Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010

Mão bem alta, dedos estirados, emoção até ao fim. Há muito tempo que a corrida ao ceptro de uma grande liga europeia não estava ao alcance de tantos e tão bons. O equilibrio dominante da prova ficou, na passada ronda, mais uma vez demonstrado. Num curto espaço pontual, e com meio torneio por diante, há cinco equipas com legitimas aspirações a suceder ao Chelsea. Cinco equipas, cinco sensações, cinco ritmos, cinco dedos. Uma mão cheia de emoções...

 

 

 

A mão enganadora de Zigic permitiu ao veteraníssimo Lee Boywer confundir, ainda mais, a tabela classificativa da mais excitante prova desportiva continental. A Premier League por ter perdido alguns dos seus melhores embaixadores, pode estar à beira de uma profunda crise financeira, mas continua a exibir todos os condimentos que fazem do futebol o verdadeiro ópio popular dos últimos 100 anos. O ex-internacional, membro da majestuosa equipa do Leeds United do inicio da década, deu uma estocada letal nas aspirações dos Red Devils em passar o ano como líderes solitários. Terão de partilhar, pela primeira vez desde 1968, a primazia com o seu vizinho e eterno rival. Morning Glory, som dos irmãos Gallagher, reconhecidos Citizens até à medula, soa com outro ar nas rádios de Manchester esta manhã. A velha ordem, o velho duopólio que nunca foi verdadeiramente um trio, volta a estar debaixo de suspeita. Novos ares sopram de terras de sua Majestade e no país das tradições, nada é o que parece. Esta Premier muito menos.

Cinco equipas estão actualmente separadas na tabela por pouco, muito pouco. A distância de um sonho, do concretizar de uma ideia. Do espirito romântico dos eternos loosers do Arsenal ao fausto histórico dos intocáveis guerreiros fergunianos do Man Utd, passando pelo novo-riquismo do City, do rei mal amado de Chelsea ou dos loucos piratas de Tottenham. Cinco estilos de jogo. Cinco politicas desportivas. Cinco projectos bem distintos. Todos com o mesmo objectivo, todos com o seu próprio percurso traçado para chegar até ao fim. Só em Inglaterra é possível atacar um titulo destoando da imensa maioria. Se em Espanha todos querem ser como Barcelona ou Real Madrid, em Inglaterra todos querem ser diferentes. E daí surge o elemento surpresa que por vezes tropeça na mão de um gigante sérvio, de uma bola de praia que salta para o relvado ou de um remate certeiro que entra mas sai antes do tempo. O futebol é uma caixinha de surpresas, principalmente na Old Albion.

 

O empate do Manchester United frente ao modesto Birmingham, confirma os piores receios. Lideres, os jogadores de Ferguson continuam com problemas graves em resolver jogos complicados. São os reis dos empates, mas são também aqueles que menos perdem. E com dois encontros em atraso, poderiam ser lider isolados com seis pontos. Ou talvez não, porque com esta equipa um jogo por disputar não é nunca sinónimo de jogo ganho. Há que esperar até ao fim, até ao milagre de Dimitar Berbatov, crescido face ao silêncio goleador de Rooney e à ausência de estrelas para lá do crescido Nani. Há que sofrer como nunca se sofreu num clube que é o mais parecido num futebol de plebe que pode haver com a realeza. O respeito venerável a Old Trafford já não é o mesmo, mas faz-se sentir.

Lado a lado com os rivais, o dinheiro. Se os mancunianos diabólicos continuam em crise financeira, os rivais celestes vivem com a carteira aberta e os milhões a voar. Não contentes com as milionárias compras dos últimos dois anos, os árabes do petróleo prometem mais balas certeiras para a metrelhadora de Roberto Mancini. O italiano pode ser criticado por tudo e por nada, até porque tem um plantel invejável para qualquer clube europeu, mas beneficiando dos tropeções dos rivais, o Man City está aí, na luta real por um titulo que lhe escapa há mais de 40 anos. Silva e Ballotelli foram as figuras da goleada a um Aston Villa que caiu, definitivamente, na metade da tabela, provavelmente para não de lá voltar, depois dos sinais esperançosos dos últimos anos. Falta regularidade aos citizens, falta a definição de um colectivo e de um modelo de jogo para transformar um grande plantel numa grande equipa. O material já lá está, falta que o arquitecto encontre a fórmula certa para erguer o palácio que os árabes querem construir no coração fabril britânico.

E se Manchester domina, por papel duplo, a tabela, a perseguição é da total responsabilidade dos clubes da capital. Depois de um arranque temivel, Carlo Ancelloti está a pagar o duplo preço da nova politica de Abramovich: contratar pouco e apostar na formação. O banco do Chelski, contra o Arsenal, era composto por juniores com grande potencial mas sem fleuma. Na enfermaria amontoam-se os casos de veteranos a quem as pernas já não respondem da mesma forma. Voltou Lampard, mas aos 32 anos já não é o mesmo. Nem ele, nem Drogba, nem Anelka, nem Terry, nem Cole. E sem alternativas imediatas, ao italiano parece que lhe vai suceder o mesmo que experenciou em Milão, um longo e profundo definhar de uma geração dourada. Por outro lado o Arsenal emerge, cada vez mais, como uma equipa estranhamente madura. Deixou-se dos clichés de juventude, venceu, pela primeira vez em dois anos, um rival directo pelo titulo, e fê-lo com inusitada frieza. Fabregas emerge, cada vez mais, como o lider da equipa, mas é o crescimento de Nasri, Song e Walcott que dá essa profundidade ofensiva que os gunners tinham perdido. De tal forma que nem se nota que Van Persie e Arshavin seguem sendo sombras de si mesmos e que a defesa continua a dar sinais de debilidade emocional. O killer-instinct sempre foi o que fez a diferença entre os projectos do poético Wenger e os seus rivais directos. O Chelsea era, estranhamente, uma presa fácil e os grandes duelos serão contra os clubes pequenos que jogam na raça e não estão para romanticismos. A mesma fórmula aí, e o titulo pode ser, seis anos depois, real.

Para fim fica uma equipa à parte, a grande sensação europeia, a par dos imensos Borussia Dortmund e Palermo neste ano europeu. Com dinheiro, finalmente, Harry Redknapp provou que é um técnico louco mas certeiro. Montou um onze ultra-ofensivo para o futebol contemporâneo, mais até que o do próprio Barcelona. Sofre bastante, mas quase sempre marca mais. Contar com Modric, Lennon, van der Vaart, Bale, Crouch e Defoe na frente é um luxo. Que Bassong, Dawson e Kaboul estejam em forma atrás, é a novidade. Um plantel altamente equilibrado, um técnico que joga sempre para ganhar e um público entusiasmado por uma geração jovem e talentosa. A fórmula do Tottenham recorda dias antigos mas face ao panorama actual pode ter sucesso imediato. É o quinto em discórdia, o dedo que faltava, a filosofia resgatada ao tempo. A mão que segurará, a finais de Maio, na taça, está completa. Falta saber a cor das fitas e purpurinas. Um pequeno detalhe no meio de um banquete futebolistico que há muito não se via.


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Miguel Lourenço Pereira às 08:37 | link do post

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