Depois de anos de hegemonia do 4-4-2 e da época onde o 4-3-3 criava escola começa a tornar-se evidente que a táctica que mais convence técnicos e jogadores neste novo século passa pelo 4-2-3-1. Uma táctica de futebol total, equilibrada da medula às pontas e onde há espaço para as mais diferentes abordagens. Há resistentes, como sempre, mas é cada vez mais dificil escapar à hegemonia da táctica do novo milénio.
Do 3-5-2 ao WM. Do 4-4-2 ao 4-3-3. E agora consolida-se o 4-2-3-1.
Não é novidade. É mais, ao longo desta última década tem sido a mutação quase inevitável pelo que tem passado o futebol, como europeu à cabeça em particular. Não é espectacular a não ser que os interpretes tenham uma flexibilidade táctica que o permita. Mas é tremendamente eficaz e equilibrado, peça chave num mundo onde o não perder se tornou fundamental perante a politica resultadista que pauta a vida de qualquer técnico contemporâneo.
Se no arranque da década já Portugal e França surpreendiam em 2000 actuando de uma forma bastante similar (basta lembrar a medula lusa composta por Vidigal-Paulo Bento, Rui Costa, JV Pinto/Sérgio Conceição, Figo e Nuno Gomes, esquema em tudo similar ao esquema de Del Bosque) foi preciso esperar dez anos até ver outra selecção demolidora com essas caracteristicas. O desenho táctico que ostenta hoje a selecção campeã do Mundo promete marcar uma era. Mas não sem criticas. Há quem o apele de ultra-defensivo pelo uso do duplo pivot. A resposta parece ser inevitável. Mais uma vez, os interpretes fazem a diferença. Espanha é o caso mais paradigmático da aceitação geral do 4-2-3-1 como a táctica a seguir. Num país onde o Barcelona encanta como o último defensor do 4-3-3, a táctica impõe-se da selecção nacional aos principais clubes. Vicente del Bosque seguiu o modelo iniciado por Luis Aragonés que abandonou o esquema em árvore para optar por um futebol de toque. De forma a caber todos os seus artistas não teve outro remédio de alargar o terreno de jogo. Mas fê-lo de uma forma mais ofensiva, num falso 4-2-3-1 em que Xavi e Senna pautavam o ritmo e Iniesta, Silva e Villa se recriavam atrás de Torres. Chegado del Bosque ao cargo a filosofia manteve-se mas com um maior ajuste defensivo. Busquets entrou para o lugar do veterano Senna e Xabi Alonso trouxe mais equilibrio às transições. Xavi viu-se livre de labores defensivas e passou para o miolo do terreno de jogo com Iniesta e Villa como fieis escudeiros. De ambas as formas - com ritmos distintos mas resultados semelhantes - Espanha conquistou a Europa e o Mundo. E vulgarizou a ideia de que para vencer era preciso equilibrar, e que o equilibrio estava na conjugação perfeita das peças no tabuleiro. Nesse modelo de jogo pautado pela fluidez de jogo com a bola nos pés e pela contenção defensiva na ocupação dos espaços.
Se Espanha confirmou a tendência que vinha ganhando forma nos últimos anos, Mourinho tornou-se no técnico que melhor soube tirar partido do sistema. O seu Real Madrid resume parte da filosofia que já operava em Inglaterra, por detrás de um 4-3-3 que se tornou, progressivamente, mais conservador. Um miolo de força e critério (Khedira, Xabi Alonso), um trio capaz de intercambiar posições a altas rotações (Ronaldo, Ozil, Di Maria) e um ponta-de-lança fixo que tanto serve como pivot de ataque como de flecha apontado às balizas rivais. Lembrar a dupla Essien-Obi Mikel entrosados com Malouda-Lampard-Cole/Philips (e o pivot Drogba) é algo inevitável. Esse Chelsea, como este Real Madrid, era uma máquina de resultados perfeitos e de equilibrio sobre o terreno de jogo. Como um acordeão, as equipas de Mourinho sabem esticar-se e retrair-se sobre o terreno, encurtando ou alargando o espaço e o ritmo à sua vontade. O equilibrio base permite aos laterais subir e mesmo assim manter um bloco com 4 elementos de perfil mais defensivo transformando-se num 2-4-3-1 com a posse de bola e num 4-5-1 sem ela. Nenhum outro dispositivo táctico dá tanta margem de manobra ao técnico para, durante os 90 minutos, realizar tantos ajustes mudando tão poucas peças.
Como o clube merengue também o Valencia de Unay Emery (que aposta em Pablo Hernandez, Mata e Costa atrás de Aduriz ou Soldado) ou o Villareal rendem-se à popularidade do desenho de moda. Saltando os Pirinéus basta ver o ritmo frenético do Borussia Dortmund (um 4-2-3-1 ultra-ofensivo com excelentes resultados), Arsenal e AC Milan articulam o modelo à perfeição.
Como sempre os interpretes condicionam o ritmo de jogo e o disposito táctico no papel ganha vida própria. Se os "bajitos" espanhóis levam o 4-2-3-1 a um jogo de toque curto horizontal com a constante procura de aberturas nas diagonais de Iniesta e Villa, a formação de Mourinho, mais fisica, procura o jogo lateral dos seus arietes antes que a associação medular. Em Itália o Milan prefere um fluxo de jogo central, com Ronaldinho e Pato como falsos avançados interiores, e na Alemanha a velocidade dos falsos extremos do Dortmund contrapõe-se com a contemporização da medular de fino recorte técnico. Um modelo utilizado até à exaustão pelo próprio Low com Schweinsteiger-Khedira-Ozil a pautar o ritmo de Podolski, Muller e Klose. Inevitabilidades.
O velho 4-4-2 está, cada vez mais em desuso. O 4-3-3 depende, cada vez mais, do arrojo de um técnico com as armas certas para explorar uma táctica que tem de ser articulada na perfeição para não deixar demasiados espaços (vide Guardiola ou Villas-Boas). No meio de tudo isso o 4-2-3-1 emerge, cada vez mais, como o modelo a seguir. Menos riscos, mais esforço fisico, maior controlo do ritmo de jogo. Tudo aquilo porque se pauta o futebol moderno. Assim é dificil resistir.

