Começa a ser dificil ignorar o imenso talento de Neymar. E no entanto apetece. Apetece esquecer que ali existe um imenso potencial artistico que, aplicado na dose certa, pode resultar num jogador extraordinário. Tudo porque Neymar tem representado um papel para o qual não há futuro. Robinho já o viu e até grandes como Ronaldinho sentiram-no na pele. Neymar vive uma encruzilhada perigosa. Pode vir a ser um grande jogador ou um grande artista. E a balança que não se decide...
Em 2014 o Mundo vai exigir ao Brasil o que não logrou em 1950. O que não consegue há nove anos (serão 12 então). O titulo Mundial.
Sem Ronaldinho, sem Kaká e sem qualquer referência histórica, a geração do escrete canarinho de 2014 está orfã de um lider. Mano Menezes, o hábil seleccionador que se prepará para o torneio com o peso do Mundo nos ombros, sabe-o bem. Faz provas, experimenta, procura a originalidade mas está refém. Refém de um campeonato desvalorizado, sem chama. Refém da migração precoce dos seus melhores jogadores jovens. Refém do poder mediático das estrelas passadas de moda e forma fisica (e mental). Mas, sobretudo, refém de jogadores que teimam em esquecer a faceta profissional do futebol. Jogadores que continuam a preferir a festa, o dinheiro, as mulheres e o espectáculo inconsequente ao treino, à disciplina, ao sentido táctico...jogadores como Neymar.
O médio ofensivo do Santos é uma pérola imensa, talvez a maior que o futebol brasileiro tem em mãos desde a ascensão de Ronaldinho Gaúcho no Grémio. Nem Kaká, nem Robinho, nem Pato conseguiram tanto em tão pouco tempo. E os três também tiveram pouco tempo para se apresentar ao Brasil. Aos poucos jogos como profissionais já tinham um bilhete de avião para a Europa no bolso. Neymar há ano e meio que encanta o Brasil. No horário de São Paulo. É o lider criativo do Santos mas, sobretudo, é o espelho do jogador de rua que os brasileiros tanto apreciam. Mas é, também, o seu maior inimigo. Anda com correntes de ouro, telemóveis de última geração, penteados copiados dos catálogos que chegam de Miami e rotinas que pouco condizem com um profissional. É também o herdeiro de um estilo de jogador muito habitual no Brasil. O que não acredita na organização e na disciplina. Insulta o seu treinador com facilidade, recusa-se a comemorar golos dos colegas quando lhe apetece e, acima de tudo, é incapaz de jogar para o colectivo quando tem a possibilidade do brilho individual. Um jogador destructivo mas com um talento tão grande que o Brasil se arrisca a deixar-se cair nas suas mãos. Antes do tempo.
Pelé tinha 17 anos quando chegou ao escrete mas era, já então, um profissional imenso. Garrincha não, mas a sua jovialidade além de ser resultado da sua inocência mais do que a sua presunsão não teria funcionado hoje como sucedeu entre 1958 e 1966, os seus anos de ouro. Ronaldo foi adulto muito cedo e viveu o sacrificio como Romário e Ronaldinho nunca souberam fazer. Por isso ainda há no Brasil quem olhe um pouco de lado para a sua figura. O público brasileiro gosta do espectáculo pelo espectáculo mas também não suporta perder. É como Neymar. O delicioso jogador brilha num campeonato feito à sua medida onde o defesa para para se deixar driblar e não faz falta para não receber o olhar reprovador dos seus próprios adeptos. O talento de Neymar teria mais dificuldades em encantar na Europa como Robinho descobriu. Em Espanha, Itália e Inglaterra o avançado nunca logrou parar o tempo e os rivais com a mesma facilidade com que serpenteava o relvado curtinho do Brasileirão. Talvez por isso, talvez por essa licção aprendida pelos grandes que ainda hoje não sabem o que fazer com este tipo de jogadores, Neymar continua no Brasil. E não está só. Paulo Henriques (Ganso), Casemiro, Ciro, Kleber, Dentinho, Óscar, Tinga e tantos outros talentos precoces inspiram o mesmo tipo de desconfiança que Neymar. Mas é deles que o Brasil depende. Ou pior, quer depender.
Menezes sabe que não tem o leque de jogadores que Scolari, Parreira e Zagallo tiveram para chegar ao topo. Nem de longe nem de perto. Hoje o Brasil tem sérias dificuldades para montar um plantel competitivo para disputar com Espanha, Alemanha, Argentina e Holanda a supremacia mundial. Não tem um jogador determinante como Messi, um modelo de jogo claro como o dos espanhóis ou um colectivo forte e habituado a jogar junto há largo tempo como germânicos e holandeses. Apesar de receber o Mundo, este escrete está muito longe da imagem romântica que inspira receio nos rivais. Para Menezes entregar a batuta da geração de 2014 a um jogador como Neymar, tão problemático como genial, diz bem do desespero que vive uma nação habituada a impor o seu ritmo e lei. Entre médios trabalhadores, jogadores a trabalhar na chamada classe média europeia (que grandes brasileiros actuam nos principais clubes da Europa com a excepção de Dani Alves, Alexandre Pato ou Marcelo?) e essas conflituosas promessas vive o futuro dos campeões dos campeões. Um jogo de expectativas perigoso que pode jogar contra a ideia de supremacia moral que sempre pareceu acompanhar as estridentes camisolas amarelas.
Neymar, no meio de tudo isto, continua a deslumbrar no relvado e a preocupar fora dele. O seu estilo dandy é inconfundivel, traz a marca do jogo de favelas e da habitual esperteza do desenrascanço brasileiro. Mas o "chico-espertismo" do brasileiro hoje não funciona num planeta futebol habituado a encontrar rapidamente o antidoto para cada veneno. E Neymar, como outros antes dele e muitos certamente depois, encanta mas não traz consigo um efeito surpresa. Nem na classe nos pés nem nos problemas fora do campo. É uma bomba-relógio que só ele mesmo poderá desactivar e um problema para os dirigentes dos grandes clubes europeus. Ter nos ombros o peso de um país pode fazer com que a bomba se active antes do tempo. Ou que se desactive permanentemente. Uma encruzilhada que tem em suspenso o Brasil. Dele depende a ilusão do futuro e a eficácia do presente. E o tempo, já sabemos, fugit!

