Houve uma época em que viajar à "Banheira" de Roterdão era mergulhar no próprio Inferno. Hoje quem vive escaldado debaixo da terra são os adeptos do Feyenoord. O primeiro grande do futebol holandês vive há largos anos uma crise financeira que ameaça já a própria sobrevivência do clube. A derrota humilhante por 10-0 em Eindhoven apenas reforça o inevitável. O gigante de Roterdão fez-se imensamente pequenino.

Em 1983 o Feyenoord perdeu por 8-2 contra o PSV. Naquela equipa militava já um jovem flamante Gullit. A derrota destrozou as opções do clube na corrida ao titulo mas a curto prazo significou um "reboot" da equipa. Dois anos depois o clube de Roterdão dava a volta por cima e fazia história. Mas aquela tarde foi como uma pequena excursão ao inferno.
Foi a última vez que o gigante de Roterdão viveu uma noite de enfarto. Até hoje. A era de ouro já tinha passado mas a pouco e pouco os de Roterdão foram recuperando o seu prestigio perdido. Mas nada era como antes. Em 1969 os vermelho e brancos tinham feito história ao sagrar-se campeões europeus, o primeiro clube do norte da Europa não britânico a lograr um feito que marcaria tendência para a década e meia seguinte. Foi o inicio de uma era de quatro ceptros europeus consecutivos para a Holanda. Mas seria o único do Feyenoord. Superado pelo Ajax de Johan Cruyff, os de Roterdão passaram a um inevitável segundo plano interno e europeu. Mesmo assim reconquistaram o ceptro holandês várias vezes durante a década e em 1974 voltaram a uma final europeia, a Taça UEFA, ganha diante do Tottenham Hotspurs. Em 1984 o clube viveu a sua última grande época. Com Johan Cruyff e Ruud Gullit no ataque, os de Roterdão fizeram a dobradinha pela última vez na sua longa história e quebraram uma fome de dez anos de titulos domésticos. A ascensão financeira do conjunto patrocinado pela empresa Philips, o PSV Eindhoven, durante os inicios dos anos 80 foi um duro golpe para o conjunto do imenso De Kuip. O PSV sagrou-se campeão europeu em 1988 e o Ajax voltou a vencer em oito anos três provas europeias (a Taça da Taças em 1987, a Taça UEFA em 1991 e a Champions League em 1995), relegando definitivamente Roterdão para o terceiro posto na lista dos grandes clubes orange. Uma queda acompanhada por graves problemas financeiros que foram abalando as estruturas do "gigante adormecido". A equipa especializou-se em ganhar Taças da Holanda (sete em nove anos) vendo-se no entanto incapaz de acompanhar o ritmo dos eternos rivais na Eredivise. Em 1999 a equipa surpreendeu tudo e todos e voltou a sagrar-se campeã nacional. Pela primeira vez desde 1984. Pela última, até hoje.
Não foi na majestuosa "banheira" de Roterdão. Foi no estético Philips Stadion, transformado em inferno durante 90 minutos.
O Feyenoord chegou a Eindhoven com problemas. Seguia 14º (numa liga de 18) e sem grandes perspectivas de voltar a lutar por um posto europeu, uma realidade cada vez mais utópica para uma equipa habituado às altas andanças. Os graves problemas financeiros dos últimos anos significaram a aplicação de uma politica de zero investimento. O Feyenoord sobrevive, hoje, graças às suas pérolas de formação. Luc Castaignos e Georginio Wijnauldum têm as horas contadas no De Kuip. O clube sabe que terá de os vender para abater o gigante passivo mas sem as duas grandes promessas do futebol holandês a situação adivinha-se ainda mais critica. Ontem estavam os dois no relvado. De pouco lhes valeu.
O PSV, lider invicto da prova com 21 pontos, estava na máxima força para o derby. Ao intervalo os de Eindhoven já venciam por 2-0, com golos de Jonathan Reis e Ibrahim Afellay. A expulsão de Leerdam facilitou o trabalho aos eternos rivais mas foi a apatia dos jogadores de Roterdão que acabou por fazer toda a diferença. No segundo tempo o PSV marcou oito golos em....40 minutos. O brasileiro Reis voltou a fazer o gosto ao pé por duas vezes (47 e 59), e o sueco Toivonen (49), os holandeses Lens (55 e 87) e Engelaar (69) e o hungaro Dzsudzsak (62 e 77) juntaram-se à festa. Perante o olhar impávido dos cinco mil adeptos do Feyenoord que não sabiam como reagir perante o desmoronar histórico da sua equipa. A maior derrota de sempre, uma goleada imprópria, até para uma liga onde os golos costumam fluir em abundância. 10-0, impensável, inevitável, bem real. Um aviso muito sério para o duro amanhã de uma equipa que já roça os postos de despromoção com um quarto da época já ultrapassada.

Sem rumo, o projecto do Feyenoord começa a entrar numa perigosa espiral. Ausente da Europa, ausente dos primeiros postos, suplantado pelos renovados projectos dos eternos rivais e pela ascensão de equipas sem um passado glorioso mas com um sustentado projecto de futuro, o clube de Roterdão começa a correr sérios riscos de sobrevivência. Entre planos megalómanos de um novo estádio de 130 mil lugares, os adeptos desesperam. A equipa corre o risco de descer de divisão, pela primeira vez na sua centenária história. Perder 10-0 pode ser só uma anedócta. Mas é também um simbolo. O inferno desceu à terra em Roterdão.