Há muito tempo que o futebol ucraniano começou a mandar sérios sinais de que se prepara para liderar o grupo da chamada "segunda divisão europeia". O apuramento histórico do Shaktar Donetsk recupera a herança da escola ucraniana do Dynamo Kiev lobanovskiano e deixa várias pistas para entender porque é que a Ucrânia tem de começar a ser levada mais a sério no seio do futebol europeu.
No final da próxima Primavera o mundo do futebol vai estar muito pendente do que suceda na Ucrânia. E não é graças a nenhuma equipa local.
O Europeu de Futebol 2012 será a consagração definitiva (e oficial) da rapidíssima evolução do futebol ucraniano desde o desmembramento da União Soviética. Se a Rússia cumprirá o seu sonho de albergar um Mundial seis anos depois, a associação com os vizinhos polacos permitirá aos ucranianos receberem a elite europeia em alta. Os problemas organizativos e de infra-estruturas eram esperados, até pelo próprio Michel Platini, mas a organização do torneio - o último com 16 equipas - espelha bem o crescimento do leste europeu, dessa segunda divisão a que pertencem também russos, romenos e gregos (e igualmente Portugal, Holanda, Suiça, Bélgica e Escócia do outro lado do continente) e que começa a ganhar outro pedigree nos palcos europeus. Uma realidade que não é nova mas que parece cada vez mais cristalina.
E o Shaktar Donetsk tem muita culpa nesta transformação. Ou melhor, o seu dono, o milionário Rinat Akhmetov.
Numa época em que o Dinamo Kiev parecia estar disposto a fazer da liga do recém-criado estado ucraniano o seu couto privado, surgiu este pequeno clube da segunda cidade do pais para contrariar o monopólio do exército de Lobanovsky. Na história da URSS o Shaktar não deixou marca ao contrário do seu grande rival, líder em títulos nacionais, taças e provas europeias conquistados durante os cinquenta anos que durou o bloco soviético. O Dynamo de Kiev, particularmente a partir dos anos 70, não só asfixiou todo o futebol ucraniano mas também serviu de farol para todo o leste europeu. Falhou o grande titulo (a Taça dos Campeões Europeus que Steaua e Estrela Vermelha, equipas do bloco conseguiram vencer) mas definiu uma era e um estilo. Em 1999 esteve perto de fazer história, como campeão ucraniano, e conseguiu chegar às meias-finais onde disputou, até ao último segundo, o acesso à histórica final de Barcelona com o Bayern Munchen. Depois, o abismo. Do Dynamo e da Ucrânia. que falhou sucessivos apuramentos para Euros e Mundiais até 2006 quando dispunha de uma geração de primeiro nível. Isto é, até chegar o homem dos milhões da SCM Holding e um dos herdeiros da oligarquia soviética.
Em 1996 Akhmetov comprou o Shaktar Donetsk e declarou publicamente que iria fazer tudo para quebrar o monopólio do rival de Kiev.
Demorou seis anos. Em 2002 o clube laranja chegou ao primeiro titulo dos cinco que sumaria nos anos seguintes, incluindo o da passada temporada. O dinheiro de Akhmetov foi investido no plantel mas, essencialmente, na melhoria das infra-estruturas do clube. Criou uma Academia inaugurada em 2000 para os jovens ucranianos que procuravam uma alternativa à estrita escola do Dynamo. Os resultados começaram a surgir poucos anos depois e hoje a base do futebol jovem ucraniano depende em muito do labor dos técnicos jovens do Shaktar. Chygrinski, Krystov, Rakytitsky, Rat e Pyatov são exemplos dessa seiva de talento que aliada à sábia prospecção do mercado brasileiro, serviu para montar uma equipa segura atrás e criativa à frente. Mircea Lucescu, o mais prestigiado entre os técnicos romenos, foi encarregue a partir de 2004 de montar um clube ganhador, não só a nível doméstico. Mais uma vez, quase a um ritmo preciso de relógio suíço, o staff técnico demorou apenas cinco anos em cumprir o prometido. A vitória em Istambul da última edição da Taça UEFA frente ao Werder Bremen confirmaram o ressurgir do futebol ucraniano e a entrada do Shaktar na elite europeia. Pela porta grande.
A vitória sobre o AS Roma - depois de vencer um grupo onde pontificava o Arsenal - foi apenas a consagração aos olhos do ocidente do imenso potencial do futebol ucraniano. Vitória na Cidade Eterna e humilhação aplicado no novo e belíssimo Donbass Arena, inaugurado para ser uma das estrelas do próximo Europeu, assente num esquema táctico fluido e extremamente dinâmico. A força do leste (Srna-Chygrinski-Rakytisky-Rat-Hubschmann-Mkhitaryan) e o talento da esquadra brasileira (William-Jadson-Douglas-Adriano) suplantaram o querer mas não poder dos italianos. Futebol rápido, criativo no último terço e profundamente disciplinado na medular, não é surpresa que o Shaktar tenha conseguido o seu melhor resultado de sempre na Champions. Surpresa é que não vá mais longe ainda.
A ascensão do Shaktar é apenas a ponta do icebergue. Com o Dynamo Kiev aparentemente ressuscitado na Europe League (uma nova boa geração, um ritmo competitivo alto de Schevchenko, numa segunda juventude) há uma série de novas equipas na Liga ucraniana prontos para imitar o sucesso dos laranja. Com a ajuda dos seus próprios mecenas - todos ávidos de seguir o exemplo de Akhmetov e preparados para capitalizar o mediatismo do próximo Euro - Dniepr, Metalurg, Metalist, Karpaty e Chornomorets estão na linha da frente para mostrar que a liga ucraniana está preparada para assumir a liderança da "outra Europa".

