Quarta-feira, 17 de Novembro de 2010

O peso da responsabilidade faz-se sentir sobre os ombros de Rafa Benitez. O técnico espanhol não consegue responder ao desafio de herdar uma equipa campeã da Europa e o seu Inter está a anos-luz das equipas orientadas nas últimas duas épocas por Mourinho. Um problema do ex-treinador do Liverpool com várias explicações possíveis. Mas a única cabeça que está em jogo é a sua...

Em 2004 José Mourinho confessou a Gary Liniker numa entrevista que tinha tido um convite de um clube italiano para sair do FC Porto mas que tinha preferido o Chelsea. Não disse o nome mas pouco faltou. "É fácil adivinhar, mudam de treinador todos os anos". Um epiteto que acenta bem no Internazionale da era Moratti, que precisou de quase 20 para voltar a ganhar um titulo e uns 20 mais para saber o que era triunfar na Europa. Coisa pouca.

Essa é a mentalidade, por defeito, de um clube como o actual campeão europeu. Mancini rompeu a tendência principalmente porque não havia concorrência real aquela sua equipa sem sal. Quando a exigência subiu, o técnico não correspondeu. Afinal tinha feito mais do que todos os que o tinham antecedido desde 1989. Mas em San Siro isso é pouco. Talvez por isso Helenio Herrera e José Mourinho tenham construido essa aura eterna que nunca desaparecerá da mente dos adeptos e dirigentes. O primeiro ainda hoje é invocado pelos mais nostálgicos. O segundo quebrou a maligna profecia e tornou-se no messias dos espectadores pós-anos 60. Hoje, e sempre. Vencer dois anos quase tudo é algo pouco habitual para o adepto neruazurri. Fazê-lo com uma equipa com um plantel reduzido e sem grandes individualidades, um feito. Inigualável provavelmente. E por isso a saída de Mourinho criou um problema maior do que o habitual sentimento de perda. O FC Porto precisou de um ano no débil campeonato luso. O Chelsea esperou dois. E em ambos os casos Mourinho tinha deixado as sementes do futuro prontas a germinar (Meireles, Pepe, Carlos Alberto, Kalou, Essien, Mikel, ...). Em Milão cruzam os dedos não seja a tendência algo matemático e inevitável. O facto é que Mourinho é expert em sacar o melhor dos seus jogadores. De fazer jogadores vulgares em iminentes talentos. Explorou o melhor de Milito e fez dele rei da Europa. Deu liberdade ao avançado que havia dentro de Maicon e reforçou a disciplina ferrea que tanto encanto ao esquadrão argentino. Tudo isso sabendo que o plantel estava cada vez mais envelhecido e que os seus homens tinham uma última oportunidade. E que o futuro seria negro.

 

Benitez foi o eleito para suceder ao rei da Europa.

A sua experiência passada estava misturada entre luz e sombras. Fez maravilhas com o seu Valencia (duas ligas e uma Taça UEFA em três anos) mas com o Liverpool foi de mais (venceu a Champions no seu primeiro ano) a menos (acabou com o pior resultado desportivo da década dos Reds). Um risco, sem dúvida, até porque as debilidades do espanhol são reconhecidas. Bom na táctica, péssimo no trato com os jogadores, seria ele o homem certo para lidar com um balneário de veteranos campeões da Europa habituados ao ombro de Mourinho? A resposta torna-se evidente a cada jornada que passa.

Rafa perdeu o controlo do balneário do Liverpool e ainda não ganhou o do Inter. Teve problemas com vários jogadores e não tem capacidade para agir como "olheiro" capaz de reabastecer um plantel sem gasolina para repetir feitos. Um plantel farto de ganhar em Itália e saciado na Europa. Um plantel que exigia uma transformação total mas que não sofreu o mais minimo ajuste. Os soldados são os mesmos, a ânsia de dar guerra não. Com Milito sem ver a baliza (o caso mais flagrante do aproveitamento cirúrgico de Mourinho depois de Maniche), salva-se o ressuscitar de Samuel Etoo, rei dos golos na Europa e um dos mais firmes candidatos a revelação do ano, depois de ter passado um ano a servir nas galeras do centurião Mou. Sneijder está estourado por um ano perfeito e sem ele não há magia no meio-campo neruazuri. Os gladiadores lutam, mas sem necessidade de agradar ao novo general. Benitez queria trazer homens de confiança (Kuyt, Mascherano, Torres) e agora tem em mãos uma turba incontrolável. E se o Liverpool está ainda a pagar o preço da sua péssima gestão desportiva (desprezou sempre a Premier e nunca soube montar planteis equilibrados) o Inter entra na mesma espiral. Plantel desiquilibrado, sem sangue novo (e na formação interista há alguns talentos bem promissores) e sem um sistema táctico assumido, o Inter navega sem rumo. A derrota frente a um AC Milan menor não surpreendeu, mesmo que o golo tivesse sido de penalty. Contra 10 nunca souberam dar a volta. Na Europa foram vulgarizados pelo Tottenham em Londres e terão de esforçar-se um pouco mais para não sofrer para conseguir entrar na fase a eliminar (onde Benitez é um expert). E com a Serie A em profunda mutação, resta saber se o manchego terá força suficiente para dar a volta à situação. Ou melhor, se aguentará até ao final de curso.

 

O posto era apetecivel mas também um presente enveneado. Benitez ainda não demonstrou, como seria de supor depois de ver a sua evolução em Anfield Road, ser capaz de desviar o Inter de uma espiral forçosamente auto-destructiva. Será necessário algo mais que um ajuste táctico e uma incursão no mercado de Inverno para ressuscitar o campeão europeu. O espanhol terá forçosamente de mudar e com ele mudar toda a estrutura de um clube complexo até à medula. Terá tempo para isso? Dificil de imaginar, porque todos sabemos que depois de Mourinho sempre há um dilúvio...  



Miguel Lourenço Pereira às 14:00 | link do post

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