Talvez tenha sido o maior guarda-redes da história. Talvez tenha regressado do mundo dos mortos. Mas a mágica carreira de Ricardo Zamora, a primeira grande estrela mediática do futebol europeu, é um constante deambular entre o sol e a penumbra, o claro e o escuro. Simbolo do mágico Barcelona dos anos 20, soube trair por três vezes "a causa" e acabou por cair na hábil teia de Franco para se tornar num dos simbolos do novo regime.
Conta Philip Ball no seu imperdível Morbo: The Story of Spanish Football, que em 1936 a imprensa republicana noticiou que o histórico Ricardo Zamora, o homem que à época era mais popular em Espanha que Greta Garbo, tinha sido morto na fronteira por soldados falangistas quando procurava voltar de França, onde estava refugiado. Zamora era a maior figura do desporto espanhol, conhecido como El Divino, e a noticia era tão séria que os jornais falangistas rapidamente decidiram contrariar a informar e declarar o óbito como culpa das armadas comunistas que patrulhavam a zona basca. No meio de tanta confusão mediática apareceu Zamora, como quem regressa do mundo dos mortos. E por um segundo o país respirou de alívio.
Ricardo Zamora era assim, um bálsamo para um país que gostou sempre de conflitos, nem que fossem dialécticos. Foi a primeira grande estrela espanhola dentro e fora dos relvados. Uma verdadeira vedeta desportiva que encandilava com as suas defesas nos campos pelados de Les Corts como pelas suas passeatas a altas horas com Gardel nas Ramblas barcelonesas.
Filho de espanhóis numa Catalunha em fase ultra-nacionalista, tornou-se rapidamente na grande figura do recém-inaugurado estádio do FC Barcelona. Com Alcantara e Samitier constitui o primeiro grande trio histórico do futebol ibérico. O Barcelona viveu uma das suas décadas mágicas e a fama de Zamora era tal que fora de Espanha chegavam convites de toda a Europa para que o clube entrasse em digressões pelo velho continente, sempre e quando ele fosse titular. Mas ao contrário de muitos dos seus colegas - particularmente o pequeno Alcantara, o Messi da década 20 - não havia nada no sentimento catalão que começava a tomar controlo dos elementos directivos blaugranas que o atraísse. Era um homem da vida, um verdadeiro amante da boémia e a politica não lhe despertava o minimo interesse, especialmente se fosse uma politica nacionalista. Com Primo de Rivera no poder e com o nacionalismo catalão debaixo de fogo, Zamora "traiu" o Barça e atravessou a Diagonal rumo ao modesto Sarriá onde jogava o Español, clube fundado para espanhóis em Barcelona como contraposição ao nacionalismo do clube de Gamper. Ao serviço dos "blanquiazules", para os quais tinha jogado na sua juventude antes de rumar ao clube azulgrana, Zamora foi, uma vez mais, igual a si mesmo e continuou a ostentar o titulo de maior guarda-redes do Mundo, confirmado com várias exibições de gala com a camisola de Espanha, que chegou a capitanear para escândalo da Barcelona de então, nas Olimpiadas de Antuérpia de 1920 em que a Espanha logrou uma histórica medalha de prata.
Ao serviço do Español (assim escrito à espanhola, a versão catalão tem meia dúzia de anos) o portero fez alguns dos seus jogos mais deslumbrantes a ponto que o Real Madrid, então ainda longe de ser uma força suprema do futebol espanhol, não se incomodou com a já sua avançada idade e avançou para uma contratação milionária, a primeira do seu largo historial. 140 mil pesetas, 40 mil das quais directamente para o jogador, marcaram um primeiro recorde em Madrid. Na capital o guardião sentiu-se como peixe na água e começou a deixar transparecer os seus sentimentos pró-falangistas. Esteve até 1936 nas redes do velho Metropolitano. No último encontro da sua carreira, no derradeiro instante, travou sobre a linha de golo um remate de Escolá, dianteiro do Barcelona, para garantir o triunfo por 2-1 do Real Madrid sobre o seu histórico rival. Foi uma doce vingança pelas palavras criticas que ouvia regularmente sempre que voltava à Cidade Condal.
Acabada a carreira começa a guerra. Zamora foge para França, com o seu colega de andanças e traições Pep Samitier, e é capturado pelo exército republicano. Consegue escapar e chega a actuar no Nice durante dois anos até que volta a Espanha para capitanear num jogo não oficial o primeiro encontro da selecção falangista. Foi um reconhecimento internacional que os republicanos nunca perdoariam (eles que tinham, pela figura do presidente Alcalá Zamora, galardoado o guardião no fim da sua carreira com a Ordem de Mérito) e que Franco agradeceria profundamente. O Generalissimo dotou o guardião de todas as honras a partir dos anos 40 e a imprensa afecta ao regime começou a campanha de popularização da figura do guardião junto das novas gerações, com o guarda-redes a surgir em vários filmes com atletas do Real Madrid dos anos 40 (ele que tinha protagonizado já filmes nos anos 20). O recém-criado jornal Marca instituiu também o prémio Zamora para galardoar o melhor guardião espanhol de cada ano, como contraposição ao troféu Pichichi para o goleador de serviço da liga.
Tornado figura oficial do regime, Ricardo Zamora tentou brevemente uma carreira como técnico e foi mesmo apontado como seleccionador nacional em 1952 para surpresa geral. Mais um agradecimento do General Moscardó, então hábil ministro dos desportos de Franco. Depois dessa experiência voltou a Barcelona para ir caindo no anonimato geral do qual foi resgatado já após a Transicion democrática. Politicamente controverso, o talento inato de Zamora era tal que ainda hoje há que se aventure a considerar El Divino como o maior guardião de sempre. Pode ser que tenham razão...