Poucos lembram-se já da genial equipa liderada por um diabólico Jimmy Greaves. A última a erguer o título de campeã inglesa no longinquo 1962. A que ficou às portas da glória europeia, superada pela irrepetível geração de Eusébio e os seus pares. Quase 50 anos depois o mitico White Hart Lane volta a redescobrir o prazer do bom futebol. Agora, os sonhos dos Spurs fazem todo o sentido!
Todos os anos o Tottenham gastava fortunas, todos os anos a desilusão era um karma inevitável.
Foi assim durante os últimos 50 anos. Desde o final da geração dourada dos 60 que a equipa do norte de Londres não voltou a ser considerada a melhor de Inglaterra. Nem a magnifica geração dos anos 80, com o matador Gary Liniker à cabeça, conseguiu contrariar a tendência. Pelo mitico White Hart Lane passaram alguns dos grandes jogadores da história da Premier, de Osvaldo Ardilles a David Ginola. Mas nunca foi suficiente. Até que chegou o sempre polémico Harry Redknapp e os adeptos recuperaram a crença. Não, este Tottenham ainda não ganhou nada. Mas as comparações com o passado jogam directamente a seu favor. Há largos anos que a equipa não apresentava um plantel tão bem estruturado e um futebol tão atractivo. Uma equipa puramente britânica, onde a garra e raça convivem com o talento e a velocidade, armas nucleares na estrutura táctica de uma equipa que rompeu com o monopólio dos Big Four e que já bateu o pé ao campeão europeu em titulo.
Desde o Leeds United de 2002 que não havia uma equipa inglesa capaz de desafiar o poderio dos quatro grandes, como se estableceram ao longo da década. Manchester United, Arsenal, Chelsea e Liverpool pareciam imbativeis, mesmo para os determinados homens do Aston Villa ou os milhões árabes gastos pelo Manchester City. Os quatro postos da Champions League, os titulos, as capas dos jornais, os melhores jogadores. Tudo era seu por direito. Mas no final da época passada algo tinha mudado. A queda livre do Liverpool e o falhanço da politica do Manchester City permitiu ao histórico Tottenham um regresso às origens. Mas, mais do que isso, os Spurs igualaram em pontos o eterno rival Arsenal e mostraram uma qualidade de jogo que chegou a ombrear com o próprio campeão, o também londrino Chelsea.
No último mês o Tottenham tem reforçado a sua condição de equipa séria. E para ser levada muito a sério.
É verdade que o hábito de dividir-se entre jogos europeus e da Premier passou alguma factura ao onze de Redknapp. A equipa sofreu na pré-eliminatória com o Young Boys suiço mas desde que entrou na fase de grupos da prova mostrou-se intratável. Mesmo quando perdia por 4-0 em Milão logrou uma recuperação quase histórica, marcando 3 golos em vinte minutos. Quinze dias depois vergou categoricamente os italianos de Benitez em Londres e assumiu a liderança do grupo que ainda ostenta. À falta de um só jogo e de uma só vitória.
Por detrás deste sucesso, que começou há dois anos com a chegada do então técnico do Portsmouth, está a tranquilidade. O Tottenham sempre foi uma equipa históricamente histérica. Ao minimo sinal de fracasso mudava-se tudo e recomeçava-se do zero. Vários projectos desportivos falharam por não ter sequer direito a uma segunda oportunidade. Com Redknapp isso mudou. O antigo jogador, pai de Jamie Redknapp e tio de Frank Lampard, é um treinador da velha guarda, dos poucos ingleses que sobrevivem na ribalta da Premier League. E teve tempo para enganar-se e começar do zero. Para incutir a sua filosofia de jogo e desenhar o plantel, cheio de descartados e jovens promessas, à sua medida.
Hoje é inegável que o grupo de trabalho do Tottenham é superior à maioria dos seus rivais. Jovens promessas britânicas como Gareth Bale, Tom Huddlestone, Michael Dawson ou Aaron Lennon partilham protagonismo com estrelas como Rafael van der Vaart, Peter Crouch, Roman Pavluychenko ou Luka Modric. A recuperação do genial croata, lesionado grande parte da época passada, foi a melhor noticia para os adeptos que contam agora com uma linha ofensiva temível onde a velocidade de Lennon e Bale se contrapõe à eficácia de Defoe, Crouch e Pavluychenko e ao talento de van der Vaart, Modric e Kranjcar. No miolo um grupo de choque, liderado por Palacios e Huddesltone, faz a diferença diante de uma linha defensiva a subir progressivamente de forma apesar das lesões do veterano Ledley King. O habitual 4-4-2 bem aberto nas alas vai variando conforme o técnico lança do banco as suas principais armas, Lennon para abrir o terreno de jogo, Crouch para rematar o resultado e Modric para impor a temporização do jogo.
Um conjunto que segue a seis pontos da cabeça na Premier mas com legitimas aspirações de lutar por algo mais que o regresso no próximo ano à elite europeia. As recuperações in extremis frente a rivais directos como o Arsenal ou Liverpool provam que este clube está, efectivamente, transformado. A crença é a grande arma táctica de um técnico que incutiu nos jogadores a confiança para desafiar todos os limites. A explosão definitiva de Gareth Bale, transformado em extremo letal depois de dois anos como lateral, é a prova viva do ressuscitar de um clube a quem os ingleses não sabem como lidar.
Como em tudo, o crescimento do Tottenham joga directamente com a mudança na correlação de forças na Premier League. Se Newcastle e Leeds viram os seus projectos naufragar com o sucesso repentino de equipas então de segunda linha desportiva, agora o Tottenham Hotspurs benificia de uma quebra animica do lider Chelsea, da eterna indefinição do City, da má gestão do Liverpool, da falta de punch do Arsenal e até da lenta renovação do histórico Man Utd. Factores que, correlacionados, podem abrir as portas a Redknapp e aos seus pares para sonhos mais altos. Mais altos ainda do que as gélidas bancadas do topo norte de White Hart Lane seriam capazes de imaginar há dois anos atrás. Mais do que o sucesso, os adeptos dos Spurs redescobriram o prazer do futebol. O que já não é pouco.

