Estar a vencer por 3-0 e perder o jogo num encontro da Serie A é um feito tão impio que a bancada giallorossi seria incapaz de esquecer se tivesse de voltar a ver Claudio Ranieri. O técnico não terá esse problema. Demitido, depois de dois anos onde falhou sempre todos os objectivos, voltará a começar do zero. Longe do Olímpico que já soa com a nostalgia dos voos de Vicenzo Montella, o eterno L'Aeroplanino.
Vincenzo cresceu a ver aviões.
A sua cidade natal, Pomigliano d´Arco, albergou o primeiro aeroporto da Campânia e diariamente os céus azuis da pequena localidade a norte do Vesúvio eram rasgados pelos aviões que levavam na bagagem os sonhos de glória dos mais novos. Vincenzo cresceu com os aviões e quando, aos 20 anos, se começou a erigir numa estrela por direito próprio do Calcio, lembrou-se deles. E voou. De braços abertos no ar a cada golo comemorado.
L´Aeroplanino tornou-se num dos avançados mais eficazes da história da AS Roma. Mas a sua aventura começou antes. O admirador de Careca (que tentava imitar nas pequenas ruas dos subúrbios napolitanos) começou a jogar aos 16 anos no modesto Empoli. Daí deu o salto para o Genoa e em 1996 cometeu o "crime" de mudar-se para a Sampdoria. Ao serviço do conjunto azzurri tornou-se num dos goleadores habituais da Serie A até que a despromoção dos genoveses e o convite dos romanos o fez mudar-se de novo para sul, para o coração de Itália.
Em Roma encontrou-se com um jovem Francesco Totti e um certeiro parceiro de ataque, Marco Delvechio. Um tridente letal que começou, rapidamente, a fazer estragos. A chegada de Zeman (e de Batistuta) foram relegando Vincenzo para o banco para com Fabio Capello chegou o resgate e a glória. Montella estreou-se pela squadra azzura, foi ao Europeu da Bélgica-Holanda onde se sagrou vice-campeão da Europa e em 2001 foi fundamental na conquista do histórico Scudetto. O terceiro dos gialorosso no meio, como era de esperar, de muita polémica.
Fez parte dessa equipa de sonho com Zago, Cafu, Antonio Carlos, Emerson, Zebina, Delvechio, Candela, Tommasi, Totti, Cassano e Batistuta, a última que fez os adeptos da Roma voar como os aviões que o pequeno Vincenzo via quando era pequeno. Uma nostalgia que já tem 10 anos.
A carreira de Montella, como a de quase todos os jogadores daquela equipa, foi descendo progressivamente até se estancar. E chegar ao fim.
O dianteiro abandonou em 2009 os relvados e começou a trabalhar como técnico das equipas jovens romanas. Não está preparado para o desafio que o aguarda mas numa era onde o modelo Guardiola faz escola, muitos são os presidentes que caem na tentação de entregar os clubes a técnicos novos, sem grande historial e com uma forte ligação emocional aos seus clubes. E Montella preenche esses requisitos.
A sua performance como técnico juvenil não é sobresselente mas também não compromete. E permite-lhe conhecer bem a cantera de um clube que tem pouco dinheiro para investir no mercado. A equipa actual vive sem grandes figuras individuais e, paradoxalmente, sem coesão colectiva.
A derrota frente ao Shaktar - esperada face ao que se vinha vendo da equipa orientada por Ranieri - e o colapso frente ao Genoa espelham bem a mentalidade de uma equipa que se vai abaixo facilmente. Ao mínimo sopro de vento.
Totti já não é o líder carismático capaz de inspirar as bancadas e os colegas. Menez e Vucinic aparecem ocasionalmente e Adriano foi, como se esperava, um imenso erro. O dianteiro Montella terá, primeiro, de trazer ordem a uma defesa desastrada (Mexés, Burdisso, Cassetti e Juan têm tido um ano para esquecer) e depois ordenar a construção de jogo de uma equipa sem sistema nem modelo. Descompensada nos flancos, sobrepovoada no miolo, este conjunto gialorrossi precisa rapidamente de um tónico em forma de vitórias para não voltar, perigosamente, aos dias em que namorava mais com a despromoção do que com o titulo. E se Ranieri cometeu a proeza de deitar um titulo borda fora com um final de época periclitante no ano passado, a Montella vai-se lhe pedir, sobretudo, que mantenha vivo o sonho europeu, seja trepando lugares na liga (ou não tropeçando na tabela, pelo menos), seja operar um milagre na fria Donetsk. Algo que, como jogador, fez mais de uma vez.
Com os voos do pequeno Vincenzo a AS Roma viveu uma segunda juventude. Com o inexperiente dianteiro sentado nos bancos, os directivos romanos querem uma injecção de confiança mais do que resultados imediatos. Vincenzo Montella é uma aposta a longo prazo. Porque cai bem com os adeptos. Porque é barato. E porque os seus voos fazem soltar a imaginação de um povo que joga com os pés mas também com a mente...

