Ganhar é a palavra chave no mundo do desporto. Ganhar tudo é a imagem de marca de homens únicos, capazes de adaptar-se às diferentes circunstâncias e obstáculos que se lhe cruzam pelo caminho. Num ano de multiplos personagens, a figura de José Mourinho ergue-se por cima de qualquer outro. Com o Internazionale fez história. Com o Real Madrid procura repetir a fórmula de sucesso que o tornou, nos últimos oito anos, no mais importante técnico da década. O ano de 2010 foi seu, indiscutivelmente.
A derrota por 5-0, a maior da sua carreira, manchou ligeiramente o impecável sobretudo que já faz parte da história do beautiful game.
Mas naquele jogo em Barcelona, apesar dos erros individuais dos jogadores e do seu próprio planteamento, Mourinho foi tudo aquilo que não foi durante os restante 364 dias do ano. E só por isso perdeu. Sem espinhas.
Mas esse pequeno detalhe não deixa esquecer técnico português viveu o ano mais dourado da sua carreira desportiva. Mais até que ao serviço do FC Porto, onde ganhou tudo o que havia para ganhar e ganhou o direito a sentir-se um "Special One". Mais até do que no seu mandato em Stanford Bridge, onde revolucionou o binómio da Premier League, mas que acabou por ficar sem a consagração no espectro europeu que lhe ofereceu a sua estância lombarda. Em Milão Mourinho repetiu o que logrou em Portugal e Inglaterra. Vencer, vencer e vencer. Tudo o que havia para ganhar. Depois de um primeiro ano de adaptação, onde se ficou pela Serie A, algo habitual num clube despojado de rivais à altura pelo Moggigate de 2006, em 2010 a sua marca ficou definitivamente impressa na história do clube, do Calcio e do futebol europeu.
Num clube habituado a gastar sem ter retorno, a viver da saudade dos tempos perdidos do mago Herrera, a sua estampa é a partir de agora santo e senha. Saiu em ombros, com as lágrimas do seu capitão e o sentimento de mulher traída do seu presidente. Naquela noite quente e abafada de Madrid, entrou na galeria dos eleitos. Duas Champions League por dois clubes diferentes a culminar um Triplete que só Ferguson e Guardiola lograram na última década. E se, tal como no FC Porto, a vitória na Champions significou um adeus - que o impediu de somar o sexteto de titulos logrados no passado ano pelo técnico do Barcelona - a chegada a Madrid tornou-se no mais irresistivel dos desafios. Senhor absoluto de Inglaterra, Itália e Portugal, falta-lhe Espanha no curriculum. A Espanha do seu mais odiado rival, do clube que continua a olhar para ele como um traductor, incapaz de perdoar o festival de eficácia defensiva frente a onze selvagens gladiadores no histórico duelo das meias-finais no Camp Nou (depois de uma imensa vitória em San Siro por 3-1 depois de ter estado a perder). A Espanha do clube mais titulado do Mundo, ferido de morte pelos elogios ao seu eterno rival. A Espanha que falta numa carreira imaculada e inimitável nos anais do jogo.
Nenhum técnico ganhou tanto como Mourinho em tão pouco tempo. Mais ainda se estamos a falar de um verdadeiro nómada que vive do desafio diário mais do que da comodidade de um projecto de longa duração. Se os romanticos têm tendência a admirar os longos reinados e reconstruções dos Busby, Shankly, Ferguson, Cruyff, Lobanovskys e Wengers, a verdade é que o futebol evoluiu sempre graças aos rebeldes técnicos que procuram sempre um novo laboratório para as suas ideias. Foi assim com Herrera, com Michels, com Capello, com Santana ou Clough. Nomes a que mais facilmente se pode associar o génio laborial de um técnico nascido em Setúbal mas que há muito é uma figura do Mundo.
Mourinho gosta dos underdogs, como a giria americana apelida àqueles em que poucos acreditam. Pegou num FC Porto desacreditado, depois de três anos de vazio e transformou o clube da Invicta em rei da Europa, algo inimaginável e inimitado desde então por qualquer clube fora das três grandes ligas europeias que somam, nos últimos 20 anos, 15 dos máximos titulos europeus. Escolheu Stanford Bridge porque o desafio de bater o dominio dos Invencibles de Wenger e os Ferguson Boys de Manchester era imenso para qualquer um (basta ver o que passou com Benitez, sempre empequenecido na sua comparação com Mou) e graças ao seu estilo de jogo fluido, atractivo e extremamente sólido, criou um clube dominador e asfixiante que é hoje a primeira potência britânica. Em Itália chegou a uma liga descaracterizada, longe das batalhas tácticas que a celebrizaram nos anos 90. Mas transformou o Internazionale de anão a gigante europeu, com uma equipa envelhecida e sem estrelas, sem nomes próprios capaz de ofuscar a sua figura de grande lider. Um desafio que repete agora em Madrid, onde exceptuando o carisma e caracter de Cristiano Ronaldo, lhe cabe recriar, pela quarta vez, uma nova versão da guarda pretoriana, disposta a tudo para mantê-lo no trono imperial. Mesmo se do outro lado, da estética Grécia, emerge um imenso Agamemnón (Guardiola) e um exército que é a paixão de todos os aficionados bélicos, onde deambula um herdeiro de Aquiles (Messi), um engenhoso Ulisses (Xavi) e um intrépido Ajax (Iniesta), que repartirão entre si o ouro da bola mais prestigiada do Mundo.
Mourinho já entrou para a história do jogo quando fez do FC Porto campeão europeu. A partir daí a sua lenda vai-se tornando maior e só quando a sua carreira chegue ao fim será possível apreciar na totalidade a imensidão do seu papel. Mestre dos jogos mediáticos, dominador absoluto de balneários, eximio no jogo táctico, Mourinho sabe que o futebol moderno acenta, sobretudo, no pragmatismo. Vencer dois jogos por 5-0 e perder outro significa ter menos pontos que três jogos ganhos a 1-0. Vencer a qualquer custo implica danos colaterais. O Inter - mais do que qualquer outro dos seus projectos - não estava feito para brilhar. O seu novo Real Madrid, tal como o seu Chelsea, começa a dar sinais de se transformar num relógio letal, que a cada badalada é capaz de disparar um tiro certeiro e matar o mais duro dos rivais. Vinte passes sem perder a bola faz os adeptos aplaudir de orgulho. Mas três toques e um golo levantam um estádio. Mourinho nasceu para levantar estádios mais do que para ser um profeta de consensos. Em 2010 levantou tudo por onde passou. O desafio é imenso. A história é infinita e ciclica. O seu ano é este, mas já foi outro e provavelmente voltá-lo-á a ser. São assim os deuses do futebol.
Post-Scriptum: Há quem imagine os 5-0 aplicados pelo Barcelona ao Real Madrid como o jogo do ano. Outros relembram o confronto entre Alemanha e Argentina no último Mundial, a final histórica da Champions League ou alguns duelos locais, como os 5-0 do FC Porto ao SL Benfica, o triunfo por goleada do Inter ao AC Milan ou a vitória expressiva do Liverpool diante do Manchester United. Mas provavelmente há anos que não se viveu um jogo tão asfixiante, apaixonante e único como o Arsenal vs Barcelona. A primeira metade do desafio dos Quartos de Final da última edição da Champions League foi a maior ode possível ao estilo de jogo edificado por Pep Guardiola. A segunda representou toda a classe e garra que encarna a Premier League. Um jogo para entrar nos anais da história como o perfeito exercicio futebolistico. Um verdadeiro producto vintage, irrepetível e que se ergue, diante de todos os outros, como o Jogo do Ano.

