Há poucos jogadores no activo com um curriculum tão imenso. Há poucos jogadores no activo com tantos galardões individuais nas prateleiras. Há poucos jogadores no activo que, depois de tudo isso, continuem a encarar cada jogo como o primeiro. Quis trabalhar como um negro para viver como um branco. E conseguiu. Ele é, indiscutivelmente, o rei do seu continente.
Pode-se discutir sobre muitas coisas. Mas a carreira de Samuel Etoo é algo que está por cima da dúvida.
Há quem prefira o talento animal de Didier Drogba, um verdadeiro vulcão com uma explosão tardia. Há quem se renda ao talento artistico da escola egipcia dos Aboutrika e companhia. Ou quem torça pelas estrelas cadentes, engolidas pela sede de glória, dos Finidi, Okocha, Diouf, Gyan e companhia. Todos eles fariam parte de qualquer onze de gala. Foram os principes consortes da versão futebolistica do continente africano. Mas nenhum deles chegou ao nivel do camaronês que um dia chegou a Barajas com frio, sozinho e sem vontade de voltar para trás.
Etoo começou, como todos os africanos, por baixo. Muitas vezes agradeceu ao futebol o facto de ter chegado a Espanha num avião e não numa patera, como milhares dos seus. Sensível ao tema do racismo (já por várias vezes saiu de um relvado por não pactuar com os gritos animalescos dos adeptos rivais) e um dos verdadeiros padrinhos da renovação do futebol de base da África ocidental, uma labor onde se tem destacado há vários anos, é um rosto inconfundível do renovado futebol do continente negro. Certamente não esquecerá 2010 pelos bons e maus motivos. A decepcionante campanha no Mundial dos Camarões confirmou a malapata do dianteiro com a grande prova internacional, depois das ausências em 2006 e 2002 quando eram os reis de África. Na última década venceu três CAN`S, um registo inigualável e que o deixa no topo dos grandes campeões do continente, ao contrário, pelo seu grande rival, Didier Drogba. E mais, muito mais.
O sucesso de Etoo no futebol europeu tem apenas comparação com Eusébio.
Ambos africanos, conseguiram ultrapassar o esteriótipo do jogador do continente negro incapaz de render de forma determinante nas grandes provas europeias. São jogadores diferentes e com niveis dispares na história do jogo, mas são também provavelmente os únicos que chegaram, viram e venceram. Nem Abedi Pelé, nem Rabath Madjer, nem Just Fontaine, nem sequer George Weah. As vitórias em 4 Champions League (com três clubes diferentes em dez anos de carreira), os prémios Pichichi e a forma consensual como encantou técnicos e adeptos por onde quer que passou são os melhores sinais de uma carreira que ainda promete mais.
Na final do Mundial de Clubes, o último grande titulo que lhe faltava, voltou a ser determinante. Sem as amarras tácticas de Mourinho, que fez dele um sacrificado exemplar, algo que poucos jogadores suportariam com tanto caracter e determinação, voltou aos golos e actualmente é o dianteiro mais em forma no futebol europeu. Em Milão sentem o mesmo que em Barcelona, Maiorca e Madrid, onde muitos ainda não percebem como é que não se encontrou espaço para a maior pérola africana dos últimos 40 anos. O dianteiro desterrado de Madrid por falta de protagonismo (face aos mais mediáticos Raul, Morientes e Ronaldo) e para quem Pep Guardiola nunca teve "feeling", apesar de ter sido um dos grandes artifices do tri que depois passou a hexa, encontrou em Milão um terreno sólido para prosperar. Como na paradisíaca ilha mediterrânica de Maiorca aonde quer voltar para fechar uma carreira inigualável. Aí começou o mito Etoo, levando uma pequena equipa sem grande historial às noites de glória da Champions League, prova que já tinha ganho, por uma curta participação, com o Real Madrid. Depois chegou o Barcelona, repleto de cicatrizes, e a parceria com Ronaldinho e Messi. Um tridente que deu ao clube blaugrana a sua segunda "orelhona", com golo decisivo do camaronês a abrir a final frente ao Arsenal do seu amigo Henry, mas que não aguentou o peso do sucesso e caiu estrepitosamente e sem glória. Com a saída do brasileiro e a explosão definitiva do argentino, foi o africano a pagar os pratos rotos. Abandonado pelo clube, marcou como nunca no ano da sua dispensa sem honra. Saiu de cabeça erguida, com uma terceira Champions nas costas e chegou aos braços de um general, Mourinho, que fez dele o sargento perfeito. Em Madrid, ironia das ironias, venceu a sua quarta taça europeia e igualou em titulos alguns dos mitos do futebol contemporâneo. E tornou-se no futebolista no activo com mais troféus na máxima prova europeia. Coisa pouca.
Etoo é um turbilhão da natureza, intempestivo dentro e fora do campo. Reage a quente à frente das camaras e nunca quis cultivar uma imagem de estrela que o deitou a perder no confronto mediático com alguns dos seus colegas mais iminentes. Mas a sua trajectória impecável, culminada ontem com a conquista do seu quarto Ballon D´Or africano (ele que nunca venceu sequer um dos prémios entregues pela France Football como Weah mas que é recordista de prémios em África), não deixa margens para dúvidas. Ele é, definitivamente, o rei de África.

