O Liverpool não é campeão inglês há 21 anos. Sim, tanto tempo. Kenny Dalglish não é campeão inglês há 15. Sim, tanto tempo. Mas a história de uns e outro está de tal forma ligada que não há, provavelmente, nenhum nome vivo tão adorado pela Kop como o do mago escocês que, de vermelho ao peito, venceu tudo o que havia para vencer. De pé, no relvado. Sentado, no banco que pertenceu durante 20 anos ao "Boot Room" e que a que só ele soube dar continuação. Uma história de amor eterno que conhece um novo e inesperado capitulo. Pode o filho pródigo ressuscitar o pai moribundo?
É bastante provável que Kenny Dalglish seja o melhor jogador da história do Liverpool.
Melhor que Keegan, Toshack, Hughes, Barnes, Souness, Hanssen, Owen, Gerrard, Torres...? Sim, provavelmente, nunca houve uma simbiose tão perfeita entre um jogador e um clube em terras de sua Majestade como esse amor eterno de um escocês que chegou num Verão quente para substituir uma estrela em ascensão (Keegan) e que acabaria por se tornar no simbolo de uma era. Agora, 20 anos depois, Dalglish está de regresso a Anfield. E com uma missão aparentemente impossível: demonstrar aos donos do clube que ele é o homem certo para emular um feito que assinou há precisamente duas décadas: devolver os Reds ao panteão dos campeões.
O último treinador campeão saiu cedo demais de um estádio que o glorificava como poucos. Eram dias dificeis. A tragédia de Heysel Park provocou um ostracismo injustificado para com os campeões ingleses. Os adeptos de Steaua e PSV sabem bem que os seus titulos europeus se devem, em grande parte, à ausência da equipa que então reinava no futebol europeu das provas da UEFA. Durante esse hiato, Dalglish tomou o controlo do clube. A retirada precoce de Joe Fagan significou o fim do Boot Room iniciado por Shankley e continuado por Paisley. O então jogador, já no final da sua carreira, aceitou o desafio da direcção e tornou-se treinador-jogador daquela que era possivelmente, a mais forte equipa do futebol mundial. E fê-lo nos bancos com o mesmo sucesso que demonstrou no terreno de jogo. Ganhando. E assim esteve meia década, aprimorando uma equipa que conhecia demasiado bem. Até Fevereiro de 1991. Um ataque de stress e Dalglish anuncia a sua retirada do futebol. Deixou o Liverpool só, na frente da First Division, mas o titulo seria eventualmente perdido. E o técnico acabaria por reconsiderar, tomando controlo do recém-promovido Blackburn Rovers. Quatro anos depois tornou-se no terceiro técnico a vencer a Liga Inglesa com dois clubes diferentes. Era parte da história. Mas o sucesso ficou-se por aí.
Depois de passar sem sucesso por Newcastle e Celtic, o seu outro clube do coração, o eterno dianteiro voltou a casa como conselheiro da direcção dos Reds em 2009.
Propôs-se a si mesmo para liderar o novo projecto na era pós-Benitez mas acabou por ser colocado de lado. A direcção preferiu Roy Hogdson. Sem sucesso. Na véspera do duelo com o eterno rival, o clube que em vinte anos recuperou o atraso perdido e igualou o Liverpool em titulos, o anterior técnico do Fulham recebeu guia de marcha. E Dalglish um bilhete na primeira fila. Até ao final do ano.
Em Liverpool sabe-se que Dalglish é apenas uma opção de emergência. Sem taças para vencer, com a Liga longe demais, pouco pode o técnico fazer para convencer a equipa directiva a dar-lhe uma nova oportunidade. Relembrar os dias de glória do primeiro Double da história do clube não toca no coração dos donos americanos, apesar de comocionar sempre uma Kop nostálgico pelos grandes dias do passado. O técnico terá o dificil trabalhar de obter resultados imediatos enquanto revive nos adeptos e, principalmente, nos jogadores, o espirito do Boot Room que tão bem soube transmitir em 1985.
Brilhante analista de mercado (as compras que trouxe para o Liverpool - Beardsley, Aldrige, Barnes, Houghton, Walsh - e Blackburn - Shearer, Sutton, Flowers e Batty), apoiante do futebol de formação (lançou Redknapp, McManaman e companhia) e um virtuoso técnico de ataque, o escocês conseguiu como jogador e treinador superar sempre a sombra que o perseguia. Não é por acaso que nas devotas bancadas do Merseyside, ele é ainda o King Kenny de sempre. Pronto para mais um reinado, por muito curto que seja, com a esperança de devolver o maior clube inglês ao lugar mais alto do panteão. Mas sem dinheiro, sem confiança e sem tempo, a tarefa parece hérculea.
Os mais nostálgicos lembram-se do homem que venceu três Taças dos Campeões europeus, duas Intercontinentais, um sem fim de ligas e taças domésticas e que bailava sobre o relvado com uma classe nunca vista. Voltar a ver o mesmo rosto sério, a lembrar os ares de galã de Robert Redford, no banco de Anfield é um verdadeiro sopro de melancolia. O filho pródigo está de volta. Resta saber se é um olá um adeus tão longo como o que resta de temporada...

