Três derrotas consecutivas, problemas de balneário, desconfiança da massa adepta e falta de atitude da equipe técnica. O dinheiro do petróleo das Arábias serviu para colocar o cartel de "Novo Rico" do futebol internacional nas bancadas do City of Manchester mas, até agora, foi incapaz de produzir resultados. Porque o dinheiro ajuda, mas não compra tudo...

Depois do Arsenal e Wolverampton chegou a vez do modestíssimo Lech Poznan. Três equipas bem diferentes que têm uma coisa em comum: vergaram o senhor dos anéis do futebol europeu, o multimilionário Manchester City. Sem contestação.
Três tropeções de forma consecutiva que deixa Roberto Mancini em apuros. O italiano nunca foi apreciado pelos adeptos que desconfiam de um técnico que ostenta três titulos italianos ganhos entre tribunais e rivais despromovidos a escalões inferiores. Sem mais. A sua popularidade há muito que anda em baixo pela estratégia defensiva que apresenta habitualmente no City of Manchester, muitas vezes reduzida à utilização de três médios de contenção (Barry, De Jong e Touré) ou pelas suas contratações mais polémicas, onde Mario Balotelli, o seu protegée, ganha a palma. O italiano continua em estado de negação e afirma que a equipa está preparada para ombrear-se com os maiores, tanto em Inglaterra como na Europa. Mas os resultados (e as fracas exibições nas vitórias) têm servido mais para crucificar o técnico do que, propriamente, para servir de ajuda na sua defesa. O City milionário voltou a gastar este defeso mais do que qualquer um. David Silva, Mario Ballotelli, Aleksander Kolorov, Yaya Touré, James Millner e Jerome Boateng chegaram para fazer a diferença. Já lá estavam Adebayor, Tevez, Kolo Touré, Wright-Philips, Bridge, Barry, Lescott, Richards, Kompany e companhia e pelo meio foram-se descartando Bellamy, Robinho ou Santa Cruz. E mesmo assim, com um plantel pago a peso de ouro, o técnico continua sem dar com o onze tipo. Lescott, que custou cerca de 28 milhões de euros ao Everton, não tem saído do banco e é o jovem Boyata, promessa do futebol belga, que tem actuado como titular. Shay Given, um dos melhores da passada época, viu-se suplantado na baliza pelo temerário Joe Hart. O togolês Adebayor ressuscita com a ausência forçada de Tevez mas continua a ser uma carta descartada. Como Silva e Balotelli, que passaram mais jogos no banco do que no relvado, apesar dos 60 milhões gastos entre os dois. Muitos problemas que o dinheiro não resolve.
Na Polónia voltou a ver-se de que madeira é feito este City.
Num grupo temivel - por onde também anda a renascida Juventus de Luigi del Neri, em terceiro no grupo com apenas 4 pontos, menos três que polacos e britânicos - perder pontos com rivais acessiveis é um problema. E ser derrotado pelo Lech Poznan, campeão polaco, era algo que não estava nos planos de ninguém. O 3-1 deixou a nu os problemas defensivos dos Citizens e a falta de eficácia de um ataque que funciona mal sem o Apache Tevez como elemento central. O argentino chegou hoje às Eastlands mas com a cabeça noutros voos (Madrid, quem sabe?) e sem ele Mancini perde a um matador. E a um lider.
A equipa jogou partida na Polónia como jogou sem espirito contra o modesto Wolves. Um cenário visto e revisto vezes sem conta esta temporada, salva muitas vezes por momentos de inspiração de Tevez, Silva ou do jovem Adam Johnson. Exceptuando a vitória sobre um Chelsea em serviços minimos, a época do City tem deixado demasiado a desejar para quem gosta de passar a imagem de ser a equipa mais rica e com maior potencial do planeta futebol. Mas o pedigree competitivo não se consegue só com a soma de jogador talentosos.
Os Galácticos de Madrid e a primeira etapa de Abramovich num Chelsea pré-Mourinho diz-nos isso com total clareza. Em Manchester começam a entender que a glória é um objectivo ambicioso mas distante se os problemas continuarem a ser resolvidos apenas com livros de cheque com cheiro a petróleo.
Demasiados jogadores talentosos significam problemas. Ter um plantel de 20 jogadores pagos a peso de ouro é um problema em potência. Para actuar Tevez e Adebayor não jogam Silva e Ballotelli. Para explodir Johnson, no banco fica Millner. Para confiar em Barry é preciso descartar a Touré. Para fiar-se de Kompany e Bridge há que desvalorizar as fortunas gastas em Richards e Kolarov. E daí em diante até à exaustão. O City criou o seu próprio problema e a ineficácia da equipa como colectivo apenas o agudiza. Se no banco está um treinador sem perfil de liderança, capaz de impor o seu estilo e de definir prioridades, o assunto torna-se dramático.

Em posições Champions e ainda com o apuramento para os 16 avos da Europe League no horizonte, não há nada perdido ainda nas Eastlands. Mas o dinamismo do Arsenal, o ressuscitar dos Ferguson Babes e a constância do Chelsea de Ancelloti torna a luta pelo titulo um cenário complexo para uma equipa que aspirava a tomar o elevador rumo ao titulo por um atalho desconhecido. A sua fragilidade no palco europeu deixa antever os reais problemas de um conjunto que, tal como no ano passado, pode acabar a época mergulhado em desespero. E, previsivelmente, recorrendo à única arma que conhece para resolver um problema que ainda não entendeu realmente.

