Se hoje Pep Guardiola guarda em si a ponte entre a filosofia de Cruyff e o espirito catalão de Can Barça, o seu herdeiro (dentro e fora de campo) será provavelmente Xavi Hernandez. Talvez o melhor futebolista espanhol da história, o médio centro de Terrasa é já parte da história. Mas comete um erro de julgamento crasso, talvez movido pelo confronto histórico entre o seu clube e Mourinho, em declarar que o português não entrará para a história. Porque Mourinho já lá está.
Não é a primeira vez que o diz e Xavi Hernandez costuma dizer o que pensa.
Fanático blaugrana como poucos, atleta exemplar e um artista sem igual no panorama desportivo actual, o número 6 do Barcelona é talvez o culminar de uma escola táctica que começou há 25 anos atrás com Johan Cruyff. Demorou a consolidar-se no onze blaugrana e quando se afirmou, definitivamente, tornou-se na peça chave do renovado jogo culé. Venceu tudo o que havia para vencer e entrou, por direito próprio, na galeria dos históricos. E sabe que para fazer história é preciso ganhar. O Xavi que hoje é uma figura consensual no mundo do desporto rei é producto dos titulos. Do Barcelona dos upgrades cruyffianos, primeiro de Rijkaard (onde não era ainda figura determinante), e depois de Guardiola. Mas, essencialmente, da era de ouro do futebol espanhol, consagrado pelos titulos de campeão da Europa e do Mundo com a Espanha. Da qual é a bussola, o corpo e a alma.
Os triunfos valeram a Xavi um protagonismo natural, do qual ele tenta escapar, escudando-se nos fenómenos que o acompanham na orquestra. E que sem ele, e mais do que ninguém o médio sabe-o, são muito menos do que aparentam. O prestigio deu-lhe voz, particularmente em Can Barça. E ele exerceu-a, sem temores. E declarou guerra. Ao grande rival do seu clube, ao mentor da filosofia oposta à que vive e sobrevive em Can Barça. Ao mesmo homem que os seus dois mentores, Cruyff e Guardiola, atacam quando podem e como podem. Ao único técnico que, sabe, os pode travar. Mourinho.
Declarar que o português nunca entrará para a história do futebol, ao contrário de Cruyff, Guardiola, Wenger, Sacchi e Ferguson, é uma declaração tão inexacta que surpreeende que venha da boca do homem com os pés que menos toques de bola erram no mundo. Xavi sabe o que diz e acredita pouco neste dardo envenenado. Sabe perfeitamente que o mundo do futebol sobreviverá ao seu Barcelona como sucedeu com todos os estilos que se impuseram em determinados momentos da história. A única coisa a que o mundo do beautiful game nunca sobrevive é aos titulos. Hoje fala-se no Real Madrid porque sumou mais titulos do que ninguém nas competições em que participou. Falou-se no Liverpool do "Boat Room" porque quase que emulou o feito dos merengues. Fala-se no Milan pós-88 porque venceram tudo o que havia para ganhar. E fala-se neste Barça porque repete a mesma fórmula de sucesso. Ganhar. O que interessa realmente.
E a verdade é que não há no activo um técnico que tenha ganho tanto em tão pouco tempo. Não é um gentleman à velha usança (mas são-o o inefável Ferguson, o resmungão Wenger ou o pacifista Pep?), nem sequer é um inovador táctico. Aliás, desde a defesa em linha com pressão alta asfixiante de Sachi que o futebol não conhece uma mutação táctica significativa, senão que pequenos ajustes pontuais que se adaptam a circunstâncias pontuais. Todos os técnicos no activo com sucesso são filhos do italiano. Sem excepção. O sucesso do Pep Team face ao Dream Team reside, essencialmente, nessa simbiose entre a equipa do italiano e do holandês. O de Mourinho está na sua força de caracter, na forma como comando os seus exércitos. Tacticamente as suas equipas não inovam, mas seguem à perfeição as ordens do general. A frieza e disciplina táctica do FC Porto, Chelsea e Inter entrarão, certamente, na história tanto como o espirito livre e criativo de blaugranas e gunners, a antitese desportiva da década ao trabalho defendido pelo português.
Mourinho mistura o que de melhor tem o Manager no conceito britânico do termo. Tem a mentalidade aguda de Helenio Herrera, o espirito critico de Brian Clough, o sentimento emotivo de Bill Shankly e a franqueza de Rinus Michels. E usa-o para proveito próprio algo que o futebol de hoje entende pouco, nessa obsessão constante pelo poder do colectivo. Homens livres como o luso perdem mediaticamente para o grande público na comparação com os homens de clubes. Tal como Clough, que antes de chegar ao Nottingham, onde ficou duas décadas, também Mourinho procura o melhor laboratório para as suas experiências. Xavi certamente saberá que o técnico inglês, bicampeão europeu, faz parte da história apesar do seu Forrest não ter tido a mesma qualidade de bola que o Liverpool de um Bob Paisley do qual poucos se lembram. O futebol e a história também são producto do caracter ganhador. Pelé teve mais caracter do que Garrincha, Beckenbauer e Cruyff tiveram-no mais que Muller e Resenbrink. Na tentativa de valorizar a máquina de futebol de Guardiola, o médio catalão - que seria o justo ganhador do Ballon D´Or 2010, na ausência de Sneijder - procura desvalorizar um trabalho intocável futebolisticamente de um técnico que, sabe, como poucos, que o futebol pode-se jogar de mil maneiras diferentes, enquanto que em Can Barça parece que só um modelo funciona.
Na história há lugar para todos, só que uns chegam cobertos de ouro e outros entram pelas traseiras. Xavi sabe que ele entrará pela porta grande como um simbolo de uma filosofia, sem nunca ter experimentado outros palcos, outras realidades, outros pedaços da história. O que também devia saber é que Mourinho já sobreviveu ao tempo e provou que o seu método funciona, onde quer que vá. E também lá estará, como dizia repetidas vezes o inefável Clough, talvez não como melhor treinador do Mundo, mas certamente como o do topo.

