Os dias de glória do velho Sarriá foram enterrados debaixo do mastodôntico Olimpic do Montjuic. O Espanyol sofreu na pele a solidão angustiante da pedra vazia e fria de um estádio sem sentido. Demorou anos a voltar a recuperar o seu espirito de equipa guerreira até à medula. Desde a inauguração de Cornellá que há um novo RCD Espanyol na liga espanhola. Este ano os "pericos" seguem invenciveis em casa. Esperam o inimigo. Que sabe bem onde vão mergulhar...
Enquanto o mundo se encanta e relambe com a orquestra futebolistica do Barcelona de Pep Guardiola, a cidade condal parece esquecer-se de um fenómeno não menos digno de atenção e louvor. O histórico clube da capital, o abrigo dos catalães e emigrantes que se afastam das correntes nacionalistas daquele que se diz "Més que un club", está de regresso às suas tardes mágicas.
Finalista vencido da UEFA Cup de 2007, esse foi talvez a única noite de memória nos últimos vinte anos para o segundo clube de Barcelona. O Espanyol vivia há muito uma crise financeira e moral que deixava mossa, época atrás de época. Após a venda dos terrenos do mitico Sarriá, um dos estádios mais históricos do futebol europeu, a equipa foi forçada a rumar para o imenso estádio olimpico construido para albergar os Jogos de 1992. Clube com uma massa adepta reduzida e pouco endinheirada, o novo e gigantesco recinto tornou-se num pesadelo logistico e estético para o clube azul e branco. Bancadas tapadas com logotipos gigantes ou placards publicitários, um afastamento irremediável provocado pela gigante pista de tartã...tudo parecia deixar a equipa mais longe dos seus. E os resultados ressintiram-se. Um habitué do topo da tabela classificativa, finalista vencido da UEFA em 1988, numa noite épica contra o Bayer Leverkusen, o clube passou a mergulhar nas profundezas da luta para evitar a despromoção. A lei Bosman deixou, também aqui, as suas baixas e a afirmação definitiva no panorama internacional do seu maior rival, o Barcelona FC, condenou definitivamente o clube ao esquecimento. Passaram-se anos até que, finalmente, a velha ideia de ter casa própria, conceito tão arreigado na mentalidade espanhola, ganhou forma. Em quatro anos fez-se e inaugurou-se Cornellá. Com um novo mentor nos bancos, o antigo internacional argentino Mauricio Pochettino, e com uma geração com vontade de comer o Mundo.
A morte de Dani Jarque, figura imperial da defesa dos "pericos", foi o choque que despertou a familia blanquiazul.
Cornella tornou-se na reincarnação latina do velho Anfield Road. Estádio cheio, semana após semana, adeptos de pé, bandeiras e cachecóis ao alto. Música ambiente do principio ao fim e o recuperar de um espirito antigo têm sido parte da fórmula de sucesso que devolveu o Espanyol à ribalta, aos postos da Champions League, aos sonhos europeus e às noites de glória. Mas não só.
Se "This is Cornella" é já um mote impossível de contornar no seio dos adeptos do clube, a verdade é que cabe a Pochettino grande parte do mérito nesta profunda transformação. O técnico chegou nos últimos dias do Montjuic e desde então transformou o novo recinto num fortim intransponível. Graças a investimentos acertados no mercado - o dinheiro continua a ser um problema - e a uma politica de cantera que se assemelha muito à mais badalada e mediática escola do rival de Les Corts.
Só este ano o Espanyol abriu ao Mundo - e à própria Espanha, sempre perdida nos duelos Madrid-Barça para reparar no que de melhor têm o resto - os olhos para uma fornada de jogadores com um potencial tremendo. Aos veteranos Kameni - um guardião para as grandes noites - o histórico Ivan de la Peña ou o argentino Aldo Duscher juntam-se o letal brasileiro Osvaldo - que deverá ser vendido no mercado do Inverno para equilibrar as contas - e ainda os jovens Callejón, Javi Marquez, Forlín, Álvaro e o mais flamante de todos, Victor Ruiz.
O jovem central despontou no final da época transacta e já se assumiu como o lider natural de uma das defesas menos batidas da Europa. Abriu passo pelas selecções jovens espanholas e está chamado a emular o seu vizinho e conterrâneo Gerard Pique. Um jogador com uma técnico invulgar para central que é sinal da maturidade que tem a nova vaga desta equipa. O argentino Forlin traz equilibrio ao sector mais recuado, a velocidade de Marquez e Callejon abrem a zona de ataque e Osvaldo resolve o problema da eficácia, suplantado desde já os números do histórico Tamudo, forçado a abandonar a nau no final da época transacta.
Apesar de ser uma equipa sem grande profundidade de banco e com muito caminho por percorrer, é notório que este Espanyol tem muito pouco a ver com as formações passadas do conjunto barcelonês. Um projecto sólido e bem estruturado que deixa antever um futuro brilhante para uma equipa que soube reinventar-se e rejuvenescer décadas com o simples acto de criar um novo lar para a sua afficion. Hoje o Barcelona chega no meio de uma tensão que só os derbys sabem produzir. Quando entrarem em campo, os artistas de Guardiola saberão que chegaram a Cornellá. E isso, hoje, é dizer muito mais do que imaginam!

