Antes do infame 11/09/01 há muito que as "Twin Towers" estavam presente no vocabulário futebolístico. Pelas torres que albergavam o mítico Wembley. Mas, principalmente, pela dupla mais letal do futebol inglês da década de 90. Só jogaram juntos dois anos mas foi suficiente para entrar para a história do futebol britânico. Definiram uma época em Old Trafford e foram, talvez, o último grande dueto atacante da história do Manchester United.
Quando Dwight Yorke confessa que o seu despertador matinal consistia numa chamada matinal bem disposta de Andrew Cole, torna-se fácil perceber os inúmeros sorrisos cúmplices que as câmaras de televisão captaram entre ambos durante os anos em que vestiram a mesma camisola.
A letal parceria Yorke-Cole era, sobretudo, uma dupla compenetrada até ao mais mínimo detalhe. Não era só a parecença física (daí o nome por como ficaram conhecidos) e a forma de jogar. Era como se entendiam.
Durante duas épocas (1998/1999 e 1999/2000) era recorrente ver passes entre ambos na zona de ataque sem sequer se preocuparem em ver onde o outro estava no terreno de jogo. Não era necessário. Há muito que o sabiam. Uma relação que não foi construída nos treinos diárias mas sim fora do centro de estágio. Cole e Yorke eram, sobretudo, parceiros. E no relvado jogavam como se estivessem num jogo de amigos. Relaxados, compenetrados e sempre com um sorriso. Uma dupla letal que Alex Ferguson montou para fazer esquecer o fantasma de Eric Cantona. E que lhe valeu uma época de sonho onde nenhum titulo foi deixado de lado. Os (muitos) golos de Yorke e Cole, as muitas assistências entre ambos (com a preciosa ajuda de David Beckham e Ryan Giggs) abriram caminha ao histórico Treble de 1999 e ao titulo de 2000. E quando os heróis de Old Trafford falhavam, sempre havia Solsjkaer e Sheringham, os suplentes de luxo que decidiam jogos, para rematar o dia. Eram dias felizes para os red devils.
Quando a dupla se desfez - em 2001, ano em que Yorke caiu em desgraça com Ferguson pela sua polémica razão com a modelo Jordan - o Manchester United ressentiu-se. Yorke ficou, mas a chegada de van Nistelrooy significou menos minutos de jogo para o caribenho. Cole foi vendido ao Blackburn Rovers - apesar dos protestos dos adeptos - e rapidamente se assumiu como a nova estrela da equipa, guiando os rovers à vitória na League Cup, com golo determinante incluído. No Verão de 2002 o seu amigo Yorke juntou-se-lhe uma vez mais e a velha dupla voltou a brilhar no Lancashire levando a equipa de volta às competições europeias depois de uma década de ausência.
Dwight Yorke sempre foi um avançado muito especial.
Corria como poucos dianteiros no futebol britânico e tinha um sentido posicional exímio. Despontou ao serviço do Aston Villa em 1990 depois do manager dos villains, Graham Taylor o ter descoberto numa tour realizada pelo clube em Trinidad e Tobago. Com 19 anos a sua adaptação foi lenta e durante muito tempo Yorke actuou longe da sua posição natural. Mas em 1995 começaram a chegar os golos e durante três anos disputou até ao final o prémio de melhor marcador da Premier League. No Verão de 98, e depois de um ano marcado pelo titulo do rival londrino Arsenal, Alex Ferguson, ainda orfão de um líder depois do abandono do futebol a finais de 97 de Eric Cantona, decidiu sacar do livro de cheques. Juntou o tobaguenho a um leque de reforços certeiros (Stam e Blomqvist) para atacar o titulo.
Em Old Trafford o já veterano (28 anos) dianteiro encontrou a sua alma gémea: Andrew Cole.
Cole tinha-se tornado numa estrela por direito próprio do futebol inglês depois de fazer parte da grande equipa do Newcastle United, liderada por Kevin Keegan, que começava a dar nas vistas. Produto da formação do Arsenal, Cole era um avançado móvel e extremamente eficaz que combinava bem com o futebol-champange de Peter Beardsley e o ritmo veloz de Asprilla e Ginola. Subitamente, em plena corrida dos magpies pelo titulo, o clube não resistiu a uma oferta milionária . Cole chegou, viu e venceu e mostrou-se rápido a combinar com Cantona e Sheringham, os seus parceiros de ataque nos anos seguintes. Mas com Yorke o feeling era outro. Era especial. Desde o primeiro jogo juntos, em Setembro de 1998 que se notou que havia algo que relembrava as grandes duplas atacantes da história do clube como Law-Charlton ou Hughes-Cantona. Uma compenetração que foi rapidamente correspondido com golos (Yorke marcou 23, Cole marcou 19) e com exibições antológicas como os jogos em Barcelona, Milão e Turim que marcaram a caminhada para a noite histórica que deu o segundo titulo europeu ao clube. Nessa noite os heróis foram outros, mas as "twin towers" voltaram a ser um pesadelo para a defesa bávara. No final do momento 93 já tinham entrado na história.
A história do futebol está eternamente marcada por grandes parcerias. E é sempre dificil encontrar dois jogadores que transpareçam no relvado a boa disposição que os acompanha no dia a dia. Num futebol (principalmente o inglês) marcada por vedetismos, wags, problemas financeiros e uma boa dose de marketing, é sempre uma boa noticia quando o olhar cúmplice e relaxado de dois jogadores de alto nível garantem ao espectador a certeza de que os próximos 90 minutos serão de um espectáculo garantido. As "Twin Towers" fizeram sonhar mais do que um adepto. No fim de contas talvez tenha sido essa a sua maior conquista.

