A humilhação sofrida pelo Inter diante do Schalke 04 apenas confirmou o que já todos sabem. O Calcio atravessa uma grande crise de identidade e a perda do terceiro lugar no ranking da UEFA confirma em númeras as sensações transmitidas há muito pela Serie A. Mas, apesar de tudo, nem tudo são más noticias. A profunda crise economica dos clubes e o grande problema social do futebol italiano está a permitir uma lenta, mas real, regeneração do Calcio.
A meados dos anos 90 não havia nenhuma liga europeia que pudesse ombrear com o prestigio da Serie A.
Foi o culminar de um crescimento mediático e futebolistico que arrancou a meados dos anos 80. Desde 1984 a 1997 as equipas italianas tornaram-se omnipresentes nas provas europeias. Juventus, AC Milan e Sampdoria marcaram presença em finais da Champions League. AS Roma, Inter, AS Lazio, AS Parma, Fiorentina e Napoli em finais da Taça das Taças ou Taça UEFA. Por duas vezes, inclusive, o país dominou uma final com duas equipas. Os melhores jogadores do Mundo procuravam, avidamente, um lugar ao sol no país da bota. Maradona, Socrates, Zico, van Basten, Gullit, Laudrup, Preben Elkjaer, Careca, Voeller, Rummenigge, Matthaus, Platini, Boniek, Rijkaard, Bergkamp, Asprilla, Brolin e companhia pautaram o ritmo do jogo. Mas não estavam sós. Depois de um apagamento progressivo, após o titulo europeu de 1982, o próprio futebol italiano apresentou uma nova geração de multiplos talentos. De Baresi, Maldini, Costacurta, Donadoni e Albertini a Baggio, Vialli, Mancini, Zola, Signori, Casiraghi, Pagliuca, Berti e tantos outros, a Azzurra tinha uma esquadra de respeito. Depois chegou o crash. Primeiro o dos clubes, que começaram a pagar o preço das suas loucuras. Depois dos adeptos, que radicalizaram os seus comportamentos a niveis extremos, transformando os ferverosos estádios italianos em desertos de almas. E por fim, os jogadores, que foram abandonando a liga em busca de melhor sorte. A Premier League e a La Liga acolheram-nos de bom grado. O êxodo terminou com a saída de Kaká e Ibrahimovic há quase dois anos. Parecia que o Calcio já não tinha mais nada que oferecer.
Essa profunda crise moral rapidamente se tornou em crises de resultados. Exceptuando o Mundial de 2006, culminar de uma geração que cresceu a beber o talento da constelação de estrelas, nacionais e internacionais, que deram nome à Serie A, a Itália tornou-se num sinónimo de desilusão. Os próprios clubes italianos perdiam o respeito dos rivais. Exceptuando três Champions conquistadas pelos dois de Milão, os italianos não vencerem nenhuma prova europeia em toda a década. Ultrapassados regularmente por ingleses e espanhóis, mas também franceses, portugueses, holandeses, alemães, russos, turcos e ucranianos, os conjuntos italianos já não conseguiam atrair os melhores. E foram caindo na mais profunda das medianias. Mas, como sempre, depois da tempestade sai o sol. O italiano começa a despontar, a pouco e pouco.
Sem dinheiro para comprar estrelas os clubes italianos tiveram de aprender a reciclar-se.
Recordando a legislação dos anos 60, que impedia os clubes de contratarem jogadores estrangeiros, a Lega italiana proibiu os clubes de assinar com mais de um atleta extra-comunitário ao ano. Os clubes começaram a racionar os gastos e a olhar para o seu futebol de formação. Tarde ou cedo os heróis do virar de século teriam de ser substituidos e apesar dos Del Pieros, Tottis, Nestas e Gattusos sobreviverem ainda à purga, a pouco e pouco os nomes esquecidos do passado passaram a ser as referências do presente.
Montolivo, Cassano, Pazzini, Maggio, Palombo, Di Natale, Pepe e companhia deixaram de ser segundas escolhas. Eles agora são o esqueleto da Serie A. Producto nacional despreciado quando os clubes preferiam recorrer aos Zidanes, Kakás, Ronaldinhos e companhia, mas que agora são os lideres de uma nova vaga. Que começa a viver-se, também, na mutação desportiva da tabela classificativa. A Juventus ainda não recuperou do Moggigate mas a pouco e pouco começa a entender que jogadores devem fazer parte do seu projecto. Nos últimos anos chegaram Quagliarella, Marti, Bonucci e Pepe e também ganharam o seu espaço Chiellini e Marchisio. Uma mutação que os envelhecidos clubes de Milão ainda não entenderam totalmente. Se ambos resgataram as armas secretas da Sampdoria, Pazzini (para o Inter) e Cassano (para o AC Milan), a mutação é lenta. Ranocchia, Santon e Antonini são as únicas reais perspectivas de futuro.
Ao contrário, os clubes de metade da tabela, aprenderam a sobreviver assim. Jogadores de grande projecção futura a baixo custo (Cavani, Lavezzi, Pastore, Sanchez, Jovetic) e producto da casa. A Fiorentina exibe com orgulho Montolivo, D´Agostini e De Silvestre. O Napoli conta com Maggio e Sammarco. A Sampdoria mantém nas suas hostes Palombo e o promissor Poli. A Udinese "recuperou" Di Natale depois de ter perdido a Pepe. Na Sicilia estão Micolli, Nocerino e Sirigu. Na Sardenha é a vez de Lavezzi, Acquafresca e Ragatzu. Pelo meio Gallopa, Candreva e Giovinco pelo Parma e Criscito e Destro pelo Genoa. Razões, boas razões, para que se comece a inverter uma tendência histórica de afunilamento. O poderio financeiro dos grandes diminui à medida que os grandes negócios também desaparecem. O reparto mais justo das receitas televisivas abre as portas aos mais modestos de impor o seu estilo. Com a crise a Serie A recuperou competitividade e aproveitou a oportunidade para reforçar uma nova vaga de jogadores. Não necessariamente jovens, mas todos ignorados até agora, vivendo na sombra das velhas glórias. O seleccionador nacional, Cesare Prandelli, entende essa realidade melhor do que ninguém. Em Florença começou essa mutação e com a Azzurra prepara-se para fazer o mesmo. Cada vez há menos jogadores dos três grandes. E isso é sempre um bom sinal.
Espera-se um crescimento sustentado num país que vive na sua particular gaiola de loucos. Os adeptos começam a voltar aos estádios de forma mais ordeira, os dirigentes começam a olhar para o mercado de forma mais racional. E os fantasistas e goleadores, que nos últimos anos faltaram ao futebol italiano, parecem brotar com naturalidade nestas novas equipas. Tarde ou cedo as jovens estrelas sul-americanas começarão a ditar o futuro e os milhões voltarão. Caberá então aos dirigentes garantir uma sustentabilidade financeira que tanta falta fez ao Calcio na última década. Esse imenso balão de oxigénio pode ser apenas um primeiro passo para recuperar o prestigio perdido. A crise no Calcio é positiva. Pelo menos para os italianos.

