Matador. Instinto assassino. Letal. Tiro. Bala. A linguagem do golo é uma linguagem acente na brutalidade da acção. O futebol é um dos poucos desportos que se decidem, habitualmente, por números minimos. O golo tornou-se portanto, com o passar dos anos, em algo cada vez mais raro e precioso. Para reforçar esse conceito de raridade o vocabulário tornou-se cada vez mais bélico, guerreiro...mortal. A mitica frase de Shankly falava em vida e morte...só se esqueceu de dizer que mais do que futebol, o que ele queria explicar era a essência brutal do golo.
Os goleadores são especies raras. Aves em vias de extinção que valem o seu peso em ouro. Em golos.
Longe longe vão os dias das goleadas semanais que demonstravam com claridade a diferença entre os jogos tranquilos, verdadeiros passeios no parque, e as batalhas duras e encarnecidas entre rivais do mesmo nivel. Os golos nas goleadas eram cantados pelos relatos radiofónicos com uma certa ternura inocente. Não eram necessários logo não eram violentos para quem os sofria e para quem os marcava. Um status quo emocional que liberava a mente. Mas quando o jogo era a doer, quando o jogo era visto como uma batalha, começavam a brotar as palavras aprendidas de memória nos anos da guerra: franco-atirador, sniper, matador, killer, ponta-de-lança, bombardeiro...
O futebol moderno é o mais parecido que o Mundo ocidental conhece das guerras desde 1945. As guerras acabaram nos campos de batalha e os confrontos entre nações, as guerras civis entre regiões e cidades, os confrontos de rua entre clubes da mesma terrinha, tudo isso mudou-se para um relvado com umas dimensões fixas a lembrar os dias das arenas romanas. A Alemanha tornou-se no principal dinamizador da CEE junto com os franceses, holandeses e belgas, velhos rivais de frente, mas no campo de futebol manteve a chama da rivalidade bem viva. Os jogos entre selecções passaram a ser ajustes de contas de politicas economicas, de fracturas sociais e de velhas inimistades. Quando Franz Beckenbauer se queixou do penalty assinalado na final de 1974 ao árbitro inglês Jack Taylor disse-lhe, categoricamente, "Você é inglês!". Não questionou a falta, questionou a nacionalidade. A guerra tornou-se a base do futebol moderno e nem os mitos do fair-play conseguiram distinguir essa brutal realidade. Muller logrou no quente México de 70 o que a Luftwaffe não conseguiu nos céus de Londres nos anos 40: bombardear a Inglaterra de volta a casa. O "bombardeiro", talvez o mais completo e letal - letal, imagine-se - goleador da história podia ser visto como qualquer coisa, menos um soldado. O seu ar pacifico, a sua personalidade tranquila ter-lhe-ia custado a vida na frente. No relvado transformou o seu killer instinct numa preciosidade que fez história. O simpático Gerd Muller tornou-se no mortal Gerd Muller. E no herói de guerra para os seus, claro está.
Marcar mata o rival. Se o resultado está a zero, mata um rival igualado.
Se o resultado está a favor, mata qualquer esperança de reviravolta. Se está em contra, mata o sentido de superioridade. E se vai a caminho de goleada, mata a moral definitivamente. Matar deixou de ser uma palavra perigosa. Sem sangue nas mãos a metáfora do jogo aliviou a descarga emocional da sociedade ocidental. Os americanos gostam de desportos com muitos pontos (ou golos) porque nunca deixaram realmente de matar. Os europeus não. A partir do momento em que limparam as mãos, começaram a procurar um novo escape. A guerra da tribo do futebol, como apontou sabiamente Morris no seu imperdível livro, é um ritual quase tribal de sacrificio aos deuses. Os adeptos não aplaudem uma defesa, aplaudem um guardião que esquiva o tiro com uma sapata de super-heroi. Os adeptos não têm paciência para o futebol de toque e dá, para os sprints, qual corrida da cavalaria. Mas exaltam-se orgasmicamente com cada disparo certeiro no peito do rival. Com cada golo brutal.
Os capocanonieri, os killers, os matadores tornaram-se em peças nucleares destas guerras que duram nove meses, de Agosto a Junho. Tornaram-se nos novos gladiadores, coroados com a coroa de louros e aclamados pela multidão. Não se sabe se a eles, ao contrário dos césares, há alguém ao lado a soprar-lhes ao ouvido que são apenas humanos. Porque se esquecem rapidamente da sua condição. E ás vezes perdem-na até. Acaba a pólvora, diz a giria, acaba a fome de matar. O goleador perde essa força divina e vulgariza-se. É mais um entre muitos, não serve para esta luta brutal.
A UEFA e a FIFA continuam a defender o fair-play e a verdade é que o futebol é dos desportos mais limpos. Mas não deixa de ser um espelho dessa luta de classes moderna, desse confronto de nações. Um Mundial ou um Europeu funciona, sobretudo, porque é visto pelos adeptos como um torneio medieval. Onde cada país defende a sua bandeira, onde cada imprensa transforma cada segundo de jogo numa questão nacional, racial, cultural, economica. Os pequenos podem vingar-se dos grandes. Os periféricos podem desforrar-se dos paises centrais. O sul do norte. Os velhos inimigos ajustam contas e ninguém sai ferido. As balas são brutais mas de pólvora seca. E no final todos voltam para casa. Só o orgulho resulta ferido.
A brutalidade do golo é o espelho da linguagem bélica do beautiful game. No basket, andebol, hockey, baseball, rugby ou nos desportos motorizados há um discurso mais tranquilo. Mas a voracidade a que a bola circula lembra os guerreiros nos campos de batalha a saltar de flanco para flanco para abater o rival. Os treinadores tornaram-se nos novos estratages, nos novos Napoleão e Alexandre. Os jogadores nos guerreiros intrépidos. Há soldados, legionários e capitães, como num qualquer regimento. O golo é suposto ser um momento de alegria, uma ejaculação desportiva. Mas a linguagem da bola que entra é, paradoxalmente, uma linguagem de morte. Emocionalmente festejamos tanto a alegria da vitória como a tristeza da derrota do rival. Afinal, o golo é tão primitivo como o Homem.

