Tique, taque. Uma precisão suiça em pleno relvado de Belgrado. A bola arranque no miolo central e ali fica, a deambular de um lado para o outro, com a exactidão segura de controlar o tempo. O rodeo asfixia, a verticalidade mata. Debaixo da estrela vermelha com fim à vista, uma geração dificil de reeditar colocava em práctica a sua máxima preferida. O futebol belo é exacto. As vitórias são apenas as migalhas que engolhe o tempo.
26 de Maio de 1991, Bari.
Aqui acabou, provavelmente, uma das maiores gestas desportivas da história. O último grande milagre da história do desporto rei, rapidamente trucidado pela guerra, pelos milhões, pela perda total do controlo. Uma noite cinzenta que colocava o ponto final numa história tão colorida como o arco-iris. Uma geração de magos torpedava um velho sonho europeu gaulês e colocava um ponto final na história era da Taça dos Campeões Europeus. A partir do ano seguinte o espirito da Champions League começaria a asfixiar os campeões dos países periféricos. O despertar do velho ódio nos Balcãs tratou de fazer o resto e destruiu uma equipa chamada a fazer história.
20 de Março de 1991, Berlim.
O muro tinha caído e a Alemanha unificada deveria estar em festa. Mas ao minuto 78 do jogo da segunda mão dos Quartos de Final da Taça dos Campeões, os adeptos do Dinamo Berlim, último representante da RDA na prova, invadiram o relvado onde a sua equipa, hoje perdida nos meadros regionais do futebol germânico, perdia por 2-1. O árbitro espanhol Emilio Soriano deu o jogo por terminado e a UEFA concedeu um triunfo por 3-0 aos visitantes. O mesmo resultado atribuido também por decisão da UEFA a um duelo que se disputava a oitocentos kms de distância, na solarenga Marselha, onde o Olympique local se batia com o campeão europeu em titulo. As luzes foram abaixo, o Milan abandonou o relvado e a UEFA declarou o Olympique ganhador. O destino impediria um revival histórico de um duelo que deixou mossa em Belgrado.
10 de Julho de 1986, Belgrado.
A direcção do Crvena Zvezda aponta como técnico da equipa principal Velibor Vasovic. O ex-selecionador jugoslavo começou o projecto de cinco anos com um objectivo claro: reinar na Europa. Durante os cinco anos seguintes a equipa mudaria de técnico cinco vezes, venceria quatro ligas (com uma derrota pontual em 1989) e espantaria o futebol europeu recrutando progressivamente a melhor geração de sempre da história do futebol de um país a desfazer-se. Com a precisão de um relógio as peças foram chegando a tempo, encaixando na perfeição e funcionando sem surpresas.
A geração de Sestic, Ivkovic, Elzner, Mrkela e Durovski foi recebendo sucessivos upgrades a partir de 1986.
Chegaram Robert Prosinecki (para substituir o patrão da equipa, o inimitável Stojković) e a sua alma gémea, Jugovic. Explodiram os génios de Mihajlovic, Belodedic e Stojanovic na defesa. O ataque vibrava com as movimentações do proscrito Savicevic e do rebelde Pancev. E a orquestra funcionava de forma perfeita em conjunto.
O estilo de jogo rendilhado dos jugoslavos ganhava outro dinamismo nos grandes palcos europeus. Os passes letais de Prosinecki, talvez o maior embaixador desta geração, encontravam sempre o caminho mais rápido para o golo. A equipa vermelha e branca dominou o campeonato local - apenas com o Dinamo de Belgrado de Boban como rival à altura - e começou a desafiar o status quo europeu.
Em 1988 estiveram a breves instantes de terminar com a lenda do AC Milan de Sacchi antes mesmo de esta ter arrancado. O conjunto eslavo vencia por 1-0 o conjunto italiano, privado do génio de Gullit, quando o nevoeiro invadiu o imenso Marakana levando o jogo a ser interrompido. Quando reatado, os italianos surpreenderam os locais e lograram empatar, selando o apuramento. A desforra ficaria adiada até 1991. O Crvena Zvezda, popularmente conhecido como Estrela Vermelha por cá, estava determinado a reencontrar os bicampeões europeus. Mas aquela noite fria de Março ditou outro destino. A lenda italiana acabava e os jugoslavos, depois de baterem o Bayern Munchen, encontraram previsivelmente na final aquele Olympique Marseille galáctico onde Wadle, Pelé, Papin, Olmeta, Mozer, Tigana e Stojkovic davam cartas. O duelo, agendado para o San Nicola de Bari, passou para a posteridade pelas piores razões. As duas espectaculares formações ofensivas preferiram especular e o espectáculo ficou adiado. O marcador avançava e Goethels, técnico dos franceses, lançou Stojkovic contra a sua antiga equipa. O jogo mergulhou então nos penaltys e o jugoslavo, provavelmente o maior especialista no terreno de jogo, recusou-se a marcar. Não contra os seus.
Os franceses avançaram temerosos. O internacional Amoros falhou o primeiro remate que caiu nas mãos de Stojanovic. Os franceses tremiam. Mas Prosinecki não. Nem Binic, nem Belodedic, nem Mihajlovic... nem Pancev. E foi suficiente. O plano funcionou, a história encontrou o seu último campeão do leste - cinco anos depois do Steaua Bucaresth - e o futebol despediu-se com uma ovação de uma das suas últimas grandes equipas.
Dias depois a guerra e os milhões do Ocidente desmantelaram o histórico clube de Belgrado. Separados, os artistas de Belgrado nunca voltaram a render ao mesmo nível, nem em Espanha, nem em Itália nem em Inglaterra. O clube jugoslavo pagou o preço da destruição do velho gigante de leste e mergulhou na mais profunda depressão. Esta semana, vinte anos depois de ter arrancado a sua mais gloriosa campanha europeia, o clube nomeou a maior glória daquela noite, Prosinecki, como novo Manager. O tempo não volta para trás mas a precisão de relógio do mago de Belgrado tem com vista tempos pretéritos. Só assim se poderá resgatar a chama de um conjunto que rasgou a cortina antes de tempo para mostrar o lado mais belo do futebol.

