Quando Espanha se dividia, lambendo os beiços como um gato contente depois de ter apanhado a presa, o rato Messi passou pelo meio e subiu ao palco para reclamar o seu segundo Ballon D´Or de forma consecutiva. Foi o triunfo do novo modelo da FIFA, onde todos são iguais. A revista France Football perdeu a grande importância que tinha e viu-se relegado a um terceiro plano. Triunfou o atleta que só superou a concorrência nas listas dos países de Terceiro Mundo. O futebol universaliza-se e a Europa dos seleccionadores e capitães (Xavi) e dos jornalistas (Sneijder) viu-se superada pelo mediatismo de um rato atómico e imparável.
Em ano de Mundial ganha um campeão do Mundo? Num ano valoriza-se a trajectória mais completa a nivel internacional? Não.
No novo prémio FIFA Ballon D´Or ficou claro que os principais critérios para ganhar os esquecidos Ballon D´Or e FIFA Award foram deixados de parte. Votam capitães, seleccionadores e jornalistas de todos os países, por partes iguais. No final mistura-se e elege-se um ganhador. Como se fosse tudo a mesma coisa. E não é, bem se sabe.
Messi, um génio superlativo nisto que se chama futebol, já tinha vencido em 2009 graças ao mediatismo que acompanha a sua figura de rato dandy que passeia pelos relvados sem pedir licença. No ano de Xavi Hernandez, maestro de batuta da melhor versão do Pep Team, o argentino superou o seu colega e o seu rival número um, o português Cristiano Ronaldo (sexto este ano com 4% dos votos, espelho do seu grande mediatismo internacional). O Mundo aplaudiu e depois do Mundial da África do Sul (e da semi-final perdida contra o Inter) pensou que demoraria um par de anos mais a ver o pequeno argentino com o troféu nas mãos. Mas, hellás, a bola dá muitas voltas e acaba sempre no pé de Messi. Partia como o menor dos favoritos mas com o maior dos pedigrees. E, muito honestamente, na Antigua, Ilhas Virgens Inglesas e Laos isso conta mais que os critérios futebolisticos ou a soma dos resultados de provas em que essas nações nem sequer participam. O resto do Mundo ignorou a Champions League (até José Mourinho ganhou porque, dos três técnicos, é ele o mais mediático e fê-lo sobretudo, com os votos dos jogadores) e passou ao lado de um Mundial que não encantou ninguém e onde não houve uma figura individual consensual. Ficou-se pelas figuras. Por isso Cristiano Ronaldo está à frente de Bastian Schweinsteiger, Thomas Muller, Arjen Robben, Samuel Etoo, Diego Milito ou Iker Casillas. E por isso ganhou Messi. Porque é o atleta mais conhecido do Mundo, onde quer que seja esse Mundo. Se para os jornalistas o argentino nem no top 3 merecia estar (um distante quarto atrás de Xavi, Iniesta e Sneijder, que seria o justo ganhador), basta olhar para os votos dos capitães e seleccionadores das grandes potências futebolisticas para perceber que a notável época do argentino não lhe serviria de muito. Aí, com excepção dos votos brasileiros (uma surpresa), Xavi prevaleceu sobre os demais enquanto que Iniesta foi um regular segundo, o que lhe permitiu superar o seu colega de equipa e selecção na votação total. A divisão de voto (42%) em oito jogadores espanhóis explica também o sucesso de um atleta sem rival no seu continente e no mercado internacional, que conhece mais depressa os méritos do 10 do Barça do que o futebol que brota dos pés de alemães, holandeses e até espanhóis ainda anónimos para tantos e tantos por esse mundo fora. O terceiro Mundo que glorificou Pelé e Maradona, heróis seus, por encima das glórias europeias, prepara-se para fazê-lo uma vez mais com o argentino de apenas 23 anos. O mesmo percurso, a mesma base de apoio, o mesmo destino?
Ficou a nota dominante para o futuro num prémio que já não é um selo de qualidade garantizada. Nunca o foi totalmente, mas os critérios tinham uma certa coerência. Pouco se percebeu o triunfo de Schevchenko em 2004 sobre Deco, com uma época similar à de Sneijder, mas estava claro que a vitória italiana em 2006 iria permitir a um azzurro (no caso Cannavaro) subir ao pódio. Se o critério da publicação francesa que inventou o trofeu em 1957 para responder ao seu rival, L´Equipe e a sua Taça dos Campeões Europeus, tivesse permanecido vigente, Wesley Sneijder seria o vencedor. Cumprindo com o critério histórico de feitos logrados num ano civil. E aí ninguém chegou sequer perto do rendimento do espanhol.
Mas agora isso conta muito pouco, de tal forma que os votos dos jornalistas (os que se lembraram de Muller, Schweinsteiger, Robben, Fórlan por diante de Messi) pesaram muito pouco na votação final porque se dispersaram entre vários atletas. O voto dos seleccionadores concentrou-se num lote reduzido e assim será sempre, emulando o FIFA Award que, desde 1990, sempre preferiu o mediático ao lógico. Mas foram os capitães que acabaram por alinhar todos do mesmo lado, desiquilibrando uma balança que pendia, claramente, para o lado europeu.
Não ajuda também que estes prémios sejam, sobretudo, jogos politicos. Thomas Vermaleen, capitão belga, elegeu o seu colega espanhol Cesc Fabregas como o melhor do ano. O seleccionador do Chade preferiu Asamoah Gyan, jogador do continente, enquanto que os holandeses, seleccionador e capitão, tiveram votos nulos por não poder votar em Sneijder ou Robben. Pelo meio encontram-se vários casos de escolhas pouco transparentes que entorpecem a imagem de um trofeu que já valeu mais do que realmente vale hoje em dia.
Supondo que o mediatismo triunfou definitivamente é expectavel prever que os próximos anos sejam um mano a mano entre o argentino e o português com algum rival pontual pelo meio. E que Messi (ou Ronaldo) supere o recorde de três troféu, o máximo com que contam van Basten, Platini e Cruyff. O futebol ao globalizar os prémios individuais reduz ao máximo o lote de premiáveis ao que é reconhecível. Contradições do mundo recriado pela FIFA.
Na eleição ao técnico do ano, pela primeira vez um galardão que há muito fazia sentido, tem um peso simbólico imenso que o vencedor seja o treinador mais marcante da última década futebolistica. Mourinho venceu pelo ano perfeito mas, também, porque é o mais mediático dos Managers. E, sobretudo, com o voto dos jogadores que vêm nele o técnico perfeito. Os seleccionadores preferiram o seu parceiro de andanças, Del Bosque, e os jornalistas o seu azote, Mourinho. O inventor da maravilha que é o Barcelona moderno não convenceu ninguém. Ironias das ironias, o espelho mediático que enche regularmente de elogios o Pep Team voltou-se, neste caso, contra o seu próprio criador. Ironias da vida...

