel ou Gil Vicente, a par da afirmação do Rio Ave, Varzim e consolidação definitiva do Vitória de Guimarães. O Porto superava Lisboa em clubes, com o FC Porto, Boavista e Salgueiros como habituais, e Leixões e Espinho como convidados surpresa. Um periodo que dividiu claramente o futebol nacional em Norte e Sul.
O Algarve recuperou protagonismo (é a era dourado do Farense e Portimonense) mas o Alentejo e as Beiras desapareceram do mapa. De Trás os Montes ficou apenas o Desportivo de Chaves enquanto que a zona centro foi igualmente afectada na sua parte sul (fim do Torreense e Marinhense na alta roda, e ganhou na zona norte: Beira-Mar, Oliveirense, Feirense). Outro fenómeno foi a progressiva afirmação do futebol madeirense: Maritimo e União da Madeira primeiro, e logo o Nacional, subiram à alta roda.
Estavamos a desenhar um novo país onde as diferenças sociais se acentuavam de ano para ano. A desertificação do interior encontrava eco no nosso futebol e o final das colónias potenciava o aparecimento de um novo tipo de jogador, menos atlético e mais fino no trato de bola. Estavam aí também as bases da geração de ouro de 89 e 91 e da afirmação definitiva do FC Porto como potência número um, em troca com o consulado Benfica-Sporting, os grandes prejudicados por esta metamorfose.
Continua...

