Quatro equipas na fase a eliminar da Europe League. Quatro equipas com legitimas aspirações a seguir em frente. Mas também, quatro equipas que sentem na pele cada vez mais a diferença entre a sonolenta Liga Sagres e o ritmo competitivo no resto da Europa. Os resultados foram melhores que as exibições e o ritmo de jogo deixou a nú, uma vez mais, as gritantes debilidades do futebol português.
Sem equipas na fase final da Champions League (pela primeira vez desde 2003), o futebol português encontrou na Europe League o escaparate perfeito para salvar a imagem no estrangeiro e, inevitavelmente, para coleccionar pontos no ranking UEFA. Cercado por russos, ucranianos, romenos e holandeses, os portugueses sabem que cada resultado é chave para decidir os futuros milhões que podem (ou não) entrar nos cofres dos primeiros três classificados da prova nos próximos anos. Mas o que fica claro, depois da primeira mão destes 16 avos de final da segunda prova da UEFA, é que as equipas portugueses têm um longo caminho a precorrer se querem, realmente, sentir-se parte da elite.
O problema deste futebol luso não são tanto os resultados. É a qualidade de jogo. Uma inevitável diferença com o resto da Europa que só ganha forma quando as equipas são forçadas a sair desse casulo que é a Liga Sagres. O mesmo que permite dar uma imagem de uma equipa imbatida (FC Porto) ou de uma equipa que, segundo o seu treinador, "mete medo" (SL Benfica) e que não se vê no relvado quando o rival do outro lado está habituado a outras rotinas, outros ritmos, outra postura.
Se ao Sporting de Braga, destroçado pelas vendas no mercado de Inverno, há pouco que apontar na sua excursão polaca - uma equipa em pausa de Inverno e a jogar num estádio sem o minimo de condições - aos "três grandes" fica claro que a exigência europeia deixou a nu as principais debilidades de cada quadro. O Lech Poznan de Jose Maria Bakero já tinha deixado uma óptima imagem na fase de grupos (vergou a Juventus e aguentou o ritmo do Manchester City) e aproveitou bem o efeito casa para colocar-se em frente da eliminatória. E o Braga é, sabe-se, uma equipa em processo de reconstrução apressado e com muitas dificuldades em lidar com a presença em duas competições ao mais alto nivel a esta altura do ano. A tipica "malaise" das equipas médias lusas que é já um mal crónico e sem solução à vista. Enquanto a Liga Sagres for um poço não-competitivo, os jogadores dos clubes portugueses nunca estarão preparados para dar o seu melhor duas vezes à semana durante largos meses de um ano. Portugal é, assim mesmo, uma quadratura de circulo.
Mas se os bracarenses são, apesar de tudo, uma equipa pouco habituada a estas andanças, o mesmo não se pode dizer dos "grandes".
Mais do que os bons resultados logrados (particularmente a vitória fora de portas do FC Porto), ficou claro que em nenhum dos jogos houve superioridade. A Europe League desta época é, provavelmente, a edição mais equilibrada dos últimos anos com as equipas que chegam da Champions League a perder protagonismo face àquelas que já arrancaram a prova na fase de grupos. Villareal, Napoles, PSG, Liverpool, Manchester City, Zenit St. Petersburg, CSKA Moskva, Lille ou Dynamo Kiev - quase todos eles em posições cimeiras nas suas ligas domésticas - são perfeitos exemplos dessa realidade. E são, todos elas, equipas que jogam em alta rotação, num ritmo competitivo forte e onde o espaço para os erros é minimo. Nenhuma delas se cruzou, de momento, com as equipas lusas, mas os duelos prometidos para a próxima ronda deixam antever dificuldades suplementares. Porque contra adversários do mesmo nivel (ou teoricamente inferiores), nenhum dos três conjuntos portugueses se soube impor.
O SL Benfica entrou mais assustado do que com vontade de "dar medo" ao modesto Sttugart, que luta verdadeiramente para não ser despromovido na Bundesliga (onde não é inédito que um campeão recente caía de divisão). E sofreu para dar a volta ao marcador. Um golo sofrido nestas condições é um perigo e os encarnados têm um mau historial com equipas alemãs, sempre mais fortes mentalmente por muito que sejam tecnicamente inferiores. O Stuttgart não é um colosso europeu. Mas nem o era o Schalke 04, nem o era o Hapoel Tel-Aviv e a nenhum dos três conjuntos soube o Benfica impor a sua lei. Domesticamente os números da equipa de Jorge Jesus são impressionantes, desde a humilhação sofrida no Dragão. Mas nesse reino doméstico, onde tudo parece fácil, onde os rivais existem mas não ripostam, cria-se uma ilusão falsa de superioridade moral que no relvado se desploma. Este Benfica sabe que tem de subir uns degraus mentais e competitivos para manter um ritmo adequado aos palcos europeus.
Uma rotina que tem, desde há muito, o FC Porto. E no entanto, o clube português com maior sucesso na Europa nas últimas três décadas paga o mesmo preço que o seu eterno rival. Um grupo de apuramento acessivel e uma série de jogos domésticos imbatido criou a ilusão de superioridade nos azuis e brancos. O Sevilla, o mais forte dos rivais das equipas lusas nesta ronda, vive talvez a sua pior época em mais de meia década. E no entanto soube, mais do que uma vez, encostar os dragões às cordas. Valeu o desacerto defensivo hispanelense, a eficácia dos azuis e brancos e um pouco desse ADN europeu que o Dragão não esqueceu. Mas o jogo do FC Porto, que em Portugal se assemelha a uma ópera, na Europa perde brilho. Passes falhados infantilmente, erros defensivos, planteis curtos e muito individualismo à mistura são marcas transversais às equipas lusas e que podem significar um preço alto de mais a pagar na Europa.
O Sporting sabe-o bem. É uma equipa que nos palcos europeus nunca conseguiu, nem nos seus melhores momentos, sacar bons resultados. Espelho evidente do próprio desconcerto interno que sempre pautou a história leonina. Um empate em Glasgow é um bom resultado. Uma exibição sofrivel frente a um Rangers que vive a mesma realidade dos clubes portugueses - liga fraca, sem concorrência real - deixa a nú a inoperância do futebol luso mesmo quando defronta um "igual".
É expectável que o grosso, senão mesmo a totalidade, do contingente luso siga em frente. Mais dificil é imaginar que consigam ultrapassar os rivais seguintes, clubes já de outro patamar, de outras ligas mais habituadas a lidar com rivais de alto nivel competitivo, com outra disciplina táctica e com dinheiro suficiente para contratar jogadores de perfil mais elevado. Um clube português pode vencer uma competição europeia? Claro que sim. O FC Porto demonstrou-o em 2003 como se fazia. Mas dois anos depois o Sporting provou também que nem com tudo a favor o ritmo mental dos clubes lusos se sente cómodo nos grandes palcos europeus. Com o crescimento das ligas do leste europeu (Russia, Ucrania, Roménia, Turquia), muitas vezes a golpe de livros de cheques, transformando em titulos (exceptuando a Roménia, os três paises venceram na última década, pelo menos 1 titulo europeu) o investimento realizado, cada vez mais fica a nu a fragilidade desportiva e económica de uma liga histórica que vive fechada em si mesma e que muitas vezes não percebe que quando atravessa a fronteira entra num Mundo onde tudo sucede duas vezes mais depressa.

