Cumpridas as previsiveis profecias que auguravam o fim do monopólio neruazurri, o Calcio procura desesperadamente uma nova ordem. No meio dos pretendentes emerge o grito histórico de um clube que até agora não conseguiu escapar à imagem de ter sido a obra de um só homem. Mas em 2011 o rugido do San Paolo pode fazer de Napolés uma cidade em festa permanente.
Apesar de despedido, Rafa Benitez tem pouco a ver com esta mudança de ciclo que vive o tenebroso Calcio, há uma década à deriva desportiva num cenário que nos atira directamente para os convulsos anos 70. Era perfeitamente expectável que este tetracampeão milanista acabasse por sucumbir à fatiga de ganhar e os muitos pontos que separam o campeão da liderança são o espelho de um projecto repleto de interrogações e exprimido até ao tutano pelo inimitável Mourinho. Nem Benitez, por muitos problemas que tenha como técnico de elite, nem outro poderiam evitar esta queda nos abismos. E no meio da mediania que pauta a liga, a mesma mediania que se alastra da Roma de Cuper à Juventus de Del Neri e da passividade de Sampdoria e Fiorentina, lá segue um fraco e rendilhado AC Milan na dianteira, sem muito futebol para justificar tanta vantagem. Na sua peugada, duas surpresas à italiana. Se para a AS Lazio isso significa um regresso à elite, depois de uns anos demasiado convulsos para o coração tremido do adepto laziale, para o Napoli é algo mais do que isso.
A equipa da Campania respira confiança à medida que o primeiro terço da época se fecha. Em San Paolo, o rugido dos adeptos ganha pontos. E eliminatórias. A equipa segue em frente na Europa (a única equipa italiana a sobreviver na Europe League) e na perseguição ao lider da Serie A é a cabeça visivel da revolução dos pequenos, sempre luzes intermitentes numa liga que perdeu o glamour de outras eras. A equipa montada pela familia De Laurentis funciona e os adeptos estão eufóricos. Muitos já nem se lembram de como era o conjunto do sul bater o pé aos grandes potentados do norte. Uma recordação que se confunde com a imagem de Maradona, o único homem que suplanta o próprio poder da Camorra nas feias ruas da cidade. Ao contrário da solarenga Sorrento e da plácida Capri, do outro lado da baía, as nuvens cinzentas napolitanas têm formas estranhas. Na mente dos seus habitantes, acabam quase sempre por assemelhar-se a bolas de futebol.
Depois do milagre operado em Génova, recuperando uma Sampdoria absolutamente decadente, Walter Mazarri rumou ao sul e ao calor emanado pelo mitico Vesuvio. Sob a imagem do mais antigo vulcão em actividade no continente europeu, treina o seu particular exército, em tudo similar às velhas legiões. Disciplinados, estoicos e preparados para lutar até ao instante final.
Não é por acaso que a equipa azul e branca vença a maioria dos seus jogos nos últimos minutos. São incapazes de desistir. O génio de Lavezzi, o argentino que quer reencarnar nos pés de Maradona, pinta com suavidade o relvado do gigantesco estádio de San Paolo. Mas não está só. Como "El Pibe", também ele tem uma escolta digna. Os golos de Cavani (10, lider da corrida ao capocanonieri), fazem a diferença nas vitórias angustiantes e pela minima. O eslovaco Hamsik continua a ser o patrão de um miolo de combate onde militam firmemente os pés sem descanso do argelino Yebda, os italianos Blasi e Maggio e ainda Roberto Sosa, resgatado de uma má experiência na Baviera. No sector defensivo Morgan de Sanctis comanda a guarda pretoriana acompanhado por Cannavaro, Zuñiga e Campagnaro com Santacrosse, Rullo e Dossena de reserva. Um exército digno dos melhores que funciona com a precisão de um relógio.
Na passada época já Mazzari tinha ofrecido uma excelente imagem do conjunto napolitano que terminou num histórico sexto posto, a melhor classificação desde os dias de Maradona, Careca e Carnevale. Depois de um arranque algo tremido, a recuperação napolitana tem sido impressionante. Vitória atrás de vitória, apanharam a revelação laziale no segundo posto e estão, no final do ano, a apenas três pontos do primeiro posto. O primeiro jogo de 2011 será contra o campeão praticamente despojado. Uma prova de força no imenso Giuseppe Meazza que dirá muito do que esperar das próximas versões do conjunto da Campania.
Numa maratona dificil e complicada como a intermitente Serie A é sempre um exercicio complexo de adivinhar o rumo de uma equipa com um inicio tão prometedor. Já aconteceu no passado passar-se de revelação a decepção imediata. Mas este Napoli respira outro futebol. Aprendeu os erros do passado recente e tem na memória uma glória perdida no meio da dúvida que rodeia a imagem de um 10 que é história viva. O rugido do San Paolo será sempre o seu melhor aliado. Um rugido capaz de torcer uma liga. O Vesuvio contempla-o expectante.

