Chegando ao tramo determinante da época o duelo entre FC Barcelona e Real Madrid ganha nova dimensão com um expectável e multiplo reencontro nos meses que nos esperam. E enquanto o Barcelona começa a atingir o pico da sua extasiante temporada, o cansaço, fisico e mental, começa a tomar de assalto o Santiago Bernabeu. Espelho claro de quem optou por diferentes gestões dos tempos de jogo e que agora se encontra perante um dilema sem resolução aparente.
Em Camp Nou respiram futebol, alegria e dinamismo. As "manitas" repetem-se, com uma regularidade que faz lembrar os calendários dos anos 50, e a equipa que teve um arranque de época algo titubeante (principalmente diante dos seus), chega agora à parte da época que realmente conta com um pulmão cheio de ar e com energia suplementar nas pernas. Sem abdicar da equipa base, com ajustes pontuais e, sobretudo, posicionais, Pep Guardiola olha para os seus com um plus de confiança. Os processos estão assimilados, os jogos são controlados do primeiro ao último minuto e decididos, quase sempre, na primeira meia hora.
O Barcelona de Guardiola goleia porque quer golear. E isso parece evidente mas no futebol não o é, definitivamente. A maioria das equipas procura vencer e quando tem uma margem confortável, abranda o ritmo. Poupa as pernas, tranquilaza a respiração e gere os tempos. Este Barça é uma equipa que não sabe parar. Tem uma ansiedade absoluta em defenir o resultado no inicio do jogo porque sabe que é quando está em melhores condições fisicas para o fazer. Um 3-0 à meia hora de jogo é, muito dificilmente, reversível. E esse colchão permite depois abordar o jogo de outra forma. Dizer que os blaugrana só atacam é um erro, dizer que sabem como atacar não. Se as pernas de Messi, Pedro, Villa e companhia funcionam a todo o gás durante o primeiro tempo, depois a equipa faz com que seja a bola a funcionar no restante tempo de jogo. O Barcelona é tão boa equipa de ataque continuado como de contra-golpe. Joga com o campo aberto ao máximo, joga nos espaços abertos entre linhas e joga, sobretudo, com a psique do rival. Entrar a matar desde o inicio, procurar o golo imediato, retira o efeito de reação, destroi qualquer plano de organização e desmoraliza. Depois de meter o segundo ou terceiro golo uma equipa sabe que tem duas opções e o Barcelona sabe que a sua preferida, continuar a atacar, se vê facilitada porque o adversário está destruida psicologicamente por muito bem que se mantenha o fisico. Nessa gestão de tempo Guardiola não precisa de rotar. Usa Afellay, Keita, Mascherano, Bojan, Maxwell ou Thiago pontualmente mas nunca abdica, nem nos jogos mais pequenos, da estrutura principal. Porque são os que têm a licção melhor aprendida. Porque são os que inspiram mais medo ao rival (e isso conta tanto neste projecto guardioliano) e, sobretudo, porque são os que melhor sabem controlar os tempos de jogo. Messi hoje corre quando é necessário e a sua eficácia é tremenda. O mesmo se aplica a Villa e Pedro. O Barcelona marca muito mas, sobretudo, marca na maioria das ocasiões que tem. E isso é saber gerir um jogo de 90 minutos. E uma época de nove meses.
Ao lado da Castellana vive-se a situação oposta. O Real Madrid está de rastos e a época ainda vai a meio.
Os adeptos estão com Mourinho até ao fim mas muitos jornalistas foram escrevendo artigos queixando-se do que o técnico não fazia rotações e que a equipa podia sofrer, tarde ou cedo, o que em Madrid se conhece como "sindrome Queiroz". Em 2003/2004, com o português no banco, os merengues fizeram uma primeira volta excepcional mas ficaram sem oxigénio para a segunda e perderam com o Monaco na Champions League e a La Liga para o Valencia. O português contava com uma equipa ilustre mas não tinha banco, o mesmo que passa agora com Mourinho.
Olhar para os suplentes do Madrid pode deixar algum com uma depressão. Jogadores de nível médio como os Diarra, Granero, Albiol, Arbeloa, Gago, Leon e jovens como Canales, Mateos e Morata são as opções que o técnico tem para dar a volta a um jogo problemático ou rodar em encontros menos importantes. Depois há Kaká, a meio gás, e Benzema, única opção ofensiva desde a lesão de Higuain. Sempre que Mourinho cedeu, o Madrid desiludiu. Foi assim com o Murcia, o Levante, o Atlético, o Almeria...os suplentes não cumprem a mesma missão que as alternativas de Guardiola e a equipa ressente-se sem a descrição de Xabi Alonso, a velocidade de Di Maria, o regate de Ozil e a liderança de Ronaldo.
Mas o problema não é tanto o homem, mas sim o método. Este Real Madrid não tem um processo de jogo assimilado na equipa titular, quanto mais na equipa suplente ou nos jovens da filial. Ao contrário do Barcelona, que pode recrutar um jogador nos juvenis e ele sabe a sua posição e o seu trabalho na equipa principal, os merengues são uma jangada no oceano e andam ao sabor das ondas. Ora jogam em 4-2-3-1, ora em 4-5-1, ora em 4-6-0 ou, como nos últimos jogos (e ensaindo já os duelos com o Barça) em 4-3-3 com três jogadores de destruição no miolo.
Um problema que se adensa quando entendemos que o jogo do Real Madrid, electrico como seja, se baseia no erro do rival. O Barcelona joga igual, independentemente de contra quem seja, e é fiel ao seu estilo. Tanto o Bétis como o Almeria como o Madrid sofreram-na na pele em forma de cinco golos. Os da capital adequam-se a cada rival e jogam, essencialmente, na expectativa. E isso implica um jogo de maior desgaste.
O trabalho de meio-campo no Madrid resume-se a destruir e lançar o contra-golpe, para puxar as pernas dos laterais e extremos diante da defesa rival. O ataque está num constante estado acordiónico, recuando para fechar espaços para depois soltar-se em ataques viperinos. Sem descanso, a bola não rola, o que rola, e de forma sucessiva, são as pernas dos jogadores. E isso tem um limite. Ao contrário do Barcelona que abre o campo em largura mas encolhe ao máximo as linhas e com isso o desgaste, fazendo da bola a protagonista do seu jogo, o Real Madrid gosta de jogar com o campo na sua máxima largura e comprimento fazendo dos espaços, e não da bola, a alma do seu jogo.
O método de Mourinho é conhecido e a tradição do Barcelona também. Aí não há qualquer novidade. Se o método de um é tão válido como outro a verdade é que a diferença está na especificidade da liga espanhola. Qual campeonato escocês, Espanha deixou de ser uma liga aberta e vive num asfixiante duopólio. Mourinho, e os teóricos do futebol de transição e pressão, sabem que em provas longas as suas equipas vivem de altos e baixos. Quando os rivais sofrem também contratempos as condições ajustam-se. FC Porto, Chelsea e Inter perderam jogos no seu campeonato sem que isso colocasse em dúvida a sua superioridade porque os rivais também perdiam. Mas em Espanha o Barcelona não perde. Não porque é uma equipa perfeita, mas porque o fosso qualitativo entre os blaugranas (e merengues) é imenso com respeito ao resto do pelotão. E como o Barça não tropeça, o Madrid vive em constante tensão para não perder o comboio. Uma liga disputada nos duelos directos (como sucedeu nas últimas duas épocas) não permite respiro. E este Madrid precisa de oxigénio, particularmente porque a luta com o seu rival se estende à Taça (que os merengues não optam há quase duas décadas) e à Champions. Com o Barcelona ao seu ritmo, sem rival à altura e com fôlego para muito mais, o Real Madrid vive à beira do abismo. Precisa de aprender a gerir os seus tempos sem que isso signifique uma perda competitiva, como sucedeu em Almeria. E para isso precisa da bola. E artesões que a saibam manejar. Mas o seu plantel é um plantel virado para a velocidade. Por isso tanto desespero com o 9 goleador. Enquanto uns procuram jogadores que pensem o jogo, Mourinho sabe que a sua equipa não se adaptaria a um futebol pensado mas que benificiará muito de um killer que resolva quando as pernas comecem a falhar. Adebayor tem essa missão espinhosa em Madrid. Afellay terá tempo de sobra para fazer circular a bola em Barcelona. Duas visões diferentes de gerir, mais do que um jogo, uma temporada que promete ser muito longa.

