Sistemas tácticos há vários. Modelos de jogo também. Mas quando um técnico coloca em andamento o seu plano táctico só uma pergunta tem duas respostas possíveis: como procurar o golo? A partir dessa eterna dúvida nasce na sua mente o posicionamento, o modelo e o sistema táctico a seguir. Procurar o golo de forma vertical ou de forma horizontal? Os dois caminhos para a mesma resposta viveram lado a lado durante toda a história do beautiful game.
Não existem equipas exclusivamente verticais ou horizontais.
Esse mito desfez-se, particularmente, com a aplicação da pressão defensiva alta defendida por Arrigo Sacchi (mas começada vinte anos antes por Viktor Maslov) que colocava o ponto final à evolução que o Futebol Total tinha preconizado durante o final dos anos 60. Os ângulos geométricos do jogo começavam a ganhar contornos camaleónicos a tal ponto que se tornava cada vez mais complicado descobrir em que filosofia encaixar várias equipas de topo. Passada a confusão inicial hoje a televisão, a informação no momento e a proliferação de livros de estudo tácticos permitem-nos analisar com mais certezas do que dúvidas (e a dúvida essa, terá sempre de subsistir) essa dualidade geométrica que define o futebol moderno.
Se o futebol vertical é a base ideológica e moral do jogo, a base da escola inglesa (que não britânica, cuidado) e ainda hoje tem uma série de adeptos indefectíveis, a necessidade de explorar outros caminhos trouxe um rasgo de horizontalidade de que o jogo se beneficiou grandemente a partir dos anos 70. O futebol de toque curto contra o jogo de passe largo. A velocidade do corpo frente à velocidade da bola. Conceitos, qual yin e yang futebolísticos, destinados em encontrarem-se, vezes sem fim, num qualquer campo relvado do mundo.
Do 2-3-5 original - o primeiro sistema táctica desenhado para compreender as subtilezas do jogo - até ao 4-2-4 que se limitou a colocar em ordem um movimento físico no terreno de jogo herdado pela evolução da escola centro-europeia, o futebol de passe largo sempre predominou nos modelos de jogo das grandes equipas e selecções mundiais. Mas essa verticalidade dominante nunca foi exclusiva. Se Chapman (e o seu WM) procurava a velocidade do contra-golpe naquilo que se tornaria, grosso modo, o primórdio do kick and rush (culminado pelo notável Wolverampton de Stan Cullis já bem entrados os anos 50) a verdade é que a sua filosofia não era assim tão diferente da que defendiam Pozzo ou Meisl, os seus rivais ideólogos continentais. O campo, para o Manager pré-Futebol Total, era visto mais como uma extensão ao comprimento do que, propriamente, um espaço de largura. A bola deveria chegar o mais depressa possível ao outro lado do terreno de jogo, com o mínimo número de toques e, se possível, com efeito surpresa para a defesa rival. Portanto o papel do meio-campo era frequentemente relegado para um segundo plano e a aposta colocava-se, essencialmente, no jogo de laterais, extremos e dianteiros. Eficácia, acima de tudo.
Hoje em dia essa visão é vista com algum desdém por grande parte do público.
Exceptuando a hipocrisia vigente que acredita que há formas melhores e piores de encarar um desafio, tornou-se claro que o modelo vertical tinha provavelmente mais defeitos do que virtudes. O desgaste físico - com a profissionalização do jogo a todos os sentidos que permitiu a jogadores de equipas inferiores apresentarem níveis físicos impossíveis de conseguir na era amadora - tornou esses jogos de ping-pong a larga escala em verdadeiros pesadelos para as grandes equipas. Ao desgaste físico adiciona-se também o nascimento de uma cultura resultadista que implicou um reforço do sector defensivo que significou, com o 4-3-3 e o 4-4-2 (popularizados durante os anos 60) a terminar com a imagem do extremo puro. Sem esses velozes ases e com cada vez mais médios centros cerebrais ou físicos nos onzes tornou-se imperioso pensar no espaço geométrico do campo de uma forma diferente. A bola passou a correr mais que o homem. E a correr para outros lados antes de chegar à baliza.
Obviamente que a verticalidade subsistiu (a bola continua a ter de entrar) mas os caminhos para lá chegar mudaram. O modelo soviético de Maslov e Lobanovsky aprimoram os ideais românticos da escola centro-europeia que de Hogan a Meisl (e Sebes) já tinham anunciado um novo caminho, apesar de forma menos evidente. As trocas horizontais entre defesas - em lugar do habitual sprint lateral ou dos passes largos em frente - a forma com o médio centro criativo (fruto da evolução táctica húngaro que tornou Hidgekuti no primeiro pensador de jogo moderno) passa a controlar os tempos, mudou radicalmente o modelo de jogo ocidental.
Essas trocas de bola rápidas de um lado para o outro, tão similar às movimentações do basquetebol ou andebol (e o treino profissional futebolistico começou a prestar atenção a esses detalhes) à espera de uma abertura na brecha defensiva rival, tornou-se na base do que viria a ser cunhado como Futebol Total. Um modelo de jogo mais profissional - longe do anárquico 4-2-3-1 (apesar de na época ninguém pensar nesse sistema para descrever o Brasil de 70) onde os jogadores, antes que o modelo, tinham a primazia - e que iria exigir aos jogadores, independentemente da posição, um maior conhecimento da bola. E do jogo. Os laterais capazes de deslocar-se em diagonais para o centro do meio-campo. Os extremos convertidos em médios centro de ataque e os avançados com capacidade de começar um lance na linha de meio-campo fizeram da Holanda de 74 o exemplo perfeito do modelo. Mas a ideia base - com mais ou menos detalhe - já estava a ser trabalhada há mais de uma década. A própria Inglaterra - do astuto Ramsey - só se sagrou campeã do Mundo quando trocou o 4-2-4 vertical de sempre e apostou num 4-4-2 losango que privilegiava esse horizontalidade.
A partir dos anos 70 o futebol horizontal - salvo alguns exemplos ingleses de sucesso - passou a ser o santo e senha, com as suas sucessivas variações (defensivas - a Itália de Bearzot ou a França de Jacquet; ofensivas - o futebol champagne de Platini, o Brasil de Telé Santana, a Espanha de Aragones, que reforçou a popularidade do 4-5-1). A verticalidade ficou associada a equipas mais físicas (Chelsea e Inter de Mourinho, Roma e Milan de Capello) ou que apostavam sucessivamente no contra-golpe para surpreender rivais com maiores recursos técnicos. A verdade é que apesar das mudanças dos sistemas tácticos as equipas hoje procuram controlar melhor os ritmos de jogo e aproveitam sempre para horizontalizar a bola o máximo de tempo possível. Mas poucos conseguem resistir à eficácia e imediatez de um jogo mais vertical e, portanto, menos organizado e disciplinado. Equipas como o Barcelona - talvez o exemplo mais bem conseguido da história - ou o Arsenal, conseguem manter essa disciplina lateral que nos ensina que no campo se joga em toda a largura (com o Barça a recuperar, muitas vezes, um ataque de 5 bem aberto, com o apoio dos laterais e médios interiores) e no menor comprimento possível. O domínio do espaço e o controlo da bola pautaram a evolução do vertical para o horizontal. No entanto a vitória do Inter de Mourinho continua a ensinar-nos que não há um único mandamento para triunfar no futebol. Vertical, horizontal, o golo continua a ser o que faz a diferença no final dos 90 minutos!

