Na época dourada do futebol alemão e das taças europeias conquistadas pelo Bayern Munchen do torpedo Muller e do kaiser Beckenbauer havia uma figura que brilhava por direito próprio numa constelação só sua. Gunter Netzer, profeta do futebol estético, foi a resposta germânica ao génio de Cruyff e um verdadeiro marechal do bom gosto na ponta dos pés.
Conta-se muitas vezes que um dia o Borussia Monchenlagdbach foi jogar ao Estádio Chamartin contra o poderoso Real Madrid. Os directivos do clube merengue tinham ouvido maravilhas de um tal Netzer, alemão alto e loiro, com um talento fora do normal. Na bancada presidencial tornavam-se os directivos ao lado do imponente Santiago Bernabeu para lhe dizerem maravilhas do homem que jogava com o número 4, o que tinha sido atribuido na ficha a Netzer. O presidente, que gostava pouco de conselhos alheios, no final do jogo virou-se para os dirigentes merengues e rematou a tarde com um "O vosso número 4 é uma boa merda mas quero contratar o tipo que joga com o 6, encantou-me". Era Netzer, com a camisola trocada. O seu talento, como o algodão, nunca enganou ninguém.
Para muitos, a quase quarenta anos de distância, o seu génio nunca teve comparação no futebol germânico. Nem Seeler, nem Walter, nem Muller, Rummenige, Mathaus ou o próprio Kaiser. Nenhum parecia ter o toque de classe que o organizador de jogo que deu o pontapé de saída à equipa mais exitosa do futebol alemão (que durante 12 anos só falhou a final de um torneio, a do Mundial de 78). Quando a guerra dava os seus últimos suspiros, o jovem Netzer nascia num dia de bombardeamentos em Monchenlagdbach. Viveu as agruras do pós-guerra e o fausto da reconstrução. Com 18 anos foi chamado à primeira equipa do F.C. Monchenlagdbach, onde chamou à atenção do grande clube da cidade, o Borussia. Com 20 anos era já titular absoluto na formação verde-negra do oeste da RFA. E muito cedo começou com os seus recitais de pura música clássica.
Chamado pela primeira vez à Mannschaft com 22 anos, em vésperas do Mundial de 66, o então jovem médio centro falhou a lista dos eleitos finais, preterido então por outra estrela em ascensão, Franz Beckenbauer. Alheio às disputas estelares tão do agrado do "kaiser", Netzer continuou a dar os seus festivais no relvado. Quatro anos depois fez história ao capitanear o Borussia ao primeiro titulo na Bundesliga. No ano seguinte repetiu o triunfo, no primeiro clube a vencer a prova sem derrotas. Numa equipa onde deambulavam génios como Jupp Heynckhes, Berti Vogts e Herbert Wiemer, Netzer encaixava como uma luva. A equipa orientada por Hennes Weisweiler era o reclame perfeito do futebol atractivo que inspirava a Europa. O rival estético do ascendente Ajax Amsterdam, os de Monchenlagdbach tiveram as provas europeias como assinatura pendente. Netzer, por outro lado, começava a ganhar o seu espaço no futebol alemão. Depois da ressaca do Mundial de 70 tornou-se na trave-mestra da equipa formada por Helmut Schon que dois anos depois venceria o primeiro Europeu de Futebol para os alemães. Melhor jogador do torneio, Netzer vencer pela primeira vez o prémio de Melhor Jogador Alemão (repetiria no ano seguinte), perdendo para Cruyff o Ballon D´Or da France Football (tal como sucederia um ano depois). Quando os problemas pessoais com o técnico Weisweiller se tornaram incontroláveis, o médio, pura e simplesmente, decidiu partir. Despediu-se com uma exibição épica saindo do banco, frente ao FC Koln, na final da Taça da Alemanha de 73 (2-1, com dois golos seus) e partiu para Madrid. Aí esperava-o um público desconfiado e um presidente autoritário que vivia o ocaso da sua grande carreira. Resposta do clube madrileño à contratação de Cruyff pelo Barcelona, num duelo estético e mediático que hoje se podia perfeitamente equiparar ao que existe entre Messi e Ronaldo, o médio tornou-se elemento nuclear na equipa merengue. Perdeu o primeiro titulo para os blaugrana, numa noite inesquecível do holandês, mas desforrou-se conseguindo os dois titulos seguintes numa equipa que já contava com Paul Breitner e que viria a receber outro alemão, Ule Stilike. Mas nenhum deles deixou tantas saudades como o marechal louro da chuteira de tamanho 47, tão estranho para os espanhóis que todo o seu calçado vinha importado da RFA.

Relegado pelo seu amigo Overath para um segundo plano no Mundial de 74, o génio alemão fartou-se da fria Madrid dos últimos suspiros do franquismo e quando acabou o contrato rejeitou a renovação e partiu para a tranquila Suiça onde rematou a carreira ao serviço do Grashoppers. Quando acabou a carreira pôs o seu talento ao serviço do Hamburg SV tornando-se no Director Desportivo responsável pelos três titulos e pela Taça dos Campeões ganhos pela equipa do Norte. Depois reciclou-se em comentador televisivo e cronista num dos principais diários germânicos. No papel, como no relvado, continua a destilar as suas memórias e pensamentos, relembrando os dias em que cirurgicamente decidia jogos, ligas e taças com a precisão de um marechal que não gostava de ganhar se não o fazia com um toque de classe.