No virar de século eram provavelmente as duas ligas mais aborrecidas de toda a Europa. Vencedores previsiveis, futebol pouco emocionante e poucos jogadores capazes de fazer levantar um estádio com um golpe de génio. Mas, num ano, tudo parece ter mudado. E hoje não espantaria ninguém que estas fossem catalogadas como as duas ligas mais emocionantes do "Velho Continente". Podem não estar ao mesmo nivel da Premiership, que continua a viver noutro nível, mas a Bundesliga e a Ligue 1 francesa conheceram uma verdadeira mudança de 180 graus. A culpa? O total desrespeito das hierarquias vigentes que promete deixar marca para os anos vindouros.

No inicio da temporada o Olympique de Lyon partia para mais um titulo consectutivo - o oitavo - num campeonato onde parecia que o mais interessante estava na luta pelos postos europeus. Na Alemanha o todo-poderoso Bayern Munchen, refeito de um biénio de crise, tinha conquistado a liga com autoridade e preparava-se para voltar a reinar supremo sobre o futebol teutónico. Hoje o Lyon está praticamente afastado do titulo e o Bayern terá de suar até ao último segundo se quer reconquistar o trofeu que tem dominado desde a década de 60.
O irromper de uma série de equipas - entre históricos crónicos e surpresas absolutas - veio quebrar a hierarquia dominante destes dois campeonatos, trazendo emoção, espectáculo e incerteza na classificação jornada após jornada. Estas equipas são, acima de tudo, resultado de um longo trabalho que tem sido realizado ás escuras, por trás da imensa sombra dos titulos arrecadados pelos grandes candidatos. Basta olhar para as classificações - e, mais importante, as exibições - das últimas temporadas, para perceber que em França já há muito se adivinhava que tanto o Olympique Marseille como o Girondins Bordeaux tinham, finalmente, argumentos para arrebatar a coroa ao campeão. A vitória dos marselheses diante do campeão e o tropeção do Lyon contra o PSG - outra equipa que, com mais um ano de maturidade pode voltar a lutar pelo titulo - praticamente escancarou as portas do campeonato ao histórico clube frances, o único que venceu em campo uma Champions League. Mas a excelente época do Bordeaux de Laurent Blanc, mas também do Lille - uma equipa em constante mutação - e do Toulouse, provam que o campeonato frances voltou aos seus tempos aureos, onde revalidar um titulo era tarefa quase impossível.
Na Alemanha a situação é ainda mais surpreendente, até porque o Bayern Munchen não só se reforçou a preceito, construindo aquele que é, muito provavelmente, um dos melhores planteis da sua história, mas porque o seu rival natural, o Werder Bremen, concentrou-se cedo nas provas europeias e navega agora pelo meio da tabela. A espectacular primeira volta do Hoffenheim - acabadinho de subir da segunda liga - lançou o alerta, mas foi só a partir de Fevereiro que irromperam no topo da classificação um grupo de cinco equipas que foram capazes de aproveitar os tropeções dos bávaros e a falta de Ibisevic no ataque dos recém-promovidos. Se Schalke04 e Sttutgart eram equipas com claras ambições a lutar pelo trofeu, já as espectaculares exibições do Hertha de Berlin de Voronin - emprestado pelo Liverpool - e do Wolfsburg, onde milita Ricardo Costa, que vive dos golos de Grafite, provam que não é preciso ter uma equipa repleta de estrelas para se vencer campeonatos. Dois blocos sólidos na defesa, imaginativos no ataque e com jogadores desiquilibrantes que podem muito bem conseguir um feito histórico.
Tudo isto não invalida que, no último mes de competição, não regressemos ao status quo. O Bayern Munchen pode perfeitamente sagrar-se campeão e até o Lyon pode recuperar a coroa. Mas esta autentica revolução da classe média pode ser a pedra de toque para uma mudança que é necessária para o futebol europeu manter a vitalidade. Um primeiro passo para a revalorização dos campeonatos de média dimensão e uma plataforma para o irromper de novos talentos. Enfim, a quebra de hierarquias prova que o futebol é um fenómeno em constante evolução por essa Europa fora e fica o amargo sabor de boca num país onde, salvo apenas duas excepções em 80 anos, continuamos a viver a ditadura dos grandes.
PS: À hora em que fechei esta analise tomei conhecimento do despedimento fulminante de Jurgen Klinsmann pela direcção do Bayern Munchen. O treinador alemão afirma ter lançado as bases para o futuro do Bayern, mas a verdade é que este plantel é provavelmente o mais sólido e talentoso das últimas décadas e ser humilhado pelo Barcelona na Champions, cair na Taça da Alemanha e estar em risco de perder o titulo não é propriamente um bom cartão de visita. Resta saber se Jupp Heynckhes, esse conhecido do futebol portugues, é capaz de trazer essa nova moral à turma bávara para este último sprint. Possivelmente chega tarde, possivelmente Klinsmann devesse ter tido a oportunidade de ir ele até ao fim. De qualquer das formas, passe o que passar, isso não desvirtua o mérito de qualquer um dos candidatos ao título alemão.

