Quarta-feira, 15 de Dezembro de 2010

Hoje cumprem-se 50 anos da chegada de Eusébio da Silva Ferreira a Portugal. Ontem cumpriram-se 10 desde que Lionel Messi aterrou em Barcelona. Dois nomes que já ganharam merecidamente o seu lugar na história do jogo. Duas aventuras intercontinentais que marcaram uma era desportiva e que explicam também como um jogador na equipa certa e no momento certo pode ser suficiente para definir uma era.

 

 

 

Eusébio tinha cumprido há poucos os 18 anos e chegou a Lisboa escondido sob um falso nome, de mulher, para escapar à vigilância dos dirigentes do Sporting. Passou umas férias forçadas no Algarve e teve de contemplar de longe a primeira grande noite de glória europeia do Benfica, do seu Benfica. Quarenta anos depois um pequeno argentino com um grave problema de crescimento colocou-se nas mãos do destino e com o pai, rubricou num guardanapo de papel a sua tremida assinatura que iria definir toda a sua vida. Duas aterragens sem pompa e circunstância, sem o poder da ribalta das milionárias apresentações do Real Madrid de Florentino Perez, da revolução moral que significou a chegada de Johan Cruyff a Barcelona ou sem a esperança recuperada dos milhares de napolitanos que acorreram a vitoriar Maradona. Não, estes dois humildes da bola chegaram incógnitos e assim ficaram durante meses, até chegar a hora de dizer presente.

Se houve um futebolista que pode ter rivalizado de igual para igual com Pelé e Di Stefano, esse foi Eusébio da Silva Ferreira. Se há jogador hoje que gera facilmente consensos no mundo do desporto, esse é Leo Messi. Dois atletas profundamente distintos na forma de interpretar o jogo mas com demasiadas similaritudes de caracter e historial para serem produto de um mero acaso. Eusébio e Messi marcaram (o argentino ainda o faz) uma era na história do futebol. Porque destilavam genialidades a cada momento no relvado. Mas essencialmente porque aterraram no sitio certo, à hora certa. Porque encontraram os projectos idóneos para crescer e explodir no momento exacto. Porque o Benfica dos anos 60 e o Barcelona contemporâneo foram, na sua medida, os expoentes máximos do futebol de ataque, do futebol espectáculo, do futebol que apaixonava os adeptos onde quer que estivessem. No filme In the Name of the Father, história de um irlandês injustamente acusado de pertencer ao IRA, as paredes de uma prisão britânica de alta segurança estão forradas com posters de Eusébio e galhardetes do Benfica, adorado em terras de sua Majestade desde que vergou as potências espanholas e bateu o popular Tottenham. Hoje Messi é o espelho do herói global, atleta reconhecido e apreciado onde quer que caminhe, com admiradores que vão das ruas de Rosario aos bairros de lata de Bangkok. Ambos tiveram rivais dignos à sua altura. Messi cresceu com Xavi e Eusébio com Coluna. O jovem moçambicano aterrou numa equipa campeã europeia onde gravitavam já grandes nomes (José Aguas, Germano, José Augusto) e grandes promessas (Torres, Simões). O argentino cresceu à sombra imensa de Ronaldinho e Etoo e viu explodir a seu lado o talento inato de Iniesta ou Busquets. Nada é obra do acaso.

 

A história já nos tratou de ensinar mil vezes a vida de um jovem moçambicano que se fez estrela e acabou por se tornar no icone futebolistico dos anos 60, a meio caminho entre o génio inato de Pelé e Di Stefano e o futebol total dos Beckenbauer e Cruyff. Ultrapassou Best, Charlton, Suarez, Fachetti, Garrincha, Gento, Greaves e companhia e pegou num pequeno clube e num pequeno país e fez deles alguém no panorama internacional. As condições daquele Benfica foram inigualáveis. Clube bem estruturado, com importante apoio estatal e financeiro, o clube encarnado aproveitou-se de Eusébio para despegar da luta de galos no futebol luso durante os quinze anos de mandato do marechal luso. Montou uma equipa de talentos à sua volta, explorou-o fisicamente para lá dos limites e afirmou um estilo e um modelo de jogo impar no panorama europeu. Utilizou a "cantera" africana como nenhum outro clube e definiu um projecto que durou até ao final dos anos 70. No meio dessa associação,

Quarenta anos depois, quando o pequeno argentino Messi chegou a Barcelona, a Masia vivia a sua época mais apagada, com os sucessivos mandatos de Louis van Gaal a deixarem para segundo plano o projecto de formação arrancado dez anos antes com Cruyff e Rexach. O desenvolvimento sustentado do jovem, auxiliado por um programa de crescimento hormonal fulcral para a sua sobrevivência como desportista, ocorreu tranquilamente longe dos holofotes. Com ele cresceram os génios de Pique, Fabregas, Iniesta, Busquets, Pedro e companhia, num estilo de aprendizagem que hoje espelha o trabalho de bastidores que há por detrás. Como Eusébio, o argentino foi recrutado novo e no estrangeiro e passou por um processo de assimilação que explica bem as similiaritudes entre a politica daquele Benfica e do actual conjunto blaugrana. Quando se estreou, quatro anos depois, no estádio do Dragão, bem ao lado de um terreno onde Eusébio exorcizou muitas vezes os seus fantasmas com tardes de gala, a formação estava completa. Com professores de luxo e essamentalidade incutida desde cedo, Messi transformou-se e com ele o jogo do Barcelona. O seu encontro com Guardiola funcionou como uma dessas raras simbioses que existe na história do jogo, muito similar à relação entre Michels e Cruyff, mentor do catalão. Pep pegou num jovem já consagrado e fez dele a peça nuclear do seu projecto. Retirou-o da ala, onde já se podia afirmar como  um dos mais completos futebolistas da história, e soltou-o no meio do terreno de jogo. Precisamente como Eusébio.

O luso não tinha posição no terreno de jogo. Num 4-2-4 clássico, Eusébio era a incógnita que destruia qualquer equação rival. Deambulava pelo terreno de jogo a seu belo prazer, associava-se com os colegas do miolo, das alas e da frente de ataque. E quando era necessário, decidia sozinho o que o colectivo era incapaz de fazer. Usava o seu temido arranque, a sua incomum força e o seu remate indefensável. Um estilo hoje mais similar ao do português Ronaldo do que aquele que destila o matreiro argentino, sempre de regate curto, bola colada ao pé, dribles estonteantes e remates colocados, mais em jeito que força, como uma suave brisa em comparação com o tornado africano.

Mas ambos tornaram-se vectores fulcrais na evolução táctica das suas equipas. Messi é hoje tudo  no ataque do Barça. Funciona como falso 9, apesar de estar Villa em campo. Descai para as alas para procurar a velocidade e vem até ao miolo começar o processo criativo que mamou desde pequeno, desde aqueles 13 anos com que aterrou em Can Barça. Por conhecer a história de trás para a frente, sabe onde tem de estar quando a jogada acaba. E por isso marca como poucos jogadores do seu estilo marcaram, aliando a técnica da criação, a diferença da explosão ao espirito certeiro do golo. Exacto, precisamente como...

 

 

 

Há 50 anos a história do futebol português conheceu uma reviravolta inesperado que se materializaria seis anos depois com a presença quase imaculada no Mundial de 66. No curriculum do "rei" Eusébio tinham ficado duas taças europeias, um Ballon D´Or, Botas de Ouro e uma admiração impar no Mundo, habituado a ouvir falar dos feitos de Pelé à distância. Messi continua por aí, a deambular sobre o tapete verde com o olhar perdido no mais abstracto dos sentidos. Depois a bola chega-lhe aos pés, e futebol acontece. Como há 50 anos. Como há 10 anos. Como sempre que a faísca da magia toca enrabietada na superfice da bola. Se na Luz ou se no Camp Nou, se na era gentleman dos 60 ou no exarcebado globalismo de hoje.  Génios e circunstâncias, assim se definem eras.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 08:33 | link do post | comentar

4 comentários:
De Jogos de Carros a 26 de Abril de 2011 às 22:27
Obrigado, vou por este blog nos meus favoritos, Alexandra


De filomeno a 26 de Abril de 2011 às 23:14
Reg Leafe y Arthur Ellis impidieron una final Benfica/ Real Madrid.......


De Miguel Lourenço Pereira a 27 de Abril de 2011 às 08:12
Filomeno,

Es verdad, fue uno de las grandes escandalos de las noches europeas y en Madrid siempre si hablo, y al mejor con mucha razon, de la necesidad que habia en impedir una sexta copa de Europa consecutiva que podia matar el prestigio del torneo.

El Madrid fue mejor en los dos partidos y merecia haber seguido hasta la siguiente eliminatoria (la ronda era en Octavos todavia). Lo extraordinario fue el triunfo de Benfica con dos balones en el palo y sin Eusebio...

un abrazo


De Miguel Lourenço Pereira a 27 de Abril de 2011 às 08:13
Alexandra,

Obrigado e bem vinda seja.

Cumprimentos!


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