O técnico do Santa Clara não evitou nos últimos segundos desta Liga Vitalis em queixar-se, uma vez mais, do poder do "sistema" que impediram a subida do seu clube à Liga Sagres. No entanto deixou a nota aos seus: para o ano, se Deus quiser, há Açores na primeira divisão do nosso futebol.
Curioso. Apelar a Deus fica sempre bem, especialmente neste país de brandos costumes e tão devotos. Mas fica a impressão que se houve alguém que nunca teve fé este ano, esse alguém foi o onze açoriano. Teve várias oportunidades de rematar a prova, incluindo o titulo de campeão. Nos momentos decisivos falhou sempre. Tropeçou, choramingou, queixou-se e voltou para as ilhas a lamber as feridas. Ontem o Santa Clara tinha meio pé para acompanhar o Olhanense. Só faltava meter o outro. Tão simples como isso. Mas em 90 minutos, no estádio de Santa Maria da Feira, não houve fé, crença ou algo que lhes valê-se. A equipa que podia ter regressado ao convivio dos grandes foi inimiga de si própria. Baixa auto-estima, falta de convição. No relvado contra o Feirense viu-se isso e muito mais. Nenhum golo em 90 minutos quando a festa já estava preparada. O tento do Feirense foi um golpe letal nas aspirações açorianas. A falta de reacção foi a verdadeira causa da morte. Culpar o sistema é bem português, tal e como apelar ao apoio divino. Mas ter fé é mais do que pedir ajuda...é procurá-la. Nos Açores ainda devem estar agora a perceber como...

A fé não estava na Feira, mas sim uns quilómetros abaixo. No estádio de um desses históricos a passar um mau bocado, outro veterano da I Liga dos tempos modernos fazia a festa. Com direito a cabeça rapada e muito champagne.
No dia em que Manuel Fernandes chegou a Leiria, a União estava num desesperante 13 posto, depois de ter partido como o grande favorito à subida de divisão. Uma posição dramática que o técnico soube contornar. Imbuiu os jogadores de fé. O talento ele sabia que já lá estava. Faltava a atitude. A mesma que a partir de então se viu em cada desafio dos leirienses. Goleram o campeão, não perderam pontos vitais. Marcaram muitos e bons golos e desistir foi palavra riscada do dicionário. Em Aveiro chegaram a estar a vencer por 0-3, ainda o Santa Clara estava a festejar a subida. O Beira-Mar lá reduziu para 2-3 mas foi o golo de Cadete na Feira que despoletou a festa. A União de Leiria nunca desistiu, e apesar de nos Açores haver um aeroporto com nome de Papa, Leiria não fica longe de Fátima. Se calhar foi isso que fez a diferença...ou a promessa de Manuel Fernandes...quem sabe? O que se sabe bem é que a fé baixou a Leiria para beber um copo e gritar o nome da União que para o ano viaja com os grandes, por mérito próprio. Isto de ganhar tem muito que se lhe diga. Antes é preciso querer e só depois fazer. Pedir e esperar milagres não vale, para isso vai-se a outras freguesias.
