Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011

Hoje os investidores estrangeiros são os únicos capazes de injectar dinheiro em projectos desportivos, muitas vezes, absurdamente estagnados. Petro-dolares, rupias indianas, rublos russos, tudo vale. No entanto, o modelo dos magnatas com dinheiro, ilusões mas muito pouca paciência não é novo e no passado deixou as suas vitimas. Poucas terão tido o mesmo impacto mediático do que o Matra Racing Paris. Durante dois anos tentou comprar o sucesso. Falhou e caiu na penumbra do esquecimento...

 

 

 

Quando em 1981 o milionário francês Jean-Luc Lagardére se juntou a Daniel Filipachi para comprar o espólio do grupo de revista Hachete, brincou com os amigos comentando que só lhe faltava mesmo comprar um clube de futebol. O homem que relançou a revista Elle era já então dono de uma imensa fortuna, graças à sua posição na empresa Matra (com considerável sucesso no automobilismo). Por essa altura, gastava essencialmente o seu dinheiro na grande paixão da sua vida, os cavalos de corrida. Mas o futebol também lhe tocava na alma e na cidade-luz de Paris não havia uma equipa que apoiar. O PSG vivia a sua primeira década, rodeado de incertezas, e a ideia começou a matutar na mente do empresário. Quatro anos depois comprou o quase extinto Racing Club Paris, um dos primeiros grandes do futebol gaulês que tinha caido praticamente no anonimato nos anos do pós-guerra. O clube estava na Ligue 2, lutando por sobreviver. Lagardére colocou o dinheiro à disposição da direcção com um objectivo claro: fazer do Racing um colosso europeu.

Começou assim a subida ao céu do clube azul e branco. O presidente conseguiu o apoio da Matra e mudou oficialmente o nome do clube para Matra Racing Club, o primeiro caso de uma instituição desportiva europeia que viu o seu nome alterado para incluir uma designação comercial. Um nome que se assemelhava, e muito, ao já usado pela empresa na sua etapa na F1 e que levantou suspeitas sobre o real interesse de Lagardére num negócio com muitos "ses". O projecto, no entanto, começou a dar os seus frutos. Em 1986 o clube venceu o titulo da segunda divisão do futebol gaulês e chegou, pela primeira vez em largas décadas, à elite. Era preciso dinheiro para permitir ao Matra - então alvo de uma imensa campanha de marketing nas revistas e jornais do grupo Hachette - competir com os maiores da época (o Bordeaux de Jacquet, o Marseille de Goethels ou o Monaco de Wenger). E com o dinheiro chegaram as estrelas.

 

Recém-coroado campeão europeu, o português Artur Jorge foi o primeiro a ser seduzido pela ambição de Lagardére.

Trocou a cidade do Porto pelo conforto de uma vida de luxo em Paris com um recorde milionário para qualquer treinador à época. O objectivo era vencer a prova que o tinha coroado num prazo de quatro anos e para tal chegaram ao modesto Stade des Colombes, nomes à altura. O alemão Piere Litbarski e o uruguaio Enzo Francescoli juntaram-se aos gauleses Pascal Olmeta, Luis Fernandez ou um jovem David Ginola. Mais tarde chegariam ainda o holandês Sonny Silooy, o uruguaio Ruben Paz e o camaronês Eugene Ekéké.

Artur Jorge pediu tempo para formar um onze ganhador - ainda estavamos na época em que só podiam jogar três estrangeiros - mas os resultados demoraram demasiado em chegar. A meio da temporada 1987/1988, o Racing Matra andava perdido na segunda metade da tabela, apesar do talento indiscutivel dos seus artistas, particularmente Francescoli, que confirmou as suspeitas que tinha deixado ao serviço da selecção do Uruguai e que mais tarde inspiraria a Zidane. A segunda volta foi bastante melhor, com a equipa a trepar até ao sétimo posto mas, mesmo assim, fora das provas europeias e a onze pontos do primeiro lugar. O dinheiro de Lagardére começou a desaparecer e os ingressos das bilheteiras do diminuto estádio parisino (7 mil pessoas) e do contracto televisivo eram insuficientes para arcar com os salários principescos das principais estrelas. Artur Jorge partiu (ele que voltaria a Paris para cumprir o seu sonho de campeão com o PSG dois anos depois) e o director desportivo, René Hause, tomou o seu lugar. Mas sem dinheiro, também Francescoli e Litbarki se foram, sem deixar grandes saudades, para brilhar em Marselha e Colónia, respectivamente. E a equipa ressentiu-se em demasia. O projecto começou a desmoronar-se e a equipa terminou a época seguinte num decepcionante 17º posto, salvando-se por um golo da despromoção. Para a Matra e para o seu presidente, era demais. Lagardére demitiu-se, vendeu a sua parte do clube e levou a Matra consigo, deixando o clube em estado de bancarrota. Os melhores jogadores da equipa saltaram do navio em movimento e apesar de ter chegado à sua única final da Taça em 1990, rapidamente a equipa caiu nos escalões do futebol amador francês, onde ainda milita. O dinheiro de Lagardére foi desviado para a France-Galop, empresa especializada em desportos hipicos e nunca mais se aventurou no mundo do futebol.

 

 

 

O projecto do Matra Racing Paris é um aviso a navegantes. Hoje, num mercado mergulhado em negócios obscuros e milionários que entram e saiem com demasiada facilidade, a nefasta gestão do pequeno clube parisino que quis dar um passo maior que a própria sombra podia transferir-se a um qualquer desses clubes com gestões milionárias. O fracasso do Portsmouth inglês, as dividas de West Ham United, o quase desaparecimento do Deportivo Alavés são apenas reflexos desse episódio. Quando o dinheiro quer comprar o sucesso, muitas vezes o único que acaba por conseguir é comprar o fim...lenta e dolorosamente.



Miguel Lourenço Pereira às 21:12 | link do post | comentar

6 comentários:
De Constantino a 11 de Fevereiro de 2011 às 10:50
No verão após o primeiro titulo de Mourinho no Chelsea estive com um inglês adeptos do Chelsea a falar sobre o fenomeno Abrahamovic. Ele, pessoa muito culta disse-me: desde que Abrahamovic comprou o Chelsea deixei de ir ao estadio e despedi-me do meu clube. Sei que actualmente o clube é o sonho de 1 homem só e a cara dele. No momento em que o russo for embora o Chelsea fica em perigo de vida. É um clube sem raizes na população!!!

Esta última frase é a que eu repito à exaustao quando me falam de russos, indianos, arabaes etc. Eles trazem dinheiro, mas não trazem as "raizes". E os clubes são como as árvores, precisam de raizes para se aguentarem.

PS - o louco do Matra Racing deve ter ficado mais recordado em Portugal do que em França. A expressão "é tudo à lagardere" ainda hoje se usa.


De Miguel Lourenço Pereira a 12 de Fevereiro de 2011 às 21:07
Constantino,

É bem verdade que essa expressão na Invicta está bem viva e o Matra é bem conhecido do Porto, não só pela saida do "rei" Artur mas porque foi daí, dois anos antes, que chegou um tal de Rabath Madjer, disposto a fazer história.

Quanto aos donos estrangeiros, totalmente de acordo, navegam para o lado oposto da mistica, parte fundamental da magia do beautiful game,principalmente para quem está do lado de fora.

um abraço


De hmocc a 11 de Fevereiro de 2011 às 11:35
Excelente artigo (mais um!) caro Miguel!

Infelizmente é uma história muito recorrente nos dias que correm, especialmente no Reino Unido onde a lógica do mercado livre permite (quase) tudo.

Quando clubes como o Manchester Utd ou o Liverpool estão em perigo de colapso financeiro, não admira que clumes infinitamente mais pequenos soçobrem a torto e a direito.

Neste momento temos um Queens Park Rangers a liderar o Championship (2 divisão Inglesa) através dos investimentos de Lakshmi Mittal e Bernie Ecclestone; Temos o Blackburn Rovers a tentar contratar o Ronaldinho com milhões de Rúpias vindas de um império de aviários na India; e temos os petrodólares que financiam o Manchester City.

Todas estas equipas mencionadas no parágrafo anterior estariam em escalões inferiores não fosse o supporte artificial que os seus magnatas investidores lhes proporcionam.

O futebol é uma feira das vaidades mas também é uma fogueira das vaidades. Assim que o investidor se cansa do "brinquedo" e retira os seus milhões, o clube resvala para um abismo do qual muito dificilmente volta a sair, a não ser que encontre rapidamente outro generoso bemfeitor.

Além do mais, o futebol enquanto negócio é pouco viável para a grande maioria dos clubes. Atente-se no recentíssimo relatório da Deloitte sobre os clubes mais ricos: Aparece o SL Benfica entre o 20 clubes mais ricos do mundo (em receitas geradas a partir de bilheteira, merchandising e direitos televisivos). Ora, que grande embuste! Com uma dívida astronómica apenas os créditos e empréstimos mantêm os grandes clubes portugueses à tona da água.


De Miguel Lourenço Pereira a 12 de Fevereiro de 2011 às 21:10
Hmocc,

um grande abraço pela visita, como sempre!

No Reino Unido, ao contrário do continente, não existe a tradição dos sócios. Os clubes sempre foram detidos por donos milionários que, habitualmente, eram pessoas da terra que quando faziam dinheiro tentavam comprar o clube da sua infancia e geri-lo por uma questão de prestigio. Não investiam muito e se precisassem, vendiam-no a outro do "clube de cavalheiros" da zona.

Assim se moveu o futebol ingles até nascer a Premier e com isso a organização, o lucro e o espirito apelativo para as novas fortunas - muitas vezes sem paixão pelo jogo - afirmarem-se como a nova ordem.

Essa falta de interesse, de sentimento, é o primeiro passo para a indiferença e para o fácil desprendimento.

grande abraço


De Luis a 10 de Fevereiro de 2012 às 19:33
Belo artigo mas permita-me que o corriga:
A expressão “à Lagardère” é utilizada quando alguém faz algo com atrevimento, ousadia ou coragem, mas sem medir bem as consequências para si próprio.
Esta expressão refere-se a Lagardère, herói da obra de Paul Féval intitulada Le Bossu (O Corcunda) e publicada em França em 1858.


De Miguel Lourenço Pereira a 13 de Fevereiro de 2012 às 08:19
Luis,

É certo, excelente obra literária com duas óptimas adaptações cinematográficas.

um abraço


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