Sábado, 8 de Janeiro de 2011

O futebol europeu arrancou durante os anos 90 debaixo de um imenso feitiço de sedução. Chamaram-lhe Dream Team em homenagem à equipa norte-americana de basket que ali se coroou no inesquecível verão de 92. Meses em que era impossível passar um dia sem se ouvir ecoar na memória a palavra Barcelona. Mas o mito de Cruyff, a lenda que se seguiu, tem, como toda a épica lendária, uma forçosa reflexão a ser feita, capaz de quebrar uma mitologia consensual e enganadora.

 

 

 

Naquela quente noite de Atenas o Dream Team morreu. Desmoronou-se em mil pedaços. Perdeu toda a essência.

E ficou a nu toda a debilidade de uma equipa que durante quatro anos se tornou a inveja do Mundo. Da mesma maneira que ascendeu ao Olimpo, caiu pela montanha rasgada do Partenon. O conceito perduraria, a imprensa europeia trataria disso, e hoje o Pep Team procura resgatar a respeitabilidade que significa ser herdeiro de Cruyff e companhia. Mas que herança é essa? Como nasceu essa ideia de perfeição chamada "Dream Team"?

Para muitos está nos titulos. Quatro ligas consecutivas (histórico no que ao Barcelona diz respeito), a primeira Champions League da história (tão pouco para um clube tão grande) e vários titulos domésticos ganhos aos rivais de Madrid. Para outros era o modelo de jogo. Esse espirito ousado de atacar sem olhar a consequência, esse jogo de toque e resposta, rápido, eficaz e certeiro. Esse amor pelo risco que destoava totalmente do espirito conservador de um mundo futebolistico acabado de sair do traumático Itália 90. E haverá sempre quem aponte o dedo às pessoas. Ao "visionário" Johan Cruyff, esteta como técnico como era como jogador, ao seu fiel escudeiro Rexach, portador do espirito catalão, ou à tropa de artistas encarregados de pintar a obra: Stoichkov, Romário, Laudrup, Salinas, Zubizarreta, Bakero, Alexanko, Eusebio, Beguiristain, Nadal, Ferrer, Sergi e Guardiola, sobretudo, Pep Guardiola.

Esses condimentos estavam lá, foram reais e únicos. O Barcelona foi, de facto, a equipa que mais belo futebol praticou entre 1990 e 1995 no continente europeu. Um futebol atractivo para o público televisivo que começava a tomar contacto com novas realidades e maior exigência. Era a resposta ao dominio sufocante do Real Madrid em Espanha e da Serie A na Europa numa era em que a Premier League, a recuperar do trauma de Heysel, dava ainda os seus primeiros passos. Era uma equipa com uma táctica diferente, uma camisola diferente e um ritmo de jogo endiabrado. A lenda, como diria John Ford, faria o resto e suplantaria a realidade.

 

Verdadeiramente o Dream Team era um projecto repleto de importantes falhas que foram escondidas habilmente durante quase vinte anos.

Olhando para trás no tempo é dificil acreditar que há ainda quem pense naquele como o melhor Barcelona da história. Não só pelos logros actuais do Pep Team, uma versão actualizada e aprimorada do conceito cruyffiano, bastante mais coerente e perfeccionista. Mas sobretudo pela mágica geração de 50 que os catalães aprenderam a esquecer quando surgiu Di Stefano vestido de branco. O conjunto que Cruyff orientou durante quase uma década teve o seu momento mais alto na noite de 20 de Maio em Wembley. Mas mesmo essa noite, a da consagração, explica muito dos fantasmas que rodeiam o adorado conjunto culé.

Cruyff era um excelente jogador, o melhor talvez no seu posto, e como técnico tornou-se numa das figuras mais consensuais e sobrevalorizadas da história recente do futebol europeu. Chegou a um Barcelona em crise, devastado por mais um tropeço europeu com Terry Venables e em combustão interna entre os jogadores e a direcção do autoritário Josep Luis Nuñez. Ao contrário do que se pensa não havia praticamente catalães naquela equipa. E os que havia eram maus demais para aguentar. O holandês, que como jogador tinha feito história durante um ano (e vivido à sombra dela nos seguintes), exigiu investimentos. Trouxe os melhores (excepto os que militavam no eterno rival de Madrid) e perdeu três anos a moldar um sistema de jogo original. Um 3-4-3 elástico, que apostava nas transições rápidas e no futebol de toque curto e asfixiante até inebriar o rival. E levá-lo a ceder. O truque estava no trabalho de meio-campo que devia suportar uma defesa mais débil e um ataque com mais liberdades do habitual num futebol cada vez mais rigidio e organizado. Com essa ideia, os médios deveriam, tal como na Holanda de 74, surgir muitas vezes como os finalizadores. Para isso era determinante que fossem jogadores de alto nível. O técnico contratou José Maria Bakero, Michael Laudrup e lançou para a ribalta um escanzelado Josep Guardiola, a quem juntou o outro catalão de serviço, Guillermo Amor. Os quatro eram a medular de uma equipa que aproveitava a visão de jogo de Guardiola para apostar igualmente em laterais ofensivos (Ferrer e Sergi), recuando o centro-campista no apoio directo a Miguel Angel Nadal, único central inicialmente. Rapidamente acompanhado por Ronald Koeman e Andoni Zubizarreta (outras apostas pessoais do técnico), o sector defensivo passou a ser o primeiro elemento de apoio ofensivo, onde brilhavam Stoichkov, Beguiristain e Salinas. O último acabou por pagar cara a sua indolência e falta de mobilidade sendo substituido por outra compra milionária, o brasileiro Romário.


Esse Dream Team desmentiu a origem do conceito de jogo da Masia, tão defendido (e tão real) hoje em dia por uma verdadeira constelação de compras anuais que iam melhorando, a olhos vistos, a equipa. Nos dois primeiros anos o Barcelona venceu apenas uma Copa del Rey, ficando a anos-luz de Madrid e Atlético e uma Taça das Taças, em 1989, frente à Sampdoria. Mas dois anos depois, numa nova final da Taça das Taças e contra outro projecto a dar o seu arranque, o Manchester United de Ferguson, a equipa espanhola não aguentou o ritmo inglês. A ideia ousada de Cruyff era falivel. Mas faltavam nessa noite algumas das peças chave dos sucessos posteriores.

 

De 1991 a 1994 a história é de sucesso. Mas com interrogações.

O Barcelona venceu quatro ligas consecutivas mas ao contrário da primeira época, onde o dominio foi absoluto, as restantes foram autenticos sufocos, ganhos no último suspiro. Duas contra o Real Madrid, no mesmo cenário, Tenerife. Em ambos os casos os merengues lideravam a classificação. Em ambas as tardes perderam diante do conjunto canário oferecendo de bandeja os titulos à equipa de Cruyff. O quarto caso foi ainda mais dramático. O Deportivo la Coruña liderou quase durante toda a época e na jornada final precisava apenas de um empate frente ao Valencia. Perdia por 1-0 quando, no último minuto, um penalty colocou tudo em suspenso. Bebeto, o marcador habitual, escondeu-se da responsabilidade e o central Djukic rematou sem alma, falhando. O Barça ganhou ao Sevilla e conquistou o Tetra. Sem entender bem como, uma vez mais.

Pelo meio ficavam as sensações mixtas de uma equipa capaz de vencer por 5-0 no Bernabeu e depois perder por 6-0 diante de um Logroñes. Altamente irregular, o conjunto de Cruyff tinha um problema de esquizofrenia táctica. Uma defesa demasiado débil (que levou muitas vezes o técnico a apostar num 4-3-3, base do modelo actual de Guardiola), um ataque que tinha tardes de desesperante ineficácia e, acima de tudo, um problema com os estrangeiros. Numa época em que só podiam jogar três, a equipa contava com quatro jogadores de classe Mundial. O holandês fez de Koeman e Romário as peças chave e foi alternando entre Stoichkov e Laudrup. O dinamarquês, peça desiquilibrante no miolo, saiu desgostado. Para liderar a revolta merengue. Antes tinha sido o farol da grande noite europeia frente à Sampdoria, equipa que dominou grande parte do jogo mas não conseguiu marcar. Uma vez mais a sorte protegeu os culés, depois do golo épico de Bakero frente ao Kaiserlautern, que evitou uma precoce eliminação meses antes. A mesma sorte não teve o conjunto blaugrana nas outras duas edições do torneio. Em 1993 a equipa nem chegou à fase de grupos, eliminada pelo CSKA Moscow nos Oitavos de Final. Foi o culminar de um ano negro depois do festival futebolistico aplicado pelo São Paulo de Raí numa histórica final da Taça Intercontinental. Um ano depois, em 1994, os culés voltariam à final. Foi aquela noite de 18 de Maio. Aqueles quatro golos deixaram a nu todos os aspectos negativos do conjunto blaugrana. A fragilidade defensiva com as bolas nas costas da defesa, a inoperância ofensiva, a ausência de um criativo, o sacrificio de Guardiola e, sobretudo, a incapacidade de Cruyff, que nunca soube reagir à teia de Capello. Foi o fim. A alcunha ficou, o prestigio também, a admiração não se esmoreceu. Mas os factos eram claros.

 

 

 

No ano seguinte Laudrup, o despeitado, liderou a revolta do Real Madrid com 5-0 incluido no pacote. Na Europa o conjunto catalão repetiu, pela enésima vez, erros do passado. Superado no Grupo pelo IFK Goteborg, o Barça sofreu a humilhação de cair nos Quartos frente ao PSG francês. O ano seguinte, já sem estrelas, foi mais negro ainda e o holandês foi despedido e anunciou a sua posterior retirada passando a viver da honra e glória perdida. Tacticamente pouco inovador, o conceito de Cruyff era apenas uma variação da táctica criada nos anos 70 por Michels. Aprimorada por Guardiola (que aprendeu muito daquela noite em Atenas), a filosofia do "Futebol Total" continua a ser o santo e senha no Camp Nou. Mas se o mito consolidou o Dream Team como a equipa perfeita, a verdade é que o espelho apresenta muitos riscos e falhas para não passar por um subtil engano. A grandeza da lenda está, precisamente, na forma proporcional como se afasta da realidade. Aquele Dream Team era mágico. Tão mágico como frágil. Como todos os castelos de cartas, acabou por cair.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 11:58 | link do post | comentar

2 comentários:
De Pudget a 8 de Janeiro de 2011 às 18:46
Comecei a ler o a rtigo e de repente dei por mim a perguntar o que já perguntei vezes sem conta quando leio este blogue, mas como é possível escrever-se tão bem sobre um tema tão banal como o futebol? A par do Jogo Directo, este blogue é daqueles que para mim em Português e ao nível do futebol, estão totalmente acima da média e são líderes. Parabéns. Até acho que vou ler o post uma vez mais de tão bom que está.


De Miguel Lourenço Pereira a 8 de Janeiro de 2011 às 19:13
Pudget,

Quando se lê um comentário assim não há nada a dizer senão um imenso obrigado pelo apreço e pela vontade de aparecer por aqui para compartilhar esta paixão mútua que é o futebol.

Obrigado pelas visitas, pelos comentários, pelos elogios, por tudo... ;-)

grande abraço


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