Ontem, pela primeira vez na sua curta e bem sucedida carreira, Guardiola deu a sensação de sentir uma brisa de medo a passear diante de si no relvado do Emirates Stadium. E entregou o jogo e talvez a eliminatória a uma equipa que estava amorfa e que se manteve de pé, estoicamente, graças ao génio e esforço de Jack Whilshire. O médio foi a grande diferença do Arsenal do ano passado para este, uma equipa sem medo de faltar ao respeito ao icónico Barça.
Talvez não seja casualidade que Pep Guardiola ainda não saiba o que é ganhar um jogo a eliminar da Champions League fora de casa.
Aqueles que sugerem que o técnico catalão, apesar de funcionar perfeitamente no seu clube do coração, teria dificuldade em trabalhar noutros cenários, têm aqui um argumento a seu favor. E já lá vão sete jogos (Lyon, Munique, Londres por três vezes e Milão) O mesmo se pode dizer do genial Leo Messi que, pela sexta vez saiu de Inglaterra sem marcar um golo. O ano passado compensou-o com a notável performance em Camp Nou. E é a isso que os blaugrana sempre se agarram. O seu feudo intransponível, onde ninguém praticamente consegue marcar mais do que um só golo, tem garantido o estatuto de favorito ao campeão espanhol. Mas a sua fragilidade fora de casa ficou, uma vez mais, a nu. E, pela primeira vez, também as opções do seu mentor.
Guardiola decidiu o jogo no momento em que retirou David Villa - autor do único golo e um dos mais lutadores no ataque - e lançou Seydou Keita para fechar o miolo e aprofundar ainda o mais o jogo de toque curto na linha média. Até esse momento a equipa catalã tinha sido, sem dúvida, a melhor sobre o terreno. Depois de um arranque fulminante do Arsenal, avisado pela meia-hora inicial do duelo do ano transacto (talvez a melhor primeira hora da história do futebol), o Barcelona tomou conta do jogo e começou a predicar a sua filosofia: passa e dá, passa e dá, passa e dá, rondo, rondo, rondo...até à exaustão alheia.
A defesa do Arsenal, claramente o seu sector mais débil, procurou jogar adiantada, criando um vácuo entre a bola e o jovem polaco Scezseny, uma das grandes promessas de Ilsington. Espaço aproveitado por três vezes pelo ataque blaugrana. Messi falhou duas vezes, Villa não perdoou. Só a labor de Jack Whilshire - 19 anos, para quem se esqueça - tapava os buracos deixados por um Cesc Fabregas apático e um Alexander Song de cabeça perdida. No ataque, depois dos raios iniciais, nem Nasri nem Walcott encontravam espaços para combinar com van Persie. O jogo era mais lento, mais pausado, mais aborrecido do que o ano transacto. Mas isso ao Barça preocupava pouco, jogava com o seu ritmo.
E depois veio o medo, ou pelo menos o mais parecido a isso que se viu sair da mente do Seny catalão.
Trocar o 4-4-3 ofensivo por um mais defensivo, com Iniesta escorado a um flanco (no outro andou, sempre desaparecido, Pedro) e Messi a vir buscar a bola aos pés de Xavi na linha de meio-campo, deu ar a um Arsenal agónico. O francês Wenger - até então tão apático como o seu capitão no terreno de jogo - lançou Arshavin e Bendtner para alargar o campo e a jogada surtiu efeito.
Se até então o Barcelona tinha procurado as laterais para desatascar o jogo central onde Whilshire, quase só, aguentava com Xavi e Iniesta, o Arsenal procurou precisamente o mesmo espaço para fazer a diferença. Clichy - apagadíssimo como sempre - encontrou van Persie que disparou sem hipóteses para um Valdés incapaz de imaginar que o genial holandês encontraria o buraco da agulha. Poucos minutos depois foi a vez de Fabregas encontrar Nasri que soube esperar e iludir a defesa blaugrana, entregando a bola para um Arshavin em movimento de apoio que não hesitou em bombardear para o 2-1. Uma reviravolta inesperada mas que honrava à única equipa que procurou atacar na segunda parte. O Barcelona preferiu gastar menos oxigénio e segurar o resultado e perdeu o norte. Messi, numa das suas noites mais desastradas, nunca conseguiu fazer a diferença e nem Maxwell nem Alves tiveram arte para abrir o campo e encontrar espaços na defesa gunner.
No entanto, a diferença, chamou-se Whilshire. O jovem internacional inglês o ano passado estava em Bolton, a madurar. Este ano apresentou a face do Arsenal que há muito não se via. Olhou nos olhos de Xavi e não lhe mostrou o respeito serviçal que o génio de Terrasa encontra. Deparou-se com o génio de Iniesta e soube como travá-lo com movimentos simples. E, no meio de tudo, soube encontrar forças para apoiar as rápidas transições ofensivas de Nasri, Walcott e Arshavin. Foi um verdadeiro pulmão no miolo e uma botija de oxigénio moral para um clube que se empequenecia sempre que o destino o fazia defrontar a sua particular nemésis europeia. Depois de seis jogos (2000, 2006, 2010), finalmente uma vitória. Uma vitória de Pirro, se os gunners não souberem repetir, pelo menos, a mesma atitude da meia hora final no dia 8 de Março. O golo de Villa pode valer ouro e é nesse tipo de situações que os blaugrana se sentem realmente cómodos.
Com Fabregas a pensar, provavelmente, no seu futuro em Can Barça, o futuro do Arsenal pareceu mais risonho do que nunca. Whilshire está preparado para recolher o testemunho (como fez o catalão com Henry há quatro anos) e pautar o ritmo do futuro projecto de Wenger, agora sem tantas restrições financeiras para trabalhar o mercado. Uma equipa extremamente jovem (23 anos de média) e com uma garra inaudita (terreno até hoje reservado, em Inglaterra, a Chelsea e Man Utd), este Arsenal pode sonhar com legitimidade. Mas sabe que vai mergulhar numa cova de leões de uma equipa celestial que se sente bem melhor quando está acompanhada pelo seu coro de querubins nesse santuário divino que se chama Camp Nou

