Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010

Fechou a carreira com uma bofetada de luva branca a todos os criticos que durante anos pediram a sua cabeça. Fartou-se do futebol depois de ter entendido que tinha atingido o ponto mais alto da sua carreira, um feito inigualável. Como ele próprio. Durante vinte anos, Aimee Jacquet foi, muito provavelmente, o mais genial treinador gaulês. Um génio eternamente incompreendido.

 

 

 

Poucos treinadores influenciaram tanto a história do futebol de uma nação como Aime Jacquet.

O técnico que marcou o destino da Ligue 1 durante a década de 80 renasceu, dez anos depois, para fechar um ciclo interminável de sofrimento para os gauleses. Primeiro técnico campeão do Mundo a despedir-se na noite da sua consagração, o seu sucesso foi relegado para um segundo plano. A imprensa, sua inimiga figadal durante décadas, preferiu destacar o talento individual da França multicultural quando já sabiam, como mais tarde se revelaria, que metade dos jogadores daquela deslumbrante selecção nem se falava. A França campeã do Mundo em 1998 completou uma saga pessoal de um homem que tinha sido sempre desprezado como um técnico provisório e que acabou por lograr o que os grandes mentores do passado tinham falhado.

No dia da final contra o Brasil, o destino da carreira do técnico ficou selado. Três golos sem resposta deram o titulo à França e marcaram um adeus depois de quatro anos de polémica como seleccionador nacional. Mas o seu passado de riff-raffes e disputas remontava a muitos anos antes, aos seus dias de jogador no histórico Saint-Ettiene. O Jacquet técnico sempre se pareceu ao Jacquet jogador. Como atleta foi um elemento nuclear na ascensão desportiva dos Les Verts. Chegou ao clube em 1960 com 19 anos, depois de quatro anos a dividir o seu dia a dia entre uma equipa amadora do seu bairro e o trabalho diário numa fábrica de metalúrgia. Dias dificeis na França do pós-guerra que moldou o forte caracter do homem que lideraria o clube de Saint-Ettiene a cinco titulos nacionais durante a década de 60, tornando-se na maior potência desportiva na era pós-Stade Reims. Quando os directivos do clube achavam que estava velho demais, Jacquet rejeitou a reforma antecipada prometida e rumou a Lyon, então um clube de terceira linha. Na capital do Ródano esteve três épocas e ajudou a moldar o conjunto que significaria o rejuvenescimento dos Les Gonnes. Em 1973 colocou final a uma carreira de quinze anos para começar, duas épocas depois, a sua carreira como técnico. Em Lyon precisamente.

 

Com Platini a liderar o renovado Saint-Ettiene, o trabalho de técnico de Jacquet no Lyon superou as expectativas dos directivos que o tinham apenas contratado até encontrar o homem certo. Em três anos o conjunto do massiço central gaulês voltou a lutar pelo titulo francês, apesar de não estar ao nível da elite gaulesa de então, liderada pelo Nancy, PSG e Saint-Ettiene. O sucesso de Aimé Jacquet foi tal que o Girondins Bordeaux o elegeu em 1980 para liderar o projecto do clube do Garonne liderado agora pelo milionário Claude Bez.

Em Bordeaux o técnico revolucionou o futebol francês. Com Giresse, Tigana, Girard e Lacombe o meio-campo dos girondinos marcou o patrão de excelência do futebol da selecção francesa, com a indispensável adicção de Michel Platini. O Bordeaux, a viver uma grave crise institucional, renasceu das cinzas. Venceu três ligas (84, 85 e 87), duas Taças de França e chegou a duas meias-finais da Taça dos Campeões Europeus, caindo aos pés da Juventus e do AC Milan. Quebrou finalmente o dominio do Saint-Ettiene e erigiu uma escola de bom gosto futebolistico que marcou uma geração. Nove anos depois da sua chegada, e depois de perder pelo segundo ano consecutivo o titulo para o Olympique Marseille de Bernard Tapie, o presidente do Bordeaux decidiu despedir Jacquet. O projecto desportivo tinha chegado ao fim e com ele o mandato do técnico que o impulsionara. Jacquet passou pelos bancos dos modestos Montepellier e Nancy antes de chegar a Clairefontaine. Surgiu primeiro como número dois do recém-nomeado seleccionador Gerard Houllier e depois da eliminação deste na fase de qualificação ao Mundial de 1994, foi eleito seleccionador interino.

A partir de 1994 o mandato de Jacquet começou uma profunda transformação no futebol de um país que sabia que quatro anos depois seria o centro do Mundo. O técnico preferiu abdicar do talento incontrolado de Eric Cantona e David Ginola, as grandes estrelas da época, e apostou numa geração de jovens promessas onde destacavam Zinedine Zidane, Youri Djorkaeff e Christoph Dugarry. No Euro 96 em Inglaterra surpreendeu os criticos com uma presença nas meias-finais quando todos davam os gauleses como presas fáceis dos rivais do Grupo B. A performance valeu-lhe a renovação do contrato e os primeiros ataques da imprensa que o acusavam de ser excessivamente cauteloso. Com Jacquet o eixo defensivo francês, o calcanhar de Aquiles histórico da equipa, começou a funcionar com a precisão de um relógio suiço. Barthez, Blanc, Thuram, Lizarazou e Desailly tornaram-se fixos. Vieira e Deschamps funcionavam no apoio e davam total liberdade a Petit, Djorkaeff e Zidane por detrás do solitário goleador. Um onze sem muitas alternativas (daí as precoces chamadas de Henry e Trezeguet em 98) e que funcionou mal nos amigáveis prévios ao torneio. Durante a prova Jacquet foi diariamente atacado pela imprensa gaulesa. No campo a equipa respondia com convição. No balneário a multiculturalidade tinha provocado a formação de guetos étnicos bem distantes.

 

 

 

O seleccionador sobreviveu às batalhas internas e externas e fez história. A França venceu todos os jogos desde o arranque com a África do Sul à vitória categórica sobre o Brasil. O conto de fadas de Kopa e Platini tinha agora com Zidane e companhia um final feliz. O homem que todos aprenderam a desvalorizar montou o onze que quebrou o enguiço. Depois ajeitou os óculos, olhou para o céu e bateu com a porta. Até hoje. Era um homem feliz então. Doze anos depois continua igual a si mesmo. Sabendo que o lugar no Olimpo será seu para sempre.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 16:25 | link do post | comentar

2 comentários:
De César João a 11 de Dezembro de 2010 às 00:43
Um grande senhor e um grande treinador.


De Miguel Lourenço Pereira a 14 de Dezembro de 2010 às 08:49
Um grande técnico ultrapassado pela popularidade de um jogador e pela definição de uma ideia, o multiculturalismo futebolistico.

Um abraço


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