É sempre um feito dificil, um verdadeiro êxito digno de entrar nos livros de registos históricos de qualquer clube. Mas depois de mergulhar na depressão, o FC Porto renasceu e de que maneira. No final do ano desportivo, já com quase metade da época atrás das costas, os soldados de Andrés Villas- Boas marcham invictos. São os únicos no Mundo a não saber a que sabe o sabor amargo da derrota.
A invencibilidade até vem da era Jesualdo Ferreira, se queremos ser exactos.
A equipa que terminou a época passada em boa forma, vencendo o futuro campeão nacional no Dragão e arrebatando a segunda Taça de Portugal consecutiva (prova onde permanece igualmente invicto há dois anos e meio) já tinha dado inicio a esta série impressionante de jogos oficiais sem qualquer derrota. Mas é com o mandato de André Villas-Boas, nomeado em Junho como novo técnico azul e branco no meio de muita expectativa e alguma desconfiança, que os números se tornam claros.
A imprensa internacional não se cansa de tecer comparações entre o portuense e José Mourinho, com quem trabalhou nos últimos seis anos. No entanto até os números aparentemente imbativeis de Mourinho no Dragão começam a estar ao alcance do jovem técnico de 33 anos. Villas-Boas fecha 2010 como o técnico mais eficiente do futebol europeu, superando em números gigantes como Barcelona, Manchester United e Real Madrid, equipas que contam também com uma derrota nesta nova temporada. Os números incluem a categórica vitória sobre o SL Benfica na Supertaça, a série invicta na Liga Sagres (com 13 jornadas disputadas), eliminatórias da Taça e a brilhante campanha na Europe League, com sete vitórias e um empate em oito encontros. Aos triunfos (e três empates, Bessiktas, Vitória Guimarães e Sporting), juntam-se as exibições de gala. Os 5 golos sem resposta ao eterno rival, o triunfo com menos um jogador no temivel recinto do Bessiktas ou a vitória frente ao Sporting de Braga são o mais fiel espelho de um arranque de temporada onde são mais os aspectos positivos do que os erros ou tropeções. Isto numa equipa reformulada e com espirito renovado.
Terminado o ciclo do Tetracampeonato e o mandato de Jesualdo Ferreira, a chegada de Villas-Boas provocou um abanão num clube acomodado ao sucesso. Sem os milhões da Champions League a entrar, o FC Porto conseguiu escapar no mercado aos cantos de sereia das suas principais figuras e manteve-se activo, recrutando João Moutinho, Souza, Walter, James Rodriguez e Nicolas Otamendi para um plantel já repleto de jogadores de primeiro nível.
Villas-Boas não mudou o desenho táctico, mantendo-se fiel ao 4-3-3, mas mudou o ritmo e dinâmica de jogo abdicando das rápidas transições por um estilo de jogo mais rendilhado, com troca de bola a meio-campo provocando os desiquilibrios individuais dos seus virtuosos atacantes. Se Moutinho foi fundamental para dar outro ritmo ao jogo azul e branco, foi a recuperação do argentino Belluschi que chamou a atenção. Com Fernando a fechar o tridente medular, abria-se as portas para o jogo ofensivo que se tornou na imagem de marca de um técnico que gosta mais de relembrar os seus dias de adepto do futebol de Bobby Robson do que como colaborador do esfingico Mourinho. Nessa dinamica ofensiva, que a alguns lembra o modelo de jogo da primeira versão do Pep Team, mais do que os golos de Falcao (oportuno como nunca) ou as rotações de Varela (que foi de mais a menos) está a figura de Hulk. Máximo goleador da Liga Sagres, figura chave da equipa na Europa, o brasileiro encarna hoje a filosofia de Villas-Boas à perfeição. Trabalhado tacticamente por Jesualdo, Hulk transformou-se no elemento nuclear no jogo de transição azul e branco, aliando a sua força e potencia natural a um sentido colectivo agudo que tapou algumas das suas mais marcadas deficiências. Com o número 12 no seu melhor momento desde que chegou à Europa o FC Porto manteve-se, assim, invencível.
A segurança defensiva, sector mais débil do plantel azul e branco, tem-se mostrado o ponto mais conflictivo deste colectivo azul e branco, mas a subida de forma do argentino Otamendi, aliado a um bom trabalho de equipa a meio-campo, tem garantido que os dragões passem o ano com a defesa menos batida de todos os lideres dos grandes campeonatos europeus.
Este FC Porto de André Villas-Boas é uma equipa completa, de trás para a frente, que sabe que já entrou na particular história do clube mas que lhe falta muito para poder chegar mais longe. Esperam-lhe os determinantes meses do arranque do novo ano, os duelos a eliminar e o mais longo sprint do mundo, como disse um dia Jorge Valdano sobre a maratona que é a liga doméstica.

