Terça-feira, 29 de Março de 2011

Quem conhece a natureza do futebol espanhol desde as suas raízes sabe bem que o jogo popularizado pela brilhante Roja nos últimos três anos é a antítese da alma hispânica. Espanha conseguiu os títulos e a glória que sempre buscou a partir do momento em que deixou de ser ela mesma e passou a emular, passo a passo, a mentalidade de jogo holandesa. No futebol não há nada novo a inventar e comparar a evolução da equipa que deu forma ao Futebol Total com a selecção do país vizinho é como olhar para o reflexo num espelho. A Roja podia ter sido Orange e ninguém teria dado por isso...talvez só mesmo os espanhóis!

 

 

 

Rondo, rondo, rondo.

Quem ouve Xavi Hernandez, o maestro da selecção espanhola e o mais completo futebolista dos últimos anos, é forçado a guardar esta palavra espanhola no seu vocabulário. O equivalente ao nosso "meinho", esse exercício quase infantil, mudou por completo o rosto do futebol espanhol. Começou na Catalunha - como sucedeu nos anos 20 com a primeira versão grande versão da Roja, algo que a história centralista procurou esquecer - e hoje é o santo e senha do país. E o motivo de admiração do mundo. Mas o rondo de Xavi é tudo menos espanhol. Aliás, o rondo de Xavi é a antítese do futebol espanhol. É profundamente metódico, organizado, criativo e veloz, características difíceis de encontrar na mentalidade desportiva de um país que olha para um desafio como vê uma tourada, à procura do lado esteta e da vitória triunfal em ombros alheios. Esse mítico rondo que definiu um modelo de criativos que hoje compõe a estrutura base da campeã da Europa e do Mundo chegou tarde a Espanha. Chegou com Johan Cruyff. O mago feiticeiro da Holanda dos anos 70 foi também o responsável directo pelo renascimento do futebol de toque, de ataque, romântico, paralelamente em duas realidades. Quando arrancou a sua carreira como técnico, no seu amado Ajax, lançou os princípios que iriam definir o renascimento do futebol holandês e que durou até ao inicio desta década. Responsável primeiro das gerações que encantaram o mundo de 1988 a 1998, Cruyff voltou a mostrar aos holandeses o que faz deles especiais. Essa paixão pelo toque curto, pelo passe lateral, pela basculação sem perdas de bola. Esse gosto pela velocidade da bola (e não do homem) tornou-o também o pai fundador do Barcelona moderno. Até 1988 o clube catalão viva mais da fama de vitima do franquismo do que dos seus (poucos) títulos. Com Cruyff tudo mudou. O rondo chegou aos treinos, as equipas de formação de La Masia passaram a seguir os mesmos ensinamentos aplicados às estrelas do Dream Team e a pequena La Masia passou a formar, desde a sua origem, as peças do futuro. Essa mentalidade, desenvolvida por Rinus Michels nos anos 60, marcou um antes e um depois na história do futebol moderno. Mas em Espanha ninguém lhe ligou muito, nem quando o técnico pregou aos peixes de Barcelona em 1972. Enquanto a Holanda deslumbrava com o seu futebol mágico, com laterais ofensivos, falsos pontas-de-lanças, extremos bem abertos mas incisivos e médios criativos, em Espanha ainda se apostava na fúria. E não era, como muitos dizem, um exclusivo do duro futebol basco. O Real Madrid dos "yé-yés" ou dos "Garcia", as equipas que sucederam à constelação de estrelas de Di Stefano e companhia também preferia "hecharle huevos" a pensar o jogo. E do Barcelona, mesmo com génios tácticos como Michels ou Menotti, era mais fácil esperar jogos frenéticos e desorganizados do que um futebol estético. O futebol espanhol sempre foi um futebol de raça mais do que de talento. De tal forma que hoje em dia - e até Xavi  (com as excepções de Suarez, Butrageño e Guardiola) - todos os grandes nomes do país passam por ser figuras raçudas mais do que jogadores talentosos: Quini, Raul, Santillana, Gordillo, Camacho, Michel, Rexach, Hierro, Luis Enrique, Martin Vasquez, Peiró, Aragonés... 

 

A grande transformação cruyffiana marcou um antes e um depois na história do futebol espanhol.

Quando o Barcelona deixou de ser o Barcelona para passar a ser a versão holandesa do clube catalão tudo mudou. Cruyff impôs as suas normas e os seus métodos e apesar dos altos e baixos na sua polémica gestão a ideia germinou. O futebol espanhol vivia um significativo atraso comparativo com outras nações europeias (e pouco condizente com o estatuto da sua liga, sempre mais depressa apoiada em figuras estrangeiras do que em valor local) e começou a trabalhar na recuperação. A cantera, antes um conceito mais económico do que técnico, passou a fazer sentido. Particularmente em zonas onde o nacionalismo valora, profundamente, o produto local. Athletic Bilbao e Barcelona deram um passo à frente. A lei Bosman fez com que os clubes de Madrid dessem um passo atrás. Curioso é pensar que são dois técnicos formados e criados na capital que melhor souberam entender os ensinamentos do holandês. Aragonés e Del Bosque não são grandes treinadores no sentido táctico ou mediático do termo. As suas carreiras são longas e cheias de altos e baixos. Mas a forma como o primeiro interpretou os ventos de mudança e o segundo soube controlar a transição geracional é louvável. Porque estavam a lutar contra o que eles próprios defenderam durante a sua etapa como atletas e primórdios como jogador.

Ver jogar as equipas de Aragonés (principalmente Atlético Madrid e Barcelona) e Del Bosque (no Real Madrid) e encontrar traços de similaridades com esta Espanha é tempo perdido. Não os há. Essas equipas eram assumidamente espanholas na sua paixão pela fúria, pelo ataque continuado e pela desorganização táctica no sector defensivo. Mas em 2007 Aragonés entendeu que o 4-4-2 espanhol, que tantos fracassos acumulara, tinha perdido definitivamente a validez como ideia. E olhou para trás. Provavelmente para os jogos de Cruyff, não como técnico, mas como jogador. Se há alguma equipa que alguma vez se tenha parecido àquela Holanda é esta Espanha. Talvez os interpretes estejam uns furos abaixo individualmente (Villa não é Cruyff, Iniesta não é Resenbrink, Ramos não é Surbieer, Capdevilla não é Krool, Xabi Alonso não é Rep, Puyol não é Haan e Busquets não é Neskeens). Mas o sentido colectivo está lá. As transições coordenadas, a troca de bola fluida e constante, em movimentos laterais que permitem procurar espaços e desgastar, ao mesmo tempo, o rival e, sobretudo, a fluidez ofensiva entre o quinteto de meio-campo e o dianteiro, permitem-nos traçar essas similaridades. Espanha pensa o jogo como uma equipa holandesa. Não só "aquela" mas todas as que se seguiram. Se a Espanha jogasse de laranja e cada jogador da meseta castelhana tivesse um van como prefixo ninguém se estranharia. Talvez por isso catalogar o sucesso da Espanha como sucesso da ideia de futebol espanhol é, não só abusivo, como um erro. Não há nada de novo nos jogos da Roja que não tivesse sido posto em prática há 40 anos. Há melhoramentos (principalmente na faceta defensiva) e coisas a melhorar (esta Espanha continua a dominar pouco os extremos, algo de que Aragonés abdicou totalmente com um quinteto de "bajitos" - Silva, Cesc, Xavi, Iniesta, Cazorla - e que Del Bosque procura timidamente recuperar com Pedro) mas a filosofia de jogo é similar. Mais até do que a do próprio Barcelona que soube inculcar as próprias características autóctones ao jogo de Cruyff e os ensinamentos que Guardiola recebeu de Capello e Sacchi na sua estadia transalpina. Esse seu Barça é talvez ainda mais Total que a equipa capitaneada pelo seu mentor. 

 

 

 

Não podia ser mais irónico que a consagração da Espanha holandesa tenha surgido frente a uma Holanda que renegou, desde o primeiro dia, tudo o que faz parte da sua bíblia futebolística. O killer-instinct que faltou à Holanda nos Mundiais anteriores (e em três deles foi a melhor equipa do torneio) tornou-se excessivo com a formação que viajou até à África do Sul. Essa falta de classe deixa, se cabe, ainda mais a nu a aproximação mental e estética dos espanhóis à mentalidade neerlandesa. Os nomes são profundamente espanhóis, os físicos não enganam, mas o jogo que Iniesta lança no tapete verde não se vê na planície manchega de Fuentalbilla mas sim na verdejante Volendam muitos quilómetros a norte. O passe de Xavi não existe na tradição futebolística de Terrasa, mas há muito que faz parte do abecedário dos parques infantis de Amesterdam. A Espanha dos moinhos de D. Quixote transformou-se na Espanha dos moinhos de vento holandeses. Os adeptos sabem, lá no fundo, que esta equipa é tão estrangeira como qualquer outra. Mas acabar com uma fome de títulos de meia século não tem preço, mesmo que o que há que pagar seja a própria identidade futebolística de um país. Esta Espanha é temível e sê-lo-á na próxima década porque, precisamente, há muito que deixou de ser Espanha e passou a ser a ideia concreta de um pensamento abstracto cor-de-laranja.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 18:21 | link do post

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