Há poucos estádios com tanto simbolismo e força interior que tenham sobrevivo à era da modernização do futebol moderno. Muitos deles desapareceram, outros estão em via de o fazer. E outros foram de tal forma alterados que perderam grande parte da sua essência. Cada pedra derrubada é um soco surdo na alma do beautiful game. Ontem o futebol ficou mais pobre. O Ali Semi Yen fechou as portas, de vez. O dinheiro ganhou. O Inferno turco é mais uma miragem do passado.
Se os adeptos turcos são internacionalmente reconhecidos pelo seu fanatismo - que chega a extremos impensáveis no resto do velho continente - há dentro da classificação dos fãs turcos dois niveis: os adeptos do Galatasaray...e todos os outros.
O clube do povo, o clube mais popular e europeizado da cidade que faz a ponte entre Ásia e Europa, domina todos os rankings possiveis e imaginários de fanatismo, superando mesmo os rivais locais do Bessiktas e Fenerbache, dois clubes exemplares na sua devoção ao jogo. Dentro dessa matéria prima que faz do adepto do "Gala" uma figura à parte está, esteve e acabará sempre por estar, a sombra do estádio mitico que define, também ele, o futebol turco.
Há quem se lembre das históricas vitórias contra Manchester United e Leeds United, em épocas distintas e contra duas massas adeptas igualmente fanáticas, para testemunhar o poder do Ali Semi Yen na dinamica desportiva que rodeia o clube vermelho e amarelo de Istambul. A vitória do Galatasaray em 1994 contra o Man Utd de Cantona e companhia lançou, definitivamente, o clube turco para a elite europeia. Já nos anos 80 o Galatasaray tinha ameaçado (incluindo uma meia-final da Taça dos Campeões perdida com o Steaua Bucaresti) mas a década de 90 revelou ser a sua era dourada. Seis anos depois, de novo contra exércitos da velha Britania, o poder do Ali Semi voltou a ser determinante na eliminatória contra o Leeds United na Taça UEFA de 2001. Os turcos venceram e rumaram à final - derrotando outro conjunto inglês, o Arsenal - mas o titulo ficou manchado igualmente pelas cenas de violência entre ingleses e turcos que terminaram com a morte de um adepto dos Whites. A fama de estádio violento ficou, mas há muito mais por detrás das históricas bancadas que ontem se despediram definitivamente da história do futebol europeu.
O Galatasaray venceu por 3-1 no último jogo "em casa". E até começou a perder. Mas poucos realmente estavam preocupados com o resultado. Era o simbolismo que contava.
O histórico recinto encheu-se pela última vez para um longo e triste adeus de 90 minutos. O novo estádio - tal como sucede com Bessiktas e Fenerbache - significa uma forte aposta dos grandes clubes turcos na renovação das principais infra-estruturas do país com vista a uma maior rentabilidade desportiva. E a hipotética organização de um grande evento europeu, para lá da final da Champions League albergada pelo renovado Ataturk em 2005. Para aumentar a capacidade (o histórico Sami Yen só contava com 20 mil lugares) e os rendimentos, o clube escolheu um local na periferia que pouco tem a ver com a imagem de clube cêntrico e cosmopolita que acompanhou o Galatasaray durante toda a sua história. Um amigável contra o Ajax (outro clube que apostou forte a principios dos anos 90 nessa mutação) no próximo sábado abre as portas ao futebol do recém-criado Türk Telekom Arena. E assim terminarão as longas filas para entrar, o ambiente frenético nas horas prévias, os espectadores com os filhos ao colo que muitas vezes aumentavam em milhares as almas presentes durante o jogo e, acima de tudo, o ambiente infernal que durava do primeiro ao último segundo e que tantas vezes salvou o clube da derrota e o empolgou para uma vitória improvável.
Desportivamente o clube agora orientado por George Hagi não vive os seus melhores dias, à sombra dos rivais locais e da irrupção do modesto Bursaspor. Mudar de casa significa um investimento significativo que a direcção quer aproveitar para relançar a única equipa turca que até hoje conta com uma competição europeia nas suas vitrines. Já lá vai uma longa década. Poucos se importam que o estádio tenha sido inaugurado com uma tragédia incluida. Era o centro nevrálgico do futebol turco. Até agora. Será mais um shopping, mais um templo consumista onde ninguém se lembrará dos últimos golos de Arda Turan, Kazim-Kazim Richars e Çervit. E de todos os outros gritos ecoados no passado.
Os adeptos puderam levar uma recordação em forma de cadeira com uma inscrição simbólica. Mas são as memórias que farão com que o recinto permaneça forçosamente na história do futebol mundial. Como em tantos outros casos em que o progresso e o aspecto comercial levaram avante à memória desportiva, o adeus é inevitável. A memória, inesquecível.

